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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O que é metacontingência e por que é (des)necessária?


"O que é metacontingência e por que é (des)necessária?"
Publicada no blog da ABPMC a convite de Diego Zilio

A palavra metacontingência foi proposta em 1986 por Sigrid Glenn (Glenn, 1986) para se referir a efeitos coletivos a médio ou longo prazos de operantes individuais independentes. Em 1987 foi usada como um conjunto de contingências e metacontingências que programa um determinado Produto Agregado (Todorov, 1987). Durante 20 anos aparece principalmente em artigos teóricos, como o que se dedica a explicar o comportamento dos eleitos no Congresso americano (Lamal & Greenspoon, 1992).
Contingência é uma relação condicional entre dois eventos. No caso da contingência comportamental, se um comportamento ocorrer, então uma consequência ocorrerá em tais e quais circunstâncias. Uma consequência pode ocorrer sempre que o comportamento ocorre, ou depois de repetidas ocorrências do comportamento, ou dependendo do tempo decorrido desde a última ocorrência dessa consequência, ou dependendo de inúmeras combinações de tempo e número de respostas, e de relações fixas ou variáveis. Resumindo: o conceito de contingência comportamental abarca infindáveis exemplos de interações comportamento-ambiente, inúmeras das quais estão documentadas em livros e artigos científicos, como, por exemplo, na Revista Brasileira de Análise do Comportamento.
Metacontigência é uma relação condicional entre a colaboração de pelo menos duas pessoas (contingências comportamentais entrelaçadas) que resulta em determinado produto e alguma consequência programada por um ambiente cultural selecionador. Metacontingências podem ser classificadas de acordo com o tipo de relação de consequência (cerimoniais ou tecnológicas) e da especificação do produto agregado (conservadoras ou transformadoras), e de combinações de relação de consequência e especificação do produto (por exemplo, cerimonial conservadora, tecnológica transformadora, etc., Todorov, 2013).
Uma metacontingência não é apenas um jogo de contingências individuais de pessoas diferentes. Uma metacontingência consiste em contingências individuais entrelaçadas, que produzem um mesmo efeito e levam a uma mesma conseqüência (Lamal & Greenspoon, 1992). No caso das práticas culturais, o agente a ser selecionado é o efeito (Produto Agregado) produzido pela prática (as contingências comportamentais interligadas). A variação é proporcionada por permutações no comportamento dos indivíduos que participam da prática (Glenn, 1991, pp. 62-63). Há uma ênfase no processo seletivo do entrelaçamento de muitos operantes e, consequentemente, na transmissão de padrões comportamentais através do tempo, reforçando também a ideia de que a unidade de análise pode ser a relação entre o entrelaçamento e o produto agregado (Glenn, 1988), a descrição das funções de diferentes efeitos ambientais produzidos pelo entrelaçamento (Glenn & Malott, 2004) e uma diferenciação entre processos de variação e seleção que ocorrem em nível individual (relações de macrocontingência) e processos de variação e seleção que ocorrem em nível cultural (relações de metacontingência, Malott & Glenn, 2006; Martone & Todorov, 2007; Glenn et al., 2016)).
Ao descrever as complexas relações comportamentais que ocorrem no terceiro nível de variação e seleção, o conceito de metacontingência coloca-nos frente a importantes questões conceituais e metodológicas:
(1)   o problema da unidade de análise no nível cultural e,
(2)   em se tratando de análise experimental, a variável crítica a ser manipulada no sentido de produzir, em condições controladas de laboratório, a seleção de um entrelaçamento específico de muitos comportamentos ao longo do tempo, desencadeando a transmissão do que Glenn & Malott (2004) denominam de “linhagem cultural” (Martone & Todorov, 2007).

A questão conceitual tem gerado ferrenha reação. Entre os participantes do I Think Tank sobre Cultura e Comportamento em Campinas, 2005, três argumentaram sobre a desnecessidade do conceito de metacontingência (Branch,2006; Marr, 2006; Mattaini, 2006). No Brasil autores que já haviam publicados sobre problemas sociais usando apenas a contingência comportamental também acham desnecessário o novo conceito (Gusso e Kubo, 2007), ou agora afirmam que Skinner preferiu trabalhar só com o conceito de contingência comportamental mesmo quando fala da forço do grupo (Carrara & Zilio, 2016) e que comemoramos 30 anos de metacontingências com um fracasso: o conceito é desnecessário (Zilio, 2018).
            A análise experimental de metacontingências cresceu exponencialmente depois das críticas dos participantes do I Think Tank (Campinas, 2005). Até então só a dissertação de mestrado de Christian Vichi (2004, 2005) na PUC-SP de 2004 mostrava dados experimentais. Em 15 anos foram várias dezenas de teses e dissertações, usando diferentes procedimentos, estudando só metacontingências ou essa relação condicional embutida em procedimento mais complexo. Para citar apenas três dos publicados mais recentemente: Soares et al (2018), Guimarães, Picanço & Tourinho (2019) e da Hora & Sampaio (2019).
Concepts such as operant, culturobehavioral lineage, culturant, and macrobehavior can facilitate an interdisciplinary and multidimensional approach to social issues such as corruption. They cross through disciplines, overcoming the traditionally rigid boundary between psychological, sociological, anthropological, and economic phenomena, clarify aspects that require further investigation and contribute to the unification of the sciences that deal with human behavior in its various dimensions. This is one important way in which the concept of metacontingency and related concepts such as culturant can be useful. This was not mentioned by Zilio (2019), who recently questioned the utility of such concepts. Besides the huge amount of work (experimental, theoretical, and, to a lesser degree, applied) that employed it—as Zilio’s review itself documented—one has to take into account the conceptual coherence of such a transdisciplinary perspective on behavior, society, and culture when evaluating its utility.” (da Hora & Sampaio, 2019).


