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segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A metacontingência da cooperação.

Pormenores do desempenho coordenado de dois ratos (dados ainda não publicados). A linha azul, superior, é produzida pelo comportamento cumulativo do rato Azul; a linha do meio pelo rato cinza. O comportamento individual nunca é reforçado. Quando respondem ao mesmo tempo (linha preta), a unidade para o esquema de reforço é um tipo de produto agregado - a ocorrência de duas respostas praticamente simultâneas (contingências comportamentais entrelaçadas) é acusada pelo equipamento (produto agregado).
Neste exemplo cada animal recebeu reforço separadamente depois de uma razão fixa de 50 respostas (FR 50).No canto esquerdo inferior da primeira foto a dupla acabou de ser reforçada e exibe a pausa pós-reforço característica. Algumas poucas respostas de cada rato são independentes, o responder colaborativo ocorre mais ou menos onde se poderia prever o fim da pausa em FR 50 .
Responder em estado estável leva tempo, principalmente com animais sem experiência no laboratório. A foto da direita mostra um exemplo com FR 6. O desempenho em razão fixa da dupla é prejudicado pelo desempenho errático de um dos parceiros. "Enganos" como esse tendem a desaparecer com mais treino.
O gráfico superior mostra que os ratos "desperdiçam" pouco esforço, pois quase todas as suas respostas contam para a razão fixa 50. Quand a coordenação entre os dois ainda não é boa, ambos trabalham mais mdo que o requerido (abaixo, FR 6).

Referência:
Carvalho, L. C., Santos, L., Regaço. A., Barbosa, T. B., Souza, R. F., Souza, D. G., & Sandaker, I. (2018). Cooperative responding in rats maintained by fixed‐ and variable‐ratio schedules. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 110, 105-126.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Contexto, comportamento e consequência


Para que serve a pesquisa básica em psicologia?
                Serve no mínimo para introduzir os alunos à teoria necessária para o exercício da profissão. Serve também para construir, reformar e reconstruir a teoria. Uma teoria nos dá lentes especiais para olhar para o mundo. O psicólogo Jon Bailey relata uma observação que fez enquanto a escada rolante o levava de um andar ao outro em uma estação ferroviária. Ao pé da escada uma criança puxava o casaco da mãe e a chamava, em voz cada vez mais alta, enquanto a mãe falava ao telefone. Sem pensar, o analista do comportamento já diz para seus botões: lá vai em andamento uma modelagem de birra. Técnicas para modelar respostas novas (isto é, para ensinar) foram desenvolvidas com pombos e depois aperfeiçoadas para aplicação geral, tanto na educação quanto na clínica, mas as relações condicionais responsáveis pelo processo existem no ambiente natural desde o início dos tempos.
                Já escrevi que para entender um comportamento é preciso considerar o ambiente físico em que ocorre (o local), o ambiente social (as pessoas em volta), o que está correndo internamente no organismo e a história daquela interação comportamento-ambiente. Um experimento com pombos mudou completamente a teoria como vinha sendo desenvolvida por Skinner ao mostrar que a relação comportamento- consequência é sempre modulada pelo contexto. Sem informações sobre o contexto (que inclui os ambientes interno e externo) não é possível nem prever nem controlar.
                Sobre o efeito da história redescobri recentemente um experimento simples, feito em 1977 no México, no laboratório de Coyoacan da UNAM, e publicado em 1982. O experimento mostra que o que é considerado estado estável de um comportamento depende da história do organismo naquela situação. O experimento mostra que é possível aumentar o tempo dedicado a uma tarefa evitando reforços para aquela tarefa nos primeiros segundos depois de uma pausa.
                Posso pensar em aplicações práticas dessa observação, mas gostaria de receber sugestões de meus leitores, seja pelo blog, seja por mensagem no Facebook. Comentarei cada sugestão.

https://www.academia.edu/37289797/Delay_of_reinforcement_for_responses_which_end_pauses_effects_on_response_rates.pdf



segunda-feira, 5 de março de 2018

Trends in Behavior Analysis, volumes 1, 2 e 3.








https://www.academia.edu/35989…/TrendsBehaviourAnalysis3.pdf


https://www.academia.edu/34673190/TRENDS_IN_BEHAVIOR_ANALYSIS_VOLUME_2_Trends2vFinal24set17red.pdf


Some old and new trends in Brazilian Behavior Analysis. João Claudio Todorov, Universidade de Brasilia, Brazil
Brazil has the largest number of undergraduate professional courses in Psychology in the world, so far more than 220. Of those, most offer Behavior Analysis courses, some only introductory disciplines, others a full training including practical work in the field. About 30 universities offer graduate courses, both basic and applied, with 15 of them leading to the PhD. This volume of activity, production and spreading of knowledge, has been going on for 55 years, since Professor Fred S. Keller went to the University of Sao Paulo as a Fulbright Scholar in 1961. Everything considered, Brazil is second only to the United States of America in both number of researchers and of publications on Behavior Analysis. All that notwithstanding, Brazilians are underrepresented in citations. That is understandable when we publish in Portuguese. Only people in Portugal (Europe), Angola, Mozambique, Cabo Verde (Africa), Timor East, Goa and Macau (Asia) can read what we publish in our common language (for the Asians, usually their second language). But Brazilians are also underrepresented even when publishing in English in major Behavior Analysis periodicals and books published in the US. Even Brazilian authors publishing there under cite Brazilian researchers. Citing is behavior, under the influence of all variables that influence choice. Having no way of directly control the environment of authors, we can at least enrich that environment. Trends in Behavior Analysis, Volumes 1, 2 and 3 are offered online, for download, as an opportunity to make the Brazilian production available internationally


Os três volumes do livro Trends in Behavior Analysis, download gratuito, incluem temas como
Alienação parental
Análise do Comportamento e Direito,
Comportamento governado por regras
Comportamento verbal de ordem superior
Conservação e transformação de práticas culturais
Controle de estímulos no comportamento verbal
Criatividade e insight
Encadeamento e classes ordinais
Ética e comportamento
Método e teoria em análise do comportamento
Mudanças em práticas culturais
Psicoterapia analítico-comportamental
Recorrência de respostas após extinção
Sustentabilidade
Violência doméstica
E autores como Andery, Banaco, Bentes, Benvenuti, Dittrich, Galvão, Glenn, Gomide, Haydu, Houmanfar, Hubner, Hunziker, Malott, Muchon, Paracampo, Sandaker, Todorov, Tourinho, Vasconcelos, Verdu, Zamignani e outros não menos conhecidos.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Skinner, o Governo e a necessidade de ciscar para dentro.


                Recentemente Diego Manzano Fernandes (Perfil no Facebook) instou analistas do comportamento a buscar relações entre avanços na Ciência Política nos últimos 100 anos e o que Skinner publicou sobre o Governo. A preocupação é pertinente. Ao especificar que o comportamento humano é função de variáveis que dependem da filogênese (espécie), ontogênese (indivíduo) e da cultura, Skinner deu muita ênfase ao desenvolvimento do comportamento de indivíduos. Contudo, em “Ciência e Comportamento Humano” boa parte do livro trata de questões que envolvem o terceiro nível de seleção, o nível cultural, mas o que seria uma psicologia social behaviorista nunca realmente se desenvolveu.

