quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Análise do comportamento e qualidade de vida nas metrópoles.




            A preocupação com a qualidade de vida nas metrópoles sempre existiu, só aumentou com a tendência mundial de êxodo do campo para as cidades. Nos Estados Unidos, especialmente depois da II Guerra Mundial, Wilson & Kelling (1982) argumentaram que a principal causa da queda na qualidade de vida nas cidades se devia a “desordeiros”, não necessariamente violentos nem necessariamente criminosos, mas sem respeito ou imprevisíveis: mendigos, bêbados, viciados, adolescentes desordeiros, prostitutas, vagabundos e os mentalmente perturbados. Essa “população” cresceu a ponto de incomodar porque a policia nunca tinha lidado adequadamente com a questão. Wilson & Kelling defenderam a ação da polícia para combater esses casos para evitar que se transformassem em problemas mais sérios como crimes graves, no que veio a ser chamado de Teoria da Janela Quebrada, como no título do artigo: Broken windows: The police and neighborhood safety (Janelas quebradas: a polícia e a segurança da vizinhança).

Tolerância Zero

            Em 1986 o Promotor Federal de San Diego, California ficou nacionalmente conhecido por determinar que fosse apreendido todo navio que estivesse carregando qualquer quantidade de drogas ilegais. O programa estadual, denominado Tolerância Zero, se tornou federal pela ação do Procurador da República dos Estados Unidos, Edwin Meese em 1988, que ordenou que veículos e propriedades de qualquer pessoa cruzando as fronteiras com qualquer quantidade de drogas fossem apreendidos e os responsáveis processados criminalmente (Skiba & Knesting, 2001).

Janela Quebrada

            A teoria de Wilson & Kelling (1982) foi um marco nos Estados Unidos na explicação da chamada crise urbana, colocando em evidência a questão comportamento/consequência quando se atribuia o problema a fatores materiais. Weaver (2016) chama a atenção para as duas correntes ligadas a diferentes visões políticas, mas ideologia de lado, as crises urbanas que foram adequadamente tratadas envolveram tanto recursos materiais quanto culturais (relações condicionais comportamento-consequência). Os trabalhos antigos que falam em Janelas Quebradas estavam mais preocupados com a segurança pública nos espaços urbanos – controlar os espaços para controlar os comportamentos. Favelas inteiras foram demolidas e em seu lugar foram construídos arranha-céus que fizeram a fortuna dos que investem no mercado imobiliário e as prefeituras que passaram a arrecadar muito mais impostos. Principalmente depois de Wilson & Kelling (1982) Janela Quebrada também foi chamada de Tolerância Zero – assim como não se deve deixar passar uma janela quebrada sem consertar, não há crime, infração ou ofensa que seja tão inofensivo que não deva ser punido.

As dificuldades para cumprir a lei.

            Uma prisão pode representar o início de uma cadeia comportamental envolvendo agências e agentes públicos ao longo de meses ou anos. As leis geralmente envolvem comportamento complexo - complexo no sentido de que seus artigos descrevem mais do que respostas únicas, especificam as circunstâncias aplicáveis, as consequências e, às vezes, apontam condições atenuantes. O controle envolve uma rede de leis; um único ato ilegal põe em movimento todo um conjunto de órgãos governamentais. Como uma sociedade pode garantir que uma nova lei, aprovada com a intenção de promover mudanças nas práticas culturais, controle o novo comportamento dos cidadãos e dos agentes governamentais? (Todorov, 2005).