Referências
Branch, M. N. (2006). Reactions of a laboratory behavioral scientist to a “think tank” on metacontingencies and cultural analysis. Behavior and Social Issues, 15, 6-10. http://dx.doi.org/10.5210/bsi.v15i1.343.
Carrara, K. & Zilio, D. (2016). Análise comportamental da cultura: contingência ou metacontingência como unidade de análise? Revista Brasileira de Análise Do Comportamento / Brazilian Journal of Behavior Analysis, 11(2), 135-146.
da Hora, K.L. & Sampaio, A.A.S. (2019). Perspectives in Behavior Science, 42, 1-21. https://doi.org/10.1007/s40614-019-00225-y
Glenn, S. S. (1986). Metacontingencies in Walden Two. Behavior Analysis and Social Action, 5, 2-8.
Glenn, S. S. (1988). Contingencies and Metacontingencies: Toward a Synthesis of Behavior Analysis and Cultural Materialism. The Behavior Analyst 1988, 11(2), 161-179.
Glenn, S. S. (1991). Contingencies and metacontingencies: Relations among behavioral, cultural, and biological evolution. Em P. A. Lamal (Org.), Behavioral analysis of societies and cultural practices (pp. 39-73). New York: Hemisphere Publishing Corporation.
Glenn, S. S., & Malott, M. E. (2004). Complexity and selection:            Implications for organizational change. Behavior and Social Issues, 13, 89-106.
Glenn, S. S., Malott, M. E., Andery, M. A. P. A., Benvenuti, M., Houmanfar, R. A., Sandaker, I., Todorov, J. C., Tourinho, E. Z., & Vasconcelos, L. A. (2016). Toward consistent terminology in a behaviorist approach to cultural analysis. Behavior & Social Issues, 25, 11–27.  https://doi.org/10.5210/bsi.v25i0.6634
Guimarães, T.M.M., Picanço, C.R.F. & Tourinho, E.Z. (2019) Effects of Negative Punishment on Culturants in a Situation of Concurrence between Operant Contingencies and Metacontingencies. Perspectives in Behavior Science, 42,  1-18. https://doi.org/10.1007/s40614-019-00224-z
Hélder Lima Gusso, H. L. & Olga Mitsue Kubo, O. M.  (2007). O conceito de cultura: afinal, a “jovem” metacontingência é necessária?  Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 9(1), 139-144.  ISSN 1517-5545
Lamal, P. A. & Greenspoon J. (1992). Congressional Metacontingencies. Behavior and Social Issues, 2(1),  71-81.
Malott, M. E., & Glenn. S. S. (2006). Targets of intervention in cultural and behavioral change. Behavior and Social Issues, 15, 31-56.
Marr, M. J. (2006). Behavior analysis and social dynamics: Some questions and concerns. Behavior and Social Issues, 15, 57-67. doi:10.5210/bsi.v15i1.345
Martone, R. C. & Todorov, J. C. (2007). O desenvolvimento do conceito de metacontingência. Revista Brasileira de Análise do Comportamento / Brazilian Journal of Behavior Analysis, 3(2), 181-190.
Mattaini, M. A. (2006). Will cultural analysis become a science? Behavior and Social Issues, 15, 68-80.
Soares, P. F. R., Rocha, A. P. M. C., Guimarães, T. M. M., Leite, F. L., Andery, M. A, P. A., & Tourinho, E. Z. (2018). Effects of verbal and non-verbal cultural consequences on culturants. Behavior and Social Issues, 27, 31-46. doi: 10.5210/BSI.V.27I0.8252
Todorov, J. C. (1987). A Constituição como metacontingência. Psicologia: Ciência e Profissão, 7, 9-13. doi:10.1590/S1414-98931987000100003
Todorov, J. C. (2013). Conservation and transformation of cultural practices through contingencies and metacontingencies. Behavior and Social Issues, 22, 64-73.
Vichi,  C. (2004). Igualdade ou desigualdade em pequeno grupo: um análogo experimental de manipulação de uma prática cultural. Dissertação de Mestrado,   Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.
Vichi, C. (2005). Igualdade ou desigualdade: manipulando um análogo experimental de prática cultural em laboratório. Em J. C. Todorov, R. C. Martone         & M. B.Moreira (Orgs.), Metacontingências: comportamento, cultura e sociedade. Santo André: ESETec.
Zilio, D. (2019). On the function of science: An overview of 30 years of publications on metacontingency. Behavior & Social Issues, 28,1 –31. https://doi.org/10.1007/s42822-019-00006-x.






terça-feira, 11 de setembro de 2018

De onde vem o “Eu” de Skinner?



De onde vem o “Eu” de Skinner?
Da filosofia e da literatura, como por exemplo de textos como os dois a seguir. Um exemplo de como na psicologia os processos não são´inventados, são descobertos. Várias abordagens podem se dedicar a estudar um mesmo processo usando pressupostos, ferramentas e linguagens diferentes. Uma Análise do Comportamento que define comportamento como a interação Organismo-Ambiente é incompatível com o tratamento dado por Skinner à personalidade como um sistema organizado de respostas, pois isso significaria apenas um sistema por organismo. Estudamos interações comportamento-ambiente e relações condicionais. 

João Carlos Firmino Andrade de Carvalho, “Cultura e Literatura: Intervenções”. Lisboa: CLEPUL, 2018.

“Reflectir sobre as representações da figura do Estrangeiro conduz-nos, quase necessariamente, a uma abordagem da problemática da identidade e da alteridade, das relações e limites equacionáveis entre o Mesmo e o Outro. O Estrangeiro (ou o Outro) teve várias configurações, em termos espacio-temporais: o Bárbaro, para os gregos da Antiguidade; o Forasteiro, para as sociedades tradicionais (não necessariamente primitivas); o Inimigo ou o Mal / o Demoníaco, para a Cristandade; o Eremita ou o Peregrino, para os mais dados ao convívio humano ou para os menos inclinados para as coisas do espírito; o Diferente / Exótico, para a era moderna inaugurada pelos Descobrimentos; o viajante europeu Cosmopolita, para as sociedades fechadas sobre si mesmas; o Libertino, para a moral conservadora; o Exilado e o Desenraizado (lembremo-nos de O Estrangeiro de Albert Camus, 1942); o Imigrante, para as sociedades europeias modernas e pós-modernas, etc. A problemática do Estrangeiro requer que reconheçamos dois planos: o plano da alteridade exterior (ou seja, o plano do “Nós e os Outros”, título de um célebre livro de Tzvetan Todorov [Todorov, 1989]) e o plano da alteridade interior (ou seja, o plano do “Je est un autre” de Arthur Rimbaud ou o do “Étrangers à nous-mêmes”, título do não menos célebre livro de Julia Kristeva [Kristeva, 1988], ou ainda o do Inconsciente de Freud). Estes dois planos, porém, não são estanques, como bem sabemos. “
Todorov, T. (1993). Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Tradução de S. G. de Paulo. Rio de janeiro: Zahar.