É do interesse de todos que a análise do comportamento se desenvolva em direção a todas as ciências com a quais faz fronteira, das biológicas às sociais. Mas é fundamental que esse desenvolvimento ocorra “ciscando para dentro”, com um aumento na abrangência da teoria, e não “ciscando para fora”, com áreas da análise do comportamento sendo “cooptadas” por outras linguagens teóricas.

                A cooptação tende a ocorrer sempre que há a aproximação com teorias já estabelecidas, com mais prestígio e tradição. Na interface da economia com a psicologia os estudos analítico-comportamentais sobre o comportamento do consumidor são absorvidos pelos estudos da “psicologia” do consumidor de tal forma que hoje “economia comportamental” em verdade é “economia cognitiva”, com dois Premio Nobel no bolso em menos de 20 anos.

                Na área de desenvolvimento atípico do comportamento o sucesso ao lidar com o autismo levou a um resultado semelhante. Hoje os melhores grupos da análise do comportamento adaptaram a teoria para falar de comportamento e cognição como processos diferentes, adequando-se à linguagem de outras disciplinas mais tradicionais na área.

                Para alguns autores já estamos na quarta onda das terapias comportamentais. A preocupação de Aaron J. Bronwnstein com a possibilidade de análise comportamental de relações comportamento-comportamento abriu o caminho para o desenvolvimento do contextualismo de Hayes e colaboradores, uma carta branca para o “cognitivismo-comportamental”.


                Estão esboçados acima três exemplos do que acontece com a teoria quando se cisca para fora. Se a tendência continuar veremos a análise do comportamento, que não se restringe ao que Skinner escreveu em meados do século passado (teorias são resultado de comportamentos, e como tal são suscetíveis às consequências), juntar-se a outros avanços da ciência natural sob ataque das vanguardas do atraso, os “criacionistas”. Alegar que os escritos de Skinner não podem virar doutrina não pode ser desculpa para negar na prática a visão da psicologia como ciência natural. Seriam os “cognitivo-comportamentais” os nossos criacionistas?

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Download gratuito dos volumes 1 e 2 de Trends in Behavior Analysis .

Download gratuito dos volumes 1 e 2 de Trends in Behavior Analysis .

“Brazil has the largest number of undergraduate professional courses in Psychology in the world, so far more than 220. Of those, most offer Behavior Analysis courses, some only introductory disciplines, others a full training including practical work in the field. About 30 universities offer graduate courses, both basic and applied, with 15 of them leading to the PhD. This volume of activity, production and spreading of knowledge, has been going on for 55 years, since Professor Fred S. Keller went to the University of Sao Paulo as a Fulbright Scholar in 1961. Everything considered, Brazil is second only to the United States of America in both number of researchers and of publications on Behavior Analysis.
All that notwithstanding, Brazilians are underrepresented in citations. That is understandable when we publish in Portuguese. Only people in Portugal (Europe), Angola, Mozambique, Cabo Verde (Africa), Timor East, Goa and Macau (Asia) can read what we publish in our common language (for the Asians, usually their second language). But Brazilians are also underrepresented even when publishing in English in major Behavior Analysis periodicals and books published in the US. Even Brazilian authors publishing there undercite Brazilian researchers. Citing is behavior, under the infuence of all variables that infuence choice. Having no way of directly control the environment of authors, we can at least enrich that environment. Trends in Behavior Analysis, Volume 1.01 is here offered online, for download, as an opportunity to make more of the Brazilian production available internationally.”




segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O "comportamento" das Agências de Controle também é selecionado pelas consequências desse controle.

O "comportamento" das Agências de Controle também é selecionado pelas consequências desse controle.

              Donald Trump quer deportar para seus países de origem imigrantes ilegais que chegaram aos Estados Unidos quando eram crianças, trazidos por seus pais e educados nos Estado Unidos. Deportar para onde? Para o país de seus pais? Não é seu país, não foram educados lá, sabem de cor o hino nacional americano, juram a bandeira de treze listras. Mas hipocritamente os adeptos da supremacia branca argumentam que a lei é essa, devem ser deportados porque são imigrantes ilegais. O jornalista David Leonhardt, no New York Times, mostra a falácia desse argumento. Seria simplesmente impossível para o Estado fazer cumprir sempre todas as leis. Há uma relação custo-benefício a ser considerada. No caso dos jovens americanos de origem latino-americana o custo do sofrimento humano seria enorme, incomensurável.

Na visão da Análise do Comportamento as interações na sociedade são reguladas por vários tipos de Agência de Controle, cada uma encarregada de certos tipos de relações condicionais. As interações melhor acompanhadas são aquelas nas quais as transgressões são apontadas de imediato pelos próprios envolvidos, como é o caso das refeições em família – comer de boca aberta é punido no ato pelos demais participantes da mesa. Quando o controle depende de agências formais, como o Poder Judiciário, entra em cena a relação custo-benefício. Segundo pesquisas da Economia a corrupção na sociedade envolve um custo tal para o Estado que não há como se prever sua erradicação; a corrupção pode ser controlada, mas nunca será extinta.

              O que fazer quando o controle direto pela Agência, como a religião, por exemplo, nem sempre, ou quase nunca, é possível? Internar o controle via regras. Não funciona muito bem, mas dá ao Agente a noção de que está fazendo o que deve ser feito. Só quem foi aluno de escola maternal da igreja sabe o que é ter medo do indizível, do perigo dos “maus pensamentos”. A crença no poder regulador dessas regras e valores não existe apenas na educação e na religião (e por consequência na família). Li também no jornal de hoje, o Correio Braziliense, que o Exército Brasileiro está preocupado com os militares temporários, que servem um máximo de oito anos e depois têm dificuldade de serem aproveitados em empregos do mercado. Muitos são tentados pelas gangues criminosas que assolam o país, cobiçados exatamente pelas habilidades que o Exército ensinou.  Eis o que o jornal publicou sobre o que o exército faz para prevenir a adesão às gangues:

              “Valores. De acordo com o Exército Brasileiro, durante o ano de serviço militar obrigatório, e nas escolas militares, são ensinados valores para afastar os integrantes da força do mundo do crime. Com foco em sua formação, são desenvolvidas atividades que incentivam o patriotismo, civismo, amor à pátria, solidariedade, entusiasmo, determinação e confiança. Para a vida civil, após deixar o Exército Brasileiro, são destacadas ações que valorizam a honestidade, apego à verdade, disciplina, respeito aos superiores e às autoridades, dedicação, probidade, lealdade e cumprimento às leis. ”

              Regras, auto regras e valores transmitidos via comportamento verbal, são eficazes enquanto não contrastam com contingencias do ambiente no presente. Seria mais eficaz se o exército primeiro treinasse o soldado para exercer funções com demanda no mercado e só o desligasse depois de passar por fase de experiência no emprego civil. 


              Voltando à “desamericanização” dos latinos, grande objetivo dos supremacistas da raça branca: o absurdo é tão grande que os netos e bisnetos de imigrantes legais e ilegais provavelmente não vão permitir que aconteça.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Definição de ambiente acolhedor a partir das exigências das contingências e metacontingências em vigor na comunidade


Ambiente acolhedor foi uma expressão usada por Anthony Biglan em seu livro “The nurture effect – how the science of human behavior can improve our lives & our world” (Biglan, 2015). As pessoas tornam-se membros bem adequados à Sociedade quando vivem em ambientes que favorecem o desenvolvimento de comportamentos sociais positivos. Um ambiente acolhedor é o ambiente preparado para reforçar comportamentos de interesse da pessoa e do grupo. Um ambiente no qual as interações ocorrem com um mínimo de controle aversivo.

