Mostrando postagens com marcador pesquisa básica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pesquisa básica. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Contexto, comportamento e consequência


Para que serve a pesquisa básica em psicologia?
                Serve no mínimo para introduzir os alunos à teoria necessária para o exercício da profissão. Serve também para construir, reformar e reconstruir a teoria. Uma teoria nos dá lentes especiais para olhar para o mundo. O psicólogo Jon Bailey relata uma observação que fez enquanto a escada rolante o levava de um andar ao outro em uma estação ferroviária. Ao pé da escada uma criança puxava o casaco da mãe e a chamava, em voz cada vez mais alta, enquanto a mãe falava ao telefone. Sem pensar, o analista do comportamento já diz para seus botões: lá vai em andamento uma modelagem de birra. Técnicas para modelar respostas novas (isto é, para ensinar) foram desenvolvidas com pombos e depois aperfeiçoadas para aplicação geral, tanto na educação quanto na clínica, mas as relações condicionais responsáveis pelo processo existem no ambiente natural desde o início dos tempos.
                Já escrevi que para entender um comportamento é preciso considerar o ambiente físico em que ocorre (o local), o ambiente social (as pessoas em volta), o que está correndo internamente no organismo e a história daquela interação comportamento-ambiente. Um experimento com pombos mudou completamente a teoria como vinha sendo desenvolvida por Skinner ao mostrar que a relação comportamento- consequência é sempre modulada pelo contexto. Sem informações sobre o contexto (que inclui os ambientes interno e externo) não é possível nem prever nem controlar.
                Sobre o efeito da história redescobri recentemente um experimento simples, feito em 1977 no México, no laboratório de Coyoacan da UNAM, e publicado em 1982. O experimento mostra que o que é considerado estado estável de um comportamento depende da história do organismo naquela situação. O experimento mostra que é possível aumentar o tempo dedicado a uma tarefa evitando reforços para aquela tarefa nos primeiros segundos depois de uma pausa.
                Posso pensar em aplicações práticas dessa observação, mas gostaria de receber sugestões de meus leitores, seja pelo blog, seja por mensagem no Facebook. Comentarei cada sugestão.

https://www.academia.edu/37289797/Delay_of_reinforcement_for_responses_which_end_pauses_effects_on_response_rates.pdf



segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Três ilhas e uma nuvem – uma fábula analítico-comportamental.


                Gosto de provocar meus amigos analistas do comportamento escrevendo sobre uma fábula que conta a história do nascimento de três ilhas no Mar da Psicologia, divisão promovida por um terremoto que desmembrou o continente Behaviorismo: Pesquisa básica, Análise Comportamental Aplicada e Comportamento Verbal. A violência da separação inicial provocou a formação de uma nuvem de behaviorismo reduzido a pó, que continua pairando acima das três ilhas: O Behaviorismo Radical.
                Como a variabilidade é a força maior que move o mundo (no princípio era a variabilidade, depois veio a luz), ao longo de algumas gerações a língua comum do Continente Behaviorismo diferenciou-se em quatro, com dialetos próprios de cada ilha e da nuvem. Os habitantes das ilhas e os que pairam sobre a nuvem, contudo, desenvolveram características comuns: não nadam nem voam, não se comunicam nem entre si nem com outros habitantes do Mar da Psicologia.
--


Agora falando sério: está na hora de começarmos a construir pontes e passarelas. Há esperança: a ABAI está preocupada com isso. Em seus discursos de posse como presidentes da associação tanto Martha Hubner em 2015 quanto Jack Marr em 2016 abordaram a questão. Publiquei um artigo em 2013 na revista Behavior and Philosophy que relata a história da separação dos diferentes grupos.




quarta-feira, 24 de maio de 2017

Relatividade no controle por consequências.


Se uma possibilidade de escolher se repete ao longo do tempo, a decisão de escolher uma dentre duas alternativas depende dos resultados dessas escolhas no passado. essa relação pode e tem sido estudada no laboratório para verificar se o valor absoluto das consequências tem ou não tem importância na distgribuição dessas escolhas.

Quando se diz que a razão entre dois valores de uma variável dependente iguala a razão entre dois valores associados da variável independente está implícito que essa igualdade é válida para quaisquer valores absolutos. A igualdade é prevista para qualquer razão de valores absolutos, pois 1/3 = 2/6 = 3/9, etc. Esse é o pressuposto da relatividade na lei generalizada da igualação (Herrnstein, 1961, 1970; Baum, 1974):

C1/C2 = k (r1/r2)a 

Em condições ideais, k = a =1.