Todorov, T. (1989). A conquista da América.  A Questão do Outro. Tradução de Beatriz Perrone Moi. São Paulo: Martins Fontes 2ª edição.
https://s3.amazonaws.com/academia.edu.documents/33775623/A_conquista_da_America_A_Questao_do_Outro_-_Tzvetan_Todorov.pdf?AWSAccessKeyId=AKIAIWOWYYGZ2Y53UL3A&Expires=1536678573&Si
gnature=wmuLSutmPbusuI%2BTLJg9mIU6R4Y%3D&response-content-disposition=inline%3B%20filename%3DA_conquista_da_America_A_Questao_do_Outr.pdf


“Quero falar da descoberta que o eu faz do outro, o assunto é imenso. Mal acabamos de formulá-lo em linhas gerais já o vemos subdividir-se em categorias e direções múltiplas, infinitas. Podem-se descobrir os outros em si mesmo, e perceber que não se é uma substância homogênea, e radicalmente diferente de tudo o que não é si mesmo; eu é um outro. Mas cada um dos outros é um eu também, sujeito como eu. Somente meu ponto de vista, segundo o qual todos estão lá e eu estou só aqui, pode realmente separá-los e distingui-los de mim. Posso conceber os outros como uma abstração, como uma instância da configuração psíquica de todo indivíduo, como o Outro, outro ou outrem em relação a mim. Ou então como um grupo social concreto ao qual nós não pertencemos. Este grupo, por sua vez, pode estar contido numa sociedade: as mulheres para os homens, os ricos para os pobres, os loucos para os "normais ". Ou pode ser exterior a ela, uma outra sociedade que, dependendo do caso, será próxima ou longínqua: seres que em tudo se aproximam de nós, no plano cultural, moral e histórico, ou desconhecidos, estrangeiros cuja língua e costumes não compreendo, tão estrangeiros que chego a hesitar em reconhecer que pertencemos a uma mesma espécie. “

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Seleção cultural e seleção de culturas.



                Em uma visão skinneriana do behaviorismo qualquer comportamento humano resulta sempre de três níveis de seleção por consequências: a pessoa existe como resultado de seleção de genes na história de espécie humana (seleção filogenética), é socializada para a vida em grupo segundo um conjunto de regras selecionadas na história da cultura do grupo (seleção cultural), e adquire seu repertório por meio das interações com seu meio ambiente ao longo da vida (seleção ontogenética). Logo, o que é selecionado no nível cultural não é um determinado comportamento: a história daquele grupo selecionou as regras (contingências ou relações condicionais) a serem usadas pelas agências de controle para a modelagem e manutenção de comportamentos.

                Dizemos que certos comportamentos são práticas culturais quando são frequentes e comuns a várias pessoas e/ou perduram por gerações. São práticas culturais, mas pertencem ao segundo nível de seleção, ontogenética ou comportamental. São comportamentos específicos que dependem das consequências contingentes à sua específica emissão. A regra para reforçar ou não é geral, cultural, mas a consequência é particular, depende do comportamento da referida pessoa.


Seleção cultural ou seleção de culturas?

                Seleção cultural envolve comportamento de pessoas; seleção de culturas é a seleção das regras (contingências ou relações condicionais) que orientam a ação das agências de controle. Não deveriam ser usados como sinônimo.

Seleção cultural se refere à seleção de comportamentos de acordo com regras vigentes no grupo. Em nossa cultura a criança pode ser elogiada por lavar as mãos antes de sentar-se à mesa ou pode ser proibida de comer enquanto não for lavar as mãos, por exemplo. Há mil anos não só não havia o hábito de lavar as mãos antes das refeições; comia-se levando os alimentos à boca com as mãos.

Mudanças no ambiente costumam ser responsáveis por alterações nas regras que caracterizam uma cultura. Comer com talheres foi um hábito que chegou à Europa por Veneza, vindo da Grécia, mas levou séculos para ser adotado em todos os países. Lavar as mãos levou mais tempo para ser adotado, só muito depois da comprovação científica da transmissão de doenças por contato físico. Atualmente o hábito pode estar se perdendo. Em grandes cidades cada vez mais pessoas comem nas ruas, nos food trucks, ou em praças de alimentação do shopping, sem pia para lavar as mãos a menos de cinquenta metros. Já imaginaram todas as crianças em filas no único banheiro do andar naquele shopping, esperando para lavar as mãos?

                Mudanças na cultura, portanto, podem ser causadas por mudanças em práticas culturais de pessoas. O jogo Tragédia dos Comuns1 ilustra as possibilidades de mudanças nas regras seguidas pela agência de controle causadas pelo comportamento das pessoas que competem por um bem comum. Considere um pasto comunitário, usado por agricultores que aí colocam suas reses para pastar. Quantas cabeças colocar, tanto seu lucro. Se cada agricultor aumentar seu rebanho indefinidamente, o pasto acabará, não haverá condição de renovação permanente que a pecuária exige. Não há “mão invisível do mercado” que resolva isso. É do interesse de todos que alguma agência de controle, aceita por todos, regulamente o uso do pasto comum. Elinor Ostrom2 tem um excelente trabalho com dados sobre a evolução das agências de controle.


Elinor Ostrom, Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action, 32 Nat. Resources J. 415 (1992). Available at: http://digitalrepository.unm.edu/nrj/vol32/iss2/6.





segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Três ilhas e uma nuvem – uma fábula analítico-comportamental.


                Gosto de provocar meus amigos analistas do comportamento escrevendo sobre uma fábula que conta a história do nascimento de três ilhas no Mar da Psicologia, divisão promovida por um terremoto que desmembrou o continente Behaviorismo: Pesquisa básica, Análise Comportamental Aplicada e Comportamento Verbal. A violência da separação inicial provocou a formação de uma nuvem de behaviorismo reduzido a pó, que continua pairando acima das três ilhas: O Behaviorismo Radical.
                Como a variabilidade é a força maior que move o mundo (no princípio era a variabilidade, depois veio a luz), ao longo de algumas gerações a língua comum do Continente Behaviorismo diferenciou-se em quatro, com dialetos próprios de cada ilha e da nuvem. Os habitantes das ilhas e os que pairam sobre a nuvem, contudo, desenvolveram características comuns: não nadam nem voam, não se comunicam nem entre si nem com outros habitantes do Mar da Psicologia.
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Agora falando sério: está na hora de começarmos a construir pontes e passarelas. Há esperança: a ABAI está preocupada com isso. Em seus discursos de posse como presidentes da associação tanto Martha Hubner em 2015 quanto Jack Marr em 2016 abordaram a questão. Publiquei um artigo em 2013 na revista Behavior and Philosophy que relata a história da separação dos diferentes grupos.




quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Agências de controle como estruturas de poder.

  
                Em “Ciência e Comportamento Humano” Skinner definiu agências de controle como grupos dentro de um grupo maior que controlam a programação e a efetivação de consequências para certos comportamentos. Qualquer que seja o grupo, qualquer que seja seu tamanho, esse grupo exerce o controle sobre seus membros principalmente por meio de seu poder de reforçar e de punir, de acordo com regras, relações condicionais entre comportamentos e consequências, que definem o grupo.
                Dito isso, vejamos um bom exercício para os interessados em análise do comportamento.
1.       Quais as relações entre os conceitos de “agência de controle” de Skinner  e de “estruturas de poder erigidas para reprimir e domesticar” de Foucault?.

