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terça-feira, 11 de setembro de 2018

De onde vem o “Eu” de Skinner?



De onde vem o “Eu” de Skinner?
Da filosofia e da literatura, como por exemplo de textos como os dois a seguir. Um exemplo de como na psicologia os processos não são´inventados, são descobertos. Várias abordagens podem se dedicar a estudar um mesmo processo usando pressupostos, ferramentas e linguagens diferentes. Uma Análise do Comportamento que define comportamento como a interação Organismo-Ambiente é incompatível com o tratamento dado por Skinner à personalidade como um sistema organizado de respostas, pois isso significaria apenas um sistema por organismo. Estudamos interações comportamento-ambiente e relações condicionais. 

João Carlos Firmino Andrade de Carvalho, “Cultura e Literatura: Intervenções”. Lisboa: CLEPUL, 2018.

“Reflectir sobre as representações da figura do Estrangeiro conduz-nos, quase necessariamente, a uma abordagem da problemática da identidade e da alteridade, das relações e limites equacionáveis entre o Mesmo e o Outro. O Estrangeiro (ou o Outro) teve várias configurações, em termos espacio-temporais: o Bárbaro, para os gregos da Antiguidade; o Forasteiro, para as sociedades tradicionais (não necessariamente primitivas); o Inimigo ou o Mal / o Demoníaco, para a Cristandade; o Eremita ou o Peregrino, para os mais dados ao convívio humano ou para os menos inclinados para as coisas do espírito; o Diferente / Exótico, para a era moderna inaugurada pelos Descobrimentos; o viajante europeu Cosmopolita, para as sociedades fechadas sobre si mesmas; o Libertino, para a moral conservadora; o Exilado e o Desenraizado (lembremo-nos de O Estrangeiro de Albert Camus, 1942); o Imigrante, para as sociedades europeias modernas e pós-modernas, etc. A problemática do Estrangeiro requer que reconheçamos dois planos: o plano da alteridade exterior (ou seja, o plano do “Nós e os Outros”, título de um célebre livro de Tzvetan Todorov [Todorov, 1989]) e o plano da alteridade interior (ou seja, o plano do “Je est un autre” de Arthur Rimbaud ou o do “Étrangers à nous-mêmes”, título do não menos célebre livro de Julia Kristeva [Kristeva, 1988], ou ainda o do Inconsciente de Freud). Estes dois planos, porém, não são estanques, como bem sabemos. “
Todorov, T. (1993). Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Tradução de S. G. de Paulo. Rio de janeiro: Zahar.

Todorov, T. (1989). A conquista da América.  A Questão do Outro. Tradução de Beatriz Perrone Moi. São Paulo: Martins Fontes 2ª edição.
https://s3.amazonaws.com/academia.edu.documents/33775623/A_conquista_da_America_A_Questao_do_Outro_-_Tzvetan_Todorov.pdf?AWSAccessKeyId=AKIAIWOWYYGZ2Y53UL3A&Expires=1536678573&Si
gnature=wmuLSutmPbusuI%2BTLJg9mIU6R4Y%3D&response-content-disposition=inline%3B%20filename%3DA_conquista_da_America_A_Questao_do_Outr.pdf


“Quero falar da descoberta que o eu faz do outro, o assunto é imenso. Mal acabamos de formulá-lo em linhas gerais já o vemos subdividir-se em categorias e direções múltiplas, infinitas. Podem-se descobrir os outros em si mesmo, e perceber que não se é uma substância homogênea, e radicalmente diferente de tudo o que não é si mesmo; eu é um outro. Mas cada um dos outros é um eu também, sujeito como eu. Somente meu ponto de vista, segundo o qual todos estão lá e eu estou só aqui, pode realmente separá-los e distingui-los de mim. Posso conceber os outros como uma abstração, como uma instância da configuração psíquica de todo indivíduo, como o Outro, outro ou outrem em relação a mim. Ou então como um grupo social concreto ao qual nós não pertencemos. Este grupo, por sua vez, pode estar contido numa sociedade: as mulheres para os homens, os ricos para os pobres, os loucos para os "normais ". Ou pode ser exterior a ela, uma outra sociedade que, dependendo do caso, será próxima ou longínqua: seres que em tudo se aproximam de nós, no plano cultural, moral e histórico, ou desconhecidos, estrangeiros cuja língua e costumes não compreendo, tão estrangeiros que chego a hesitar em reconhecer que pertencemos a uma mesma espécie. “

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O governo como agência de controle (no sentido skinneriano).


                O conjunto de relações condicionais que regulam as interações comportamentais em uma sociedade caracteriza sua cultura. Essas relações condicionais podem abarcar a sociedade como um todo ou partes da sociedade, e são elas mesmas reguladas por agências de controle, especializadas por tipo de interação ou por vários outros critérios de desempenho:

1.       A família é a agência encarregada dos relacionamentos pais/filhos, e atua primariamente na construção de repertórios dos jovens que garantam sua inserção na sociedade quando adultos.

2.       A escola continua o trabalho de socialização iniciada pela família e deve preparar os jovens para o trabalho e para o convívio harmonioso na sociedade.

3.       Os grupos de amigos também funcionam como agências de controle, comunidades verbais selecionadoras de práticas culturais.

4.       A religião contribui para a estabilidade das relações comportamentais principalmente pelo uso do comportamento verbal, palavras que adquirem o poder de reforçar ou punir comportamentos pelo emparelhamento com promessas baseadas em fé.

5.       Os processos psicoterápicos são necessários, e funcionam como agências de controle, sempre que os controles exercidos por outras agências são excessivos ou inconsistentes (Skinner, 1953, cap. XXIV).

6.       Governos são as maiores agências de controle em todas as sociedades, com o papel de regular a ação de todas as outras agências, da maneira como os pais tratam os filhos,  o que deve ser ensinado nas escolas, e até onde pode ir o controle exercido pelas igrejas e como deve atuar o profissional psicoterapeuta.



A origem do poder de reforçar e punir.



Práticas culturais são mantidas por contingências sociais que prevalecem em um determinado grupo, sociedade ou organização. Adquirimos comportamentos que serão mantidos por contingências sociais por meio de interações que envolvem agências controladoras, como a família, por exemplo. É um processo tão longo e tão suave que o controle por consequências não é facilmente percebido.

       Você não escolheu nascer, mas mesmo assim é premiado pela escolha: a espécie humana te dá um repertório inicial. Sugar o seio materno é o primeiro exemplo de comportamento reflexo que se transforma em operante. É também um primeiro exemplo de interação mantida por benefício mútuo. Se o bebê não suga, a mãe sofre com o acúmulo de leite na mama; se a mãe não tem leite o bebê sofre com a fome.  Nenhuma interação social permanece sem coerção se não for mutuamente satisfatória.

       Qualquer forma de coerção é ruim. Os subprodutos desse tipo de controle são indesejáveis para o convívio sadio entre pessoas. Coerção sempre gera propensão para fuga do assunto, da pessoa, do lugar, etc., e esquiva de oportunidades futuras de situações coercitivas.

       Crianças são educadas de acordo com os padrões de uma cultura. Adquirem repertórios mantidos por contingências sociais por meio de interações com a mãe, cuidadores, família, e agências controladoras como a escola e a igreja.  É um processo longo que normalmente respeita o desenvolvimento biológico da criança. O controle pode ser tão sutil a ponto de não ser facilmente percebido. O estresse associado a cada nova aprendizagem modelada por contingências sociais se dilui ao longo de anos ou décadas. O caráter aversivo do controle por consequências se torna parte da vida.