            Se houver viés em favor de uma alternativa, k > ou < 1. Se houver alguma dificuldade na distinção das consequências ou na facilidade de mudar de uma alternativa para a outra,
a < ou > 1. É possível manipular condições experimentais e prever mudanças nos valores de k e de a (Todorov, 1971; Hanna, Todorov & Blackman, 1992).

            Três artigos publicados por volta de 1988 questionaram esse pressuposto mostrando dados que mostrariam como a igualdade é afetada por valores absolutos. Questionei esses resultados em artigo submetido a publicação que foi recusado com o conselho de primeiro replicar os experimentos. Não gostei da resposta mas acabei fazendo replicação sistemática (Sidman, 1960) e publiquei no Brasil, em 1993 e 1998. O de 1998 está online há tempos (Todorov, Coelho e Beckert, 1998), o de 1993 está sendo colocado nas redes de pesquisadores agora:


Referências
Baum, W. M. (1974). On two types of deviation from the matching law: Bias and undermatching. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 22, 231-242.
Hanna, E. S., Blackman, D. E. & Todorov, J. C. (1992). Stimulus effects on concurrent performance in transition. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 58, 335-347.
Herrnstein, R. J. (1961). Relative and absolute strength of response as a function of frequency of reinforcement. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 4, 267-272.
Herrnstein, R. J. (1970). On the law of effect. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 13, 243-266.
Sidman, M. (1960). Tactics of scientific research: Evaluating experimental data in psychology (Vol. 5). New York: Basic Books.
Todorov, J. C. (1971). Concurrent performances: Effect of punishment contingent on the switching response. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 16, 51-62.

Todorov, J. C., Coelho, C., & Beckert, M. E. (1998). Desempenho em esquemas concorrentes independentes e cumulativos de intervalo variável. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 14, 9-13.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O nome "Método ABA" como figura de linguagem.


                Aconteceu de um analista do comportamento em organizações ser procurado por um pai de autista depois de uma palestra e ser surpreendido com a manifestação de surpresa: “Não sabia que o ‘Método ABA’ se aplica também a empresas! ”.

                Isso já acontece em algumas regiões dos Estados Unidos. O sucesso da Análise Comportamental Aplicada (ABA da sigla em inglês) no tratamento de crianças com diagnóstico de Síndrome do Espectro Autista é tal que o grande público, que não conhecia a Análise Comportamental Aplicada, tende a usar, sem o saber, uma figura de linguagem. Dá-se ao que está contido, um procedimento específico, o nome da disciplina que o contém.  Foi um recurso publicitário útil quando os trabalhos pioneiros começaram a ser conhecidos e a ACA (ou ABA, que soa melhor) já era conhecida, “Ciência e Comportamento Humano” já era encontrado em livrarias de shopping, e livros como “O que a baleia Shamu me ensinou sobre o amor e casamento” era vendido até em livrarias de aeroporto.

                Em ciência, ninguém inventa nada. Revelação é área da religião. Inovações em qualquer área dependem do estado do conhecimento na época. O nome de Lovaas é o mais associado às origens do “Metodo ABA” por seu pioneirismo e persistência, mas não inventou os princípios que fundamentaram seu procedimento.

Transcrevo aqui a tradução de Ana Arantes de um texto de James Todd sobre Lovaas e as origens de seu trabalho. Pode ser visto na íntegra no endereço

http://scienceblogs.com.br/ensaios/2010/10/memorial_a_ivar_lovaas_como_na/



“Quanto à Análise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis, ou a conhecida sigla ABA), Lovaas não a inventou. Pode-se argumentar que Skinner a inventou, ao menos conceitualmente, em seu romance de 1948, Walden Two. A contribuição especial de Lovaas foi mostrar que é possível, com a aplicação integral e intensiva de princípios da teoria da aprendizagem, tratar efetivamente, e de forma eficaz, o autismo como um todo, em um número considerável de indivíduos, ou ao menos levar melhorias substanciais para aqueles que não alcançam totalmente os benefícios do tratamento. Por “eficaz” e “substanciais” entende-se que cerca de metade das crianças submetidas às intervenções ABA obtêm desempenho dentro dos limites “normais” em certos testes padrão. Em termos práticos, isso significa que essas crianças são capazes de frequentar a escola sem apoio especial. Antes que Lovaas fizesse isso, já havia provas científicas suficientes que mostravam que a ABA podia ser utilizada efetivamente para aspectos específicos de autismo.

