Mostrando postagens com marcador interação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador interação. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de maio de 2018

A lei como instrumento do poder, não da justiça.



            No ideal democrático a sociedade é “gerenciada” por três poderes que se equivalem: legislativo, executivo e judiciário. O legislativo aprova as leis, regras que especificam relações condicionais entre comportamentos e consequências visando estabelecer interações satisfatórias entre os cidadãos e em seu benefício. O executivo é encarregado de manter todos informados sobre essas regras e a garantir que as consequências programadas ocorram de acordo com a lei. O judiciário deve manter um olho no peixe, outro no gato: garantir que legislativo e executivo também se comportem dentro da lei. Um sistema de “checks and balances” existe para evitar que qualquer poder invada as competências dos outros dois. O judiciário pode anular decisões do executivo e do legislativo, o executivo pode vetar leis aprovadas pelo legislativo, e o legislativo pode aprovar o impeachment do executivo e do judiciário.

            Na democracia a lei deve servir à justiça, um conceito que se refere a um estado ideal de interação social em que há um equilíbrio razoável e imparcial entre deveres e oportunidades das pessoas. Que essa democracia ideal é um horizonte a ser buscado se comprova com a atual onda mundial de propostas de governo autoritárias que não acionam o sistema de pesos e contrapesos, como o presidente da república (em alguns países) que faz obstrução da justiça e nada acontece. O jornalista   do New York Times de ontem chama isso de a lei a serviço do poder (característica das ditaduras), não da justiça.
            O desequilíbrio entre os poderes pode ser visto em outros sistemas moleculares de interação, como a família ou a escola. Agências de controle podem mostrar abusos de poder por desvios no exercício de seu poder. No caso das famílias, a própria existência de um Estatuto da Criança e do Adolescente que regulamenta os deveres dos pais é comprovação da necessidade, em todos os níveis, de sistemas de pesos e contrapesos, de “checks and balances”, para garantir o desenvolvimento saudável e a adequada formação de cidadãos.




segunda-feira, 5 de março de 2018

Trends in Behavior Analysis, volumes 1, 2 e 3.








https://www.academia.edu/35989…/TrendsBehaviourAnalysis3.pdf


https://www.academia.edu/34673190/TRENDS_IN_BEHAVIOR_ANALYSIS_VOLUME_2_Trends2vFinal24set17red.pdf


Some old and new trends in Brazilian Behavior Analysis. João Claudio Todorov, Universidade de Brasilia, Brazil
Brazil has the largest number of undergraduate professional courses in Psychology in the world, so far more than 220. Of those, most offer Behavior Analysis courses, some only introductory disciplines, others a full training including practical work in the field. About 30 universities offer graduate courses, both basic and applied, with 15 of them leading to the PhD. This volume of activity, production and spreading of knowledge, has been going on for 55 years, since Professor Fred S. Keller went to the University of Sao Paulo as a Fulbright Scholar in 1961. Everything considered, Brazil is second only to the United States of America in both number of researchers and of publications on Behavior Analysis. All that notwithstanding, Brazilians are underrepresented in citations. That is understandable when we publish in Portuguese. Only people in Portugal (Europe), Angola, Mozambique, Cabo Verde (Africa), Timor East, Goa and Macau (Asia) can read what we publish in our common language (for the Asians, usually their second language). But Brazilians are also underrepresented even when publishing in English in major Behavior Analysis periodicals and books published in the US. Even Brazilian authors publishing there under cite Brazilian researchers. Citing is behavior, under the influence of all variables that influence choice. Having no way of directly control the environment of authors, we can at least enrich that environment. Trends in Behavior Analysis, Volumes 1, 2 and 3 are offered online, for download, as an opportunity to make the Brazilian production available internationally


Os três volumes do livro Trends in Behavior Analysis, download gratuito, incluem temas como
Alienação parental
Análise do Comportamento e Direito,
Comportamento governado por regras
Comportamento verbal de ordem superior
Conservação e transformação de práticas culturais
Controle de estímulos no comportamento verbal
Criatividade e insight
Encadeamento e classes ordinais
Ética e comportamento
Método e teoria em análise do comportamento
Mudanças em práticas culturais
Psicoterapia analítico-comportamental
Recorrência de respostas após extinção
Sustentabilidade
Violência doméstica
E autores como Andery, Banaco, Bentes, Benvenuti, Dittrich, Galvão, Glenn, Gomide, Haydu, Houmanfar, Hubner, Hunziker, Malott, Muchon, Paracampo, Sandaker, Todorov, Tourinho, Vasconcelos, Verdu, Zamignani e outros não menos conhecidos.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Seleção cultural e seleção de culturas.



                Em uma visão skinneriana do behaviorismo qualquer comportamento humano resulta sempre de três níveis de seleção por consequências: a pessoa existe como resultado de seleção de genes na história de espécie humana (seleção filogenética), é socializada para a vida em grupo segundo um conjunto de regras selecionadas na história da cultura do grupo (seleção cultural), e adquire seu repertório por meio das interações com seu meio ambiente ao longo da vida (seleção ontogenética). Logo, o que é selecionado no nível cultural não é um determinado comportamento: a história daquele grupo selecionou as regras (contingências ou relações condicionais) a serem usadas pelas agências de controle para a modelagem e manutenção de comportamentos.

                Dizemos que certos comportamentos são práticas culturais quando são frequentes e comuns a várias pessoas e/ou perduram por gerações. São práticas culturais, mas pertencem ao segundo nível de seleção, ontogenética ou comportamental. São comportamentos específicos que dependem das consequências contingentes à sua específica emissão. A regra para reforçar ou não é geral, cultural, mas a consequência é particular, depende do comportamento da referida pessoa.


Seleção cultural ou seleção de culturas?

                Seleção cultural envolve comportamento de pessoas; seleção de culturas é a seleção das regras (contingências ou relações condicionais) que orientam a ação das agências de controle. Não deveriam ser usados como sinônimo.

Seleção cultural se refere à seleção de comportamentos de acordo com regras vigentes no grupo. Em nossa cultura a criança pode ser elogiada por lavar as mãos antes de sentar-se à mesa ou pode ser proibida de comer enquanto não for lavar as mãos, por exemplo. Há mil anos não só não havia o hábito de lavar as mãos antes das refeições; comia-se levando os alimentos à boca com as mãos.

Mudanças no ambiente costumam ser responsáveis por alterações nas regras que caracterizam uma cultura. Comer com talheres foi um hábito que chegou à Europa por Veneza, vindo da Grécia, mas levou séculos para ser adotado em todos os países. Lavar as mãos levou mais tempo para ser adotado, só muito depois da comprovação científica da transmissão de doenças por contato físico. Atualmente o hábito pode estar se perdendo. Em grandes cidades cada vez mais pessoas comem nas ruas, nos food trucks, ou em praças de alimentação do shopping, sem pia para lavar as mãos a menos de cinquenta metros. Já imaginaram todas as crianças em filas no único banheiro do andar naquele shopping, esperando para lavar as mãos?