       Um exemplo extremo da sutileza do controle social de hábitos e costumes é relatado por Elias (1939/1994), a propósito do casamento de um doge de Veneza com uma princesa grega. A princesa usava um pequeno garfo de ouro com dois dentes para comer, para escândalo dos venezianos, que comiam com as mãos. Foi severamente repreendida pelas autoridades, que invocaram a ira divina.



O grupo exerce um controle ético sobre cada um de seus membros através, principalmente, de seu poder de reforçar ou punir.” ... “Talvez o mais óbvio tipo de agência empenhada no controle do comportamento humano seja o governo. Os estudos tradicionais de ciência política lidam com a história e as propriedades dos governos, com vários tipos de estrutura governamental, e com as teorias e princípios que têm sido oferecidos para justificar as práticas governamentais. ... Temos que examinar o comportamento resultante no governado e o efeito desse comportamento que explica porque a agência continua a controlar.”  (Skinner, 1953/2003, Cap. XXII).





BIBLIOGRAFIA

Elias, N. (1939/1994). O processo civilizador. Volume1, A história dos costumes. Tradução de R. Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e comportamento humano. Tradução de J. C. Todorov e R. Azzi. São Paulo: Martins Fontes. 







quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Agências de controle como estruturas de poder.

Um bom exercício para os alunos de análise do comportamento: as relações entre os conceitos de “agência de controle” e de “estruturas de poder erigidas para reprimir e domesticar”.

E entre as frases

 “as regras da cultura são descobertas pela observação de relações condicionais entre antecedentes, comportamento e consequências”
 e
“A ordem é ao mesmo tempo aquilo que se oferece nas coisas como sua lei interior, a rede secreta segundo a qual elas se olham de algum modo umas às outras e aquilo que só existe através do crivo de um olhar, de uma atenção, de uma linguagem; e é somente nas casas brancas desse quadriculado que ela se manifesta em profundidade como já presente, esperando em silêncio o momento de ser enunciada. ”
FOUCAULT, M., As palavras e as coisas. Trad. S. T. Muchail, São Paulo: Martins Fontes, 2002. P. XVI


“Naqueles dias, estava terminando de ler um dos amenos e sofísticos ensaios de Michel Foucault em que, com seu brilhantismo habitual, o filósofo francês afirmava que, assim como a sexualidade, a psiquiatria, a religião, a justiça e a linguagem, o ensino sempre fora, no mundo ocidental, uma das “estruturas de poder” erigidas para reprimir e domesticar o corpo social, instalando sutis mas eficazes formas de sujeição e alienação, a fim de garantir a perpetuação dos privilégios e o controle do poder dos grupos sociais dominantes.”



O conceito de rede de relações entre os membros do grupo é mais antigo que qualquer abordagem na psicologia ou nas ciências sociais. Um texto de cerca de 1600 é muito conhecido, de John Donne.



http://jctodorov.blogspot.com.br/2017/04/nao-pergunte-por-quem-os-sinos-dobram.html


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O "comportamento" das Agências de Controle também é selecionado pelas consequências desse controle.

O "comportamento" das Agências de Controle também é selecionado pelas consequências desse controle.

              Donald Trump quer deportar para seus países de origem imigrantes ilegais que chegaram aos Estados Unidos quando eram crianças, trazidos por seus pais e educados nos Estado Unidos. Deportar para onde? Para o país de seus pais? Não é seu país, não foram educados lá, sabem de cor o hino nacional americano, juram a bandeira de treze listras. Mas hipocritamente os adeptos da supremacia branca argumentam que a lei é essa, devem ser deportados porque são imigrantes ilegais. O jornalista David Leonhardt, no New York Times, mostra a falácia desse argumento. Seria simplesmente impossível para o Estado fazer cumprir sempre todas as leis. Há uma relação custo-benefício a ser considerada. No caso dos jovens americanos de origem latino-americana o custo do sofrimento humano seria enorme, incomensurável.

Na visão da Análise do Comportamento as interações na sociedade são reguladas por vários tipos de Agência de Controle, cada uma encarregada de certos tipos de relações condicionais. As interações melhor acompanhadas são aquelas nas quais as transgressões são apontadas de imediato pelos próprios envolvidos, como é o caso das refeições em família – comer de boca aberta é punido no ato pelos demais participantes da mesa. Quando o controle depende de agências formais, como o Poder Judiciário, entra em cena a relação custo-benefício. Segundo pesquisas da Economia a corrupção na sociedade envolve um custo tal para o Estado que não há como se prever sua erradicação; a corrupção pode ser controlada, mas nunca será extinta.

              O que fazer quando o controle direto pela Agência, como a religião, por exemplo, nem sempre, ou quase nunca, é possível? Internar o controle via regras. Não funciona muito bem, mas dá ao Agente a noção de que está fazendo o que deve ser feito. Só quem foi aluno de escola maternal da igreja sabe o que é ter medo do indizível, do perigo dos “maus pensamentos”. A crença no poder regulador dessas regras e valores não existe apenas na educação e na religião (e por consequência na família). Li também no jornal de hoje, o Correio Braziliense, que o Exército Brasileiro está preocupado com os militares temporários, que servem um máximo de oito anos e depois têm dificuldade de serem aproveitados em empregos do mercado. Muitos são tentados pelas gangues criminosas que assolam o país, cobiçados exatamente pelas habilidades que o Exército ensinou.  Eis o que o jornal publicou sobre o que o exército faz para prevenir a adesão às gangues:

              “Valores. De acordo com o Exército Brasileiro, durante o ano de serviço militar obrigatório, e nas escolas militares, são ensinados valores para afastar os integrantes da força do mundo do crime. Com foco em sua formação, são desenvolvidas atividades que incentivam o patriotismo, civismo, amor à pátria, solidariedade, entusiasmo, determinação e confiança. Para a vida civil, após deixar o Exército Brasileiro, são destacadas ações que valorizam a honestidade, apego à verdade, disciplina, respeito aos superiores e às autoridades, dedicação, probidade, lealdade e cumprimento às leis. ”

              Regras, auto regras e valores transmitidos via comportamento verbal, são eficazes enquanto não contrastam com contingencias do ambiente no presente. Seria mais eficaz se o exército primeiro treinasse o soldado para exercer funções com demanda no mercado e só o desligasse depois de passar por fase de experiência no emprego civil. 


              Voltando à “desamericanização” dos latinos, grande objetivo dos supremacistas da raça branca: o absurdo é tão grande que os netos e bisnetos de imigrantes legais e ilegais provavelmente não vão permitir que aconteça.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Definição de ambiente acolhedor a partir das exigências das contingências e metacontingências em vigor na comunidade


Ambiente acolhedor foi uma expressão usada por Anthony Biglan em seu livro “The nurture effect – how the science of human behavior can improve our lives & our world” (Biglan, 2015). As pessoas tornam-se membros bem adequados à Sociedade quando vivem em ambientes que favorecem o desenvolvimento de comportamentos sociais positivos. Um ambiente acolhedor é o ambiente preparado para reforçar comportamentos de interesse da pessoa e do grupo. Um ambiente no qual as interações ocorrem com um mínimo de controle aversivo.