2.       Compare as frases:
 “as regras da cultura são descobertas pela observação de relações condicionais entre antecedentes, comportamento e consequências”
 e
“A ordem é ao mesmo tempo aquilo que se oferece nas coisas como sua lei interior, a rede secreta segundo a qual elas se olham de algum modo umas às outras e aquilo que só existe através do crivo de um olhar, de uma atenção, de uma linguagem; e é somente nas casas brancas desse quadriculado que ela se manifesta em profundidade como já presente, esperando em silêncio o momento de ser enunciada. ”

FOUCAULT, M., As palavras e as coisas. Trad. S. T. Muchail, São Paulo: Martins Fontes, 2002. P. XVI


“Naqueles dias, estava terminando de ler um dos amenos e sofísticos ensaios de Michel Foucault em que, com seu brilhantismo habitual, o filósofo francês afirmava que, assim como a sexualidade, a psiquiatria, a religião, a justiça e a linguagem, o ensino sempre fora, no mundo ocidental, uma das “estruturas de poder” erigidas para reprimir e domesticar o corpo social, instalando sutis mas eficazes formas de sujeição e alienação, a fim de garantir a perpetuação dos privilégios e o controle do poder dos grupos sociais dominantes.”





Skinner, o Governo e a necessidade de ciscar para dentro.


                Recentemente Diego Manzano Fernandes (Perfil no Facebook) instou analistas do comportamento a buscar relações entre avanços na Ciência Política nos últimos 100 anos e o que Skinner publicou sobre o Governo. A preocupação é pertinente. Ao especificar que o comportamento humano é função de variáveis que dependem da filogênese (espécie), ontogênese (indivíduo) e da cultura, Skinner deu muita ênfase ao desenvolvimento do comportamento de indivíduos. Contudo, em “Ciência e Comportamento Humano” boa parte do livro trata de questões que envolvem o terceiro nível de seleção, o nível cultural, mas o que seria uma psicologia social behaviorista nunca realmente se desenvolveu.

É do interesse de todos que a análise do comportamento se desenvolva em direção a todas as ciências com a quais faz fronteira, das biológicas às sociais. Mas é fundamental que esse desenvolvimento ocorra “ciscando para dentro”, com um aumento na abrangência da teoria, e não “ciscando para fora”, com áreas da análise do comportamento sendo “cooptadas” por outras linguagens teóricas.

                A cooptação tende a ocorrer sempre que há a aproximação com teorias já estabelecidas, com mais prestígio e tradição. Na interface da economia com a psicologia os estudos analítico-comportamentais sobre o comportamento do consumidor são absorvidos pelos estudos da “psicologia” do consumidor de tal forma que hoje “economia comportamental” em verdade é “economia cognitiva”, com dois Premio Nobel no bolso em menos de 20 anos.

                Na área de desenvolvimento atípico do comportamento o sucesso ao lidar com o autismo levou a um resultado semelhante. Hoje os melhores grupos da análise do comportamento adaptaram a teoria para falar de comportamento e cognição como processos diferentes, adequando-se à linguagem de outras disciplinas mais tradicionais na área.

                Para alguns autores já estamos na quarta onda das terapias comportamentais. A preocupação de Aaron J. Bronwnstein com a possibilidade de análise comportamental de relações comportamento-comportamento abriu o caminho para o desenvolvimento do contextualismo de Hayes e colaboradores, uma carta branca para o “cognitivismo-comportamental”.


                Estão esboçados acima três exemplos do que acontece com a teoria quando se cisca para fora. Se a tendência continuar veremos a análise do comportamento, que não se restringe ao que Skinner escreveu em meados do século passado (teorias são resultado de comportamentos, e como tal são suscetíveis às consequências), juntar-se a outros avanços da ciência natural sob ataque das vanguardas do atraso, os “criacionistas”. Alegar que os escritos de Skinner não podem virar doutrina não pode ser desculpa para negar na prática a visão da psicologia como ciência natural. Seriam os “cognitivo-comportamentais” os nossos criacionistas?

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Download gratuito dos volumes 1 e 2 de Trends in Behavior Analysis .

Download gratuito dos volumes 1 e 2 de Trends in Behavior Analysis .

“Brazil has the largest number of undergraduate professional courses in Psychology in the world, so far more than 220. Of those, most offer Behavior Analysis courses, some only introductory disciplines, others a full training including practical work in the field. About 30 universities offer graduate courses, both basic and applied, with 15 of them leading to the PhD. This volume of activity, production and spreading of knowledge, has been going on for 55 years, since Professor Fred S. Keller went to the University of Sao Paulo as a Fulbright Scholar in 1961. Everything considered, Brazil is second only to the United States of America in both number of researchers and of publications on Behavior Analysis.
All that notwithstanding, Brazilians are underrepresented in citations. That is understandable when we publish in Portuguese. Only people in Portugal (Europe), Angola, Mozambique, Cabo Verde (Africa), Timor East, Goa and Macau (Asia) can read what we publish in our common language (for the Asians, usually their second language). But Brazilians are also underrepresented even when publishing in English in major Behavior Analysis periodicals and books published in the US. Even Brazilian authors publishing there undercite Brazilian researchers. Citing is behavior, under the infuence of all variables that infuence choice. Having no way of directly control the environment of authors, we can at least enrich that environment. Trends in Behavior Analysis, Volume 1.01 is here offered online, for download, as an opportunity to make more of the Brazilian production available internationally.”




quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Agências de controle como estruturas de poder.

Um bom exercício para os alunos de análise do comportamento: as relações entre os conceitos de “agência de controle” e de “estruturas de poder erigidas para reprimir e domesticar”.

E entre as frases

 “as regras da cultura são descobertas pela observação de relações condicionais entre antecedentes, comportamento e consequências”
 e
“A ordem é ao mesmo tempo aquilo que se oferece nas coisas como sua lei interior, a rede secreta segundo a qual elas se olham de algum modo umas às outras e aquilo que só existe através do crivo de um olhar, de uma atenção, de uma linguagem; e é somente nas casas brancas desse quadriculado que ela se manifesta em profundidade como já presente, esperando em silêncio o momento de ser enunciada. ”
FOUCAULT, M., As palavras e as coisas. Trad. S. T. Muchail, São Paulo: Martins Fontes, 2002. P. XVI


“Naqueles dias, estava terminando de ler um dos amenos e sofísticos ensaios de Michel Foucault em que, com seu brilhantismo habitual, o filósofo francês afirmava que, assim como a sexualidade, a psiquiatria, a religião, a justiça e a linguagem, o ensino sempre fora, no mundo ocidental, uma das “estruturas de poder” erigidas para reprimir e domesticar o corpo social, instalando sutis mas eficazes formas de sujeição e alienação, a fim de garantir a perpetuação dos privilégios e o controle do poder dos grupos sociais dominantes.”