A ABA ainda era bastante jovem quando Lovaas usou o método pela primeira vez para tentar criar um tratamento global para o autismo, na década de 1960. Mas, antes de Lovaas, começando na década de 1950, o trabalho reconhecido como ABA foi aplicado a todos os tipos de problemas de comportamento, tipicamente em pessoas com deficiência de desenvolvimento e esquizofrenia e geralmente em laboratórios e instituições. Grandes programas dedicados à Análise Comportamental Aplicada, como o Departamento de Desenvolvimento Humano e Vida Familiar (Department of Human Development and Family Life, HDFL) da Universidade do Kansas, foram estabelecidos na década de 1960. O HDFL é hoje o Departamento de Ciências do Comportamento Aplicadas. O Journal of Applied Behavior Analysis foi fundado em 1968, quase 20 anos antes de Lovaas publicar seu artigo seminal, em 1987, “Tratamento comportamental e funcionamento educacional e intelectual normal em jovens crianças autistas” (Behavioral Treatment and Normal Educational and Intellectual Functioning in Young Autistic Children), no Journal of Consulting and Clinical Psychology. Assim, ao contrário de praticamente todos os “tratamentos” para o autismo de que temos ouvido falar, ABA não é um novo “método” esperando alguém para fazer um estudo e descobrir se ele funciona em tudo. Intervenções ABA para problemas específicos de comportamento foram baseadas diretamente em princípios descobertos e comprovados em laboratórios comportamentais. Intervenções ABA abrangentes são construídas à partir de tratamentos mais direcionados, que já demonstraram eficácia. ABA não está esperando para entrar em todas as revistas científicas, ela vem de todas as revistas científicas. A pergunta típica não é o quanto a intervenção irá funcionar – esta é a parte fácil – mas se esta pode ser efetivamente aplicada no mundo real, com todas as complicações que o mundo real traz. ”

Mas, antes de Lovaas, não havia sido estabelecida ainda a possibilidade de efetivamente tratar o autismo como um todo através da criação de um programa abrangente de intervenções ABA. Agora, o termo ABA é muitas vezes incompreendido como significando apenas o que Lovaas fez – sua “terapia de tentativa discreta”, por exemplo – mas “ABA” realmente significa muito mais. O que é ABA? Citando livremente algo que eu escrevi para uma outra finalidade, podemos definir como ABA:

“O uso sistemático de princípios de aprendizagem cientificamente estabelecidos, técnicas de condicionamento comportamental e modificações ambientais relacionadas para criar terapias baseadas em evidências, comprovadamente eficazes e humanas, com o objetivo principal de estabelecer e reforçar habilidades de vida independente, socialmente funcionais e importantes. “

Na prática, uma análise comportamental aplicada utiliza técnicas baseadas na teoria da aprendizagem para modelar comportamentos novos e importantes em indivíduos com determinados excessos ou déficits comportamentais. Intervenções realizadas por analistas do comportamento geralmente incluem os seguintes componentes:

• Uma análise baseada em dados funcionais das condições responsáveis pelo comportamento problema.

• Objetivos e metas de tratamento específicos e verificáveis.

• Um plano bem definido usando os princípios da teoria de reforço para atender as metas e objetivos.

• Uma coleta de dados contínua para mostrar que a intervenção foi realmente a responsável pelos ganhos do tratamento.

• Um plano para garantir a generalização e a manutenção dos ganhos do tratamento.

• Medidas para garantir a validade social dos objetivos e metas do tratamento, e para assegurar que todos os envolvidos possam contribuir de forma substancial e construtiva para a melhoria de suas habilidades ao máximo de sua capacidade. ”




quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Modelos experimentais de interações comportamento-ambiente: ansiedade, psicopatologia, autocontrole, etc.


                Analisar experimentalmente qualquer interação significa isolar para observação em laboratório essa interação (se possível), mantendo constantes variáveis potencialmente importantes, para identificar quais alterações possíveis naquele ambiente são importantes componentes da interação. Um modelo experimental clássico é o usado por W. K. Estes e B. F. Skinner, publicado em 1941 no Journal of Experimental Psychology:  “Some quantitative properties of anxiety”. Ratos trabalhavam em esquema de reforço positivo intermitente, mas de vez em quando um som era ligado segundos antes de um choque inevitável nas patas. No comportamento humano, ansiedade é um termo usado para descrever o comportamento em situações que sinalizam estímulos aversivos inevitáveis, mas isso não esgota o significado do termo quando aplicado a humanos. Seria mais adequado evitar o rótulo “modelo experimental de ansiedade” para o procedimento de Estes e Skinner. O procedimento estuda efeitos de estímulos associados a estimulação aversiva inevitável sobre o comportamento operante. E só. Daí para a frente entra a teoria e as interpretações que podem ser feitas, a partir de dados experimentais, observações na clínica, no ambiente natural, etc. como fez Ferster com a depressão (Ferster, 1973; veja abaixo link para o artigo).