                Mudanças na cultura, portanto, podem ser causadas por mudanças em práticas culturais de pessoas. O jogo Tragédia dos Comuns1 ilustra as possibilidades de mudanças nas regras seguidas pela agência de controle causadas pelo comportamento das pessoas que competem por um bem comum. Considere um pasto comunitário, usado por agricultores que aí colocam suas reses para pastar. Quantas cabeças colocar, tanto seu lucro. Se cada agricultor aumentar seu rebanho indefinidamente, o pasto acabará, não haverá condição de renovação permanente que a pecuária exige. Não há “mão invisível do mercado” que resolva isso. É do interesse de todos que alguma agência de controle, aceita por todos, regulamente o uso do pasto comum. Elinor Ostrom2 tem um excelente trabalho com dados sobre a evolução das agências de controle.


Elinor Ostrom, Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action, 32 Nat. Resources J. 415 (1992). Available at: http://digitalrepository.unm.edu/nrj/vol32/iss2/6.





quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Análise comportamental das agências de controle do comportamento


                Agências de controle são pessoas ou organizações encarregadas de incentivar, acompanhar e selecionar, pela apresentação de consequências, determinados tipos de interação entre pessoas e/ou organizações. Skinner definiu agências de controle como grupos dentro de um grupo maior que controlam a programação e a efetivação de consequências para certos comportamentos. Mesmo quando uma pessoa controla a apresentação de consequências, como faz o terapeuta na psicoterapia ou a mãe na família, esse controle é exercido segundo regras próprias das instituições legitimadas “psicoterapia” e “família”.

Qualquer que seja o grupo, qualquer que seja seu tamanho, esse grupo exerce o controle sobre seus membros principalmente por meio de seu poder de reforçar e de punir, de acordo com regras (relações condicionais entre comportamentos e consequências) que definem o grupo. O conjunto dessas relações condicionais caracteriza uma cultura.

Em qualquer grupo, organização, etnia ou sociedade, o conjunto de relações condicionais (contingências comportamentais e metacontingências) é resultado da evolução ao longo do tempo das interações entre pessoas. Na espécie humana a maior complexidade dessas agências parece ter surgido há 12.000 anos, com a agricultura e o sedentarismo que se seguiu aos tempos movimentação de coletores e caçadores.

Governo é uma das agências de controle mais antigas, sempre presente em qualquer grupo, quer como um chefe, quer como um conjunto de instituições governadas elas mesmas por uma constituição. Nas Ciências Humanas, certas agências são alvo de estudos de mais de uma ciência, como a família (psicologia, antropologia, sociologia, etc.) ou o governo (sociologia, ciência política, etc.). Ao longo do tempo cada ciência desenvolve suas teorias independentemente, ainda que cada uma delas assuma aberta ou dissimuladamente alguma teoria sobre o comportamento humano. A única abordagem a tratar de maneira uniforme todas as ciências humanas é a Análise do Comportamento via análise das agências de controle do comportamento regido por relações condicionais entre comportamentos e consequências.












quarta-feira, 24 de maio de 2017

Relatividade no controle por consequências.


Se uma possibilidade de escolher se repete ao longo do tempo, a decisão de escolher uma dentre duas alternativas depende dos resultados dessas escolhas no passado. essa relação pode e tem sido estudada no laboratório para verificar se o valor absoluto das consequências tem ou não tem importância na distgribuição dessas escolhas.

Quando se diz que a razão entre dois valores de uma variável dependente iguala a razão entre dois valores associados da variável independente está implícito que essa igualdade é válida para quaisquer valores absolutos. A igualdade é prevista para qualquer razão de valores absolutos, pois 1/3 = 2/6 = 3/9, etc. Esse é o pressuposto da relatividade na lei generalizada da igualação (Herrnstein, 1961, 1970; Baum, 1974):

C1/C2 = k (r1/r2)a 

Em condições ideais, k = a =1.

            Se houver viés em favor de uma alternativa, k > ou < 1. Se houver alguma dificuldade na distinção das consequências ou na facilidade de mudar de uma alternativa para a outra,
a < ou > 1. É possível manipular condições experimentais e prever mudanças nos valores de k e de a (Todorov, 1971; Hanna, Todorov & Blackman, 1992).

            Três artigos publicados por volta de 1988 questionaram esse pressuposto mostrando dados que mostrariam como a igualdade é afetada por valores absolutos. Questionei esses resultados em artigo submetido a publicação que foi recusado com o conselho de primeiro replicar os experimentos. Não gostei da resposta mas acabei fazendo replicação sistemática (Sidman, 1960) e publiquei no Brasil, em 1993 e 1998. O de 1998 está online há tempos (Todorov, Coelho e Beckert, 1998), o de 1993 está sendo colocado nas redes de pesquisadores agora:


Referências
Baum, W. M. (1974). On two types of deviation from the matching law: Bias and undermatching. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 22, 231-242.
Hanna, E. S., Blackman, D. E. & Todorov, J. C. (1992). Stimulus effects on concurrent performance in transition. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 58, 335-347.
Herrnstein, R. J. (1961). Relative and absolute strength of response as a function of frequency of reinforcement. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 4, 267-272.
Herrnstein, R. J. (1970). On the law of effect. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 13, 243-266.
Sidman, M. (1960). Tactics of scientific research: Evaluating experimental data in psychology (Vol. 5). New York: Basic Books.
Todorov, J. C. (1971). Concurrent performances: Effect of punishment contingent on the switching response. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 16, 51-62.

Todorov, J. C., Coelho, C., & Beckert, M. E. (1998). Desempenho em esquemas concorrentes independentes e cumulativos de intervalo variável. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 14, 9-13.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Mudanças rápidas em práticas culturais e o DNA da descrença


                Estava eu viajando de avião da maneira complicada, característica de quem precisa levar a bordo concentrador portátil de oxigênio e baterias suficientes para a duração do voo e mais 50% desse tempo, por segurança: cateter nas narinas, tubo ligado ao aparelho embaixo da cadeira. Quando precisei me levantar para que as outras cadeiras fossem ocupadas, algumas pessoas se ofereceram para ajudar. Posso fazer tudo sozinho, mas os tubos e o aparelho parecem transmitir outra imagem às pessoas.

                Comentei essa boa vontade com um senhor que ocupava a poltrona do meio. Desde que tenha nível adequado de oxigênio para respirar sou liberado pelos médicos para viajar sem acompanhante. Como não posso andar muito e nem carregar peso, nos aeroportos as empresas sempre fornecem cadeiras de rodas. Comentei com meu vizinho de viagem que com essa combinação, oxigênio + cadeira de rodas, fiz viagem de 40 horas de Brasília a Kyoto sem andar mais que dez metros, pois no Japão trens e hotéis também dão essa atenção a cadeirantes. Funcionários do trem bala me levaram na cadeira até o hotel e lá me esperavam com outra cadeira, da qual só me levantei dentro do apartamento. Meu vizinho ficou admirado e comentou alguma coisa como “Isso nunca vai acontecer aqui”. A educação japonesa seria obra de milênios, com práticas culturais que “nunca veremos por aqui”, porque isso (falta de educação) está no DNA do povo brasileiro. Aí tive que rir e dizer que estava indo a Londrina falar sobre mudanças rápidas e em larga escala de práticas culturais; se pensasse como ele eu deveria mudar de profissão.