O conceito de rede de relações entre os membros do grupo é mais antigo que qualquer abordagem na psicologia ou nas ciências sociais. Um texto de cerca de 1600 é muito conhecido, de John Donne.



http://jctodorov.blogspot.com.br/2017/04/nao-pergunte-por-quem-os-sinos-dobram.html


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O "comportamento" das Agências de Controle também é selecionado pelas consequências desse controle.

O "comportamento" das Agências de Controle também é selecionado pelas consequências desse controle.

              Donald Trump quer deportar para seus países de origem imigrantes ilegais que chegaram aos Estados Unidos quando eram crianças, trazidos por seus pais e educados nos Estado Unidos. Deportar para onde? Para o país de seus pais? Não é seu país, não foram educados lá, sabem de cor o hino nacional americano, juram a bandeira de treze listras. Mas hipocritamente os adeptos da supremacia branca argumentam que a lei é essa, devem ser deportados porque são imigrantes ilegais. O jornalista David Leonhardt, no New York Times, mostra a falácia desse argumento. Seria simplesmente impossível para o Estado fazer cumprir sempre todas as leis. Há uma relação custo-benefício a ser considerada. No caso dos jovens americanos de origem latino-americana o custo do sofrimento humano seria enorme, incomensurável.

Na visão da Análise do Comportamento as interações na sociedade são reguladas por vários tipos de Agência de Controle, cada uma encarregada de certos tipos de relações condicionais. As interações melhor acompanhadas são aquelas nas quais as transgressões são apontadas de imediato pelos próprios envolvidos, como é o caso das refeições em família – comer de boca aberta é punido no ato pelos demais participantes da mesa. Quando o controle depende de agências formais, como o Poder Judiciário, entra em cena a relação custo-benefício. Segundo pesquisas da Economia a corrupção na sociedade envolve um custo tal para o Estado que não há como se prever sua erradicação; a corrupção pode ser controlada, mas nunca será extinta.

              O que fazer quando o controle direto pela Agência, como a religião, por exemplo, nem sempre, ou quase nunca, é possível? Internar o controle via regras. Não funciona muito bem, mas dá ao Agente a noção de que está fazendo o que deve ser feito. Só quem foi aluno de escola maternal da igreja sabe o que é ter medo do indizível, do perigo dos “maus pensamentos”. A crença no poder regulador dessas regras e valores não existe apenas na educação e na religião (e por consequência na família). Li também no jornal de hoje, o Correio Braziliense, que o Exército Brasileiro está preocupado com os militares temporários, que servem um máximo de oito anos e depois têm dificuldade de serem aproveitados em empregos do mercado. Muitos são tentados pelas gangues criminosas que assolam o país, cobiçados exatamente pelas habilidades que o Exército ensinou.  Eis o que o jornal publicou sobre o que o exército faz para prevenir a adesão às gangues:

              “Valores. De acordo com o Exército Brasileiro, durante o ano de serviço militar obrigatório, e nas escolas militares, são ensinados valores para afastar os integrantes da força do mundo do crime. Com foco em sua formação, são desenvolvidas atividades que incentivam o patriotismo, civismo, amor à pátria, solidariedade, entusiasmo, determinação e confiança. Para a vida civil, após deixar o Exército Brasileiro, são destacadas ações que valorizam a honestidade, apego à verdade, disciplina, respeito aos superiores e às autoridades, dedicação, probidade, lealdade e cumprimento às leis. ”

              Regras, auto regras e valores transmitidos via comportamento verbal, são eficazes enquanto não contrastam com contingencias do ambiente no presente. Seria mais eficaz se o exército primeiro treinasse o soldado para exercer funções com demanda no mercado e só o desligasse depois de passar por fase de experiência no emprego civil. 


              Voltando à “desamericanização” dos latinos, grande objetivo dos supremacistas da raça branca: o absurdo é tão grande que os netos e bisnetos de imigrantes legais e ilegais provavelmente não vão permitir que aconteça.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Consolidação de sugestões bem-humoradas para o ensino de Análise do Comportamento.

Consolidação de sugestões bem-humoradas para o ensino de Análise do Comportamento.

  Ditados populares são antigos, alguns tão antigos que são de épocas em que a transmissão da cultura era feita apenas oralmente, não havia memória escrita. São frases curtas, mas compactas quanto à descrição de relações comportamento-consequência que ilustram. Geralmente usam uma experiência comum a todos os membros do grupo para prepará-los para perceber relações do mesmo tipo no futuro:

         
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

Ditado bom para mostrar que algumas consequências só ocorrem depois de várias tentativas, como quebrar um coco com uma pedra. No ensino de análise do comportamento pode ser usado para ilustrar os tópicos de variabilidade, momento comportamental e ressurgência. Quando a contingência (relação condicional) que mantém a estabilidade de uma relação operante-consequência é interrompida, o repertório do organismo naquela situação mostra alto nível de variabilidade, mas o operante não cessa de ocorrer. Continuará a ocorrer por mais ou menos tempo dependendo das condições que vigoravam no passado (momento comportamental). Se um novo operante for seguido pela mesma consequência, o primeiro operante cessa de ocorrer (água mole fura a pedra dura), para ressurgir se e quando houver extinção do segundo operante também (um processo conhecido na clínica como recaída).

         
Para bom entendedor, meia palavra basta.

Todo e qualquer operante envolve mais trabalho para modelar do que para manter. Modelagem é um procedimento de reforço diferencial de aproximações sucessivas da forma final desejada do operante, e isso quer dizer o seguinte: de início qualquer resposta existente no repertório que tenha alguma relação com o objetivo é reforçada. A seguir começa um treino de discriminação (reforço
diferencial), a resposta é reforçada em algumas situações mais próximas da situação final e não é reforçada quando emitida em outras situações – um procedimento semelhante àquela brincadeira de crianças do “quente” (reforço), “frio” (extinção).

 
No início, cada ocorrência da resposta exige mais esforço e leva mais tempo para acontecer; depois de completada a aprendizagem sua manutenção exige cada vez menos esforço.

Para bom “esquivador”, meia resposta basta.



         Ditados populares são antigos, alguns tão antigos que são de épocas em que a transmissão da cultura era feita apenas oralmente, não havia memória escrita.

         Longe dos olhos, longe do coração.

Muito usado antigamente para explicar porque a família mandava a mocinha estudar em colégio interno na Suíça para esquecer o namorado inadequado.