A lei é melhor escrita quando trata de comportamento indesejável do acusado e do comportamento dos policiais ao lidar com o problema. Pode-se ver o sistema judiciário de um país como um sistema cultural. Existem no sistema judiciário contingências comportamentais interligadas que definem suas práticas culturais particulares (Todorov, 1987, 2005; Cabral & Todorov, 2015; Carvalho & Todorov, 2016). O sistema judiciário é composto por estruturas físicas e organizacionais, e de seus membros, juízes, advogados, advogados e afins. Mas, como sistema cultural, o judiciário depende inteiramente dos repertórios comportamentais de seus membros. Quando uma nova lei apenas descreve as práticas culturais em curso em uma determinada comunidade, a aplicação da lei não conflita com os repertórios comportamentais dos agentes governamentais encarregados. Isso parece ter acontecido com o procedimento Tolerância Zero. Mudanças nas práticas culturais da comunidade exigem mudanças prévias nos repertórios comportamentais daqueles que devem fazer cumprir a lei. Em um sistema já é lento, se não arcaico, a tomada de decisão por juízes e advogados, por vezes, segue a linha de menor esforço. (Glenn, 1993; Todorov, 2005).


            Independentemente da redistribuição espacial dos pobres, comportamentos inadequados continuariam a desvalorizar qualquer área urbana (Jackson, Bradford, Hohl & Farrall, 2009). De 1994 a 2001 a maior e mais conhecida experiência de mudança cultural aconteceu em Nova Iorque, comandada pelo prefeito Rudolf Giuliani, usando conceitos e procedimentos já usados por outros governantes em outros estados e cidades: Janela Quebrada, Tolerância Zero, e Qualidade de Vida (Skiba & Knesting, 2001). Dezenas, talvez centenas, de artigos já fora publicados sobre a ação de Giuliani em Nova Iorque, mas praticamente nem um deles aborda dois pontos importantes para o sucesso da grande mudança cultural: um aumento de cerca de 30% no efetivo da polícia (muito mais polícia nas ruas) e um acompanhamento e avaliação contínuos do desempenho de cada policial (Greene, 1999).
            “Tolerância zero’ em si talvez tenha trazido mais problemas que soluções a longo prazo, com queixas de viés racial na ação dos policiais e na total inadequação para controlar a violência nas escolas (Giroux, 2003; Greene, 1999). “Janela Quebrada”, por outro lado foi uma teoria saudada com entusiasmo pelos partidos políticos de direita (predominância do capital sobre o trabalho) e combatida pelos partidos de esquerda (combate à desigualdade de renda).


REFERÊNCIAS

Cabral, M. D. C. & Todorov, J. C. (2015). Contingências e metacontingências no processo legislativo da lei sobre a remição da pena pelo estudo. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 11(2), 195-202.
Carvalho, I. C. V. & Todorov, J. C. (2016). Metacontingências e produtos agregados na lei de diretrizes e bases da educação: primeiro o objetivo, depois como chegar lá. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 12(2), 75-85.
Giroux, H. A. (2003). Racial injustice and disposable youth in the age of zero tolerance. Qualitative Studies in Education,16(4), 553–565.
Glenn, S. (1993). Windows on the 21st Century. The Behavior Analyst, 16, 133-151.
Greene, J. A. (1999). Zero tolerance – A case study of police policies and practices in NYC. Crime and Delinquency,45(2), 171-187.
Jackson, J., Bradford, B., Hohl, K., & Farrall, S. (2009). Does the fear of crime erode public condence in policing? Policing, 3(1), 100–111. doi: 10.1093/police/pan079
Kelling, G., & Wilson, J. (1982). Broken windows: The police and neighborhood safety. Atlantic Monthly, 249(3), 29-38.
Skiba, R. J. & Knesting, K. (2001). Zero tolerance, zero evidence: An analysis of school disciplinary practice. New Directions for Youth Development, 92, 17-43.
Skinner, B. F. (1953). Science and human behavior. New York: MacMillan.
Todorov, J. C. (1987). A Constituição como metacontingência. Psicologia: Ciência e Profissão, 7, 9-13. (Portuguese)
Todorov, J. C. (2005). Laws and the complex control of behavior. Behavior and Social Issues, 14, 86-91.
Weaver, T. (2016). Urban crisis: The genealogy of a concept. Urban Studies, Special, 1–17, DOI: 10.1177/0042098016640487






terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O que é metacontingência e por que é (des)necessária?