                Não só não mudo como continuo a bater na mesma tecla. Questões como as que suscitam em pessoas afirmações como essas, frequentes em artigos de opinião assinados como os que foram publicados nos jornais “Folha de São Paulo” e “Correio Braziliense” na última semana, são questões que se referem a práticas culturais. São comportamentos aprendidos e passados de pais para filhos, de geração para geração.  Quanto mais antigos em determinada cultura, mais trabalhosa a mudança.

                Mas o que nos dá a confiança em que essa mudança pode ser rápida e realmente em larga escala é a teoria que nos define uma cultura como o conjunto de relações condicionais entre comportamento e consequência, relações mantidas por agências de controle. Em cada grupo, organização, etnia, etc., a aculturação de novos membros segue regras formais ou informais aceitas pelos membros daquele grupo. Mudanças nas regras, e nos comportamentos regulados por elas, podem ser rápidas quando a decisão de mudar for coletiva. Por isso tentativas de mudança por iniciativa dos dirigentes só podem ser bem-sucedidas depois de ampla divulgação da informação e das razões para mudar. Quanto maior e mais complexo o grupo mais trabalhosa será a intervenção, levantando a questão da relação custo-benefício. Qualquer que seja a prática cultural, que é sempre algum tipo de comportamento mantido por consequências, os membros do grupo encarregados da decisão podem decidir não intervir por conta do custo da mudança. Os economistas têm estudos sobre a relação custo-benefício da eliminação da corrupção na sociedade. O custo da manutenção de agências de controle para garantir a erradicação dessa prática cultural torna inviável esse esforço, levando a propostas de diminuir a corrupção a níveis mais favoráveis à manutenção das transações econômicas a um custo compatível com o benefício.

                Talvez por essas razões é comum ver autores colocando toda a esperança na educação das novas gerações. Não esperam nada dos adultos. “O povo brasileiro é primário e sem percepção de um projeto nacional. A semana modernista, nos primórdios do século 20, elegera Macunaíma, como o mestiço esperto – no meio das mazelas nacionais -, como o herói brasileiro sem nenhum caráter, ou seja, sem caráter em todos os sentidos. ”  (Sacha Calmon, Correio Braziliense de 7 de maio de 2017, página 13).  No mesmo dia, mesmo jornal, mesma página, o Professor Titular da Unicamp Jaime Pinsky escreveu: “ O chamado grito do Ipiranga não significou nada para a maioria esmagadora da população do território. Nem para os escravos, nem para os índios, nem para a população do campo, talvez apenas para uma parte pequena e letrada (e proprietária) de moradores de cidades, uma parte ínfima de Brasil.  .... Para sobreviver o povão aprendeu a ser dissimulado, traço também tristemente evidente. A população não se sente representada por seus representantes, o poder político tem sido o melhor caminho para a corrupção, ninguém abre mão de seus privilégios e os sonegadores apresentam tudo isso como álibi para não contribuir para o bem comum. “



                Lembrando Roberto Campos, citado por Ives Gandra da Silva Martins na Folha de São Paulo de 7 de maio de 2017, página A3 (“O planeta dos malandros”), “com esta mentalidade, o Brasil não corre nenhum risco de melhorar. “ Entretanto, mudar para melhorar é possível e é preciso. Cabe a quem sabe como mostrar o que pode fazer. “Mentalidade” é apenas o nome popular de um conjunto de relações condicionais que isentam de punição e recompensam “quem leva vantagem em tudo”. São regras de convivência que ficam mais fortes toda vez que alguém impunemente fura a fila do cinema, por exemplo. 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Não pergunte por quem os sinos dobram.


            Em 11 de janeiro de 49 Antes de Cristo o general (e depois Imperador) Júlio César comandou seu exército na travessia do Rio Rubicão, fronteira que separava a Gália Cisalpina, onde era governador, e a Itália, a caminho de conquistar Pompéia e depois Roma, desobedecendo o Senado romano.
“Atravessar o Rubicão” acabou sendo uma expressão usada para indicar decisões que não admitem volta. Entre uma graduação em literatura e um doutorado Skinner atravessou seu Rubicão via laboratórios de biologia de Harvard, provavelmente usando a filosofia como ponte. Nosso Rubicão é o rio que divide a psicologia entre os que a consideram uma ciência natural e os que ainda acham que com o homem é diferente.
Na margem mais frequentada do Rubicão da Psicologia ficam todos os que explicita ou implicitamente admitem uma agencia que inicia ações e toma decisões, um “eu”, ou “self”, ou “pessoa”, ou “alma”, ou “espírito”, ou assemelhados, mesmo quando admitem um papel também para o ambiente externo ao organismo. Os que criam coragem e atravessam esse rio encontram o terreno ainda um tanto selvagem, um tanto desconfortável, apesar de mais de 100 anos do trabalho desbravador de Watson e de Skinner.
Do lado skinneriano do rio da psicologia o comportamento é visto como evento natural, fluindo constantemente, malha delicadíssima unida por antecedentes e consequentes, organizando-se em repertórios específicos para tempos e espaços, repertórios para reconhecer repertórios, produtos em parte da história de evolução da espécie, em parte da evolução de cada comportamento, esta evolução modulada por outros repertórios organizados de pessoas de seu grupo que exercem as funções de agências de controle encarregadas de zelar por contingências sociais.
Agora vá lá e tente explicar isso para o seu vizinho ou seu aluno de primeiro semestre. Para não perder a audiência muitos acabam usando a linguagem comum e diária, a linguagem do leigo, não a da ciência, mas a linguagem do leigo é mentalista e não tem lugar para uma pessoa sem um “eu” uno e indivisível, autônomo, e responsável pelos seus atos.
Como explicar que substantivos são abstrações, que o mundo é feito de verbos de ação? Pessoas não têm “vida”, pessoas vivem. Pessoas não têm “inteligência”, pessoas se comportam de maneira tal que são classificadas por outros como “inteligentes”. A “inteligência” medida pelo teste de QI não é uma coisa, é um conceito, o substantivo “inteligência” se refere a um conceito, uma abstração. A “vida” não é uma sequência mecânica de pedaços de realidade amarrados uns aos outros com arame. O que mais se aproxima do conceito de comportamento de pessoas em grupo como postulado por Skinner em “Ciência e Comportamento Humano” é o conceito de fluxo de William James (ainda que ele falasse de fluxo da consciência, do pensamento apenas) e a maneira como essa ideia de fluxo é usada na literatura. Para ilustrar, o que segue é um exemplo de fluxo da consciência:

Como a humanidade é louca, pensou ela ao atravessar Victoria Street. Porque só Deus sabe porque amamos tanto isto, o concebemos assim, elevando‑o, construindo‑o à nossa volta, derrubando‑o, criando‑o novamente a cada instante, mas até as próprias megeras, as mendigas mais repelentes sentadas às portas (a beberem a sua ruína) fazem o mesmo; não se podia resolver o seu caso, ela tinha a certeza, com leis parlamentares por esta simples razão: porque amam a vida. Nos olhos das pessoas, no movimento, no bulício e nos passos arrastados; no burburinho e na vozearia; os carros, os automóveis, os ónibus, os camiões, homens‑sanduíches aos encontrões, bamboleantes; bandas de música; realejos, no estrondo e no tinido e na estranha melodia de algum aeroplano por cima das nossas cabeças, era o que ela amava, a vida, Londres; este momento de junho. Porque era em meados de junho. ”
 (Virginia Wolf, Mrs. Dalloway, 1925, trad. port. Lisboa, Ulisseia, 1982, pp.5-6. Transcrito do Wikipédia)

Esse texto da escritora Virgínia Wolf é bom para ilustrar o que entendemos por rede de comportamentos. Ninguém está só. Como escreveu Baum (1992), “O comportamento ocorre em um contexto muito amplo, limitado só por nossa capacidade de conhecer toda extensão da trama. ” Todo e qualquer comportamento ocorre como parte de uma grande rede de eventos relacionados. Do nascimento à morte somos moldados por (e fazemos parte de) alguma comunidade. Como notado por John Donne por volta de 1600, nenhum homem é uma ilha (Baum, 1992). No texto famoso Donne argumenta poeticamente, a partir da consciência de que todos pertencemos à humanidade, que o que acontece a alguém afeta a todos, o que altera uma parte altera o todo. O texto muito citado costuma ser encerrado por outra frase que tem inspirado gerações, e que aqui vai por mim traduzida: “Se os sinos da igreja tocarem pela morte de alguém, não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti. ”
-------------------------------
A seguir o texto original conforme pode ser encontrado no Google:
This is a quotation from John Donne (1572-1631). It appears in Devotions upon emergent occasions and seuerall steps in my sicknes - Meditation XVII, 1624:
"All mankind is of one author, and is one volume; when one man dies, one chapter is not torn out of the book, but translated into a better language; and every chapter must be so translated...As therefore the bell that rings to a sermon, calls not upon the preacher only, but upon the congregation to come: so this bell calls us all: but how much more me, who am brought so near the door by this sickness....No man is an island, entire of itself...any man's death diminishes me, because I am involved in mankind; and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee."

Bibliografia
            Baum, W. M. (1995). Radical behaviorism and the concept of agency. Behaviorology, 3(1), 93-106. (www.researchgate.net/publication/233815151_Radical_Behaviorism_and_the_Concept_of_Agency)
            Skinner, B. F. (1953/1967). Ciência e Comportamento Humano. Tradução de J. C. Todorov e R. Azzi. Brasília: Editora Universidade de Brasília (1a edição da tradução).
            Todorov, J. C. (1989/2007) A psicologia com estudo de interações. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 23, Número Especial, 57-61.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017


Isis Vasconcelos e a análise experimental do comportamento de pessoas em grupos.

http://firstmonday.org/ojs/index.php/bsi/article/view/5424

                Os trabalhos de análise comportamental de práticas culturais, ou de análise comportamental da cultura, receberam um grande impulso de uma reunião que aconteceu em Campinas em 2005, paralela ao encontro anual da ABPMC. Em um hotel da cidade ficaram concentrados, como jogadores de futebol em concentração nos dias que precedem um jogo, dez cidadãos norte-americanos, uma norueguesa, um escocês, e quatro brasileiros. A missão: avaliar o progresso desde a publicação de “Metacontingencies in Walden Two”, de Sigrid Glenn, as objeções aos avanços de 20 anos, e a busca de orientação para o futuro do campo. Maria Emilia Malott e eu trabalhamos juntos na organização do evento, nos convites aos pesquisadores e em um roteiro para organizar a discussão. Entre os convidados estavam alguns expoentes da Análise do Comportamento, editores das revistas mais conhecidas da área, como Jack Marr (atual presidente da ABAI), Marc Mattaini (editor de Behavior and Social Issues) e Marc Branch (ex-editor de The Behavior Analyst), reconhecidos então como adversários da introdução de um novo termo técnico, a metacontingência.

                Um dos tópicos a receber maior atenção foi a falta de trabalhos experimentais de animais em situação social. Um conceito como o de metacontingência seria mais útil se viesse precedido de sólida base desenvolvida na pesquisa básica com animais, argumentavam. Dez anos depois ainda esperamos por esse desenvolvimento enquanto avançamos diretamente para a pesquisa básica com humanos.

                Um ano antes da reunião em Campinas Christian Vichi já havia apresentado sua dissertação de mestrado na PUCSP com o primeiro experimento delineado segundo a definição de metacontingência, publicado como capítulo de livro em 2005 e como artigo em revista na versão em inglês. De lá até o presente dezenas de teses e dissertações mostram variações de delineamento e situações experimentais para estudar metacontingência, seguidos por mais dezenas de artigos publicados, variando quanto à complexidade da situação experimental e do número de variáveis independentes presentes. Mais recentemente tivemos algumas iniciativas buscando procedimentos mais simples, análogos ao usado com o comportamento operante. A dissertação de mestrado de Isis Vasconcelos, que orientei, é um deles. Foi publicado na revista Behavior and Social Issues (link acima).          

domingo, 13 de novembro de 2016

Análise do Comportamento como abordagem profissional.


            Analistas do comportamento enquanto profissionais psicólogos crescem em número em todas as partes. Trabalham sempre com pessoas em interação, seja no governo, em organizações, como profissionais liberais ou empresários. No poder judiciário atuam, por exemplo, em áreas como adoções, acompanhamento de ações socioeducativas, em terapia quando decidida pelo juiz, em atendimento a casais, entre outros. No legislativo, além das tarefas tradicionais, podem abrir um novo campo no auxílio à redação de leis, regimentos, contratos, em termos de contingências e metacontingências. No executivo estão presentes em todas as áreas, muito além dos tradicionais envolvimentos com trabalho, educação e atendimento individual. Em organizações atua em seleção, treinamento, readaptação, pesquisa e trabalhos para desenvolvimento de clima favorável. São cada vez mais frequentes empresas criadas por um ou mais analistas do comportamento associados, que podem atuar em várias áreas, inclusive complementando a formação de jovens psicólogos. E todos os casos mencionados o psicólogo trabalha com interações, seja diretamente como participante, como na psicoterapia individual, seja como observador. A análise do comportamento é útil onde houver comportamento, diretamente observável ou não.