A frase chama a atenção para o poder do reforço contínuo e imediato e da proximidade geográfica e temporal de variáveis de contexto, como em situações de escolhas e decisões e de autocontrole. Um exemplo de consequência que está longe dos olhos (perder a hora de levantar no dia seguinte) mas que pode ser antecipada para perto do coração por uma resposta controladora: armar o despertador.

No caso da mocinha apaixonada, há outro ditado que explica a vantagem do primeiro: nada como um novo amor para esquecer o mais antigo.

Promessas não pagam dívidas.

Mas funcionam como estímulo reforçador, dependendo de quem promete. Grande parte da rede de interações que organiza nossa vida em comunidade é mantida pura e simplesmente por comportamento verbal, aquele que só produz ondas (sonoras).

Promessas não pagam dívidas mas mantêm a fidelidade do militante até a próxima eleição.


 “Nenhum homem é uma ilha” é uma frase que tem mais de 500 anos, de autoria de John Donne e usada por empréstimo por muitos autores. Ela resume a informação de que vivemos em comunidade e é assim que nos tornamos humanos. O processo de civilização e aculturamento do bebê leva anos e utiliza interações com centenas de outros humanos – a ponto de um antigo ditado africano dizer que é preciso uma aldeia para educar uma criança.


Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem faz parte de sua comunidade verbal selecionadora.


         Por outro lado, parece que ser de casa também traz desvantagens. Estrangeiros tendem a ser melhor tratados pelo grupo quando há interesse em que sejam atraídos. Parece que manter quem já faz arte da comunidade verbal selecionadora custa menos esforço que atrair novos membros, daí a necessidade de lhes dar mais atenção. No churrasco na casa do ferreiro o melhor espeto vai para o forasteiro; os de casa podem usar espeto de pau.



Ninguém é profeta em sua terra.

Casa de ferreiro, espeto de pau.


Quando o gato sai, os ratos fazem a festa.


Punição não funciona quando a situação sinaliza que ela não vai ocorrer. Mais ou menos o que ocorre no carnaval e nas passeatas contra o governo.

         O controle do comportamento por antecedentes e situações leva certo tempo para ocorrer. Aprendemos aos poucos a não gastar energia em situações nas quais um determinado comportamento nunca foi reforçado. Um exemplo? Com pouco mais de um ano minha filha pedia licença à cadeira que atrapalhava seu deslocamento pela sala. Aprendeu rapidamente que cadeiras e cachorros não entendiam português. Da mesma maneira aprendemos que certos comportamentos são punidos em algumas ocasiões, mas não em outras.
         Tendo aprendido depois de milhões de ano de evolução que punição é um processo complicado, desagregador, gerador de contra controle, os grupamentos humanos costumam delegar autoridade para punir a certas pessoas ou grupos. Em algumas famílias a mãe se encarrega das ameaças e o pai da guilhotina, que corta mesada, horas na internet, et.
         Se o encarregado da punição não está presente, a gandaia pode correr solta.
Quando o gato sai, os ratos fazem a festa, 
desde que ninguém seja tentado por delação premiada.



         Dizem que no princípio era o verbo. Os verdadeiros behavioristas acham que no princípio era a variabilidade. Eu pessoalmente acho que no princípio era a variabilidade, logo depois aumentada pela invenção do comportamento verbal.
            O comportamento verbal não veio só para ajudar, veio para confundir. Às vezes ajuda, mas quando você tenta entender, a confusão aumenta. Para começar, você nunca tem garantia de saber com quem está falando, com qual ouvinte ou com qual falante de cada uma das várias duplas de repertórios verbais que habitam naquele organismo. Muitas vezes, cercado de pessoas que deveriam estar prestando atenção, você descobre que só você mesmo está se ouvindo. Você convida sua mulher para jantar achando que fala com a namorada, mas quem pode estar ouvindo é a tesoureira; seu repertório adulto funciona só até as cinco, às seis e meia você está pronto para a nova série do Netflix, mas te pedem uma avaliação da situação econômica da família.
            Sem variabilidade não há evolução. O comportamento verbal está aí para não deixar a vida ficar monótona. 




segunda-feira, 26 de junho de 2017

Provérbios e ditados no ensino de princípios de análise do comportamento. I


         Ditados populares são antigos, alguns tão antigos que são de épocas em que a transmissão da cultura era feita apenas oralmente, não havia memória escrita. São frases curtas, mas compactas quanto à descrição de relações comportamento-consequência que ilustram. Geralmente usam uma experiência comum a todos os membros do grupo para prepará-los para perceber relações do mesmo tipo no futuro:

         Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

Ditado bom para mostrar que algumas consequências só ocorrem depois de várias tentativas, como quebrar um coco com uma pedra. No ensino de análise do comportamento pode ser usado para ilustrar os tópicos de variabilidade, momento comportamental e ressurgência. Quando a contingência (relação condicional) que mantém a estabilidade de uma relação operante-consequência é interrompida, o repertório do organismo naquela situação mostra alto nível de variabilidade, mas o operante não cessa de ocorrer. Continuará a ocorrer por mais ou menos tempo dependendo das condições que vigoravam no passado (momento comportamental). Se um novo operante for seguido pela mesma consequência, o primeiro operante cessa de ocorrer (água mole fura a pedra dura), para ressurgir se e quando houver extinção do segundo operante também (um processo conhecido na clínica como recaída).

         Para bom entendedor, meia palavra basta.

Todo e qualquer operante envolve mais trabalho para modelar do que para manter. Modelagem é um procedimento de reforço diferencial de aproximações sucessivas da forma final desejada do operante, e isso quer dizer o seguinte: de início qualquer resposta existente no repertório que tenha alguma relação com o objetivo é reforçada. A seguir começa um treino de discriminação (reforço
diferencial), a resposta é reforçada em algumas situações mais próximas da situação final e não é reforçada quando emitida em outras situações – um procedimento semelhante àquela brincadeira de crianças do “quente” (reforço), “frio” (extinção).

 No início, cada ocorrência da resposta exige mais esforço e leva mais tempo para acontecer; depois de completada a aprendizagem sua manutenção exige cada vez menos esforço.

Para bom “esquivador”, meia resposta basta.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Mudanças rápidas em práticas culturais e o DNA da descrença


                Estava eu viajando de avião da maneira complicada, característica de quem precisa levar a bordo concentrador portátil de oxigênio e baterias suficientes para a duração do voo e mais 50% desse tempo, por segurança: cateter nas narinas, tubo ligado ao aparelho embaixo da cadeira. Quando precisei me levantar para que as outras cadeiras fossem ocupadas, algumas pessoas se ofereceram para ajudar. Posso fazer tudo sozinho, mas os tubos e o aparelho parecem transmitir outra imagem às pessoas.