Em situações nas quais são necessárias mudanças em larga escala de práticas culturais, como naquelas que caracterizam os programas de transferência condicionada de renda, como o Programa Bolsa Família, há que se cuidar do ambiente em que vivem e viverão as pessoas que recebem os benefícios condicionais. Pois a verba do povo utilizada no programa não resultará nos objetivos propostos se depois de anos recebendo atenção à saúde e frequentando a escola com sucesso hão houver emprego adequado quando completa 18 anos e o Ensino Médio. Nem a família como um todo deixará o programa se o ambiente que promoveu a miséria não melhorar. Criar repertório sem abrir postos de trabalho é um dos maiores crimes da burocracia no serviço público.

Esses programas, e são vários, não deveriam ser considerados programas de governo – proibido ser associado ao selo do governo Zeca Promessa – mas programas de estado, permanentes, sob constante monitoramento de Agências de Controle específicas, não governamentais.

Governos anteriores deixaram planos de incentivo ao desenvolvimento de cerca de 20 microrregiões econômicas no país. Vale a pena descobrir onde estão e o que podemos dizer sobre eles.

Biglan, A. (2015). The nurture effect – how the science of human behavior can improve our lives & our world. Oakland, CA: New Harbinger Publications, Inc.





Consolidação de sugestões bem-humoradas para o ensino de Análise do Comportamento.

Consolidação de sugestões bem-humoradas para o ensino de Análise do Comportamento.

  Ditados populares são antigos, alguns tão antigos que são de épocas em que a transmissão da cultura era feita apenas oralmente, não havia memória escrita. São frases curtas, mas compactas quanto à descrição de relações comportamento-consequência que ilustram. Geralmente usam uma experiência comum a todos os membros do grupo para prepará-los para perceber relações do mesmo tipo no futuro:

         
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

Ditado bom para mostrar que algumas consequências só ocorrem depois de várias tentativas, como quebrar um coco com uma pedra. No ensino de análise do comportamento pode ser usado para ilustrar os tópicos de variabilidade, momento comportamental e ressurgência. Quando a contingência (relação condicional) que mantém a estabilidade de uma relação operante-consequência é interrompida, o repertório do organismo naquela situação mostra alto nível de variabilidade, mas o operante não cessa de ocorrer. Continuará a ocorrer por mais ou menos tempo dependendo das condições que vigoravam no passado (momento comportamental). Se um novo operante for seguido pela mesma consequência, o primeiro operante cessa de ocorrer (água mole fura a pedra dura), para ressurgir se e quando houver extinção do segundo operante também (um processo conhecido na clínica como recaída).

         
Para bom entendedor, meia palavra basta.

Todo e qualquer operante envolve mais trabalho para modelar do que para manter. Modelagem é um procedimento de reforço diferencial de aproximações sucessivas da forma final desejada do operante, e isso quer dizer o seguinte: de início qualquer resposta existente no repertório que tenha alguma relação com o objetivo é reforçada. A seguir começa um treino de discriminação (reforço
diferencial), a resposta é reforçada em algumas situações mais próximas da situação final e não é reforçada quando emitida em outras situações – um procedimento semelhante àquela brincadeira de crianças do “quente” (reforço), “frio” (extinção).

 
No início, cada ocorrência da resposta exige mais esforço e leva mais tempo para acontecer; depois de completada a aprendizagem sua manutenção exige cada vez menos esforço.

Para bom “esquivador”, meia resposta basta.



         Ditados populares são antigos, alguns tão antigos que são de épocas em que a transmissão da cultura era feita apenas oralmente, não havia memória escrita.

         Longe dos olhos, longe do coração.

Muito usado antigamente para explicar porque a família mandava a mocinha estudar em colégio interno na Suíça para esquecer o namorado inadequado.

A frase chama a atenção para o poder do reforço contínuo e imediato e da proximidade geográfica e temporal de variáveis de contexto, como em situações de escolhas e decisões e de autocontrole. Um exemplo de consequência que está longe dos olhos (perder a hora de levantar no dia seguinte) mas que pode ser antecipada para perto do coração por uma resposta controladora: armar o despertador.

No caso da mocinha apaixonada, há outro ditado que explica a vantagem do primeiro: nada como um novo amor para esquecer o mais antigo.

Promessas não pagam dívidas.

Mas funcionam como estímulo reforçador, dependendo de quem promete. Grande parte da rede de interações que organiza nossa vida em comunidade é mantida pura e simplesmente por comportamento verbal, aquele que só produz ondas (sonoras).

Promessas não pagam dívidas mas mantêm a fidelidade do militante até a próxima eleição.


 “Nenhum homem é uma ilha” é uma frase que tem mais de 500 anos, de autoria de John Donne e usada por empréstimo por muitos autores. Ela resume a informação de que vivemos em comunidade e é assim que nos tornamos humanos. O processo de civilização e aculturamento do bebê leva anos e utiliza interações com centenas de outros humanos – a ponto de um antigo ditado africano dizer que é preciso uma aldeia para educar uma criança.


Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem faz parte de sua comunidade verbal selecionadora.


         Por outro lado, parece que ser de casa também traz desvantagens. Estrangeiros tendem a ser melhor tratados pelo grupo quando há interesse em que sejam atraídos. Parece que manter quem já faz arte da comunidade verbal selecionadora custa menos esforço que atrair novos membros, daí a necessidade de lhes dar mais atenção. No churrasco na casa do ferreiro o melhor espeto vai para o forasteiro; os de casa podem usar espeto de pau.



Ninguém é profeta em sua terra.

Casa de ferreiro, espeto de pau.


Quando o gato sai, os ratos fazem a festa.


Punição não funciona quando a situação sinaliza que ela não vai ocorrer. Mais ou menos o que ocorre no carnaval e nas passeatas contra o governo.

         O controle do comportamento por antecedentes e situações leva certo tempo para ocorrer. Aprendemos aos poucos a não gastar energia em situações nas quais um determinado comportamento nunca foi reforçado. Um exemplo? Com pouco mais de um ano minha filha pedia licença à cadeira que atrapalhava seu deslocamento pela sala. Aprendeu rapidamente que cadeiras e cachorros não entendiam português. Da mesma maneira aprendemos que certos comportamentos são punidos em algumas ocasiões, mas não em outras.
         Tendo aprendido depois de milhões de ano de evolução que punição é um processo complicado, desagregador, gerador de contra controle, os grupamentos humanos costumam delegar autoridade para punir a certas pessoas ou grupos. Em algumas famílias a mãe se encarrega das ameaças e o pai da guilhotina, que corta mesada, horas na internet, et.
         Se o encarregado da punição não está presente, a gandaia pode correr solta.
Quando o gato sai, os ratos fazem a festa, 
desde que ninguém seja tentado por delação premiada.