Em situações nas quais são necessárias mudanças em larga escala de práticas culturais, como naquelas que caracterizam os programas de transferência condicionada de renda, como o Programa Bolsa Família, há que se cuidar do ambiente em que vivem e viverão as pessoas que recebem os benefícios condicionais. Pois a verba do povo utilizada no programa não resultará nos objetivos propostos se depois de anos recebendo atenção à saúde e frequentando a escola com sucesso hão houver emprego adequado quando completa 18 anos e o Ensino Médio. Nem a família como um todo deixará o programa se o ambiente que promoveu a miséria não melhorar. Criar repertório sem abrir postos de trabalho é um dos maiores crimes da burocracia no serviço público.

Esses programas, e são vários, não deveriam ser considerados programas de governo – proibido ser associado ao selo do governo Zeca Promessa – mas programas de estado, permanentes, sob constante monitoramento de Agências de Controle específicas, não governamentais.

Governos anteriores deixaram planos de incentivo ao desenvolvimento de cerca de 20 microrregiões econômicas no país. Vale a pena descobrir onde estão e o que podemos dizer sobre eles.

Biglan, A. (2015). The nurture effect – how the science of human behavior can improve our lives & our world. Oakland, CA: New Harbinger Publications, Inc.





quinta-feira, 22 de junho de 2017

Roberta Lemos fala da sua história e atuação como analista do comportamento em Políticas Públicas

PUBLICADA NO BOLETIM CONTEXTO:

1 – Que eventos foram relevantes para o seu interesse e sua opção pela Análise do Comportamento?
Quando ingressei na faculdade de Psicologia, vi, na análise do comportamento, a ciência que poderia me ajudar a trabalhar na área esportiva que era o que me interessava. A concepção de homem e de mundo expressas no sistema explicativo elaborado por Skinner, parecia melhor descrever o modo como eu observava as relações humanas.
2 – Você é Bacharel em Esporte pela USP (2004) e Psicóloga pela PUC-SP (2005). A sua dissertação de mestrado (2008) parece ter sido influenciada por suas duas formações. Àquela época, você planejava um futuro profissional que conciliasse Análise do Comportamento e Esporte? E atualmente?
É verdade. Na minha dissertação, trabalhei com comportamento de observação de jogadores de handebol de alto nível, sob orientação da Prof. Teia, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento da PUC-SP. Naquela época, eu tinha planos de continuar atuando na interface do Esporte com a Psicologia. Trabalhava já em alguns projetos sociais que utilizavam o esporte como linguagem para promover educação não formal. Atualmente, o projeto de trabalhar com esporte está guardado, mas vejo como uma possibilidade o trabalho com Políticas Públicas de Esporte no futuro.
3 – Como e quando surgiu seu interesse por Práticas Culturais e Políticas Públicas?
Foi por meio do esporte que tive contato com um público bastante específico e destinatário de diversas políticas sociais. Na época, trabalhava com adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa  em meio aberto que é público abarcado pelo Sistema Único de Assistência Social. Foi trabalhando com esse público que percebi a prevalência de padrões de comportamento, de algum modo, prejudiciais aos membros do grupo, que eram mantidos por contingências sociais. Naquele momento, entendi o potencial do Estado para promover intervenções em larga escala que pudessem beneficiar um grande número de pessoas e alterar padrões comportamentais. Depois disso, revisitei meus planos profissionais e comecei a investir no trabalho com Políticas Públicas.
4 – Como foi o percurso profissional entre seu mestrado e o cargo que você ocupa atualmente no Ministério?
Em 2008,  defendi a dissertação de mestrado. Naquela época, já trabalhava no Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Interlagos. No mesmo ano, tive a oportunidade de prestar uma consultoria para o Governo do Estado do Acre e, logo depois, fui convidada para colaborar com a elaboração do sistema de monitoramento e avaliação do Sistema Socioeducativo do Estado.  Mudei para Rio Branco, onde vivi em 2010. Foi nessa oportunidade que vivi a experiência de trabalhar com Políticas Públicas por dentro do Poder Público. Antes disso, eu só havia trabalhado em organizações da sociedade civil que atuavam na defesa de direitos e no controle social. Depois disso, decidi que era a partir desse lugar que queria intervir. Em 2011, passei um tempo em São Paulo, onde prestei algumas consultorias relacionadas à construção de Planos Municipais e atuei como Conselheira no Conselho Regional de Psicologia. No final do ano, mudei para Brasília, para trabalhar no Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte e estudar para concurso. Depois de seis meses estudando, passei no concurso para Analista Técnico de Políticas Sociais e fui lotada no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
5 – Quais são as atribuições do seu cargo atual? Como sua formação em Análise do Comportamento auxilia nas suas atividades?
A carreira de Desenvolvimento de Políticas Sociais foi criada pela Lei nº 12.094, de 19 de novembro de 2009. Nossas atribuições estão definidas no artigo 3° dessa lei, das quais eu destacaria, em resumo: executar atividades de assistência técnica, aferir seus resultados, proceder à análise e avaliação dos dados obtidos em projetos e programas e colaborar na definição de estratégias de execução das atividades de controle e avaliação nas áreas de saúde, previdência, emprego e renda, segurança pública, desenvolvimento urbano, segurança alimentar, assistência social, educação, cultura, cidadania, direitos humanos e proteção à infância, à juventude, ao portador de necessidades especiais, ao idoso e ao indígena. Quando falamos em acesso à políticas sociais, falamos sobretudo de comportamento humano. Para que o Estado cumpra o seu dever de ofertar serviços e programas para a população nessas áreas, precisamos entender, primeiramente, quais são as variáveis que controlam os comportamentos de aderir a um tratamento de saúde, de freqüentar a escola ou de proteger os recursos naturais, por exemplo. Esse conhecimento é imprescindível para que se possa planejar ações eficazes e com melhor custo benefício. Atualmente,  trabalho na Secretaria Executiva do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais, instituído pelo Decreto 8750, de 9 de maio de 2016, que é uma instância consultiva de participação composta por governo e sociedade civil. Sua função primordial é promover o desenvolvimento sustentável dos povos e comunidades tradicionais, com especial atenção para a proposição de medidas para a implementação, o acompanhamento e a avaliação de políticas relevantes, respeitando sua autonomia, seus territórios, suas formas de organização, seus modos de vida peculiares e seus saberes e fazeres tradicionais e ancestrais. É nesse contexto que minha formação em Análise do Comportamento direciona a minha atuação.  
6 – O seu projeto de doutorado abarca o Programa Bolsa Família. Quais são os objetivos do projeto? Já tem algum resultado preliminar?
No projeto de doutorado, sob supervisão do Prof. João Cláudio Todorov, pretendo demonstrar como é possível a atuação de um Analista do Comportamento em Políticas Públicas. Para isso, escolhi trabalhar com o Programa Bolsa Família, um programa de transferência de renda condicionada, instituído pela Lei 10.836, de 9 de janeiro de 2004. Assim, o objetivo principal do projeto é demonstrar a possibilidade de formulação, implementação e avaliação de intervenção em larga escala por meio de política pública local, baseada em princípios comportamentais. Inicialmente, tratei de entender como está desenhado o programa e analisar alguns de seus resultados. Observei que o comportamento de jovens de 16 e 17 anos de freqüentar a escola é selecionado pelas conseqüências do programa com menor sucesso. Como experimento, proponho a introdução de relação condicional complementar que envolve o estabelecimento de contrato de aprendizagem, conforme regulamentado na Lei 10.097, de 19 de dezembro de 2000, sobre o comportamento de ir à escola em jovens de 16 e 17 anos contemplados com o Benefício Variável Jovem do Programa Bolsa Família. Vale lembrar que, para estabelecer um contrato de aprendizagem, é necessário que o jovem esteja matriculado e freqüentando a escola. É nesse sentido que entendemos que essa pode ser uma relação condicional complementar àquela já estabelecida pelo Programa Bolsa Família. Estamos implementando uma linha de base múltipla com intervenção em três fases com dois municípios em cada. A idéia é verificar a possibilidade de alteração do efeito social acumulado (taxas de abandono e evasão escolar municipais) por meio da alteração em contingências individuais em larga escala. Para operacionalizar a introdução da relação condicional complementar, é necessário estabelecer uma metacontingência de apoio como padrão de articulação municipal para garantia do direito à profissionalização e à proteção no trabalho e do direito à educação a adolescentes. São parceiros do projeto o Projeto Aprendizagem da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Estado de São Paulo, o SENAC e as respectivas prefeituras. Até agora, o projeto foi implementado em Atibaia e Franca (primeira fase) e Batatais e Lins (segunda fase). Estamos em plena análise de dados da primeira fase, coletando os dados da segunda fase e iniciando a implementação da terceira fase.
7 – Você, seu orientador, Prof. Dr. João Cláudio Todorov, e a mestranda Bruna França estão conduzindo o Projeto PORVIR. Quais os objetivos do projeto? Como ele se relaciona com sua tese e com seu trabalho no Ministério?
O Projeto Porvir é exatamente a proposta que utilizamos para apresentar a pesquisa nos municípios. Para garantir um caráter institucional, construímos um site www.projetoporvir.com.br, por meio do qual é possível promover o encontro entre o empregador que precisa contratar e jovem que quer se candidatar às vagas. Os empregadores podem criar um perfil da empresa, buscar currículos de candidatos no seu município e anunciar suas vagas. Os candidatos, selecionados pela prefeitura, podem cadastrar um perfil, montar seu currículo e se candidatar às vagas. Uma novidade para a segunda fase da pesquisa, é que os candidatos também podem realizar cursos online na Escola Porvir, que possuem conteúdos específicos sobre aprendizagem, processos seletivos e outros relacionados. A idéia é que os jovens possam se capacitar ainda mais antes de participarem dos processos seletivos. Para promover a adesão aos cursos, há toda uma estrutura de pontos e selos utilizados para organizar um ranking dos perfis, que funcionam como conseqüências imediatas. Em todos os municípios, temos trabalhado com os auditores do Ministério do Trabalho que fiscalizam se as empresas estão cumprindo sua obrigação legal de contratação, o SENAC que oferta os cursos de aprendizagem e a Secretaria de Assistência Social ou equivalente que tem por competência acompanhar as famílias em descumprimento das condicionalidades relacionadas ao Programa Bolsa Família. Depois de alguns meses de articulação e definição das ações de todos os envolvidos, promovemos um evento para apresentar o Projeto Porvir e o banco de currículos do município para as empresas.
8 – Qual a relação entre o seu projeto de doutorado e seu cargo de Analista Técnica? O plano de carreira do Ministério prevê esse tipo de qualificação específica?
A proposta de intervenção do Projeto Porvir é uma solução que pode ser implementada pelos municípios como complementar ao Programa Bolsa Família. Não há qualquer custo para os atores envolvidos, uma vez que não propomos novas atribuições, mas a ação articulada dos órgãos daquilo que já executam de forma focalizada em um público específico. Penso que é atribuição do Analista Técnico em Políticas Sociais encontrar e sugerir esse tipo de solução em Políticas Públicas. Embora eu não esteja trabalhando diretamente na área que implementa o Programa Bolsa Família, tenho dialogado bastante sobre sua viabilidade dentro do Ministério.  A carreira ainda é nova e não há qualquer conseqüência direta para quem tem pós-graduação, embora seja uma das pautas da associação. No entanto, há regulamentação específica que permite ao servidor se ausentar ou adequar seu horário para fazer o curso.
9 – Na sua opinião, que métodos de pesquisa devem ser mais explorados por analistas do comportamento que queiram produzir conhecimento para intervenção em práticas culturais de larga escala?
Embora os delineamentos entre grupos sejam hoje largamente utilizados na produção de conhecimento em Políticas Públicas, penso que devemos insistir no potencial dos delineamentos de sujeito único característicos da pesquisa experimental em Análise do Comportamento. A necessidade de realizar medidas repetidas, por si só, já se apresenta como uma vantagem para averiguar a mudança do comportamento de membros de uma comunidade ao longo do tempo. Entre os delineamentos possíveis, gosto, particularmente, da linha de base múltipla entre comunidades ou municípios. Por meio dele é possível ter diferentes comunidades ou municípios em condição controle enquanto outros estão sob efeitos da variável independente, o que nos permite avaliar se as alterações na variável dependente são efeitos da intervenção . Além disso, no caso de políticas públicas que pretendem garantir direitos à população, é uma vantagem não precisar realizar a reversão para demonstrar os efeitos da intervenção. Não parece adequado suspender uma intervenção que pode estar beneficiando uma comunidade, por exemplo. Para o pesquisador, não precisar realizar mais de uma intervenção ao mesmo tempo pode ser uma vantagem, uma vez que a implementação de um projeto em um município, por exemplo, pode demandar um grande investimento de tempo.
10 – Que recomendações você daria ao jovem analista do comportamento que pretende trabalhar com Políticas Públicas? Quais referências bibliográficas você indica?
Minha principal recomendação é “mostrar a cara”, ir nos lugares e conversar com os atores que atuam na formulação, implementação e avaliação das Políticas Públicas, seja no Executivo ou no Legislativo, e com seus beneficiários. Acho imprescindível conhecer os meandros da política, antes de planejar qualquer intervenção. Não há nada de tão complicado ou inacessível. Especialmente no âmbito municipal, vejo muitas vezes os atores bastante receptivos a novas idéias. Se o desejo for assumir um cargo como servidor público, recomendo escolher uma carreira de analista ou gestor que permita uma atuação direcionada às políticas sociais. Para quem está tateando a área, indico a “Coletânea de Políticas Públicas”da Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), que traz capítulos específicos sobre o ciclo de políticas públicas, os espaços de tomada de decisão e os atores envolvidos, o livro “The Nurture Effect”, do Anthony Biglan, que traz recomendações interessantes aos gestores públicos ao final de cada capítulo e o livro “Finding Solutions do Social Problems” do Mark Mattaini e Bruce Thyer com capítulos específicos sobre mudanças em padrões de comportamento em membros de comunidades.
11 – Você acredita que em algum momento o governo do Brasil adotará uma política baseada em evidências, nos moldes das equipes de ciências comportamentais e sociais adotadas em outros países?

A elaboração de políticas baseadas em evidências é uma tendência cada vez mais abarcada pelos órgãos do Executivo. Há, inclusive, órgão criados especialmente para isso, como é o caso da Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação no Ministério onde trabalho. No entanto, vejo ainda muito pouco a utilização de pesquisas científicas produzida pelas Ciências do Comportamento, como insumo. Acho bastante possível a instituição de um espaço semelhante àqueles adotados em outros países, no âmbito do Poder Executivo, que tenha como referência as Ciências do Comportamento. É comum a criação de grupos interministeriais de caráter eminentemente técnico para se debater e construir os caminhos de determinado programa, projeto, serviço ou ação. Penso que o que nos falta é investir na comunicação com gestores para demonstrar como isso é possível. Recentemente, o Grupo de Estudos em Cultura e Comportamento do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Comportamento da UnB, supervisionado pelo Prof. João Cláudio Todorov e do qual participo, lançou o primeiro evento, de uma série a ser produzida, que pretende instituir o diálogo entre a Análise do Comportamento e o Gestores de Políticas Públicas. Na ocasião, debatemos programas de transferência de renda condicionada e pagamentos por serviços ambientais com gestores da área. Certamente, não é o único modo, mas já é uma possibilidade para divulgar o potencial da Análise do Comportamento. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Um exemplo extremo de comportamento governado por regras.