"O que é metacontingência e por que é (des)necessária?"
Publicada no blog da ABPMC a convite de Diego Zilio

A palavra metacontingência foi proposta em 1986 por Sigrid Glenn (Glenn, 1986) para se referir a efeitos coletivos a médio ou longo prazos de operantes individuais independentes. Em 1987 foi usada como um conjunto de contingências e metacontingências que programa um determinado Produto Agregado (Todorov, 1987). Durante 20 anos aparece principalmente em artigos teóricos, como o que se dedica a explicar o comportamento dos eleitos no Congresso americano (Lamal & Greenspoon, 1992).
Contingência é uma relação condicional entre dois eventos. No caso da contingência comportamental, se um comportamento ocorrer, então uma consequência ocorrerá em tais e quais circunstâncias. Uma consequência pode ocorrer sempre que o comportamento ocorre, ou depois de repetidas ocorrências do comportamento, ou dependendo do tempo decorrido desde a última ocorrência dessa consequência, ou dependendo de inúmeras combinações de tempo e número de respostas, e de relações fixas ou variáveis. Resumindo: o conceito de contingência comportamental abarca infindáveis exemplos de interações comportamento-ambiente, inúmeras das quais estão documentadas em livros e artigos científicos, como, por exemplo, na Revista Brasileira de Análise do Comportamento.
Metacontigência é uma relação condicional entre a colaboração de pelo menos duas pessoas (contingências comportamentais entrelaçadas) que resulta em determinado produto e alguma consequência programada por um ambiente cultural selecionador. Metacontingências podem ser classificadas de acordo com o tipo de relação de consequência (cerimoniais ou tecnológicas) e da especificação do produto agregado (conservadoras ou transformadoras), e de combinações de relação de consequência e especificação do produto (por exemplo, cerimonial conservadora, tecnológica transformadora, etc., Todorov, 2013).
Uma metacontingência não é apenas um jogo de contingências individuais de pessoas diferentes. Uma metacontingência consiste em contingências individuais entrelaçadas, que produzem um mesmo efeito e levam a uma mesma conseqüência (Lamal & Greenspoon, 1992). No caso das práticas culturais, o agente a ser selecionado é o efeito (Produto Agregado) produzido pela prática (as contingências comportamentais interligadas). A variação é proporcionada por permutações no comportamento dos indivíduos que participam da prática (Glenn, 1991, pp. 62-63). Há uma ênfase no processo seletivo do entrelaçamento de muitos operantes e, consequentemente, na transmissão de padrões comportamentais através do tempo, reforçando também a ideia de que a unidade de análise pode ser a relação entre o entrelaçamento e o produto agregado (Glenn, 1988), a descrição das funções de diferentes efeitos ambientais produzidos pelo entrelaçamento (Glenn & Malott, 2004) e uma diferenciação entre processos de variação e seleção que ocorrem em nível individual (relações de macrocontingência) e processos de variação e seleção que ocorrem em nível cultural (relações de metacontingência, Malott & Glenn, 2006; Martone & Todorov, 2007; Glenn et al., 2016)).
Ao descrever as complexas relações comportamentais que ocorrem no terceiro nível de variação e seleção, o conceito de metacontingência coloca-nos frente a importantes questões conceituais e metodológicas:
(1)   o problema da unidade de análise no nível cultural e,
(2)   em se tratando de análise experimental, a variável crítica a ser manipulada no sentido de produzir, em condições controladas de laboratório, a seleção de um entrelaçamento específico de muitos comportamentos ao longo do tempo, desencadeando a transmissão do que Glenn & Malott (2004) denominam de “linhagem cultural” (Martone & Todorov, 2007).