         Dizem que no princípio era o verbo. Os verdadeiros behavioristas acham que no princípio era a variabilidade. Eu pessoalmente acho que no princípio era a variabilidade, logo depois aumentada pela invenção do comportamento verbal.
            O comportamento verbal não veio só para ajudar, veio para confundir. Às vezes ajuda, mas quando você tenta entender, a confusão aumenta. Para começar, você nunca tem garantia de saber com quem está falando, com qual ouvinte ou com qual falante de cada uma das várias duplas de repertórios verbais que habitam naquele organismo. Muitas vezes, cercado de pessoas que deveriam estar prestando atenção, você descobre que só você mesmo está se ouvindo. Você convida sua mulher para jantar achando que fala com a namorada, mas quem pode estar ouvindo é a tesoureira; seu repertório adulto funciona só até as cinco, às seis e meia você está pronto para a nova série do Netflix, mas te pedem uma avaliação da situação econômica da família.
            Sem variabilidade não há evolução. O comportamento verbal está aí para não deixar a vida ficar monótona. 




segunda-feira, 26 de junho de 2017

Provérbios e ditados no ensino de princípios de análise do comportamento. I


         Ditados populares são antigos, alguns tão antigos que são de épocas em que a transmissão da cultura era feita apenas oralmente, não havia memória escrita. São frases curtas, mas compactas quanto à descrição de relações comportamento-consequência que ilustram. Geralmente usam uma experiência comum a todos os membros do grupo para prepará-los para perceber relações do mesmo tipo no futuro:

         Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

Ditado bom para mostrar que algumas consequências só ocorrem depois de várias tentativas, como quebrar um coco com uma pedra. No ensino de análise do comportamento pode ser usado para ilustrar os tópicos de variabilidade, momento comportamental e ressurgência. Quando a contingência (relação condicional) que mantém a estabilidade de uma relação operante-consequência é interrompida, o repertório do organismo naquela situação mostra alto nível de variabilidade, mas o operante não cessa de ocorrer. Continuará a ocorrer por mais ou menos tempo dependendo das condições que vigoravam no passado (momento comportamental). Se um novo operante for seguido pela mesma consequência, o primeiro operante cessa de ocorrer (água mole fura a pedra dura), para ressurgir se e quando houver extinção do segundo operante também (um processo conhecido na clínica como recaída).

         Para bom entendedor, meia palavra basta.

Todo e qualquer operante envolve mais trabalho para modelar do que para manter. Modelagem é um procedimento de reforço diferencial de aproximações sucessivas da forma final desejada do operante, e isso quer dizer o seguinte: de início qualquer resposta existente no repertório que tenha alguma relação com o objetivo é reforçada. A seguir começa um treino de discriminação (reforço
diferencial), a resposta é reforçada em algumas situações mais próximas da situação final e não é reforçada quando emitida em outras situações – um procedimento semelhante àquela brincadeira de crianças do “quente” (reforço), “frio” (extinção).

 No início, cada ocorrência da resposta exige mais esforço e leva mais tempo para acontecer; depois de completada a aprendizagem sua manutenção exige cada vez menos esforço.

Para bom “esquivador”, meia resposta basta.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Roberta Lemos fala da sua história e atuação como analista do comportamento em Políticas Públicas

PUBLICADA NO BOLETIM CONTEXTO:

1 – Que eventos foram relevantes para o seu interesse e sua opção pela Análise do Comportamento?
Quando ingressei na faculdade de Psicologia, vi, na análise do comportamento, a ciência que poderia me ajudar a trabalhar na área esportiva que era o que me interessava. A concepção de homem e de mundo expressas no sistema explicativo elaborado por Skinner, parecia melhor descrever o modo como eu observava as relações humanas.
2 – Você é Bacharel em Esporte pela USP (2004) e Psicóloga pela PUC-SP (2005). A sua dissertação de mestrado (2008) parece ter sido influenciada por suas duas formações. Àquela época, você planejava um futuro profissional que conciliasse Análise do Comportamento e Esporte? E atualmente?
É verdade. Na minha dissertação, trabalhei com comportamento de observação de jogadores de handebol de alto nível, sob orientação da Prof. Teia, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento da PUC-SP. Naquela época, eu tinha planos de continuar atuando na interface do Esporte com a Psicologia. Trabalhava já em alguns projetos sociais que utilizavam o esporte como linguagem para promover educação não formal. Atualmente, o projeto de trabalhar com esporte está guardado, mas vejo como uma possibilidade o trabalho com Políticas Públicas de Esporte no futuro.
3 – Como e quando surgiu seu interesse por Práticas Culturais e Políticas Públicas?
Foi por meio do esporte que tive contato com um público bastante específico e destinatário de diversas políticas sociais. Na época, trabalhava com adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa  em meio aberto que é público abarcado pelo Sistema Único de Assistência Social. Foi trabalhando com esse público que percebi a prevalência de padrões de comportamento, de algum modo, prejudiciais aos membros do grupo, que eram mantidos por contingências sociais. Naquele momento, entendi o potencial do Estado para promover intervenções em larga escala que pudessem beneficiar um grande número de pessoas e alterar padrões comportamentais. Depois disso, revisitei meus planos profissionais e comecei a investir no trabalho com Políticas Públicas.
4 – Como foi o percurso profissional entre seu mestrado e o cargo que você ocupa atualmente no Ministério?
Em 2008,  defendi a dissertação de mestrado. Naquela época, já trabalhava no Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Interlagos. No mesmo ano, tive a oportunidade de prestar uma consultoria para o Governo do Estado do Acre e, logo depois, fui convidada para colaborar com a elaboração do sistema de monitoramento e avaliação do Sistema Socioeducativo do Estado.  Mudei para Rio Branco, onde vivi em 2010. Foi nessa oportunidade que vivi a experiência de trabalhar com Políticas Públicas por dentro do Poder Público. Antes disso, eu só havia trabalhado em organizações da sociedade civil que atuavam na defesa de direitos e no controle social. Depois disso, decidi que era a partir desse lugar que queria intervir. Em 2011, passei um tempo em São Paulo, onde prestei algumas consultorias relacionadas à construção de Planos Municipais e atuei como Conselheira no Conselho Regional de Psicologia. No final do ano, mudei para Brasília, para trabalhar no Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte e estudar para concurso. Depois de seis meses estudando, passei no concurso para Analista Técnico de Políticas Sociais e fui lotada no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
5 – Quais são as atribuições do seu cargo atual? Como sua formação em Análise do Comportamento auxilia nas suas atividades?
A carreira de Desenvolvimento de Políticas Sociais foi criada pela Lei nº 12.094, de 19 de novembro de 2009. Nossas atribuições estão definidas no artigo 3° dessa lei, das quais eu destacaria, em resumo: executar atividades de assistência técnica, aferir seus resultados, proceder à análise e avaliação dos dados obtidos em projetos e programas e colaborar na definição de estratégias de execução das atividades de controle e avaliação nas áreas de saúde, previdência, emprego e renda, segurança pública, desenvolvimento urbano, segurança alimentar, assistência social, educação, cultura, cidadania, direitos humanos e proteção à infância, à juventude, ao portador de necessidades especiais, ao idoso e ao indígena. Quando falamos em acesso à políticas sociais, falamos sobretudo de comportamento humano. Para que o Estado cumpra o seu dever de ofertar serviços e programas para a população nessas áreas, precisamos entender, primeiramente, quais são as variáveis que controlam os comportamentos de aderir a um tratamento de saúde, de freqüentar a escola ou de proteger os recursos naturais, por exemplo. Esse conhecimento é imprescindível para que se possa planejar ações eficazes e com melhor custo benefício. Atualmente,  trabalho na Secretaria Executiva do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais, instituído pelo Decreto 8750, de 9 de maio de 2016, que é uma instância consultiva de participação composta por governo e sociedade civil. Sua função primordial é promover o desenvolvimento sustentável dos povos e comunidades tradicionais, com especial atenção para a proposição de medidas para a implementação, o acompanhamento e a avaliação de políticas relevantes, respeitando sua autonomia, seus territórios, suas formas de organização, seus modos de vida peculiares e seus saberes e fazeres tradicionais e ancestrais. É nesse contexto que minha formação em Análise do Comportamento direciona a minha atuação.  
6 – O seu projeto de doutorado abarca o Programa Bolsa Família. Quais são os objetivos do projeto? Já tem algum resultado preliminar?
No projeto de doutorado, sob supervisão do Prof. João Cláudio Todorov, pretendo demonstrar como é possível a atuação de um Analista do Comportamento em Políticas Públicas. Para isso, escolhi trabalhar com o Programa Bolsa Família, um programa de transferência de renda condicionada, instituído pela Lei 10.836, de 9 de janeiro de 2004. Assim, o objetivo principal do projeto é demonstrar a possibilidade de formulação, implementação e avaliação de intervenção em larga escala por meio de política pública local, baseada em princípios comportamentais. Inicialmente, tratei de entender como está desenhado o programa e analisar alguns de seus resultados. Observei que o comportamento de jovens de 16 e 17 anos de freqüentar a escola é selecionado pelas conseqüências do programa com menor sucesso. Como experimento, proponho a introdução de relação condicional complementar que envolve o estabelecimento de contrato de aprendizagem, conforme regulamentado na Lei 10.097, de 19 de dezembro de 2000, sobre o comportamento de ir à escola em jovens de 16 e 17 anos contemplados com o Benefício Variável Jovem do Programa Bolsa Família. Vale lembrar que, para estabelecer um contrato de aprendizagem, é necessário que o jovem esteja matriculado e freqüentando a escola. É nesse sentido que entendemos que essa pode ser uma relação condicional complementar àquela já estabelecida pelo Programa Bolsa Família. Estamos implementando uma linha de base múltipla com intervenção em três fases com dois municípios em cada. A idéia é verificar a possibilidade de alteração do efeito social acumulado (taxas de abandono e evasão escolar municipais) por meio da alteração em contingências individuais em larga escala. Para operacionalizar a introdução da relação condicional complementar, é necessário estabelecer uma metacontingência de apoio como padrão de articulação municipal para garantia do direito à profissionalização e à proteção no trabalho e do direito à educação a adolescentes. São parceiros do projeto o Projeto Aprendizagem da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Estado de São Paulo, o SENAC e as respectivas prefeituras. Até agora, o projeto foi implementado em Atibaia e Franca (primeira fase) e Batatais e Lins (segunda fase). Estamos em plena análise de dados da primeira fase, coletando os dados da segunda fase e iniciando a implementação da terceira fase.
7 – Você, seu orientador, Prof. Dr. João Cláudio Todorov, e a mestranda Bruna França estão conduzindo o Projeto PORVIR. Quais os objetivos do projeto? Como ele se relaciona com sua tese e com seu trabalho no Ministério?
O Projeto Porvir é exatamente a proposta que utilizamos para apresentar a pesquisa nos municípios. Para garantir um caráter institucional, construímos um site www.projetoporvir.com.br, por meio do qual é possível promover o encontro entre o empregador que precisa contratar e jovem que quer se candidatar às vagas. Os empregadores podem criar um perfil da empresa, buscar currículos de candidatos no seu município e anunciar suas vagas. Os candidatos, selecionados pela prefeitura, podem cadastrar um perfil, montar seu currículo e se candidatar às vagas. Uma novidade para a segunda fase da pesquisa, é que os candidatos também podem realizar cursos online na Escola Porvir, que possuem conteúdos específicos sobre aprendizagem, processos seletivos e outros relacionados. A idéia é que os jovens possam se capacitar ainda mais antes de participarem dos processos seletivos. Para promover a adesão aos cursos, há toda uma estrutura de pontos e selos utilizados para organizar um ranking dos perfis, que funcionam como conseqüências imediatas. Em todos os municípios, temos trabalhado com os auditores do Ministério do Trabalho que fiscalizam se as empresas estão cumprindo sua obrigação legal de contratação, o SENAC que oferta os cursos de aprendizagem e a Secretaria de Assistência Social ou equivalente que tem por competência acompanhar as famílias em descumprimento das condicionalidades relacionadas ao Programa Bolsa Família. Depois de alguns meses de articulação e definição das ações de todos os envolvidos, promovemos um evento para apresentar o Projeto Porvir e o banco de currículos do município para as empresas.
8 – Qual a relação entre o seu projeto de doutorado e seu cargo de Analista Técnica? O plano de carreira do Ministério prevê esse tipo de qualificação específica?
A proposta de intervenção do Projeto Porvir é uma solução que pode ser implementada pelos municípios como complementar ao Programa Bolsa Família. Não há qualquer custo para os atores envolvidos, uma vez que não propomos novas atribuições, mas a ação articulada dos órgãos daquilo que já executam de forma focalizada em um público específico. Penso que é atribuição do Analista Técnico em Políticas Sociais encontrar e sugerir esse tipo de solução em Políticas Públicas. Embora eu não esteja trabalhando diretamente na área que implementa o Programa Bolsa Família, tenho dialogado bastante sobre sua viabilidade dentro do Ministério.  A carreira ainda é nova e não há qualquer conseqüência direta para quem tem pós-graduação, embora seja uma das pautas da associação. No entanto, há regulamentação específica que permite ao servidor se ausentar ou adequar seu horário para fazer o curso.
9 – Na sua opinião, que métodos de pesquisa devem ser mais explorados por analistas do comportamento que queiram produzir conhecimento para intervenção em práticas culturais de larga escala?
Embora os delineamentos entre grupos sejam hoje largamente utilizados na produção de conhecimento em Políticas Públicas, penso que devemos insistir no potencial dos delineamentos de sujeito único característicos da pesquisa experimental em Análise do Comportamento. A necessidade de realizar medidas repetidas, por si só, já se apresenta como uma vantagem para averiguar a mudança do comportamento de membros de uma comunidade ao longo do tempo. Entre os delineamentos possíveis, gosto, particularmente, da linha de base múltipla entre comunidades ou municípios. Por meio dele é possível ter diferentes comunidades ou municípios em condição controle enquanto outros estão sob efeitos da variável independente, o que nos permite avaliar se as alterações na variável dependente são efeitos da intervenção . Além disso, no caso de políticas públicas que pretendem garantir direitos à população, é uma vantagem não precisar realizar a reversão para demonstrar os efeitos da intervenção. Não parece adequado suspender uma intervenção que pode estar beneficiando uma comunidade, por exemplo. Para o pesquisador, não precisar realizar mais de uma intervenção ao mesmo tempo pode ser uma vantagem, uma vez que a implementação de um projeto em um município, por exemplo, pode demandar um grande investimento de tempo.
10 – Que recomendações você daria ao jovem analista do comportamento que pretende trabalhar com Políticas Públicas? Quais referências bibliográficas você indica?
Minha principal recomendação é “mostrar a cara”, ir nos lugares e conversar com os atores que atuam na formulação, implementação e avaliação das Políticas Públicas, seja no Executivo ou no Legislativo, e com seus beneficiários. Acho imprescindível conhecer os meandros da política, antes de planejar qualquer intervenção. Não há nada de tão complicado ou inacessível. Especialmente no âmbito municipal, vejo muitas vezes os atores bastante receptivos a novas idéias. Se o desejo for assumir um cargo como servidor público, recomendo escolher uma carreira de analista ou gestor que permita uma atuação direcionada às políticas sociais. Para quem está tateando a área, indico a “Coletânea de Políticas Públicas”da Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), que traz capítulos específicos sobre o ciclo de políticas públicas, os espaços de tomada de decisão e os atores envolvidos, o livro “The Nurture Effect”, do Anthony Biglan, que traz recomendações interessantes aos gestores públicos ao final de cada capítulo e o livro “Finding Solutions do Social Problems” do Mark Mattaini e Bruce Thyer com capítulos específicos sobre mudanças em padrões de comportamento em membros de comunidades.
11 – Você acredita que em algum momento o governo do Brasil adotará uma política baseada em evidências, nos moldes das equipes de ciências comportamentais e sociais adotadas em outros países?