         A posição do Partido Republicano dos EEUU em relação ao Acordo de Paris sobre o clima é mais um exemplo de comportamento guiado por regras, desconsiderando contingências e suas consequências. Falando em bom behaviorês: o acordo de 99,9% das nações do mundo prevê forte ação dos governos no combate às fontes de poluição atmosférica. Forte atuação do governo é tudo o que a ideologia conservadora do Partido Republicano combate.
         Para conservadores há uma regra básica: quanto menos governo, melhor. A mão invisível do mercado é um santo remédio para todos os males. Pressupõe-se que o povo é formado por cidadãos educados e conscientes de seus direitos. Sem a proteção do governo, a mera exposição às contingências do mercado fará cada um ser membro produtivo e empreendedor. Por consequência, só é pobre quem não quer trabalhar.
         No caso do clima, a intervenção dos governos é extremamente necessária por uma característica do processo de escolhas intertemporais: a poluição produzida por uma empresa representa uma vantagem imediata, ela não tem que gastar para mudar para fontes de energia não poluente, e uma desvantagem a perder de vista, quando eventualmente deixar de existir porque o ambiente em sua região estiver degradado. É um exemplo de comportamento que é ao mesmo tempo reforçado e punido, só que o reforço é imediato e a punição vem com atraso muito longo.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Mudanças rápidas em práticas culturais e o DNA da descrença


                Estava eu viajando de avião da maneira complicada, característica de quem precisa levar a bordo concentrador portátil de oxigênio e baterias suficientes para a duração do voo e mais 50% desse tempo, por segurança: cateter nas narinas, tubo ligado ao aparelho embaixo da cadeira. Quando precisei me levantar para que as outras cadeiras fossem ocupadas, algumas pessoas se ofereceram para ajudar. Posso fazer tudo sozinho, mas os tubos e o aparelho parecem transmitir outra imagem às pessoas.

                Comentei essa boa vontade com um senhor que ocupava a poltrona do meio. Desde que tenha nível adequado de oxigênio para respirar sou liberado pelos médicos para viajar sem acompanhante. Como não posso andar muito e nem carregar peso, nos aeroportos as empresas sempre fornecem cadeiras de rodas. Comentei com meu vizinho de viagem que com essa combinação, oxigênio + cadeira de rodas, fiz viagem de 40 horas de Brasília a Kyoto sem andar mais que dez metros, pois no Japão trens e hotéis também dão essa atenção a cadeirantes. Funcionários do trem bala me levaram na cadeira até o hotel e lá me esperavam com outra cadeira, da qual só me levantei dentro do apartamento. Meu vizinho ficou admirado e comentou alguma coisa como “Isso nunca vai acontecer aqui”. A educação japonesa seria obra de milênios, com práticas culturais que “nunca veremos por aqui”, porque isso (falta de educação) está no DNA do povo brasileiro. Aí tive que rir e dizer que estava indo a Londrina falar sobre mudanças rápidas e em larga escala de práticas culturais; se pensasse como ele eu deveria mudar de profissão.

                Não só não mudo como continuo a bater na mesma tecla. Questões como as que suscitam em pessoas afirmações como essas, frequentes em artigos de opinião assinados como os que foram publicados nos jornais “Folha de São Paulo” e “Correio Braziliense” na última semana, são questões que se referem a práticas culturais. São comportamentos aprendidos e passados de pais para filhos, de geração para geração.  Quanto mais antigos em determinada cultura, mais trabalhosa a mudança.

                Mas o que nos dá a confiança em que essa mudança pode ser rápida e realmente em larga escala é a teoria que nos define uma cultura como o conjunto de relações condicionais entre comportamento e consequência, relações mantidas por agências de controle. Em cada grupo, organização, etnia, etc., a aculturação de novos membros segue regras formais ou informais aceitas pelos membros daquele grupo. Mudanças nas regras, e nos comportamentos regulados por elas, podem ser rápidas quando a decisão de mudar for coletiva. Por isso tentativas de mudança por iniciativa dos dirigentes só podem ser bem-sucedidas depois de ampla divulgação da informação e das razões para mudar. Quanto maior e mais complexo o grupo mais trabalhosa será a intervenção, levantando a questão da relação custo-benefício. Qualquer que seja a prática cultural, que é sempre algum tipo de comportamento mantido por consequências, os membros do grupo encarregados da decisão podem decidir não intervir por conta do custo da mudança. Os economistas têm estudos sobre a relação custo-benefício da eliminação da corrupção na sociedade. O custo da manutenção de agências de controle para garantir a erradicação dessa prática cultural torna inviável esse esforço, levando a propostas de diminuir a corrupção a níveis mais favoráveis à manutenção das transações econômicas a um custo compatível com o benefício.

                Talvez por essas razões é comum ver autores colocando toda a esperança na educação das novas gerações. Não esperam nada dos adultos. “O povo brasileiro é primário e sem percepção de um projeto nacional. A semana modernista, nos primórdios do século 20, elegera Macunaíma, como o mestiço esperto – no meio das mazelas nacionais -, como o herói brasileiro sem nenhum caráter, ou seja, sem caráter em todos os sentidos. ”  (Sacha Calmon, Correio Braziliense de 7 de maio de 2017, página 13).  No mesmo dia, mesmo jornal, mesma página, o Professor Titular da Unicamp Jaime Pinsky escreveu: “ O chamado grito do Ipiranga não significou nada para a maioria esmagadora da população do território. Nem para os escravos, nem para os índios, nem para a população do campo, talvez apenas para uma parte pequena e letrada (e proprietária) de moradores de cidades, uma parte ínfima de Brasil.  .... Para sobreviver o povão aprendeu a ser dissimulado, traço também tristemente evidente. A população não se sente representada por seus representantes, o poder político tem sido o melhor caminho para a corrupção, ninguém abre mão de seus privilégios e os sonegadores apresentam tudo isso como álibi para não contribuir para o bem comum. “



                Lembrando Roberto Campos, citado por Ives Gandra da Silva Martins na Folha de São Paulo de 7 de maio de 2017, página A3 (“O planeta dos malandros”), “com esta mentalidade, o Brasil não corre nenhum risco de melhorar. “ Entretanto, mudar para melhorar é possível e é preciso. Cabe a quem sabe como mostrar o que pode fazer. “Mentalidade” é apenas o nome popular de um conjunto de relações condicionais que isentam de punição e recompensam “quem leva vantagem em tudo”. São regras de convivência que ficam mais fortes toda vez que alguém impunemente fura a fila do cinema, por exemplo. 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Não pergunte por quem os sinos dobram.