A questão conceitual tem gerado ferrenha reação. Entre os participantes do I Think Tank sobre Cultura e Comportamento em Campinas, 2005, três argumentaram sobre a desnecessidade do conceito de metacontingência (Branch,2006; Marr, 2006; Mattaini, 2006). No Brasil autores que já haviam publicados sobre problemas sociais usando apenas a contingência comportamental também acham desnecessário o novo conceito (Gusso e Kubo, 2007), ou agora afirmam que Skinner preferiu trabalhar só com o conceito de contingência comportamental mesmo quando fala da forço do grupo (Carrara & Zilio, 2016) e que comemoramos 30 anos de metacontingências com um fracasso: o conceito é desnecessário (Zilio, 2018).
            A análise experimental de metacontingências cresceu exponencialmente depois das críticas dos participantes do I Think Tank (Campinas, 2005). Até então só a dissertação de mestrado de Christian Vichi (2004, 2005) na PUC-SP de 2004 mostrava dados experimentais. Em 15 anos foram várias dezenas de teses e dissertações, usando diferentes procedimentos, estudando só metacontingências ou essa relação condicional embutida em procedimento mais complexo. Para citar apenas três dos publicados mais recentemente: Soares et al (2018), Guimarães, Picanço & Tourinho (2019) e da Hora & Sampaio (2019).
Concepts such as operant, culturobehavioral lineage, culturant, and macrobehavior can facilitate an interdisciplinary and multidimensional approach to social issues such as corruption. They cross through disciplines, overcoming the traditionally rigid boundary between psychological, sociological, anthropological, and economic phenomena, clarify aspects that require further investigation and contribute to the unification of the sciences that deal with human behavior in its various dimensions. This is one important way in which the concept of metacontingency and related concepts such as culturant can be useful. This was not mentioned by Zilio (2019), who recently questioned the utility of such concepts. Besides the huge amount of work (experimental, theoretical, and, to a lesser degree, applied) that employed it—as Zilio’s review itself documented—one has to take into account the conceptual coherence of such a transdisciplinary perspective on behavior, society, and culture when evaluating its utility.” (da Hora & Sampaio, 2019).


Referências
Branch, M. N. (2006). Reactions of a laboratory behavioral scientist to a “think tank” on metacontingencies and cultural analysis. Behavior and Social Issues, 15, 6-10. http://dx.doi.org/10.5210/bsi.v15i1.343.
Carrara, K. & Zilio, D. (2016). Análise comportamental da cultura: contingência ou metacontingência como unidade de análise? Revista Brasileira de Análise Do Comportamento / Brazilian Journal of Behavior Analysis, 11(2), 135-146.
da Hora, K.L. & Sampaio, A.A.S. (2019). Perspectives in Behavior Science, 42, 1-21. https://doi.org/10.1007/s40614-019-00225-y
Glenn, S. S. (1986). Metacontingencies in Walden Two. Behavior Analysis and Social Action, 5, 2-8.
Glenn, S. S. (1988). Contingencies and Metacontingencies: Toward a Synthesis of Behavior Analysis and Cultural Materialism. The Behavior Analyst 1988, 11(2), 161-179.
Glenn, S. S. (1991). Contingencies and metacontingencies: Relations among behavioral, cultural, and biological evolution. Em P. A. Lamal (Org.), Behavioral analysis of societies and cultural practices (pp. 39-73). New York: Hemisphere Publishing Corporation.
Glenn, S. S., & Malott, M. E. (2004). Complexity and selection:            Implications for organizational change. Behavior and Social Issues, 13, 89-106.
Glenn, S. S., Malott, M. E., Andery, M. A. P. A., Benvenuti, M., Houmanfar, R. A., Sandaker, I., Todorov, J. C., Tourinho, E. Z., & Vasconcelos, L. A. (2016). Toward consistent terminology in a behaviorist approach to cultural analysis. Behavior & Social Issues, 25, 11–27.  https://doi.org/10.5210/bsi.v25i0.6634
Guimarães, T.M.M., Picanço, C.R.F. & Tourinho, E.Z. (2019) Effects of Negative Punishment on Culturants in a Situation of Concurrence between Operant Contingencies and Metacontingencies. Perspectives in Behavior Science, 42,  1-18. https://doi.org/10.1007/s40614-019-00224-z
Hélder Lima Gusso, H. L. & Olga Mitsue Kubo, O. M.  (2007). O conceito de cultura: afinal, a “jovem” metacontingência é necessária?  Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 9(1), 139-144.  ISSN 1517-5545
Lamal, P. A. & Greenspoon J. (1992). Congressional Metacontingencies. Behavior and Social Issues, 2(1),  71-81.
Malott, M. E., & Glenn. S. S. (2006). Targets of intervention in cultural and behavioral change. Behavior and Social Issues, 15, 31-56.
Marr, M. J. (2006). Behavior analysis and social dynamics: Some questions and concerns. Behavior and Social Issues, 15, 57-67. doi:10.5210/bsi.v15i1.345
Martone, R. C. & Todorov, J. C. (2007). O desenvolvimento do conceito de metacontingência. Revista Brasileira de Análise do Comportamento / Brazilian Journal of Behavior Analysis, 3(2), 181-190.
Mattaini, M. A. (2006). Will cultural analysis become a science? Behavior and Social Issues, 15, 68-80.
Soares, P. F. R., Rocha, A. P. M. C., Guimarães, T. M. M., Leite, F. L., Andery, M. A, P. A., & Tourinho, E. Z. (2018). Effects of verbal and non-verbal cultural consequences on culturants. Behavior and Social Issues, 27, 31-46. doi: 10.5210/BSI.V.27I0.8252
Todorov, J. C. (1987). A Constituição como metacontingência. Psicologia: Ciência e Profissão, 7, 9-13. doi:10.1590/S1414-98931987000100003
Todorov, J. C. (2013). Conservation and transformation of cultural practices through contingencies and metacontingencies. Behavior and Social Issues, 22, 64-73.
Vichi,  C. (2004). Igualdade ou desigualdade em pequeno grupo: um análogo experimental de manipulação de uma prática cultural. Dissertação de Mestrado,   Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.
Vichi, C. (2005). Igualdade ou desigualdade: manipulando um análogo experimental de prática cultural em laboratório. Em J. C. Todorov, R. C. Martone         & M. B.Moreira (Orgs.), Metacontingências: comportamento, cultura e sociedade. Santo André: ESETec.
Zilio, D. (2019). On the function of science: An overview of 30 years of publications on metacontingency. Behavior & Social Issues, 28,1 –31. https://doi.org/10.1007/s42822-019-00006-x.