Um problema nesta relação laboratório-clínica reside na ausência de clareza na comunicação. Muitas vezes usamos o mesmo nome para designar eventos ou processos diferentes. Em trabalho que deve ser publicado ainda este ano um conjunto de autores procura diminuir a confusão reconhecendo as diferenças entre conteúdo, processo e procedimento. Falamos de ansiedade como conteúdo quando descrevemos queixas de uma pessoa, falamos como processo quando interpretamos as observações à luz da teoria, e falamos como procedimento quando preparamos um ambiente experimental para estudar o papel de diversas possíveis variáveis importantes nesse processo.

Uma curiosidade: Ex-aluno de Skinner, Estes veio a ser um dos expoentes da Psicologia Cognitiva. 










Estes, W. K., & Skinner, B. F. (1941). Some quantitative properties of anxiety. Journal of Experimental Psychology, 29(5), 390.
Ferster, C. B. (1973). A functional analysis of depression. American Psychologist, 28(10), 857-870.


quinta-feira, 28 de maio de 2015

Felicidade é gostar de fazer aquilo que te pagam para fazer.


Que tal trabalhar até os 90 anos? Perguntaram a Alexander Rich por que não se aposentava, pois já tinha adquirido esse direito havia anos. A resposta surpreende os leigos, principalmente aqueles que acham que trabalho é castigo. Pois o homem que desenvolveu o método para conseguir o raio X da hélice dupla do DNA respondeu tranquilamente: e perder essa alegria (fun)?

Fred S. Keller aposentou-se na Columbia University aos 60 anos e começou outra carreira pela USP, depois UnB, Arizona State University, Georgetown University e Western Michigan University, e depois escolheu Chapel Hill, NC, para morar em um lugar menos frio, e lá trabalhou em sua biografia. Faleceu com 97 anos, impossibilitado de trabalhar por sua doença apenas nos últimos seis meses de vida. Grande brincalhão, dizia que tinha se aposentado aos 60 como cientista porque com essa idade a substância cinzenta do cérebro para de funcionar, mas a substância branca era suficiente para trabalhar com educação...

A notícia sobre Alexander Rich e a lembrança do Professor Keller me fizeram lembrar de um almoço em um sábado, em Ribeirão Preto, por volta de 1970. Silvia e eu fomos convidados por Clotilde e Sérgio Ferreira, ela uma doutora em psicologia e colega de departamento, ele um pesquisador já famoso em farmacologia e colega de pelada na areia das sextas feiras. Eu tinha acabado de receber um convite do SESI (ou SENAC, não me lembro) para fazer uma palestra sobre lazer destinada a seu público. Depois de rir com a ideia de que professor de psicologia com PhD deveria saber de tudo acabamos concluindo, depois de comparar os significados de trabalho e de lazer, que realmente não estávamos sendo pagos pela USP para trabalhar; nos pagavam para fazer aquilo que mais gostávamos de fazer: pesquisar e descobrir relações.

Que fique entre nós essa brilhante conclusão, antes que os Cid Gomes, os Requiões, os Alckimins, descubram isso e cortem nosso salário. Desconfio que o Janine já sabe, pois é do ramo, mas se esforça para que o governo não descubra...

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

AINDA SOBRE ANIMAIS USADOS EM PESQUISA

Transcrevo texto de especialista a mim enviado pela internet:




https://mail.google.com/mail/ca/u/0/images/cleardot.gif
Texto de Rogério Pietro Mazzantini
Como profissional da área de saúde com experiência em pesquisa, sinto-me na obrigação de esclarecer alguns aspectos dos testes realizados em modelos animais, especialmente porque a falta de informação pode levar a conclusões enganosas.

A legislação brasileira não permite testes de medicamentos e cosméticos em animais, ela os EXIGE. E é assim na maioria dos países desenvolvidos.

