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segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A metacontingência da cooperação.

Pormenores do desempenho coordenado de dois ratos (dados ainda não publicados). A linha azul, superior, é produzida pelo comportamento cumulativo do rato Azul; a linha do meio pelo rato cinza. O comportamento individual nunca é reforçado. Quando respondem ao mesmo tempo (linha preta), a unidade para o esquema de reforço é um tipo de produto agregado - a ocorrência de duas respostas praticamente simultâneas (contingências comportamentais entrelaçadas) é acusada pelo equipamento (produto agregado).
Neste exemplo cada animal recebeu reforço separadamente depois de uma razão fixa de 50 respostas (FR 50).No canto esquerdo inferior da primeira foto a dupla acabou de ser reforçada e exibe a pausa pós-reforço característica. Algumas poucas respostas de cada rato são independentes, o responder colaborativo ocorre mais ou menos onde se poderia prever o fim da pausa em FR 50 .
Responder em estado estável leva tempo, principalmente com animais sem experiência no laboratório. A foto da direita mostra um exemplo com FR 6. O desempenho em razão fixa da dupla é prejudicado pelo desempenho errático de um dos parceiros. "Enganos" como esse tendem a desaparecer com mais treino.
O gráfico superior mostra que os ratos "desperdiçam" pouco esforço, pois quase todas as suas respostas contam para a razão fixa 50. Quand a coordenação entre os dois ainda não é boa, ambos trabalham mais mdo que o requerido (abaixo, FR 6).

Referência:
Carvalho, L. C., Santos, L., Regaço. A., Barbosa, T. B., Souza, R. F., Souza, D. G., & Sandaker, I. (2018). Cooperative responding in rats maintained by fixed‐ and variable‐ratio schedules. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 110, 105-126.

domingo, 3 de junho de 2018

Polícia é para quem precisa de polícia.



As agências de controle social, no sentido skinneriano do termo, controlam as relações condicionais que regulam a vida em sociedade, em grande parte por controle aversivo, por meio de ameaças (avisos da intenção de punir) e de punições de fato, como multas e/ou restrição de liberdade. Comportamentos perigosos para o equilíbrio das interações entre pessoas e entre instituições são estritamente vigiados. Uso de violência, por exemplo, é privativo do Estado, por meios bem definidos em leis. Quando uma prática cultural precisa ser mudada o aparato policial entra em cena e rapidamente todos estamos usando cinto de segurança, só fumamos em lugares permitidos, não bebemos quando vamos dirigir, etc. O Estado também diz (mas só da boca para fora) que outras práticas culturais também precisam ser mudadas, como os comportamentos que definem o racismo, mas aí a abordagem é bem mais frouxa. Entram em cena os especialistas em mudar “os corações e as mentes” dos racistas.

                Resolvi escrever depois de ler artigo no New York Times assinado por um professor de direito, P. A. Goff, sobre o dia de treinamento promovido pela rede Starbucks. Para compensar a publicidade negativa que teve quando seus empregados chamaram a polícia porque dois negros estavam sentados em uma das mesas sem ter comprado nada - foi notícia no mundo inteiro – a Starbucks reagiu com um gesto sensacional: fechou todas as suas mais de 8 mil lojas em um mesmo dia para um treinamento sobre como evitar o viés racista. A iniciativa da empresa foi muito elogiada, mas o Professor Goff chama a atenção para o fracasso dessas iniciativas quando tomadas isoladamente. No lugar de sessões de treino a Starbucks poderia ajudar com verbas a iniciativas que ofereçam opções para a solução de conflitos que não sejam a polícia. Nos Estados Unidos as pessoas telefonam para o número 911 e o atendente decide, pelo tipo de situação, se manda os bombeiros ou a polícia. O caso da loja de Philadelphia poderia ter sido resolvido por grupos de assistentes sociais treinados para mediar conflitos, como existem na California. Se você chama a polícia o caso vai ser abordado como policial.