quarta-feira, 22 de maio de 2019

Não reforce de imediato o desempenho retomado.


Quando um experimento com ratos na caixa de Skinner nos dá ideias para aplicação imediata? Sem a teoria, nunca. Aproveitando a vantagem da teoria e alguma experiência é possível sugerir medidas aos que trabalham com aplicação. O artigo a seguir nunca foi citado (a não ser por mim), mas eu mesmo só agora resolvi escrever sobre um possível significado de seus dados.

O artigo mais citado de todos os tempos no Journal of the Experimental Analysis of Behavior (JEAB) é o de R. J. Herrnstein “On the Law of Effect” de 1970. No experimento básico com dois esquemas de reforço um pequeno atraso na oportunidade de reforço é usado para separar o responder em uma alternativa dos reforços programados pelo outro esquema. Em minha tese de doutorado, publicada em parte em 1971 no JEAB, mostrei que o atraso poderia funcionar como punição para mudar de esquema. Neste trabalho com um aluno de mestrado da Universidad Nacional Autónoma de México mostramos que esse atraso poderia afetar também o responder em esquemas simples – comportamento é escolha, escolha é comportamento. Se a cada vez que uma pausa acontece e o responder que se segue demora um pouco para ser reforçado, as pausas tendem a diminuir.

Moral (provisória) da história: não reforce de imediato o desempenho retomado depois de pausas inconvenientes.


https://www.academia.edu/37289797/Delay_of_reinforcement_for_responses_which_end_pauses_effects_on_response_rates.pdf


terça-feira, 11 de setembro de 2018

De onde vem o “Eu” de Skinner?