A elaboração de políticas baseadas em evidências é uma tendência cada vez mais abarcada pelos órgãos do Executivo. Há, inclusive, órgão criados especialmente para isso, como é o caso da Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação no Ministério onde trabalho. No entanto, vejo ainda muito pouco a utilização de pesquisas científicas produzida pelas Ciências do Comportamento, como insumo. Acho bastante possível a instituição de um espaço semelhante àqueles adotados em outros países, no âmbito do Poder Executivo, que tenha como referência as Ciências do Comportamento. É comum a criação de grupos interministeriais de caráter eminentemente técnico para se debater e construir os caminhos de determinado programa, projeto, serviço ou ação. Penso que o que nos falta é investir na comunicação com gestores para demonstrar como isso é possível. Recentemente, o Grupo de Estudos em Cultura e Comportamento do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Comportamento da UnB, supervisionado pelo Prof. João Cláudio Todorov e do qual participo, lançou o primeiro evento, de uma série a ser produzida, que pretende instituir o diálogo entre a Análise do Comportamento e o Gestores de Políticas Públicas. Na ocasião, debatemos programas de transferência de renda condicionada e pagamentos por serviços ambientais com gestores da área. Certamente, não é o único modo, mas já é uma possibilidade para divulgar o potencial da Análise do Comportamento. 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Mudanças rápidas em práticas culturais e o DNA da descrença


                Estava eu viajando de avião da maneira complicada, característica de quem precisa levar a bordo concentrador portátil de oxigênio e baterias suficientes para a duração do voo e mais 50% desse tempo, por segurança: cateter nas narinas, tubo ligado ao aparelho embaixo da cadeira. Quando precisei me levantar para que as outras cadeiras fossem ocupadas, algumas pessoas se ofereceram para ajudar. Posso fazer tudo sozinho, mas os tubos e o aparelho parecem transmitir outra imagem às pessoas.

                Comentei essa boa vontade com um senhor que ocupava a poltrona do meio. Desde que tenha nível adequado de oxigênio para respirar sou liberado pelos médicos para viajar sem acompanhante. Como não posso andar muito e nem carregar peso, nos aeroportos as empresas sempre fornecem cadeiras de rodas. Comentei com meu vizinho de viagem que com essa combinação, oxigênio + cadeira de rodas, fiz viagem de 40 horas de Brasília a Kyoto sem andar mais que dez metros, pois no Japão trens e hotéis também dão essa atenção a cadeirantes. Funcionários do trem bala me levaram na cadeira até o hotel e lá me esperavam com outra cadeira, da qual só me levantei dentro do apartamento. Meu vizinho ficou admirado e comentou alguma coisa como “Isso nunca vai acontecer aqui”. A educação japonesa seria obra de milênios, com práticas culturais que “nunca veremos por aqui”, porque isso (falta de educação) está no DNA do povo brasileiro. Aí tive que rir e dizer que estava indo a Londrina falar sobre mudanças rápidas e em larga escala de práticas culturais; se pensasse como ele eu deveria mudar de profissão.

                Não só não mudo como continuo a bater na mesma tecla. Questões como as que suscitam em pessoas afirmações como essas, frequentes em artigos de opinião assinados como os que foram publicados nos jornais “Folha de São Paulo” e “Correio Braziliense” na última semana, são questões que se referem a práticas culturais. São comportamentos aprendidos e passados de pais para filhos, de geração para geração.  Quanto mais antigos em determinada cultura, mais trabalhosa a mudança.

                Mas o que nos dá a confiança em que essa mudança pode ser rápida e realmente em larga escala é a teoria que nos define uma cultura como o conjunto de relações condicionais entre comportamento e consequência, relações mantidas por agências de controle. Em cada grupo, organização, etnia, etc., a aculturação de novos membros segue regras formais ou informais aceitas pelos membros daquele grupo. Mudanças nas regras, e nos comportamentos regulados por elas, podem ser rápidas quando a decisão de mudar for coletiva. Por isso tentativas de mudança por iniciativa dos dirigentes só podem ser bem-sucedidas depois de ampla divulgação da informação e das razões para mudar. Quanto maior e mais complexo o grupo mais trabalhosa será a intervenção, levantando a questão da relação custo-benefício. Qualquer que seja a prática cultural, que é sempre algum tipo de comportamento mantido por consequências, os membros do grupo encarregados da decisão podem decidir não intervir por conta do custo da mudança. Os economistas têm estudos sobre a relação custo-benefício da eliminação da corrupção na sociedade. O custo da manutenção de agências de controle para garantir a erradicação dessa prática cultural torna inviável esse esforço, levando a propostas de diminuir a corrupção a níveis mais favoráveis à manutenção das transações econômicas a um custo compatível com o benefício.

                Talvez por essas razões é comum ver autores colocando toda a esperança na educação das novas gerações. Não esperam nada dos adultos. “O povo brasileiro é primário e sem percepção de um projeto nacional. A semana modernista, nos primórdios do século 20, elegera Macunaíma, como o mestiço esperto – no meio das mazelas nacionais -, como o herói brasileiro sem nenhum caráter, ou seja, sem caráter em todos os sentidos. ”  (Sacha Calmon, Correio Braziliense de 7 de maio de 2017, página 13).  No mesmo dia, mesmo jornal, mesma página, o Professor Titular da Unicamp Jaime Pinsky escreveu: “ O chamado grito do Ipiranga não significou nada para a maioria esmagadora da população do território. Nem para os escravos, nem para os índios, nem para a população do campo, talvez apenas para uma parte pequena e letrada (e proprietária) de moradores de cidades, uma parte ínfima de Brasil.  .... Para sobreviver o povão aprendeu a ser dissimulado, traço também tristemente evidente. A população não se sente representada por seus representantes, o poder político tem sido o melhor caminho para a corrupção, ninguém abre mão de seus privilégios e os sonegadores apresentam tudo isso como álibi para não contribuir para o bem comum. “



                Lembrando Roberto Campos, citado por Ives Gandra da Silva Martins na Folha de São Paulo de 7 de maio de 2017, página A3 (“O planeta dos malandros”), “com esta mentalidade, o Brasil não corre nenhum risco de melhorar. “ Entretanto, mudar para melhorar é possível e é preciso. Cabe a quem sabe como mostrar o que pode fazer. “Mentalidade” é apenas o nome popular de um conjunto de relações condicionais que isentam de punição e recompensam “quem leva vantagem em tudo”. São regras de convivência que ficam mais fortes toda vez que alguém impunemente fura a fila do cinema, por exemplo. 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O nome "Método ABA" como figura de linguagem.