                Gastar um dia treinando 175.000 empregados e acreditar que isso resolve o problema só tem sentido na convicção dos patrões e na crença arraigada em nossa civilização cristã ocidental de que o mal mora no coração e nas mentes dos homens. Maneiras de extrair de lá esse mal variaram de fogueiras a terapias, passando por exorcismos. Continuar por esse caminho é parecido com a situação do bêbado que procurava suas chaves aproveitando a luz do poste – sabia que não era lá que tinha perdido as chaves, mas tinha que aproveitar porque ali era possível ver o chão. Pois nós sempre achamos que educação resolve tudo, então vamos reeducar as pessoas para deixarem de ser racistas.

                Vejamos o que escreveu Philip Goff sobre isso:

“A questão não é como educar as pessoas, é como mudar as situações de maneira que o medo provocado por negros ou o desapreço por eles não provoque uma resposta agressiva. E mudar situações se consegue com políticas. Historicamente isso é que o país tem feito quando a questão da discriminação racial é levada a sério. ”
               
A mobilização política que produziu a integração racial nas escolas levou a decisão à Suprema Corte, no processo Brown vs Board of Education. E a decisão foi de que aquele comportamento era inaceitável. Não foi “Por favor, mudem sua mente”. Da mesma forma, foram mudanças na legislação, forçadas por movimentos populares, que proibiram a discriminação de gênero nas escolas, e levaram à proteção de pessoas com deficiências. A lei levada a sério muda comportamentos, propaganda não muda nem a mente.


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O "comportamento" das Agências de Controle também é selecionado pelas consequências desse controle.

O "comportamento" das Agências de Controle também é selecionado pelas consequências desse controle.

              Donald Trump quer deportar para seus países de origem imigrantes ilegais que chegaram aos Estados Unidos quando eram crianças, trazidos por seus pais e educados nos Estado Unidos. Deportar para onde? Para o país de seus pais? Não é seu país, não foram educados lá, sabem de cor o hino nacional americano, juram a bandeira de treze listras. Mas hipocritamente os adeptos da supremacia branca argumentam que a lei é essa, devem ser deportados porque são imigrantes ilegais. O jornalista David Leonhardt, no New York Times, mostra a falácia desse argumento. Seria simplesmente impossível para o Estado fazer cumprir sempre todas as leis. Há uma relação custo-benefício a ser considerada. No caso dos jovens americanos de origem latino-americana o custo do sofrimento humano seria enorme, incomensurável.

Na visão da Análise do Comportamento as interações na sociedade são reguladas por vários tipos de Agência de Controle, cada uma encarregada de certos tipos de relações condicionais. As interações melhor acompanhadas são aquelas nas quais as transgressões são apontadas de imediato pelos próprios envolvidos, como é o caso das refeições em família – comer de boca aberta é punido no ato pelos demais participantes da mesa. Quando o controle depende de agências formais, como o Poder Judiciário, entra em cena a relação custo-benefício. Segundo pesquisas da Economia a corrupção na sociedade envolve um custo tal para o Estado que não há como se prever sua erradicação; a corrupção pode ser controlada, mas nunca será extinta.

              O que fazer quando o controle direto pela Agência, como a religião, por exemplo, nem sempre, ou quase nunca, é possível? Internar o controle via regras. Não funciona muito bem, mas dá ao Agente a noção de que está fazendo o que deve ser feito. Só quem foi aluno de escola maternal da igreja sabe o que é ter medo do indizível, do perigo dos “maus pensamentos”. A crença no poder regulador dessas regras e valores não existe apenas na educação e na religião (e por consequência na família). Li também no jornal de hoje, o Correio Braziliense, que o Exército Brasileiro está preocupado com os militares temporários, que servem um máximo de oito anos e depois têm dificuldade de serem aproveitados em empregos do mercado. Muitos são tentados pelas gangues criminosas que assolam o país, cobiçados exatamente pelas habilidades que o Exército ensinou.  Eis o que o jornal publicou sobre o que o exército faz para prevenir a adesão às gangues:

              “Valores. De acordo com o Exército Brasileiro, durante o ano de serviço militar obrigatório, e nas escolas militares, são ensinados valores para afastar os integrantes da força do mundo do crime. Com foco em sua formação, são desenvolvidas atividades que incentivam o patriotismo, civismo, amor à pátria, solidariedade, entusiasmo, determinação e confiança. Para a vida civil, após deixar o Exército Brasileiro, são destacadas ações que valorizam a honestidade, apego à verdade, disciplina, respeito aos superiores e às autoridades, dedicação, probidade, lealdade e cumprimento às leis. ”

              Regras, auto regras e valores transmitidos via comportamento verbal, são eficazes enquanto não contrastam com contingencias do ambiente no presente. Seria mais eficaz se o exército primeiro treinasse o soldado para exercer funções com demanda no mercado e só o desligasse depois de passar por fase de experiência no emprego civil. 


              Voltando à “desamericanização” dos latinos, grande objetivo dos supremacistas da raça branca: o absurdo é tão grande que os netos e bisnetos de imigrantes legais e ilegais provavelmente não vão permitir que aconteça.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Provérbios e ditados no ensino de princípios de análise do comportamento. I


         Ditados populares são antigos, alguns tão antigos que são de épocas em que a transmissão da cultura era feita apenas oralmente, não havia memória escrita. São frases curtas, mas compactas quanto à descrição de relações comportamento-consequência que ilustram. Geralmente usam uma experiência comum a todos os membros do grupo para prepará-los para perceber relações do mesmo tipo no futuro:

         Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

Ditado bom para mostrar que algumas consequências só ocorrem depois de várias tentativas, como quebrar um coco com uma pedra. No ensino de análise do comportamento pode ser usado para ilustrar os tópicos de variabilidade, momento comportamental e ressurgência. Quando a contingência (relação condicional) que mantém a estabilidade de uma relação operante-consequência é interrompida, o repertório do organismo naquela situação mostra alto nível de variabilidade, mas o operante não cessa de ocorrer. Continuará a ocorrer por mais ou menos tempo dependendo das condições que vigoravam no passado (momento comportamental). Se um novo operante for seguido pela mesma consequência, o primeiro operante cessa de ocorrer (água mole fura a pedra dura), para ressurgir se e quando houver extinção do segundo operante também (um processo conhecido na clínica como recaída).

         Para bom entendedor, meia palavra basta.

Todo e qualquer operante envolve mais trabalho para modelar do que para manter. Modelagem é um procedimento de reforço diferencial de aproximações sucessivas da forma final desejada do operante, e isso quer dizer o seguinte: de início qualquer resposta existente no repertório que tenha alguma relação com o objetivo é reforçada. A seguir começa um treino de discriminação (reforço
diferencial), a resposta é reforçada em algumas situações mais próximas da situação final e não é reforçada quando emitida em outras situações – um procedimento semelhante àquela brincadeira de crianças do “quente” (reforço), “frio” (extinção).

 No início, cada ocorrência da resposta exige mais esforço e leva mais tempo para acontecer; depois de completada a aprendizagem sua manutenção exige cada vez menos esforço.

Para bom “esquivador”, meia resposta basta.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Mudanças rápidas em práticas culturais e o DNA da descrença


                Estava eu viajando de avião da maneira complicada, característica de quem precisa levar a bordo concentrador portátil de oxigênio e baterias suficientes para a duração do voo e mais 50% desse tempo, por segurança: cateter nas narinas, tubo ligado ao aparelho embaixo da cadeira. Quando precisei me levantar para que as outras cadeiras fossem ocupadas, algumas pessoas se ofereceram para ajudar. Posso fazer tudo sozinho, mas os tubos e o aparelho parecem transmitir outra imagem às pessoas.