O caso da “geração talidomida” no final dos anos 50 é um bom exemplo para entender o motivo da existência de testes em animais. A talidomida é um medicamento lançado na Alemanha com indicação para combater o enjoo em mulheres grávidas. Naquele tempo, os testes em seres vivos eram pouco rigorosos, por isso a talidomida não foi testada em animais durante a gravidez. Como resultado, milhares de mães que usaram o medicamento enquanto esperavam bebês deram à luz crianças sem pernas e/ou braços, daí o nome de focomelia (de foca) para aquele tipo de deformidade. Mais de 10 mil crianças foram afetadas.

Para impedir ou reduzir os riscos de que casos assim se repitam, são usados modelos animais controlados por Comitês de Ética em Pesquisa Animal.

Nenhum medicamento ou cosmético pode ser comercializado sem que antes passe por estudos de diversas fases, sendo as primeiras em animais e, depois de constatada uma relativa segurança, em humanos.

Por isso, essas listas de empresas que “não usam animais para testes” só podem ser lamentadas. TODO cosmético ou medicamento industrializado passou por testes em animais, nem que tenham sido feitos em empresas terceirizadas em outros países apenas na fase inicial de pesquisa. Do contrário, não estariam no mercado.

Assim, por pura coerência, os ativistas de defesa dos animais talvez pudessem repensar o uso que eles fazem de cosméticos, maquiagens, batons, cremes de barbear, xampus, protetores solares, pastas de dente etc. Além disso, se eles realmente querem boicotar empresas que usam animais para testes, poderiam começar deixando de tomar qualquer tipo de remédio registrado, inclusive todas as vacinas, como BCG, tétano, sarampo, meningite, poliomielite etc.

Maus tratos a animais devem ser denunciados e PROVADOS, lembrando que foto em rede social não prova nada. A legislação é muito mais rigorosa com isso do que com maus tratos a crianças...

A informação é esta. O que cada um vai fazer com ela, vai da própria consciência.


USO DE ANIMAIS EM PESQUISA E ENSINO E HIPOCRISIAS

Venho usando animais em pesquisas há quase 50 anos. Meu primeiro rato não tinha nome, a tarefa era obrigatória em disciplina obrigatória e eu já estava estagiando no que me interessava, organizações. Mas o rato sem nome e eu nos demos tão bem que fui convidado para monitor da disciplina, seguido por um convite para ser instrutor na nova Universidade de Brasília.
         Ainda na USP batizei meu segundo rato de Brasilino. Estava preparando um encadeamento de 22 passos para uma demonstração para alunos da UnB. O Brasilino e seu equipamento seriam levados para Brasília no primeiro semestre de 1963, mas como sempre acontece nossa mudança só ocorreu em maio de 1964. Em um mês o novo rato, Brasilino II, foi preparado para uma exibição na reunião de Ribeirão Preto da SBPC. Viajamos juntos de Brasília para Ribeirão, ida e volta, o Brasilino II levando  seu equipamento para exibições públicas. Os Brasilinos I e II ajudaram a introduzir a Análise do Comportamento no Brasil.
         Trabalhei muito com pombos e ratos em pesquisas que são citadas até hoje, em áreas como comportamento e contexto (comportamento é escolha, escolha é comportamento), generalidade das leis da aprendizagem ( a priori nenhuma aprendizagem é impossível) e parâmetros de estimulação aversiva (que até hoje servem para balizar o uso ético em pesquisas). São pesquisas básicas que subsidiam o desenvolvimento de estratégias para os trabalhos aplicados aos problemas humanos. Só negam essa importância aqueles que não aceitam a continuidade de processos comportamentais na escala evolutiva; os criacionistas, por exemplo.
         Por outro lado, há analistas do comportamento que são contrários ao uso de animais no ensino. Provavelmente são os que usam estratégias, métodos e técnicas sem saber como se desenvolve a teoria, e os que trabalham em instituições que não estão dispostas a investir em equipamento e custeio. Esses professores, quando vão a congressos, costumam ser assediados pelos donos e vendedores de softwares que substituem os ratos vivos por ratos virtuais. Para fins de ensino, é o equivalente aos cursos que ensinam estudantes de enfermagem a dar injeção em laranjas.
         A intenção de evitar sofrimento desnecessário aos animais é louvável, por isso temos os comitês de ética na pesquisa para examinar projetos. Só não vale hipocrisia. Nem acusar os colegas de torturadores hipócritas. Comer bife ou frango assado sem se preocupar com as condições de criação e de matadouros e abatedouros e reclamar do uso de animais em pesquisa e ensino é hipocrisia. E comer baby beef e vitela é apoiar o infanticídio...