            Em 11 de janeiro de 49 Antes de Cristo o general (e depois Imperador) Júlio César comandou seu exército na travessia do Rio Rubicão, fronteira que separava a Gália Cisalpina, onde era governador, e a Itália, a caminho de conquistar Pompéia e depois Roma, desobedecendo o Senado romano.
“Atravessar o Rubicão” acabou sendo uma expressão usada para indicar decisões que não admitem volta. Entre uma graduação em literatura e um doutorado Skinner atravessou seu Rubicão via laboratórios de biologia de Harvard, provavelmente usando a filosofia como ponte. Nosso Rubicão é o rio que divide a psicologia entre os que a consideram uma ciência natural e os que ainda acham que com o homem é diferente.
Na margem mais frequentada do Rubicão da Psicologia ficam todos os que explicita ou implicitamente admitem uma agencia que inicia ações e toma decisões, um “eu”, ou “self”, ou “pessoa”, ou “alma”, ou “espírito”, ou assemelhados, mesmo quando admitem um papel também para o ambiente externo ao organismo. Os que criam coragem e atravessam esse rio encontram o terreno ainda um tanto selvagem, um tanto desconfortável, apesar de mais de 100 anos do trabalho desbravador de Watson e de Skinner.
Do lado skinneriano do rio da psicologia o comportamento é visto como evento natural, fluindo constantemente, malha delicadíssima unida por antecedentes e consequentes, organizando-se em repertórios específicos para tempos e espaços, repertórios para reconhecer repertórios, produtos em parte da história de evolução da espécie, em parte da evolução de cada comportamento, esta evolução modulada por outros repertórios organizados de pessoas de seu grupo que exercem as funções de agências de controle encarregadas de zelar por contingências sociais.
Agora vá lá e tente explicar isso para o seu vizinho ou seu aluno de primeiro semestre. Para não perder a audiência muitos acabam usando a linguagem comum e diária, a linguagem do leigo, não a da ciência, mas a linguagem do leigo é mentalista e não tem lugar para uma pessoa sem um “eu” uno e indivisível, autônomo, e responsável pelos seus atos.
Como explicar que substantivos são abstrações, que o mundo é feito de verbos de ação? Pessoas não têm “vida”, pessoas vivem. Pessoas não têm “inteligência”, pessoas se comportam de maneira tal que são classificadas por outros como “inteligentes”. A “inteligência” medida pelo teste de QI não é uma coisa, é um conceito, o substantivo “inteligência” se refere a um conceito, uma abstração. A “vida” não é uma sequência mecânica de pedaços de realidade amarrados uns aos outros com arame. O que mais se aproxima do conceito de comportamento de pessoas em grupo como postulado por Skinner em “Ciência e Comportamento Humano” é o conceito de fluxo de William James (ainda que ele falasse de fluxo da consciência, do pensamento apenas) e a maneira como essa ideia de fluxo é usada na literatura. Para ilustrar, o que segue é um exemplo de fluxo da consciência:

Como a humanidade é louca, pensou ela ao atravessar Victoria Street. Porque só Deus sabe porque amamos tanto isto, o concebemos assim, elevando‑o, construindo‑o à nossa volta, derrubando‑o, criando‑o novamente a cada instante, mas até as próprias megeras, as mendigas mais repelentes sentadas às portas (a beberem a sua ruína) fazem o mesmo; não se podia resolver o seu caso, ela tinha a certeza, com leis parlamentares por esta simples razão: porque amam a vida. Nos olhos das pessoas, no movimento, no bulício e nos passos arrastados; no burburinho e na vozearia; os carros, os automóveis, os ónibus, os camiões, homens‑sanduíches aos encontrões, bamboleantes; bandas de música; realejos, no estrondo e no tinido e na estranha melodia de algum aeroplano por cima das nossas cabeças, era o que ela amava, a vida, Londres; este momento de junho. Porque era em meados de junho. ”
 (Virginia Wolf, Mrs. Dalloway, 1925, trad. port. Lisboa, Ulisseia, 1982, pp.5-6. Transcrito do Wikipédia)

Esse texto da escritora Virgínia Wolf é bom para ilustrar o que entendemos por rede de comportamentos. Ninguém está só. Como escreveu Baum (1992), “O comportamento ocorre em um contexto muito amplo, limitado só por nossa capacidade de conhecer toda extensão da trama. ” Todo e qualquer comportamento ocorre como parte de uma grande rede de eventos relacionados. Do nascimento à morte somos moldados por (e fazemos parte de) alguma comunidade. Como notado por John Donne por volta de 1600, nenhum homem é uma ilha (Baum, 1992). No texto famoso Donne argumenta poeticamente, a partir da consciência de que todos pertencemos à humanidade, que o que acontece a alguém afeta a todos, o que altera uma parte altera o todo. O texto muito citado costuma ser encerrado por outra frase que tem inspirado gerações, e que aqui vai por mim traduzida: “Se os sinos da igreja tocarem pela morte de alguém, não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti. ”
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A seguir o texto original conforme pode ser encontrado no Google:
This is a quotation from John Donne (1572-1631). It appears in Devotions upon emergent occasions and seuerall steps in my sicknes - Meditation XVII, 1624:
"All mankind is of one author, and is one volume; when one man dies, one chapter is not torn out of the book, but translated into a better language; and every chapter must be so translated...As therefore the bell that rings to a sermon, calls not upon the preacher only, but upon the congregation to come: so this bell calls us all: but how much more me, who am brought so near the door by this sickness....No man is an island, entire of itself...any man's death diminishes me, because I am involved in mankind; and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee."

Bibliografia
            Baum, W. M. (1995). Radical behaviorism and the concept of agency. Behaviorology, 3(1), 93-106. (www.researchgate.net/publication/233815151_Radical_Behaviorism_and_the_Concept_of_Agency)
            Skinner, B. F. (1953/1967). Ciência e Comportamento Humano. Tradução de J. C. Todorov e R. Azzi. Brasília: Editora Universidade de Brasília (1a edição da tradução).
            Todorov, J. C. (1989/2007) A psicologia com estudo de interações. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 23, Número Especial, 57-61.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Trends in Behavior Analysis, volume 1.


“Trends in Behavior Analysis” Volume 1 é um conjunto de capítulos escritos por encomenda para a divulgação internacional do trabalho em Análise do Comportamento feito no Brasil. Pode ser encontrado online na Apple Store ou no site da Editora Technopolitik, para download gratuito.

O Brasil só perde para os Estados Unidos em número de pesquisadores e de publicações em Análise do Comportamento, mas sua divulgação é prejudicada pela língua. Publicações em inglês, a língua internacional da ciência na atualidade, ainda são uma pequena parte do conjunto. A coleção “Trends in Behavior Analysis” pretende ser um conjunto de volumes que vai retratar a variedade de áreas e assuntos abordados pelos pesquisadores brasileiros que apresentam sua produção para o acesso da comunidade internacional. E para os programas brasileiros de pós-graduação, cada vez mais exigentes quanto ao domínio da língua inglesa.






Trends in Behavior Analysis, Volume 1

Introduction - Some old and new trends in Brazilian Behavior Analysis.  João Claudio Todorov 

 1 What Is ethical behavior? Alexandre Dittrich

2 Behavior Analysis, creativity and insight. Marcus Bentes de Carvalho Neto, João Ilo Coelho Barbosa, Hernando Borges Neves Filho, Paulo Elias Gotardelo Delage, and Rubilene Pinheiro Borges.