De onde vem o “Eu” de Skinner?
Da filosofia e da literatura, como por exemplo de textos como os dois a seguir. Um exemplo de como na psicologia os processos não são´inventados, são descobertos. Várias abordagens podem se dedicar a estudar um mesmo processo usando pressupostos, ferramentas e linguagens diferentes. Uma Análise do Comportamento que define comportamento como a interação Organismo-Ambiente é incompatível com o tratamento dado por Skinner à personalidade como um sistema organizado de respostas, pois isso significaria apenas um sistema por organismo. Estudamos interações comportamento-ambiente e relações condicionais. 

João Carlos Firmino Andrade de Carvalho, “Cultura e Literatura: Intervenções”. Lisboa: CLEPUL, 2018.

“Reflectir sobre as representações da figura do Estrangeiro conduz-nos, quase necessariamente, a uma abordagem da problemática da identidade e da alteridade, das relações e limites equacionáveis entre o Mesmo e o Outro. O Estrangeiro (ou o Outro) teve várias configurações, em termos espacio-temporais: o Bárbaro, para os gregos da Antiguidade; o Forasteiro, para as sociedades tradicionais (não necessariamente primitivas); o Inimigo ou o Mal / o Demoníaco, para a Cristandade; o Eremita ou o Peregrino, para os mais dados ao convívio humano ou para os menos inclinados para as coisas do espírito; o Diferente / Exótico, para a era moderna inaugurada pelos Descobrimentos; o viajante europeu Cosmopolita, para as sociedades fechadas sobre si mesmas; o Libertino, para a moral conservadora; o Exilado e o Desenraizado (lembremo-nos de O Estrangeiro de Albert Camus, 1942); o Imigrante, para as sociedades europeias modernas e pós-modernas, etc. A problemática do Estrangeiro requer que reconheçamos dois planos: o plano da alteridade exterior (ou seja, o plano do “Nós e os Outros”, título de um célebre livro de Tzvetan Todorov [Todorov, 1989]) e o plano da alteridade interior (ou seja, o plano do “Je est un autre” de Arthur Rimbaud ou o do “Étrangers à nous-mêmes”, título do não menos célebre livro de Julia Kristeva [Kristeva, 1988], ou ainda o do Inconsciente de Freud). Estes dois planos, porém, não são estanques, como bem sabemos. “
Todorov, T. (1993). Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Tradução de S. G. de Paulo. Rio de janeiro: Zahar.

Todorov, T. (1989). A conquista da América.  A Questão do Outro. Tradução de Beatriz Perrone Moi. São Paulo: Martins Fontes 2ª edição.
https://s3.amazonaws.com/academia.edu.documents/33775623/A_conquista_da_America_A_Questao_do_Outro_-_Tzvetan_Todorov.pdf?AWSAccessKeyId=AKIAIWOWYYGZ2Y53UL3A&Expires=1536678573&Si
gnature=wmuLSutmPbusuI%2BTLJg9mIU6R4Y%3D&response-content-disposition=inline%3B%20filename%3DA_conquista_da_America_A_Questao_do_Outr.pdf


“Quero falar da descoberta que o eu faz do outro, o assunto é imenso. Mal acabamos de formulá-lo em linhas gerais já o vemos subdividir-se em categorias e direções múltiplas, infinitas. Podem-se descobrir os outros em si mesmo, e perceber que não se é uma substância homogênea, e radicalmente diferente de tudo o que não é si mesmo; eu é um outro. Mas cada um dos outros é um eu também, sujeito como eu. Somente meu ponto de vista, segundo o qual todos estão lá e eu estou só aqui, pode realmente separá-los e distingui-los de mim. Posso conceber os outros como uma abstração, como uma instância da configuração psíquica de todo indivíduo, como o Outro, outro ou outrem em relação a mim. Ou então como um grupo social concreto ao qual nós não pertencemos. Este grupo, por sua vez, pode estar contido numa sociedade: as mulheres para os homens, os ricos para os pobres, os loucos para os "normais ". Ou pode ser exterior a ela, uma outra sociedade que, dependendo do caso, será próxima ou longínqua: seres que em tudo se aproximam de nós, no plano cultural, moral e histórico, ou desconhecidos, estrangeiros cuja língua e costumes não compreendo, tão estrangeiros que chego a hesitar em reconhecer que pertencemos a uma mesma espécie. “