                Comentei essa boa vontade com um senhor que ocupava a poltrona do meio. Desde que tenha nível adequado de oxigênio para respirar sou liberado pelos médicos para viajar sem acompanhante. Como não posso andar muito e nem carregar peso, nos aeroportos as empresas sempre fornecem cadeiras de rodas. Comentei com meu vizinho de viagem que com essa combinação, oxigênio + cadeira de rodas, fiz viagem de 40 horas de Brasília a Kyoto sem andar mais que dez metros, pois no Japão trens e hotéis também dão essa atenção a cadeirantes. Funcionários do trem bala me levaram na cadeira até o hotel e lá me esperavam com outra cadeira, da qual só me levantei dentro do apartamento. Meu vizinho ficou admirado e comentou alguma coisa como “Isso nunca vai acontecer aqui”. A educação japonesa seria obra de milênios, com práticas culturais que “nunca veremos por aqui”, porque isso (falta de educação) está no DNA do povo brasileiro. Aí tive que rir e dizer que estava indo a Londrina falar sobre mudanças rápidas e em larga escala de práticas culturais; se pensasse como ele eu deveria mudar de profissão.

                Não só não mudo como continuo a bater na mesma tecla. Questões como as que suscitam em pessoas afirmações como essas, frequentes em artigos de opinião assinados como os que foram publicados nos jornais “Folha de São Paulo” e “Correio Braziliense” na última semana, são questões que se referem a práticas culturais. São comportamentos aprendidos e passados de pais para filhos, de geração para geração.  Quanto mais antigos em determinada cultura, mais trabalhosa a mudança.

                Mas o que nos dá a confiança em que essa mudança pode ser rápida e realmente em larga escala é a teoria que nos define uma cultura como o conjunto de relações condicionais entre comportamento e consequência, relações mantidas por agências de controle. Em cada grupo, organização, etnia, etc., a aculturação de novos membros segue regras formais ou informais aceitas pelos membros daquele grupo. Mudanças nas regras, e nos comportamentos regulados por elas, podem ser rápidas quando a decisão de mudar for coletiva. Por isso tentativas de mudança por iniciativa dos dirigentes só podem ser bem-sucedidas depois de ampla divulgação da informação e das razões para mudar. Quanto maior e mais complexo o grupo mais trabalhosa será a intervenção, levantando a questão da relação custo-benefício. Qualquer que seja a prática cultural, que é sempre algum tipo de comportamento mantido por consequências, os membros do grupo encarregados da decisão podem decidir não intervir por conta do custo da mudança. Os economistas têm estudos sobre a relação custo-benefício da eliminação da corrupção na sociedade. O custo da manutenção de agências de controle para garantir a erradicação dessa prática cultural torna inviável esse esforço, levando a propostas de diminuir a corrupção a níveis mais favoráveis à manutenção das transações econômicas a um custo compatível com o benefício.

                Talvez por essas razões é comum ver autores colocando toda a esperança na educação das novas gerações. Não esperam nada dos adultos. “O povo brasileiro é primário e sem percepção de um projeto nacional. A semana modernista, nos primórdios do século 20, elegera Macunaíma, como o mestiço esperto – no meio das mazelas nacionais -, como o herói brasileiro sem nenhum caráter, ou seja, sem caráter em todos os sentidos. ”  (Sacha Calmon, Correio Braziliense de 7 de maio de 2017, página 13).  No mesmo dia, mesmo jornal, mesma página, o Professor Titular da Unicamp Jaime Pinsky escreveu: “ O chamado grito do Ipiranga não significou nada para a maioria esmagadora da população do território. Nem para os escravos, nem para os índios, nem para a população do campo, talvez apenas para uma parte pequena e letrada (e proprietária) de moradores de cidades, uma parte ínfima de Brasil.  .... Para sobreviver o povão aprendeu a ser dissimulado, traço também tristemente evidente. A população não se sente representada por seus representantes, o poder político tem sido o melhor caminho para a corrupção, ninguém abre mão de seus privilégios e os sonegadores apresentam tudo isso como álibi para não contribuir para o bem comum. “



                Lembrando Roberto Campos, citado por Ives Gandra da Silva Martins na Folha de São Paulo de 7 de maio de 2017, página A3 (“O planeta dos malandros”), “com esta mentalidade, o Brasil não corre nenhum risco de melhorar. “ Entretanto, mudar para melhorar é possível e é preciso. Cabe a quem sabe como mostrar o que pode fazer. “Mentalidade” é apenas o nome popular de um conjunto de relações condicionais que isentam de punição e recompensam “quem leva vantagem em tudo”. São regras de convivência que ficam mais fortes toda vez que alguém impunemente fura a fila do cinema, por exemplo. 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Sem agências de controle eficazes as leis não pegam.