                Aconteceu de um analista do comportamento em organizações ser procurado por um pai de autista depois de uma palestra e ser surpreendido com a manifestação de surpresa: “Não sabia que o ‘Método ABA’ se aplica também a empresas! ”.

                Isso já acontece em algumas regiões dos Estados Unidos. O sucesso da Análise Comportamental Aplicada (ABA da sigla em inglês) no tratamento de crianças com diagnóstico de Síndrome do Espectro Autista é tal que o grande público, que não conhecia a Análise Comportamental Aplicada, tende a usar, sem o saber, uma figura de linguagem. Dá-se ao que está contido, um procedimento específico, o nome da disciplina que o contém.  Foi um recurso publicitário útil quando os trabalhos pioneiros começaram a ser conhecidos e a ACA (ou ABA, que soa melhor) já era conhecida, “Ciência e Comportamento Humano” já era encontrado em livrarias de shopping, e livros como “O que a baleia Shamu me ensinou sobre o amor e casamento” era vendido até em livrarias de aeroporto.

                Em ciência, ninguém inventa nada. Revelação é área da religião. Inovações em qualquer área dependem do estado do conhecimento na época. O nome de Lovaas é o mais associado às origens do “Metodo ABA” por seu pioneirismo e persistência, mas não inventou os princípios que fundamentaram seu procedimento.

Transcrevo aqui a tradução de Ana Arantes de um texto de James Todd sobre Lovaas e as origens de seu trabalho. Pode ser visto na íntegra no endereço

http://scienceblogs.com.br/ensaios/2010/10/memorial_a_ivar_lovaas_como_na/



“Quanto à Análise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis, ou a conhecida sigla ABA), Lovaas não a inventou. Pode-se argumentar que Skinner a inventou, ao menos conceitualmente, em seu romance de 1948, Walden Two. A contribuição especial de Lovaas foi mostrar que é possível, com a aplicação integral e intensiva de princípios da teoria da aprendizagem, tratar efetivamente, e de forma eficaz, o autismo como um todo, em um número considerável de indivíduos, ou ao menos levar melhorias substanciais para aqueles que não alcançam totalmente os benefícios do tratamento. Por “eficaz” e “substanciais” entende-se que cerca de metade das crianças submetidas às intervenções ABA obtêm desempenho dentro dos limites “normais” em certos testes padrão. Em termos práticos, isso significa que essas crianças são capazes de frequentar a escola sem apoio especial. Antes que Lovaas fizesse isso, já havia provas científicas suficientes que mostravam que a ABA podia ser utilizada efetivamente para aspectos específicos de autismo.

A ABA ainda era bastante jovem quando Lovaas usou o método pela primeira vez para tentar criar um tratamento global para o autismo, na década de 1960. Mas, antes de Lovaas, começando na década de 1950, o trabalho reconhecido como ABA foi aplicado a todos os tipos de problemas de comportamento, tipicamente em pessoas com deficiência de desenvolvimento e esquizofrenia e geralmente em laboratórios e instituições. Grandes programas dedicados à Análise Comportamental Aplicada, como o Departamento de Desenvolvimento Humano e Vida Familiar (Department of Human Development and Family Life, HDFL) da Universidade do Kansas, foram estabelecidos na década de 1960. O HDFL é hoje o Departamento de Ciências do Comportamento Aplicadas. O Journal of Applied Behavior Analysis foi fundado em 1968, quase 20 anos antes de Lovaas publicar seu artigo seminal, em 1987, “Tratamento comportamental e funcionamento educacional e intelectual normal em jovens crianças autistas” (Behavioral Treatment and Normal Educational and Intellectual Functioning in Young Autistic Children), no Journal of Consulting and Clinical Psychology. Assim, ao contrário de praticamente todos os “tratamentos” para o autismo de que temos ouvido falar, ABA não é um novo “método” esperando alguém para fazer um estudo e descobrir se ele funciona em tudo. Intervenções ABA para problemas específicos de comportamento foram baseadas diretamente em princípios descobertos e comprovados em laboratórios comportamentais. Intervenções ABA abrangentes são construídas à partir de tratamentos mais direcionados, que já demonstraram eficácia. ABA não está esperando para entrar em todas as revistas científicas, ela vem de todas as revistas científicas. A pergunta típica não é o quanto a intervenção irá funcionar – esta é a parte fácil – mas se esta pode ser efetivamente aplicada no mundo real, com todas as complicações que o mundo real traz. ”

Mas, antes de Lovaas, não havia sido estabelecida ainda a possibilidade de efetivamente tratar o autismo como um todo através da criação de um programa abrangente de intervenções ABA. Agora, o termo ABA é muitas vezes incompreendido como significando apenas o que Lovaas fez – sua “terapia de tentativa discreta”, por exemplo – mas “ABA” realmente significa muito mais. O que é ABA? Citando livremente algo que eu escrevi para uma outra finalidade, podemos definir como ABA:

“O uso sistemático de princípios de aprendizagem cientificamente estabelecidos, técnicas de condicionamento comportamental e modificações ambientais relacionadas para criar terapias baseadas em evidências, comprovadamente eficazes e humanas, com o objetivo principal de estabelecer e reforçar habilidades de vida independente, socialmente funcionais e importantes. “

Na prática, uma análise comportamental aplicada utiliza técnicas baseadas na teoria da aprendizagem para modelar comportamentos novos e importantes em indivíduos com determinados excessos ou déficits comportamentais. Intervenções realizadas por analistas do comportamento geralmente incluem os seguintes componentes:

• Uma análise baseada em dados funcionais das condições responsáveis pelo comportamento problema.

• Objetivos e metas de tratamento específicos e verificáveis.

• Um plano bem definido usando os princípios da teoria de reforço para atender as metas e objetivos.

• Uma coleta de dados contínua para mostrar que a intervenção foi realmente a responsável pelos ganhos do tratamento.

• Um plano para garantir a generalização e a manutenção dos ganhos do tratamento.

• Medidas para garantir a validade social dos objetivos e metas do tratamento, e para assegurar que todos os envolvidos possam contribuir de forma substancial e construtiva para a melhoria de suas habilidades ao máximo de sua capacidade. ”




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Trends in Behavior Analysis, volume 1.


“Trends in Behavior Analysis” Volume 1 é um conjunto de capítulos escritos por encomenda para a divulgação internacional do trabalho em Análise do Comportamento feito no Brasil. Pode ser encontrado online na Apple Store ou no site da Editora Technopolitik, para download gratuito.

O Brasil só perde para os Estados Unidos em número de pesquisadores e de publicações em Análise do Comportamento, mas sua divulgação é prejudicada pela língua. Publicações em inglês, a língua internacional da ciência na atualidade, ainda são uma pequena parte do conjunto. A coleção “Trends in Behavior Analysis” pretende ser um conjunto de volumes que vai retratar a variedade de áreas e assuntos abordados pelos pesquisadores brasileiros que apresentam sua produção para o acesso da comunidade internacional. E para os programas brasileiros de pós-graduação, cada vez mais exigentes quanto ao domínio da língua inglesa.






Trends in Behavior Analysis, Volume 1

Introduction - Some old and new trends in Brazilian Behavior Analysis.  João Claudio Todorov 

 1 What Is ethical behavior? Alexandre Dittrich

2 Behavior Analysis, creativity and insight. Marcus Bentes de Carvalho Neto, João Ilo Coelho Barbosa, Hernando Borges Neves Filho, Paulo Elias Gotardelo Delage, and Rubilene Pinheiro Borges.