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Contexto, comportamento e consequência


Para que serve a pesquisa básica em psicologia?
                Serve no mínimo para introduzir os alunos à teoria necessária para o exercício da profissão. Serve também para construir, reformar e reconstruir a teoria. Uma teoria nos dá lentes especiais para olhar para o mundo. O psicólogo Jon Bailey relata uma observação que fez enquanto a escada rolante o levava de um andar ao outro em uma estação ferroviária. Ao pé da escada uma criança puxava o casaco da mãe e a chamava, em voz cada vez mais alta, enquanto a mãe falava ao telefone. Sem pensar, o analista do comportamento já diz para seus botões: lá vai em andamento uma modelagem de birra. Técnicas para modelar respostas novas (isto é, para ensinar) foram desenvolvidas com pombos e depois aperfeiçoadas para aplicação geral, tanto na educação quanto na clínica, mas as relações condicionais responsáveis pelo processo existem no ambiente natural desde o início dos tempos.
                Já escrevi que para entender um comportamento é preciso considerar o ambiente físico em que ocorre (o local), o ambiente social (as pessoas em volta), o que está correndo internamente no organismo e a história daquela interação comportamento-ambiente. Um experimento com pombos mudou completamente a teoria como vinha sendo desenvolvida por Skinner ao mostrar que a relação comportamento- consequência é sempre modulada pelo contexto. Sem informações sobre o contexto (que inclui os ambientes interno e externo) não é possível nem prever nem controlar.
                Sobre o efeito da história redescobri recentemente um experimento simples, feito em 1977 no México, no laboratório de Coyoacan da UNAM, e publicado em 1982. O experimento mostra que o que é considerado estado estável de um comportamento depende da história do organismo naquela situação. O experimento mostra que é possível aumentar o tempo dedicado a uma tarefa evitando reforços para aquela tarefa nos primeiros segundos depois de uma pausa.
                Posso pensar em aplicações práticas dessa observação, mas gostaria de receber sugestões de meus leitores, seja pelo blog, seja por mensagem no Facebook. Comentarei cada sugestão.

https://www.academia.edu/37289797/Delay_of_reinforcement_for_responses_which_end_pauses_effects_on_response_rates.pdf



domingo, 3 de junho de 2018

Polícia é para quem precisa de polícia.



As agências de controle social, no sentido skinneriano do termo, controlam as relações condicionais que regulam a vida em sociedade, em grande parte por controle aversivo, por meio de ameaças (avisos da intenção de punir) e de punições de fato, como multas e/ou restrição de liberdade. Comportamentos perigosos para o equilíbrio das interações entre pessoas e entre instituições são estritamente vigiados. Uso de violência, por exemplo, é privativo do Estado, por meios bem definidos em leis. Quando uma prática cultural precisa ser mudada o aparato policial entra em cena e rapidamente todos estamos usando cinto de segurança, só fumamos em lugares permitidos, não bebemos quando vamos dirigir, etc. O Estado também diz (mas só da boca para fora) que outras práticas culturais também precisam ser mudadas, como os comportamentos que definem o racismo, mas aí a abordagem é bem mais frouxa. Entram em cena os especialistas em mudar “os corações e as mentes” dos racistas.

                Resolvi escrever depois de ler artigo no New York Times assinado por um professor de direito, P. A. Goff, sobre o dia de treinamento promovido pela rede Starbucks. Para compensar a publicidade negativa que teve quando seus empregados chamaram a polícia porque dois negros estavam sentados em uma das mesas sem ter comprado nada - foi notícia no mundo inteiro – a Starbucks reagiu com um gesto sensacional: fechou todas as suas mais de 8 mil lojas em um mesmo dia para um treinamento sobre como evitar o viés racista. A iniciativa da empresa foi muito elogiada, mas o Professor Goff chama a atenção para o fracasso dessas iniciativas quando tomadas isoladamente. No lugar de sessões de treino a Starbucks poderia ajudar com verbas a iniciativas que ofereçam opções para a solução de conflitos que não sejam a polícia. Nos Estados Unidos as pessoas telefonam para o número 911 e o atendente decide, pelo tipo de situação, se manda os bombeiros ou a polícia. O caso da loja de Philadelphia poderia ter sido resolvido por grupos de assistentes sociais treinados para mediar conflitos, como existem na California. Se você chama a polícia o caso vai ser abordado como policial.