            Esse avanço da análise do comportamento em áreas profissionais não acontece sem percalços. Há muita dificuldade para mudar a maneira de pensar característica da chamada sociedade ocidental, a civilização como desenvolvida a partir dos gregos e de seus filósofos. Atribuir a eventos mentais, internos, ou a presumíveis processos fisiológicos do organismo a causa do comportamento que se observa parece natural.  Tão natural que domina o senso comum, a linguagem dos leigos. A análise do comportamento escapa dessa visão tradicional.

            A discussão sobre se a análise do comportamento é ou não é antimentalista se perde quando não se percebe essa diferença fundamental em relação às outras abordagens focadas no organismo apenas. A análise do comportamento vê o que está atrás dos olhos como eventos a serem explicados para então ser parte da explicação.  Ênfase no organismo, de um lado, e ênfase no ambiente, de outro, geram experimentos diferentes, dão mais força explicativa a causas diferentes. Discordam quanto ao status do comportamento observável. As teorias baseadas no organismo olham para o comportamento como indício ou sintoma de processos que ocorrem dentro do organismo, sejam eles presumíveis processos fisiológicos ou processos mentais metafóricos (a mente processando informações como um computador, por exemplo). Já em uma teoria baseada no ambiente o comportamento é o foco principal e a teoria se fundamenta em relações ambiente-comportamento.
-----------------

 "We daily encounter the problem of our fracture from the common culture’s overwhelming belief — that an inner agency determines behavior. Most individuals, groups, and institutions find it difficult to give up the mini-god in the biochemical, contingency-governed, feedback-systems “locus. ”  Most do not give it up; that includes other science disciplines such as economics, political science, and sociology, and other institutions such as government, law, and religion. The man in the street and the academic in the classroom and the professional in the office all resist and resent any science that disputes the creator within."
Dr. Ernest A. Vargas é diretor da B. F. Skinner Foundation.

Leituras recomendadas

            Todorov, J. C. (1989). A psicologia como o estudo de interações. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 5(3), 347-356. Reimpresso em 2007: Psicologia: Teoria e Pesquisa, 23, 57-61.

            Todorov, J. C. (2004). Da aplysia à constituição: Evolução de conceitos na análise do comportamento. Psicologia: Reflexão e Crítica, 17(2), 151-156.

Todorov, J. C. (2012). Metacontingências e a análise comportamental de práticas culturais. Clínica & Cultura, 1(1), 36-45.

            Todorov, J. C., & Moreira, M. (2004). Análise experimental do comportamento e sociedade: um novo foco de estudo. Psicologia: Reflexão e Crítica, 17(1), 25-29.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Modelagem na Análise do Comportamento – Como não ensinar seu filho, como não treinar seu rato

            . Dois artigos recentes no New York Times mostram a importância de um esclarecimento continuo do público sobre o que e’ Analise do Comportamento. Um tratava de consequências arbitrarias como suborno – você não pode reforçar seu filho por ler ao invés de jogar vídeo games, isso e’ suborno, propina, pixuleco. Ele tem que descobrir os prazeres da leitura sozinho. Outro artigo está no The New York Times Magazine de 31 de julho de 2016, e diz como ensinar um rato. O entrevistado tem currículo para falar do assunto pois treinou milhares de ratos para filmes como ‘’Bram Stoker’s Dracula’’ e ‘’Willard’’ e séries da televisão como ‘’True Blood’’.
            Sobre consequência condicional como suborno: o tesoureiro do partido do governo avisar o empresário que seu contrato com o governo só será assinado se doar recursos para o partido e’ situação de extorsão (ato do tesoureiro) e propina ou suborno (ato do empresário). A mãe estabelecer que o tempo livre para brincar depende de 30 minutos lendo e’ parte de inúmeras outras relações condicionais que a cultura determina que devem ser ensinadas – como lavar as mãos antes de comer, escovar os dentes depois das refeições, tomar banho no fim do dia, etc. Todas são relações condicionadas arbitrarias.
            Se eu escrevesse aqui que você não pode subornar seu filho estabelecendo lavar as mãos antes das refeições como condição para almoçar, os leitores achariam que estou ficando doido.
            Já’ o artigo sobre como ensinar o rato e’ um exemplo de difusão de informação errada. A razão para usar comida como consequência para modelar comportamentos está errada, parece que de proposito, para tornar o procedimento mais palatável ao público – seria melhor para a saúde do rato ter que trabalhar para comer do que ficar na gaiola engordando por comer demais sem se exercitar. O uso de reforço condicionado (um ‘clique’ produzido por um artefato de metal que você segura na mão) também e’ mal explicado – você começa por estabelecer contato amigável com o rato, segurando-o e fazendo carinho, ate’ que a inundação de respondentes no bicho se acalme. Quando ele estiver calmo o suficiente para ter fome, as pelotas de alimento são dadas e seguidas pelo clique. O clique vem depois da comida para que esse novo som não assuste do animal.
            Estabelecido o clique como estimulo neutro começa a associação clique-comida. De início um clique e’ sempre seguido por comida, mas logo essa relação vai sendo alterada de tal maneira que e’ possível exibir um desempenho complexo mantido apenas por reforço condicionado produzido por um aparelho escondido na mão do treinador.  Até ai’ tudo bem. A explicação do treinador e’ que atrapalha. Diz ele: “Comece a associar o clique e a comida para que o rato entenda a relação de causa e efeito”.  “Aumente a distância entre o som e a comida ate’ que o rato perceba que o som e’ uma promessa de comida”. Mas não espere mais que 30 segundos depois do clique para dar a comida”. “Sessões de 10 minutos são mais proveitosas”.
            Ai’ esta’ o que acontece quando métodos e técnicas desenvolvidos pela Análise do Comportamento são usadas por quem não tem formação teórica adequada. O relato antropomórfico e’ desnecessário, supérfluo e errado. Informações técnicas mostram despreparo. O texto a seguir mostra como funciona a modelagem de longas cadeias de respostas em ratos. Foi publicado em outra postagem neste blog –
jctodorov.blogspot.com/2010/05/operantes-complexos.html
Eis o que apresentei na reunião da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência – SBPC - ocorrida em Ribeirão Preto, Estado de São Paulo, em julho de 1964 (Todorov, J. C. “Brasilino II: uma demonstração de encadeamento de respostas”.).

Brasilino II trabalhou (e fez seu professor trabalhar) uma hora por dia durante 30 dias para completar um encadeamento de 21 componentes. O último componente era pressionar uma barra dentro da caixa experimental e receber água como consequência. O primeiro era deixar a caixa experimental e se dirigir para uma escada vertical que o levava para o alto de uma estante com estrutura de barras de alumínio com1, 50 m de altura, com três prateleiras. No meu site https://sites.google.com/site/jctodorov/ a primeira foto mostra sua chegada na plataforma superior, dirigindo-se em alta velocidade para uma seqüência de pinos de metal que deveria ser percorrida, um pino pela esquerda, o seguinte pela direita, etc. Outros componentes incluíam saltar um aro de metal colocado a 15 cm do piso (a parte de baixo do aro aparece na foto no alto à esquerda), correr para uma plataforma e saltar o espaço vazio até a plataforma de descida (um pedaço da primeira plataforma aparece também no alto da foto à esquerda), descer pela escada lateral para a prateleira de baixo, etc., até um labirinto que tomava todo o piso inferior, penúltimo de 21 elos da cadeia.