3 Behavioral Analysis of law: a brief overview of the juxtaposition of law and radical behaviorismo. Julio Cesar de Aguiar and Leandro Oliveira Gobbo

 4 Parental alienation constructo. Paula Inez Cunha Gomide.

5 Cultural practices are hard to change. Camila Muchon de Melo

6 Conservation and transformation of cultural practices through contingencies and metacontingencies. João Claudio Todorov

7 Stimulus control and Verbal Behavior: (in)dependent relations in populations with minimal verbal repertoires. Ana Claudia Moreira Almeida Verdu and Raquel Melo Golfeto

8 Chaining and ordinal classes: conceptual, methodological, and intervention aspects. Grauben Assis

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Modelagem na Análise do Comportamento – Como não ensinar seu filho, como não treinar seu rato

            . Dois artigos recentes no New York Times mostram a importância de um esclarecimento continuo do público sobre o que e’ Analise do Comportamento. Um tratava de consequências arbitrarias como suborno – você não pode reforçar seu filho por ler ao invés de jogar vídeo games, isso e’ suborno, propina, pixuleco. Ele tem que descobrir os prazeres da leitura sozinho. Outro artigo está no The New York Times Magazine de 31 de julho de 2016, e diz como ensinar um rato. O entrevistado tem currículo para falar do assunto pois treinou milhares de ratos para filmes como ‘’Bram Stoker’s Dracula’’ e ‘’Willard’’ e séries da televisão como ‘’True Blood’’.
            Sobre consequência condicional como suborno: o tesoureiro do partido do governo avisar o empresário que seu contrato com o governo só será assinado se doar recursos para o partido e’ situação de extorsão (ato do tesoureiro) e propina ou suborno (ato do empresário). A mãe estabelecer que o tempo livre para brincar depende de 30 minutos lendo e’ parte de inúmeras outras relações condicionais que a cultura determina que devem ser ensinadas – como lavar as mãos antes de comer, escovar os dentes depois das refeições, tomar banho no fim do dia, etc. Todas são relações condicionadas arbitrarias.
            Se eu escrevesse aqui que você não pode subornar seu filho estabelecendo lavar as mãos antes das refeições como condição para almoçar, os leitores achariam que estou ficando doido.
            Já’ o artigo sobre como ensinar o rato e’ um exemplo de difusão de informação errada. A razão para usar comida como consequência para modelar comportamentos está errada, parece que de proposito, para tornar o procedimento mais palatável ao público – seria melhor para a saúde do rato ter que trabalhar para comer do que ficar na gaiola engordando por comer demais sem se exercitar. O uso de reforço condicionado (um ‘clique’ produzido por um artefato de metal que você segura na mão) também e’ mal explicado – você começa por estabelecer contato amigável com o rato, segurando-o e fazendo carinho, ate’ que a inundação de respondentes no bicho se acalme. Quando ele estiver calmo o suficiente para ter fome, as pelotas de alimento são dadas e seguidas pelo clique. O clique vem depois da comida para que esse novo som não assuste do animal.
            Estabelecido o clique como estimulo neutro começa a associação clique-comida. De início um clique e’ sempre seguido por comida, mas logo essa relação vai sendo alterada de tal maneira que e’ possível exibir um desempenho complexo mantido apenas por reforço condicionado produzido por um aparelho escondido na mão do treinador.  Até ai’ tudo bem. A explicação do treinador e’ que atrapalha. Diz ele: “Comece a associar o clique e a comida para que o rato entenda a relação de causa e efeito”.  “Aumente a distância entre o som e a comida ate’ que o rato perceba que o som e’ uma promessa de comida”. Mas não espere mais que 30 segundos depois do clique para dar a comida”. “Sessões de 10 minutos são mais proveitosas”.
            Ai’ esta’ o que acontece quando métodos e técnicas desenvolvidos pela Análise do Comportamento são usadas por quem não tem formação teórica adequada. O relato antropomórfico e’ desnecessário, supérfluo e errado. Informações técnicas mostram despreparo. O texto a seguir mostra como funciona a modelagem de longas cadeias de respostas em ratos. Foi publicado em outra postagem neste blog –
jctodorov.blogspot.com/2010/05/operantes-complexos.html
Eis o que apresentei na reunião da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência – SBPC - ocorrida em Ribeirão Preto, Estado de São Paulo, em julho de 1964 (Todorov, J. C. “Brasilino II: uma demonstração de encadeamento de respostas”.).

Brasilino II trabalhou (e fez seu professor trabalhar) uma hora por dia durante 30 dias para completar um encadeamento de 21 componentes. O último componente era pressionar uma barra dentro da caixa experimental e receber água como consequência. O primeiro era deixar a caixa experimental e se dirigir para uma escada vertical que o levava para o alto de uma estante com estrutura de barras de alumínio com1, 50 m de altura, com três prateleiras. No meu site https://sites.google.com/site/jctodorov/ a primeira foto mostra sua chegada na plataforma superior, dirigindo-se em alta velocidade para uma seqüência de pinos de metal que deveria ser percorrida, um pino pela esquerda, o seguinte pela direita, etc. Outros componentes incluíam saltar um aro de metal colocado a 15 cm do piso (a parte de baixo do aro aparece na foto no alto à esquerda), correr para uma plataforma e saltar o espaço vazio até a plataforma de descida (um pedaço da primeira plataforma aparece também no alto da foto à esquerda), descer pela escada lateral para a prateleira de baixo, etc., até um labirinto que tomava todo o piso inferior, penúltimo de 21 elos da cadeia.

Brasilino II foi treinado da frente pata trás, isto é, aprendeu primeiro a pressionar a barra para beber água. Em seguida aprendeu que a pressão à barra só era seguida por água quando uma campainha estivesse soando. Em termos técnicos, na contingência tríplice água foi o estímulo reforçador primário, pressão à barra a resposta operante e a campainha o estímulo discriminativo. O próximo passo foi usar a campainha como estímulo reforçador condicionado para a resposta de sair do labirinto e dirigir-se para a caixa experimental. O rato era colocado, sem som, na saída do labirinto e o som começava a tocar quando ele se dirigia para a caixa. Da mesma forma aprendeu para que lado virar em cada esquina do labirinto (havia cerca de 15 escolhas entre esquerda ou direita que tinha que fazer). Qualquer erro fazia o som parar, e o som só recomeçava quando Brasilino II retomava o caminho certo.

Brasilino II foi inspirado no rato Barnabus, ensinado por meu professor na USP J. Gilmour Sherman,(quando estudava na Columbia University de Nova Iorque, nos anos 50).

Comparações entre ensinar cadeia para trás, como fizemos com o Brasilino II, ou para frente, tem sido publicadas:

Borges, M. M., Simonassi, L. E., & Todorov, J. C. (1979). Comparação de dois procedimentos na aquisição de cadeias de respostas em humanos. Anais da IX Reunião Anual da Sociedade de Psicologia de Ribeirão Preto, p.107.

Borges, M. M. (1982). Efeitos de dois procedimentos na aprendizagem de cadeias comportamentais. Dissertação de Mestrado, (Psicologia), Universidade de Brasília.

Borges, M. M. & Todorov, J. C. (1985). Aprendizagem de cadeias comportamentais: uma comparação entre dois procedimentos. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 1 (3), 237-248.