3 Behavioral Analysis of law: a brief overview of the juxtaposition of law and radical behaviorismo. Julio Cesar de Aguiar and Leandro Oliveira Gobbo

 4 Parental alienation constructo. Paula Inez Cunha Gomide.

5 Cultural practices are hard to change. Camila Muchon de Melo

6 Conservation and transformation of cultural practices through contingencies and metacontingencies. João Claudio Todorov

7 Stimulus control and Verbal Behavior: (in)dependent relations in populations with minimal verbal repertoires. Ana Claudia Moreira Almeida Verdu and Raquel Melo Golfeto

8 Chaining and ordinal classes: conceptual, methodological, and intervention aspects. Grauben Assis

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Esquemas de seleção cultural: contingências e metacontingências.




Contingências

                Contingência é uma relação condicional entre dois eventos. No caso da contingência comportamental, se um comportamento ocorrer, então uma consequência ocorrerá em tais e quais circunstâncias. Uma consequência pode ocorrer sempre que o comportamento ocorre, ou depois de repetidas ocorrências do comportamento, ou dependendo do tempo decorrido desde a última ocorrência dessa consequência, ou dependendo de inúmeras combinações de tempo e número de respostas, e de relações fixas ou variáveis. Resumindo: o conceito de contingência comportamental abarca infindáveis exemplos de interações comportamento-ambiente, inúmeras das quais estão documentadas em livros e artigos científicos, como, por exemplo, na Revista Brasileira de Análise do Comportamento.

                Variações nos tipos de contingências comportamentais não envolvem apenas variações na apresentação de consequências. Mantidas as condições antecedentes e a consequências, a contingência pode exigir variabilidade no comportamento, como no reforçamento diferencial de outro comportamento (dro).

Metacontingência

                Metacontigência é uma relação condicional entre a colaboração de pelo menos duas pessoas (contingências comportamentais entrelaçadas) que resulta em determinado produto e alguma consequência programada por um ambiente cultural selecionador. Metacontingências podem ser classificadas de acordo com o tipo de relação de consequência (cerimoniais ou tecnológicas) e da especificação do produto agregado (conservadoras ou transformadoras), e de combinações de relação de consequência e especificação do produto (por exemplo, cerimonial conservadora, tecnológica transformadora, etc.).

Metacontingência cerimonial conservadora

                A consequência interessa mais ao ambiente cultural selecionador (agência de controle) do que às pessoas envolvidas na colaboração que resulta em um produto agregado, e este é fixado, como a saudação às autoridades por soldados desfilando.

Metacontingência cerimonial transformadora

                Diferentemente do exemplo anterior, o produto agregado não pode ser repetido. A relação condicional exige novidade no resultado da colaboração.

Metacontingência tecnológica conservadora

                A consequência cultural interessa diretamente às pessoas envolvidas na colaboração e o produto agregado não varia. Exemplo: pescadores em um barco de pesca. O produto agregado não varia, é a quantidade de peixes para vender.

Metacontingência tecnológica transformadora

                Exemplo: colaboração em agências de publicidade. A consequência cultural interessa diretamente às pessoas envolvidas na colaboração e o produto agregado não pode ser repetido. Neste caso, originalidade é o segredo do sucesso.






terça-feira, 3 de janeiro de 2017


Isis Vasconcelos e a análise experimental do comportamento de pessoas em grupos.

http://firstmonday.org/ojs/index.php/bsi/article/view/5424

                Os trabalhos de análise comportamental de práticas culturais, ou de análise comportamental da cultura, receberam um grande impulso de uma reunião que aconteceu em Campinas em 2005, paralela ao encontro anual da ABPMC. Em um hotel da cidade ficaram concentrados, como jogadores de futebol em concentração nos dias que precedem um jogo, dez cidadãos norte-americanos, uma norueguesa, um escocês, e quatro brasileiros. A missão: avaliar o progresso desde a publicação de “Metacontingencies in Walden Two”, de Sigrid Glenn, as objeções aos avanços de 20 anos, e a busca de orientação para o futuro do campo. Maria Emilia Malott e eu trabalhamos juntos na organização do evento, nos convites aos pesquisadores e em um roteiro para organizar a discussão. Entre os convidados estavam alguns expoentes da Análise do Comportamento, editores das revistas mais conhecidas da área, como Jack Marr (atual presidente da ABAI), Marc Mattaini (editor de Behavior and Social Issues) e Marc Branch (ex-editor de The Behavior Analyst), reconhecidos então como adversários da introdução de um novo termo técnico, a metacontingência.

                Um dos tópicos a receber maior atenção foi a falta de trabalhos experimentais de animais em situação social. Um conceito como o de metacontingência seria mais útil se viesse precedido de sólida base desenvolvida na pesquisa básica com animais, argumentavam. Dez anos depois ainda esperamos por esse desenvolvimento enquanto avançamos diretamente para a pesquisa básica com humanos.

                Um ano antes da reunião em Campinas Christian Vichi já havia apresentado sua dissertação de mestrado na PUCSP com o primeiro experimento delineado segundo a definição de metacontingência, publicado como capítulo de livro em 2005 e como artigo em revista na versão em inglês. De lá até o presente dezenas de teses e dissertações mostram variações de delineamento e situações experimentais para estudar metacontingência, seguidos por mais dezenas de artigos publicados, variando quanto à complexidade da situação experimental e do número de variáveis independentes presentes. Mais recentemente tivemos algumas iniciativas buscando procedimentos mais simples, análogos ao usado com o comportamento operante. A dissertação de mestrado de Isis Vasconcelos, que orientei, é um deles. Foi publicado na revista Behavior and Social Issues (link acima).          

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Contingências e metacontingências nas estruturas de cargos e salários das empresas.


Memórias de um Analista (Comportamental) de Cargos.

 CINQUENTA ANOS DEPOIS

                As iniciativas voltadas para a industrialização do país, depois da Segunda Guerra Mundial, tiveram o apoio sistemático da comunidade científica brasileira, liderada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), inspirada na American Association for the Advance of Science (AAAS). Os alicerces do processo foram as criações das empresas estatais Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e Petrobrás (“O petróleo é nosso”, lema também abraçado pela União Nacional dos Estudantes – UNE). O pontapé inicial foi a eleição de Juscelino Kubitschek, que prometia o desenvolvimento de 50 anos em 5, com base na interiorização do país, com a mudança da capital, a construção de estradas e a implantação da indústria automobilística.

                Juscelino prometeu e as indústrias vieram. A região metropolitana da São Paulo abrigou as grandes empresas estrangeiras, não só as automobilísticas. Em 1960 a General Electric, a grande multinacional americana, tinha três fábricas no Brasil: Santo André, SP (eletrodomésticos), Campinas (locomotivas elétricas) e Rio de Janeiro (lâmpadas). O crescimento foi rápido demais para o número de pessoas com habilidades técnicas necessárias para a ocupação dos cargos que iam sendo criados.

A competição por trabalhadores especializados foi tal que os setores da administração de pessoal dessas grandes empresas eram repetidamente pressionados para recrutar trabalhadores já treinados, pelo SESI ou pelas empresas nas quais estavam empregados. Esses departamentos de gestão de pessoas empregavam profissionais formados em qualquer curso universitário, praticamente, com maior concentração em administração e pedagogia, quando possível. Não havendo, como não havia, tais profissionais com experiência buscavam alunos nas universidades. Por conta de um bom relacionamento com um colega de diretoria do diretório acadêmico da faculdade de filosofia da USP, que já estava empregado como analista de cargos na General Electric, fui convidado pela empresa, mesmo estando apenas no segundo ano do curso de psicologia. Naquele tempo os requisitos, além da indicação de quem convida, eram simples: ser universitário e ler inglês. O resto a empresa ensinava durante as horas de trabalho. A tarefa sempre mais premente era a pesquisa de remuneração: quanto as outras empresas estavam pagando seus trabalhadores nos cargos equivalentes aos que existiam na GE.