                Comentei essa boa vontade com um senhor que ocupava a poltrona do meio. Desde que tenha nível adequado de oxigênio para respirar sou liberado pelos médicos para viajar sem acompanhante. Como não posso andar muito e nem carregar peso, nos aeroportos as empresas sempre fornecem cadeiras de rodas. Comentei com meu vizinho de viagem que com essa combinação, oxigênio + cadeira de rodas, fiz viagem de 40 horas de Brasília a Kyoto sem andar mais que dez metros, pois no Japão trens e hotéis também dão essa atenção a cadeirantes. Funcionários do trem bala me levaram na cadeira até o hotel e lá me esperavam com outra cadeira, da qual só me levantei dentro do apartamento. Meu vizinho ficou admirado e comentou alguma coisa como “Isso nunca vai acontecer aqui”. A educação japonesa seria obra de milênios, com práticas culturais que “nunca veremos por aqui”, porque isso (falta de educação) está no DNA do povo brasileiro. Aí tive que rir e dizer que estava indo a Londrina falar sobre mudanças rápidas e em larga escala de práticas culturais; se pensasse como ele eu deveria mudar de profissão.

                Não só não mudo como continuo a bater na mesma tecla. Questões como as que suscitam em pessoas afirmações como essas, frequentes em artigos de opinião assinados como os que foram publicados nos jornais “Folha de São Paulo” e “Correio Braziliense” na última semana, são questões que se referem a práticas culturais. São comportamentos aprendidos e passados de pais para filhos, de geração para geração.  Quanto mais antigos em determinada cultura, mais trabalhosa a mudança.

                Mas o que nos dá a confiança em que essa mudança pode ser rápida e realmente em larga escala é a teoria que nos define uma cultura como o conjunto de relações condicionais entre comportamento e consequência, relações mantidas por agências de controle. Em cada grupo, organização, etnia, etc., a aculturação de novos membros segue regras formais ou informais aceitas pelos membros daquele grupo. Mudanças nas regras, e nos comportamentos regulados por elas, podem ser rápidas quando a decisão de mudar for coletiva. Por isso tentativas de mudança por iniciativa dos dirigentes só podem ser bem-sucedidas depois de ampla divulgação da informação e das razões para mudar. Quanto maior e mais complexo o grupo mais trabalhosa será a intervenção, levantando a questão da relação custo-benefício. Qualquer que seja a prática cultural, que é sempre algum tipo de comportamento mantido por consequências, os membros do grupo encarregados da decisão podem decidir não intervir por conta do custo da mudança. Os economistas têm estudos sobre a relação custo-benefício da eliminação da corrupção na sociedade. O custo da manutenção de agências de controle para garantir a erradicação dessa prática cultural torna inviável esse esforço, levando a propostas de diminuir a corrupção a níveis mais favoráveis à manutenção das transações econômicas a um custo compatível com o benefício.

                Talvez por essas razões é comum ver autores colocando toda a esperança na educação das novas gerações. Não esperam nada dos adultos. “O povo brasileiro é primário e sem percepção de um projeto nacional. A semana modernista, nos primórdios do século 20, elegera Macunaíma, como o mestiço esperto – no meio das mazelas nacionais -, como o herói brasileiro sem nenhum caráter, ou seja, sem caráter em todos os sentidos. ”  (Sacha Calmon, Correio Braziliense de 7 de maio de 2017, página 13).  No mesmo dia, mesmo jornal, mesma página, o Professor Titular da Unicamp Jaime Pinsky escreveu: “ O chamado grito do Ipiranga não significou nada para a maioria esmagadora da população do território. Nem para os escravos, nem para os índios, nem para a população do campo, talvez apenas para uma parte pequena e letrada (e proprietária) de moradores de cidades, uma parte ínfima de Brasil.  .... Para sobreviver o povão aprendeu a ser dissimulado, traço também tristemente evidente. A população não se sente representada por seus representantes, o poder político tem sido o melhor caminho para a corrupção, ninguém abre mão de seus privilégios e os sonegadores apresentam tudo isso como álibi para não contribuir para o bem comum. “



                Lembrando Roberto Campos, citado por Ives Gandra da Silva Martins na Folha de São Paulo de 7 de maio de 2017, página A3 (“O planeta dos malandros”), “com esta mentalidade, o Brasil não corre nenhum risco de melhorar. “ Entretanto, mudar para melhorar é possível e é preciso. Cabe a quem sabe como mostrar o que pode fazer. “Mentalidade” é apenas o nome popular de um conjunto de relações condicionais que isentam de punição e recompensam “quem leva vantagem em tudo”. São regras de convivência que ficam mais fortes toda vez que alguém impunemente fura a fila do cinema, por exemplo. 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Não pergunte por quem os sinos dobram.


            Em 11 de janeiro de 49 Antes de Cristo o general (e depois Imperador) Júlio César comandou seu exército na travessia do Rio Rubicão, fronteira que separava a Gália Cisalpina, onde era governador, e a Itália, a caminho de conquistar Pompéia e depois Roma, desobedecendo o Senado romano.
“Atravessar o Rubicão” acabou sendo uma expressão usada para indicar decisões que não admitem volta. Entre uma graduação em literatura e um doutorado Skinner atravessou seu Rubicão via laboratórios de biologia de Harvard, provavelmente usando a filosofia como ponte. Nosso Rubicão é o rio que divide a psicologia entre os que a consideram uma ciência natural e os que ainda acham que com o homem é diferente.
Na margem mais frequentada do Rubicão da Psicologia ficam todos os que explicita ou implicitamente admitem uma agencia que inicia ações e toma decisões, um “eu”, ou “self”, ou “pessoa”, ou “alma”, ou “espírito”, ou assemelhados, mesmo quando admitem um papel também para o ambiente externo ao organismo. Os que criam coragem e atravessam esse rio encontram o terreno ainda um tanto selvagem, um tanto desconfortável, apesar de mais de 100 anos do trabalho desbravador de Watson e de Skinner.
Do lado skinneriano do rio da psicologia o comportamento é visto como evento natural, fluindo constantemente, malha delicadíssima unida por antecedentes e consequentes, organizando-se em repertórios específicos para tempos e espaços, repertórios para reconhecer repertórios, produtos em parte da história de evolução da espécie, em parte da evolução de cada comportamento, esta evolução modulada por outros repertórios organizados de pessoas de seu grupo que exercem as funções de agências de controle encarregadas de zelar por contingências sociais.
Agora vá lá e tente explicar isso para o seu vizinho ou seu aluno de primeiro semestre. Para não perder a audiência muitos acabam usando a linguagem comum e diária, a linguagem do leigo, não a da ciência, mas a linguagem do leigo é mentalista e não tem lugar para uma pessoa sem um “eu” uno e indivisível, autônomo, e responsável pelos seus atos.
Como explicar que substantivos são abstrações, que o mundo é feito de verbos de ação? Pessoas não têm “vida”, pessoas vivem. Pessoas não têm “inteligência”, pessoas se comportam de maneira tal que são classificadas por outros como “inteligentes”. A “inteligência” medida pelo teste de QI não é uma coisa, é um conceito, o substantivo “inteligência” se refere a um conceito, uma abstração. A “vida” não é uma sequência mecânica de pedaços de realidade amarrados uns aos outros com arame. O que mais se aproxima do conceito de comportamento de pessoas em grupo como postulado por Skinner em “Ciência e Comportamento Humano” é o conceito de fluxo de William James (ainda que ele falasse de fluxo da consciência, do pensamento apenas) e a maneira como essa ideia de fluxo é usada na literatura. Para ilustrar, o que segue é um exemplo de fluxo da consciência:

Como a humanidade é louca, pensou ela ao atravessar Victoria Street. Porque só Deus sabe porque amamos tanto isto, o concebemos assim, elevando‑o, construindo‑o à nossa volta, derrubando‑o, criando‑o novamente a cada instante, mas até as próprias megeras, as mendigas mais repelentes sentadas às portas (a beberem a sua ruína) fazem o mesmo; não se podia resolver o seu caso, ela tinha a certeza, com leis parlamentares por esta simples razão: porque amam a vida. Nos olhos das pessoas, no movimento, no bulício e nos passos arrastados; no burburinho e na vozearia; os carros, os automóveis, os ónibus, os camiões, homens‑sanduíches aos encontrões, bamboleantes; bandas de música; realejos, no estrondo e no tinido e na estranha melodia de algum aeroplano por cima das nossas cabeças, era o que ela amava, a vida, Londres; este momento de junho. Porque era em meados de junho. ”
 (Virginia Wolf, Mrs. Dalloway, 1925, trad. port. Lisboa, Ulisseia, 1982, pp.5-6. Transcrito do Wikipédia)

Esse texto da escritora Virgínia Wolf é bom para ilustrar o que entendemos por rede de comportamentos. Ninguém está só. Como escreveu Baum (1992), “O comportamento ocorre em um contexto muito amplo, limitado só por nossa capacidade de conhecer toda extensão da trama. ” Todo e qualquer comportamento ocorre como parte de uma grande rede de eventos relacionados. Do nascimento à morte somos moldados por (e fazemos parte de) alguma comunidade. Como notado por John Donne por volta de 1600, nenhum homem é uma ilha (Baum, 1992). No texto famoso Donne argumenta poeticamente, a partir da consciência de que todos pertencemos à humanidade, que o que acontece a alguém afeta a todos, o que altera uma parte altera o todo. O texto muito citado costuma ser encerrado por outra frase que tem inspirado gerações, e que aqui vai por mim traduzida: “Se os sinos da igreja tocarem pela morte de alguém, não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti. ”
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A seguir o texto original conforme pode ser encontrado no Google:
This is a quotation from John Donne (1572-1631). It appears in Devotions upon emergent occasions and seuerall steps in my sicknes - Meditation XVII, 1624:
"All mankind is of one author, and is one volume; when one man dies, one chapter is not torn out of the book, but translated into a better language; and every chapter must be so translated...As therefore the bell that rings to a sermon, calls not upon the preacher only, but upon the congregation to come: so this bell calls us all: but how much more me, who am brought so near the door by this sickness....No man is an island, entire of itself...any man's death diminishes me, because I am involved in mankind; and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee."

Bibliografia
            Baum, W. M. (1995). Radical behaviorism and the concept of agency. Behaviorology, 3(1), 93-106. (www.researchgate.net/publication/233815151_Radical_Behaviorism_and_the_Concept_of_Agency)
            Skinner, B. F. (1953/1967). Ciência e Comportamento Humano. Tradução de J. C. Todorov e R. Azzi. Brasília: Editora Universidade de Brasília (1a edição da tradução).
            Todorov, J. C. (1989/2007) A psicologia com estudo de interações. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 23, Número Especial, 57-61.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Esquemas de seleção cultural: contingências e metacontingências.




Contingências

                Contingência é uma relação condicional entre dois eventos. No caso da contingência comportamental, se um comportamento ocorrer, então uma consequência ocorrerá em tais e quais circunstâncias. Uma consequência pode ocorrer sempre que o comportamento ocorre, ou depois de repetidas ocorrências do comportamento, ou dependendo do tempo decorrido desde a última ocorrência dessa consequência, ou dependendo de inúmeras combinações de tempo e número de respostas, e de relações fixas ou variáveis. Resumindo: o conceito de contingência comportamental abarca infindáveis exemplos de interações comportamento-ambiente, inúmeras das quais estão documentadas em livros e artigos científicos, como, por exemplo, na Revista Brasileira de Análise do Comportamento.

                Variações nos tipos de contingências comportamentais não envolvem apenas variações na apresentação de consequências. Mantidas as condições antecedentes e a consequências, a contingência pode exigir variabilidade no comportamento, como no reforçamento diferencial de outro comportamento (dro).

Metacontingência

                Metacontigência é uma relação condicional entre a colaboração de pelo menos duas pessoas (contingências comportamentais entrelaçadas) que resulta em determinado produto e alguma consequência programada por um ambiente cultural selecionador. Metacontingências podem ser classificadas de acordo com o tipo de relação de consequência (cerimoniais ou tecnológicas) e da especificação do produto agregado (conservadoras ou transformadoras), e de combinações de relação de consequência e especificação do produto (por exemplo, cerimonial conservadora, tecnológica transformadora, etc.).

Metacontingência cerimonial conservadora

                A consequência interessa mais ao ambiente cultural selecionador (agência de controle) do que às pessoas envolvidas na colaboração que resulta em um produto agregado, e este é fixado, como a saudação às autoridades por soldados desfilando.

Metacontingência cerimonial transformadora

                Diferentemente do exemplo anterior, o produto agregado não pode ser repetido. A relação condicional exige novidade no resultado da colaboração.

Metacontingência tecnológica conservadora

                A consequência cultural interessa diretamente às pessoas envolvidas na colaboração e o produto agregado não varia. Exemplo: pescadores em um barco de pesca. O produto agregado não varia, é a quantidade de peixes para vender.

Metacontingência tecnológica transformadora

                Exemplo: colaboração em agências de publicidade. A consequência cultural interessa diretamente às pessoas envolvidas na colaboração e o produto agregado não pode ser repetido. Neste caso, originalidade é o segredo do sucesso.