Brasilino II foi treinado da frente pata trás, isto é, aprendeu primeiro a pressionar a barra para beber água. Em seguida aprendeu que a pressão à barra só era seguida por água quando uma campainha estivesse soando. Em termos técnicos, na contingência tríplice água foi o estímulo reforçador primário, pressão à barra a resposta operante e a campainha o estímulo discriminativo. O próximo passo foi usar a campainha como estímulo reforçador condicionado para a resposta de sair do labirinto e dirigir-se para a caixa experimental. O rato era colocado, sem som, na saída do labirinto e o som começava a tocar quando ele se dirigia para a caixa. Da mesma forma aprendeu para que lado virar em cada esquina do labirinto (havia cerca de 15 escolhas entre esquerda ou direita que tinha que fazer). Qualquer erro fazia o som parar, e o som só recomeçava quando Brasilino II retomava o caminho certo.

Brasilino II foi inspirado no rato Barnabus, ensinado por meu professor na USP J. Gilmour Sherman,(quando estudava na Columbia University de Nova Iorque, nos anos 50).

Comparações entre ensinar cadeia para trás, como fizemos com o Brasilino II, ou para frente, tem sido publicadas:

Borges, M. M., Simonassi, L. E., & Todorov, J. C. (1979). Comparação de dois procedimentos na aquisição de cadeias de respostas em humanos. Anais da IX Reunião Anual da Sociedade de Psicologia de Ribeirão Preto, p.107.

Borges, M. M. (1982). Efeitos de dois procedimentos na aprendizagem de cadeias comportamentais. Dissertação de Mestrado, (Psicologia), Universidade de Brasília.

Borges, M. M. & Todorov, J. C. (1985). Aprendizagem de cadeias comportamentais: uma comparação entre dois procedimentos. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 1 (3), 237-248.




sexta-feira, 24 de junho de 2016

Sem agências de controle eficazes as leis não pegam.

                Dirigindo meu Ford Falcon 1958 para ir ao cinema com a Silvia em Phoenix, Arizona, virei á esquerda em uma avenida de seis pistas mesmo estando na pista do meio e sem ligar a seta. Não deu outra. Antes de meio quarteirão havia um carro de polícia com as luzes piscando. O policial foi muito gentil e não me multou, depois de ver os passaportes e o documento de estudante da Arizona State University.  Era 1966 e naquela época havia carros de polícia por todo lado, especialmente em cruzamentos movimentados. Como consequência, todos respeitavam ao pé da letra as regras do trânsito. Uma placa vermelha de PARE controlava muito bem o comportamento de parada total do veículo, mesmo sem outros carros nas ruas.

                Lembrei-me desse episódio hoje cedo, dirigindo para ir ao barbeiro. Em uma rua movimentada um caminhão nem diminuiu a velocidade na esquina, como eu faria no Brasil. Aqui é claro que parei e coloquei a primeira marcha antes de continuar, pensando na falta que faz a presença ostensiva do Estado na fiscalização das leis. Em um mês dirigindo por Setauket, Port Jefferson e Stonybrook só vi carros de polícia uma vez, em estacionamento de supermercado onde havia sido deixado um pacote suspeito. Os  americanos não eram cidadãos mais responsáveis do que nós, apenas desenvolveram ao longo de sua história agências de controle eficazes na manutenção das contingências que mantêm práticas culturais.

                Alguns diriam que nos falta autocontrole ético. Todos deveriam obedecer as leis porque isso é bom para a comunidade. Mas o chamado “autocontrole ético” é comportamento, dependente das consequências como todo comportamento. São as agências de controle, descritas por Skinner em “Ciência e Comportamento Humano”, as encarregadas de punir comportamentos considerados indesejáveis pela cultura. Para ver como essa história de punições e ameaças modela nosso “autocontrole ético” ver, além de Skinner, o “Coerção” de Murray Sidman. E pense nisso na próxima vez que você avançar um sinal vermelho de noite e sentir um frio na barriga.



sexta-feira, 1 de abril de 2016

O bode a e intolerância.



  
                Assim como a tolerância para com o diferente, nossos valores nos são dados pelas pessoas com as quais convivemos a partir do nascimento. São esses valores que podem nos levar a escolher dirigentes capazes de, entre outras coisas “criar clima de harmonia entre todos”.

O BODE
                Admitamos que não foi de caso pensado. O Cunha foi eleito pelo baixo clero da Câmara por soberba e incompetência política de quem tinha a maioria. Vontade de hegemonia muitas vezes dá nisso. A situação lembra a história do bode na sala, pois a rejeição ao Cunha veio a calhar.

                Há no folclore político a lenda do camarada russo, fiel militante do partido único, que morava com a mulher e os filhos em um apartamento de quarto e sala cedido pelo partido. De tanto insistir para receber autorização para se mudar para um apartamento maior sem receber resposta o camarada finalmente foi chamado para receber nova missão: manter e cuidar de um bode na sala de seu quarto-e-sala.

                O bode na sala mudou completamente vida do camarada. Se antes a mulher e os filhos não paravam de dizer que queriam se mudar para um apartamento maior, agora tinham nova e mais urgente reivindicação: tirar o bode da sala.

O BODE EXPIATÓRIO

            Pois não é que tem muita gente que se esqueceu de pedir o impedimento da presidente depois que foi iniciada a campanha “Fora Cunha”? Estão até pedindo ao STF que atue como o coletivo da história e retire o Cunha, perdão, o bode, da sala. Mesmo os militantes que constrangidos repetiam que pedalada não é crime agora ficaram felizes com a tarefa de ajudar a tirar da presidência da Câmara um político no mínimo cara de pau.

                Sobre pedalada não ser crime: se fosse, a presidente seria julgada pelo STF. Mas pode ser crime de responsabilidade, a ser conferido pelo Congresso, como previsto na Constituição. O único golpe à vista é o publicitário, com novo ataque da novilíngua: se for contra nós, impeachment é golpe. Esse investimento em propaganda para desviar a atenção da militância gera o clima de conflito e intolerância, vermelhos contra amarelos, radicalizado: tudo o que não for vermelho por definição é amarelo. O país não merece esse clima de guerra.

A INTOLERÂNCIA

                Indivíduos pacíficos e tolerantes são formados por ambientes acolhedores a partir da concepção: mulheres grávidas que bebem demais, que fumam demais, que sofrem demais, viciadas em tóxicos, ou que sejam acometidas por certas doenças, não fornecem a seus futuros bebês ambientes necessários para seu pleno desenvolvimento.