Começando com o exemplo mais dramático: o ferramenteiro, aquele que entende e opera as máquinas ferramentas, aquelas que participam da construção de outras máquinas que vão fabricar peças ou componentes. A análise mostra o ferramenteiro como o cargo que mais exige em termos de formação, experiência, habilidade e responsabilidade (não me lembro de todos). A questão maior era quanto a GE teria que pagar a seus ferramenteiros para que não fossem recrutados por outras empresas.

A pesquisa de salários no mercado era importante não só para os cargos usados pela concorrência, mas também para os outros, visando um equilíbrio entre os salários de mercado e a estrutura interna da hierarquia de cargos e salários. O desenvolvimento acelerado do começo dos anos 60 tornava indispensável pesquisas de salários no mercado a cada três meses, seguidas pelos reajustes salariais necessários. Estávamos no início do processo inflacionário atribuído à velocidade dos 50 anos em 5 e que mais tarde viria a se tornar quase impossível de ser contido. Só o foi 30 anos depois, no governo interino de Itamar Franco.




sexta-feira, 24 de junho de 2016

Sem agências de controle eficazes as leis não pegam.

                Dirigindo meu Ford Falcon 1958 para ir ao cinema com a Silvia em Phoenix, Arizona, virei á esquerda em uma avenida de seis pistas mesmo estando na pista do meio e sem ligar a seta. Não deu outra. Antes de meio quarteirão havia um carro de polícia com as luzes piscando. O policial foi muito gentil e não me multou, depois de ver os passaportes e o documento de estudante da Arizona State University.  Era 1966 e naquela época havia carros de polícia por todo lado, especialmente em cruzamentos movimentados. Como consequência, todos respeitavam ao pé da letra as regras do trânsito. Uma placa vermelha de PARE controlava muito bem o comportamento de parada total do veículo, mesmo sem outros carros nas ruas.

                Lembrei-me desse episódio hoje cedo, dirigindo para ir ao barbeiro. Em uma rua movimentada um caminhão nem diminuiu a velocidade na esquina, como eu faria no Brasil. Aqui é claro que parei e coloquei a primeira marcha antes de continuar, pensando na falta que faz a presença ostensiva do Estado na fiscalização das leis. Em um mês dirigindo por Setauket, Port Jefferson e Stonybrook só vi carros de polícia uma vez, em estacionamento de supermercado onde havia sido deixado um pacote suspeito. Os  americanos não eram cidadãos mais responsáveis do que nós, apenas desenvolveram ao longo de sua história agências de controle eficazes na manutenção das contingências que mantêm práticas culturais.

                Alguns diriam que nos falta autocontrole ético. Todos deveriam obedecer as leis porque isso é bom para a comunidade. Mas o chamado “autocontrole ético” é comportamento, dependente das consequências como todo comportamento. São as agências de controle, descritas por Skinner em “Ciência e Comportamento Humano”, as encarregadas de punir comportamentos considerados indesejáveis pela cultura. Para ver como essa história de punições e ameaças modela nosso “autocontrole ético” ver, além de Skinner, o “Coerção” de Murray Sidman. E pense nisso na próxima vez que você avançar um sinal vermelho de noite e sentir um frio na barriga.



sexta-feira, 1 de abril de 2016

O bode a e intolerância.



  
                Assim como a tolerância para com o diferente, nossos valores nos são dados pelas pessoas com as quais convivemos a partir do nascimento. São esses valores que podem nos levar a escolher dirigentes capazes de, entre outras coisas “criar clima de harmonia entre todos”.

O BODE
                Admitamos que não foi de caso pensado. O Cunha foi eleito pelo baixo clero da Câmara por soberba e incompetência política de quem tinha a maioria. Vontade de hegemonia muitas vezes dá nisso. A situação lembra a história do bode na sala, pois a rejeição ao Cunha veio a calhar.

                Há no folclore político a lenda do camarada russo, fiel militante do partido único, que morava com a mulher e os filhos em um apartamento de quarto e sala cedido pelo partido. De tanto insistir para receber autorização para se mudar para um apartamento maior sem receber resposta o camarada finalmente foi chamado para receber nova missão: manter e cuidar de um bode na sala de seu quarto-e-sala.

                O bode na sala mudou completamente vida do camarada. Se antes a mulher e os filhos não paravam de dizer que queriam se mudar para um apartamento maior, agora tinham nova e mais urgente reivindicação: tirar o bode da sala.

O BODE EXPIATÓRIO

            Pois não é que tem muita gente que se esqueceu de pedir o impedimento da presidente depois que foi iniciada a campanha “Fora Cunha”? Estão até pedindo ao STF que atue como o coletivo da história e retire o Cunha, perdão, o bode, da sala. Mesmo os militantes que constrangidos repetiam que pedalada não é crime agora ficaram felizes com a tarefa de ajudar a tirar da presidência da Câmara um político no mínimo cara de pau.

                Sobre pedalada não ser crime: se fosse, a presidente seria julgada pelo STF. Mas pode ser crime de responsabilidade, a ser conferido pelo Congresso, como previsto na Constituição. O único golpe à vista é o publicitário, com novo ataque da novilíngua: se for contra nós, impeachment é golpe. Esse investimento em propaganda para desviar a atenção da militância gera o clima de conflito e intolerância, vermelhos contra amarelos, radicalizado: tudo o que não for vermelho por definição é amarelo. O país não merece esse clima de guerra.

A INTOLERÂNCIA

                Indivíduos pacíficos e tolerantes são formados por ambientes acolhedores a partir da concepção: mulheres grávidas que bebem demais, que fumam demais, que sofrem demais, viciadas em tóxicos, ou que sejam acometidas por certas doenças, não fornecem a seus futuros bebês ambientes necessários para seu pleno desenvolvimento.

                Práticas culturais para a socialização da criança baseadas em coerção não geram indivíduos nem pacíficos nem tolerantes. Muitas escolas começam a agredir a criança a partir de sua arquitetura, em ruínas, sujas, desconfortáveis, e de sua exposição a interações baseadas em fuga e esquiva: o bullying é mais frequente do que se pensa, e tem as mais diversas formas.

                Quem faz o indivíduo é o coletivo, formado por indivíduos também formados por outros coletivos anteriores. Práticas culturais que definem um grupo são transmitidas por meio de regras, exemplos e exposição direta a consequências. A criança sendo socializada hoje será o socializador de amanhã.

Paz não é apenas a ausência de guerra entre os países. Paz é garantir que todas as pessoas tenham moradia, alimento, roupa, educação, saúde, amor e compreensão. Paz é cuidar do ambiente em que vivemos, garantir a qualidade da água, o saneamento básico, a despoluição do ar, o bom aproveitamento da terra. Paz é buscar serenidade dentro da gente para viver com alegria. Paz é a capacidade de se criar clima de harmonia entre todos, lembrando-se sempre de que onde existe amor, existe paz”. (Texto entre aspas é de Isaac Roitman, da Academia Brasileira de Ciências).

                Assim como a tolerância para com o diferente, nossos valores nos são dados pelas pessoas com as quais convivemos a partir do nascimento. São esses valores que podem nos levar a escolher dirigentes capazes de, entre outras coisas “criar clima de harmonia entre todos”.