 

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O QUE É TEORIA E O QUE NÃO É EM ANÁLISE DO COMPORTAMENTO.

A linguagem teórica da analise do comportamento é o cimento que une todos os tipos de atividades compreendidas sob essa rubrica, marca, ou o que seja. A análise do comportamento tem alguns pontos muito distintos de outros que prosperam na psicologia, como pesquisas de laboratório animal com análise experimental do comportamento de indivíduos (n = 1) – mas não é apenas análise experimental do comportamento de indivíduos, nem no laboratório, nem no consultório clínico. Sua marca mais distinta é sua linguagem teórica.

Experimentação com n = 1 é a grande contribuição de Skinner para a psicologia experimental dos anos 30 do século passado. Trouxe de seus estágios nos principais laboratórios de biologia de Harvard. Junto com a taxa de respostas por unidade de tempo e os esquemas de reforço intermitente, forma o trio de ouro de Skinner.

Mas nem ele ficou só na análise experimental do comportamento de organismos individuais (n = 1). Principalmente Skinner logo de início em Ciência e Comportamento Humano mostrou como se pode avançar analisando exemplos da vida diária à luz da teoria. E é essa teoria, que começa a ser desenvolvida em O Comportamento dos Organismos (1938) e continua sendo desenvolvida até hoje, e continuará a ser desenvolvida pela futuras gerações, que faz a conexão entre os diferentes campos de atuação da análise do comportamento: pesquisa básica, pesquisa aplicada, atuação profissional, análise funcional, análise conceitual, etc.

Não concordo com classificações da análise do comportamento que parecem existir para justificar erros do passado. Um triângulo com teoria em uma ponta, pesquisa básica no outro, e pesquisa aplicada no terceiro, com comunicação de mão dupla em tudo, é um desses erros que parece existir para justificar decisões tomadas no passado longínquo e que nos atrapalham até hoje. Atrapalham mas parece ser tabu falar disso. Vejo um V invertido, com a teoria acima, no vértice, que se comunica em mão dupla com os dois lados, o da pesquisa e o da atuação profissional. Não há comunicação entre pesquisa e atuação profissional a não ser via vértice, a teoria. Da mesma forma a atuação profissional alimenta a pesquisa via teoria.

Vamos aos erros do meu ponto de vista.

# 1 – Ficar só no periódico Journal of the Experimental Analysis of Behavior de início (1958). Ele era necessário para fugir da ditadura estatística do Journal of Experimental Psychology – o periódico experimental de maior prestígio da época - mas se fosse mais geral seria melhor, pois seria lido por todos e provavelmente teria promovido um desenvolvimento mais harmônico da análise do comportamento. O título e as normas para publicação ajudaram a montar uma barreira para os de fora em lugar de apenas proteger os de dentro.

# 2 – Criar o Journal of Applied Behavior Analysis (1968) como uma extensão do Journal of the Experimental Analysis of Behavior, para não ter que continuar publicando provas de que o reforçador reforça. As normas para publicação continuaram praticamente as mesmas, com adendos sobre importância prática e relevância social. Mas continuamos só com análise experimental do comportamento de indivíduos (n=1).

# 3 – Achar que com isso a análise do comportamento estava logicamente dividida em dois – pesquisa básica e análise aplicada, sempre com n = 1. Essa foi uma divisão de poder entre o JEAB o JABA, os modificadores do comportamento dos anos 60. Donald Baer ditou um conjunto de regras que tornou distintos os trabalhos do JABA. Os dois grupos quase não se misturam até hoje.. Por isso não gosto das classificações da análise do comportamento existentes. Não é por ai.

# 4 – A maior parte dos escritos de Skinner a partir dos anos 60 é muito política. Só um pequeno grupo que se identifica como Behaviorists for Social Responsibility continua esse trabalho, e para publicar foi necessário criar outra revista, atualmente intitulada Behavior and Social Issues. Essas divisões do grupo nos deixam muito frágeis aos ataques que sofremos vindo de esquerda, centro, direita, etc.

# 5 - Ignorar o resto da psicologia ou fazer de conta que análise do comportamento é outra ciência. Ao fazer isso perdemos uma oportunidade única. Ninguém mais tem como campo de ação tudo o que é coberto pelas chamadas ciências do comportamento, incluindo toda a psicologia, pois para nós onde houver comportamento, estaremos lá.