                Práticas culturais para a socialização da criança baseadas em coerção não geram indivíduos nem pacíficos nem tolerantes. Muitas escolas começam a agredir a criança a partir de sua arquitetura, em ruínas, sujas, desconfortáveis, e de sua exposição a interações baseadas em fuga e esquiva: o bullying é mais frequente do que se pensa, e tem as mais diversas formas.

                Quem faz o indivíduo é o coletivo, formado por indivíduos também formados por outros coletivos anteriores. Práticas culturais que definem um grupo são transmitidas por meio de regras, exemplos e exposição direta a consequências. A criança sendo socializada hoje será o socializador de amanhã.

Paz não é apenas a ausência de guerra entre os países. Paz é garantir que todas as pessoas tenham moradia, alimento, roupa, educação, saúde, amor e compreensão. Paz é cuidar do ambiente em que vivemos, garantir a qualidade da água, o saneamento básico, a despoluição do ar, o bom aproveitamento da terra. Paz é buscar serenidade dentro da gente para viver com alegria. Paz é a capacidade de se criar clima de harmonia entre todos, lembrando-se sempre de que onde existe amor, existe paz”. (Texto entre aspas é de Isaac Roitman, da Academia Brasileira de Ciências).

                Assim como a tolerância para com o diferente, nossos valores nos são dados pelas pessoas com as quais convivemos a partir do nascimento. São esses valores que podem nos levar a escolher dirigentes capazes de, entre outras coisas “criar clima de harmonia entre todos”.


         

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Modelos experimentais de interações comportamento-ambiente: ansiedade, psicopatologia, autocontrole, etc.


                Analisar experimentalmente qualquer interação significa isolar para observação em laboratório essa interação (se possível), mantendo constantes variáveis potencialmente importantes, para identificar quais alterações possíveis naquele ambiente são importantes componentes da interação. Um modelo experimental clássico é o usado por W. K. Estes e B. F. Skinner, publicado em 1941 no Journal of Experimental Psychology:  “Some quantitative properties of anxiety”. Ratos trabalhavam em esquema de reforço positivo intermitente, mas de vez em quando um som era ligado segundos antes de um choque inevitável nas patas. No comportamento humano, ansiedade é um termo usado para descrever o comportamento em situações que sinalizam estímulos aversivos inevitáveis, mas isso não esgota o significado do termo quando aplicado a humanos. Seria mais adequado evitar o rótulo “modelo experimental de ansiedade” para o procedimento de Estes e Skinner. O procedimento estuda efeitos de estímulos associados a estimulação aversiva inevitável sobre o comportamento operante. E só. Daí para a frente entra a teoria e as interpretações que podem ser feitas, a partir de dados experimentais, observações na clínica, no ambiente natural, etc. como fez Ferster com a depressão (Ferster, 1973; veja abaixo link para o artigo).

Um problema nesta relação laboratório-clínica reside na ausência de clareza na comunicação. Muitas vezes usamos o mesmo nome para designar eventos ou processos diferentes. Em trabalho que deve ser publicado ainda este ano um conjunto de autores procura diminuir a confusão reconhecendo as diferenças entre conteúdo, processo e procedimento. Falamos de ansiedade como conteúdo quando descrevemos queixas de uma pessoa, falamos como processo quando interpretamos as observações à luz da teoria, e falamos como procedimento quando preparamos um ambiente experimental para estudar o papel de diversas possíveis variáveis importantes nesse processo.

Uma curiosidade: Ex-aluno de Skinner, Estes veio a ser um dos expoentes da Psicologia Cognitiva. 










Estes, W. K., & Skinner, B. F. (1941). Some quantitative properties of anxiety. Journal of Experimental Psychology, 29(5), 390.
Ferster, C. B. (1973). A functional analysis of depression. American Psychologist, 28(10), 857-870.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Quem tem saudades da educação moral e cívica?


         No jornal Correio Braziliense de 6 de janeiro de 2015 o colunista Ari Cunha escreveu:

“Notícia publicada neste jornal dando conta de que o deputado Rogério Carvalho (PT-SE) cedeu o apartamento funcional para alojar um contingente recrutado para reforçar a claque na cerimônia de posse da presidente Dilma é reveladora. Esse partido parece que se alimenta de mercenários. Somado a isso, fica estampada a dificuldade recorrente em separar o que é público do que é privado. Situação lamentável para quem prega um Brasil como pátria educadora. Quem educou alguém sabe que o exemplo é fundamental. Dona Dilma Rousseff terá um trabalho hercúleo pela frente com parte de seu staff.”
         Até aí tudo bem, o exemplo é mesmo muito importante na transmissão de práticas culturais. A solução preconizada pelo jornalista é que complica. Ele cita o pedagogo e filósofo René Hubert: a educação é o processo contínuo de desenvolvimento das faculdades físicas, intelectuais e morais do ser humano; a integração da pessoa na sociedade depende do estado dessas “faculdades”.
         Ao jogar a causa de ajustes e desajustes sociais para dentro de cada pessoa criamos um problema insolúvel para o educador. Integração na sociedade não é uma cerimônia de passagem, um batismo, e menos ainda um vestibular. “Faculdades mentais” são abstrações que escondem um caráter básico de interação comportamento-ambiente. Sei que as faculdades físicas de um aluno estão bem desenvolvidas quando ele mostra um dos melhores desempenhos na aula de educação física. Com as faculdades intelectuais a verificação é semelhante, ainda que mais complexa e bem mais difícil. Já as faculdades morais colocam um problema impossível para os que buscam uma explicação simples dentro de cada pessoa. A neurociência já avançou o suficiente para mostrar que não há núcleos isolados controlando “faculdades”, interações comportamento-ambiente envolvem mais que estruturas neurais e vias específicas.
         A tal integração na sociedade começa com as primeiras interações mãe-bebê. A sucção reflexa do seio é herança da espécie humana, mas o sugar rapidamente se transforma em comportamento operante, uma interação satisfatória para os dois personagens desse primeiro episódio social. Se o bebê não suga a mãe sofre com o acúmulo de leite na mama; se a mãe não tem leite o bebê sofre com a fome. Nenhuma interação social permanece sem coerção se não for mutuamente satisfatória.
         Se queremos uma sociedade integrada temos que olhar para essas primeiras interações, não só as que o professor observa quando a criança já vem interagindo com seu ambiente por mais de cinco anos. A integração da criança começa no berço.


terça-feira, 30 de setembro de 2014

Comportamento, ambiente e rendimento escolar, um desafio para todos.