                Gastar um dia treinando 175.000 empregados e acreditar que isso resolve o problema só tem sentido na convicção dos patrões e na crença arraigada em nossa civilização cristã ocidental de que o mal mora no coração e nas mentes dos homens. Maneiras de extrair de lá esse mal variaram de fogueiras a terapias, passando por exorcismos. Continuar por esse caminho é parecido com a situação do bêbado que procurava suas chaves aproveitando a luz do poste – sabia que não era lá que tinha perdido as chaves, mas tinha que aproveitar porque ali era possível ver o chão. Pois nós sempre achamos que educação resolve tudo, então vamos reeducar as pessoas para deixarem de ser racistas.

                Vejamos o que escreveu Philip Goff sobre isso:

“A questão não é como educar as pessoas, é como mudar as situações de maneira que o medo provocado por negros ou o desapreço por eles não provoque uma resposta agressiva. E mudar situações se consegue com políticas. Historicamente isso é que o país tem feito quando a questão da discriminação racial é levada a sério. ”
               
A mobilização política que produziu a integração racial nas escolas levou a decisão à Suprema Corte, no processo Brown vs Board of Education. E a decisão foi de que aquele comportamento era inaceitável. Não foi “Por favor, mudem sua mente”. Da mesma forma, foram mudanças na legislação, forçadas por movimentos populares, que proibiram a discriminação de gênero nas escolas, e levaram à proteção de pessoas com deficiências. A lei levada a sério muda comportamentos, propaganda não muda nem a mente.


quinta-feira, 3 de maio de 2018

A lei como instrumento do poder, não da justiça.



            No ideal democrático a sociedade é “gerenciada” por três poderes que se equivalem: legislativo, executivo e judiciário. O legislativo aprova as leis, regras que especificam relações condicionais entre comportamentos e consequências visando estabelecer interações satisfatórias entre os cidadãos e em seu benefício. O executivo é encarregado de manter todos informados sobre essas regras e a garantir que as consequências programadas ocorram de acordo com a lei. O judiciário deve manter um olho no peixe, outro no gato: garantir que legislativo e executivo também se comportem dentro da lei. Um sistema de “checks and balances” existe para evitar que qualquer poder invada as competências dos outros dois. O judiciário pode anular decisões do executivo e do legislativo, o executivo pode vetar leis aprovadas pelo legislativo, e o legislativo pode aprovar o impeachment do executivo e do judiciário.

            Na democracia a lei deve servir à justiça, um conceito que se refere a um estado ideal de interação social em que há um equilíbrio razoável e imparcial entre deveres e oportunidades das pessoas. Que essa democracia ideal é um horizonte a ser buscado se comprova com a atual onda mundial de propostas de governo autoritárias que não acionam o sistema de pesos e contrapesos, como o presidente da república (em alguns países) que faz obstrução da justiça e nada acontece. O jornalista   do New York Times de ontem chama isso de a lei a serviço do poder (característica das ditaduras), não da justiça.
            O desequilíbrio entre os poderes pode ser visto em outros sistemas moleculares de interação, como a família ou a escola. Agências de controle podem mostrar abusos de poder por desvios no exercício de seu poder. No caso das famílias, a própria existência de um Estatuto da Criança e do Adolescente que regulamenta os deveres dos pais é comprovação da necessidade, em todos os níveis, de sistemas de pesos e contrapesos, de “checks and balances”, para garantir o desenvolvimento saudável e a adequada formação de cidadãos.