            O ambiente de paz na escola é um produto da colaboração de alunos, suas famílias, professores, dirigentes, funcionários e da comunidade afetada pela violência gerada na própria escola. O rendimento acadêmico depende de um ambiente de paz, para o qual contribui até a arquitetura do local. Em grande parte, os professores, funcionários e alunos já são de início agredidos pelo ambiente físico. Tudo contribui para o circulo vicioso da violência e do baixo rendimento escolar.
            Em 2010 comecei a elaborar um projeto sobre violência nas escolas. Sou analista do comportamento, um behaviorista interessado em estudar práticas culturais, e dentre estas, metacontingências. Não é surpresa, pois, que o projeto se apoie no conceito de ambiente de paz como produto agregado, resultante de incontáveis comportamentos interligados, da colaboração de todas as pessoas envolvidas. Mas eu já estava muito doente e tocava a vida e o trabalho à custa de medicação excessiva. Já em 1998 havia sido diagnosticada minha DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica), incluindo enfisema (severa ou severíssima, dependendo do médico), bronquite crônica, asma de esforço e asma alérgica. O especialista foi categórico: aposentadoria e permanência em casa com pelo menos 18 horas diárias respirando oxigênio para compensar a insuficiência pulmonar. Não gostei. Achei um exagero, pois além de coordenar o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária do Incra eu levava uma vida mais ou menos agitada, incluindo golfe nos fins de semana. Apesar de gripes e uma pneumonia, considerei o diagnóstico um exagero e continuei a trabalhar, sem uso de oxigênio e aumentando o uso de corticoides e de antibióticos.
            Um perigo constante para doentes crônicos é a automedicação. Ao longo dos anos fui controlando o cansaço no golfe usando um carro elétrico ao invés de andar e mais tarde levando um tubo de oxigênio no carro para conseguir terminar pelo menos metade de uma partida. Em 2008 a saúde começou a piorar. Eu deveria ter parado com tudo, finalmente seguindo a receita do pneumologista de 1998. Teimoso, não parei. Em 2009 tudo começou a dar errado. Em 2010 eu já estava com 10 quilos acima do peso por retenção de água (uso contínuo de corticoides), afastamentos por motivo de saúde ficaram mais frequentes.
O mal estar continuou mesmo na UTI, quando acordei sem saber onde estava e o que tinha acontecido. A recuperação levou quase dois anos. Hoje aprendi a sair de Brasília nos períodos de ar muito seco e grande variação na temperatura e a ficar ao nível do mar o maior tempo possível. Voltei a orientar alunos na UnB e a publicar com a frequência costumeira. Já dá para pensar nos projetos que ficaram inacabados.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Controle e contra controle em contingências sociais.


Em artigo no Sunday Review of the New York Times (17 de agosto de 2014) C. Bradatan escreveu sobre a dificuldade que temos de atentar para as circunstâncias que nos afetam:

Sócrates tornou-se um estranho em sua própria cidade, mas não se mudou para outra. Tornou-se “átopos”, que siginificava “fora de lugar”, mas também “perturbador” e “intrigante”. Ser átopos é crucial se você quer ser um filósofo sem meias palavras como era Sócrates. Em cada comunidade há algo que deve ficar sem ser dito, sem nome, incomunicável. E você indica que participa dessa comunidade precisamente porque participa do silencio geral. Revelar tudo, ..., é o trabalho do estrangeiro. Seja porque estranhos não conhecem as regras da cultura local, seja porque não se espera que as respeitem, estrangeiros podem se dar ao luxo de falar à vontade”. (Sunday Review, p. 12).

Ser incapaz de descrever as contingências sociais que governam as regras de convivência na cultura é resultado de ter se tornado humano nessa cultura. Quando o grupo nos ensina o que pode der dito e o que não pode, também nos ensina o que pode ser pensado e o que não pode. O “conhece-te a ti mesmo” do mesmo Sócrates poderia ser reescrito como “para conhecer a ti mesmo conheça primeiro a cultura que te formou”. O papel da Análise do Comportamento é o de nos ajudar a  exercer o contra controle, e para isso é necessário conhecer o que nos controla e como esse controle é exercido, na família, na escola, no trabalho, no clube, na igreja, nos tribunais, nas redes sociais, nos governos.

Temas relacionados neste blog:





sábado, 12 de julho de 2014

O que é consciência?


"Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Nem vê que eu sou um pobre rapaz"

            Mario Lago,  “Ai que Saudade da Amélia”

“The Cambridge Declaration on Consciousness” é um documento assinado em 7 de julho de 2012 por em pequeno grupo multidisciplinar de cientistas interessados no estudo da consciência em animais. O problema é que não chegaram a um consenso sobre o que é consciência, segundo o idealizador do documento, Philip Low, declarou ao repórter Alex Halberstadt do New York Times.
Consciência é um daqueles termos, como comportamento, que todo mundo acha que sabe o que é, mas cada um usa de maneira diferente. Quando Philip Low e seus colegas chegarem a um consenso sobre a definição volto a escrever sobre isso. Pode demorar, pois até hoje os neurocientistas não chegaram a um consenso sobre o que é “reflexo” e o que é “voluntário”.
            Quando um behaviorista diz que consciência não é explicação, mas um processo a ser explicado, está usando o termo sem negar a importância do que quer que esteja acontecendo no cérebro quando um animal fica imóvel ante um predador, por exemplo. A visão do predador antecede o congelamento e os eventos associados no sistema nervoso. O  conflito entre “se correr o bicho pega” e “se ficar o bicho come” envolve operantes e respondentes, interações entre comportamentos e eventos internos e externos.
            A letra do samba é interessante por mostrar dois sentidos do termo muito comuns em nossa linguagem diária: o estar atento ao que acontece ao seu redor, e o sentido moral. A nova companheira, ao contrário da Amélia, não percebe o mal que faz ao “pobre rapaz”, que infere a falta de consciência pelo que relata do comportamento da moça. A companheira ou realmente não percebe (sentido 1) ou não se interessa pelas consequências, se são ou não socialmente aceitáveis (sentido 2).
Grande parte do que fazemos na Análise do Comportamento, porém, é interpretar eventos internos, como fez Skinner em, por exemplo, “Ciência e Comportamento Humano”, em uma época que as neurociências apenas engatinhavam. Ao contrário do que dizem críticos apressados, não trabalhamos com um modelo “homem-máquina” combatendo um modelo “mente”. Estudamos interações comportamento-ambiente, e o que ocorre por trás da pele (ou sob e na pele) é parte desse ambiente. Ao contrário do espantalho oco pintado pelos que nos criticam, estudamos organismos de carne e osso, muitos nervos, e cheios de desejos, medos, apetites, esperanças, histórias, conhecimentos, e dezenas ou centenas de outros substantivos que a literatura e a arte retratam.
            Talvez não esteja muito claro para esses críticos que quando eu penso para escrever este texto estou me comportando. A diferença é que não aceitamos o pensar em escrever como a causa do escrever. Neste exemplo, pensar e escrever são parte de um encadeamento que é função, dentre outras variáveis de meu contexto, do conteúdo desagradável de um comentário a um texto que escrevi sobre o termo “cognitivo” ser usado às vezes como sinônimo de “comportamental”, ás vezes de “mental”.

http://jctodorov.blogspot.com/2014/07/cognitivo-e-o-novo-mental.html