                Dirigindo meu Ford Falcon 1958 para ir ao cinema com a Silvia em Phoenix, Arizona, virei á esquerda em uma avenida de seis pistas mesmo estando na pista do meio e sem ligar a seta. Não deu outra. Antes de meio quarteirão havia um carro de polícia com as luzes piscando. O policial foi muito gentil e não me multou, depois de ver os passaportes e o documento de estudante da Arizona State University.  Era 1966 e naquela época havia carros de polícia por todo lado, especialmente em cruzamentos movimentados. Como consequência, todos respeitavam ao pé da letra as regras do trânsito. Uma placa vermelha de PARE controlava muito bem o comportamento de parada total do veículo, mesmo sem outros carros nas ruas.

                Lembrei-me desse episódio hoje cedo, dirigindo para ir ao barbeiro. Em uma rua movimentada um caminhão nem diminuiu a velocidade na esquina, como eu faria no Brasil. Aqui é claro que parei e coloquei a primeira marcha antes de continuar, pensando na falta que faz a presença ostensiva do Estado na fiscalização das leis. Em um mês dirigindo por Setauket, Port Jefferson e Stonybrook só vi carros de polícia uma vez, em estacionamento de supermercado onde havia sido deixado um pacote suspeito. Os  americanos não eram cidadãos mais responsáveis do que nós, apenas desenvolveram ao longo de sua história agências de controle eficazes na manutenção das contingências que mantêm práticas culturais.

                Alguns diriam que nos falta autocontrole ético. Todos deveriam obedecer as leis porque isso é bom para a comunidade. Mas o chamado “autocontrole ético” é comportamento, dependente das consequências como todo comportamento. São as agências de controle, descritas por Skinner em “Ciência e Comportamento Humano”, as encarregadas de punir comportamentos considerados indesejáveis pela cultura. Para ver como essa história de punições e ameaças modela nosso “autocontrole ético” ver, além de Skinner, o “Coerção” de Murray Sidman. E pense nisso na próxima vez que você avançar um sinal vermelho de noite e sentir um frio na barriga.



domingo, 12 de junho de 2016

Análise do Comportamento, Ralph Hefferline, Friedrich (Fritz) Perls , e o aqui-e-agora.


                Ralph Hefferline faz parte da história da Análise do Comportamento. Em 1953 publicou em Science um artigo clássico, uma demonstração de que o efeito da contingência operante dispensa a consciência da pessoa sobre as variáveis que afetam seu comportamento:


An invisibly small thumb-twitch increased in rate of occurrence when it served, via electromyographic amplification, to terminate or postpone aversive noise stimulation. Subjects remained ignorant of their behavior and its effect. Their cumulative response curves resembled those obtained in similar work with animals. Other subjects, informed of the effective response, could not produce it deliberately in a size small enough to qualify for reinforcement.”

                Resumindo como um behaviorista, as contingências que prevalecem no aqui-e-agora são mais importantes que qualquer outra explicação para o comportamento que ocorre aqui-e-agora.

                Ralph Hefferline é o mesmo que dois anos antes havia publicado um livro clássico da terapia gestáltica em parceria com Fritz Perls., citado em artigo recente da Revista da Abordagem Gestáltica, abordando as diferentes definições e os usos da expressão  "aqui-e-agora". 

Confesso que primeiro me interessei pelo artigo, quando avisado de sua publicação pela rede Academia, porque uma das autoras trabalhou no IESB antes de ser aprovada em concurso na Universidade Federal do Paraná. Mas como todo comportamento é multideterminado, certamente influenciaram a decisão de ler o conhecimento das afinidades entre AC  e fenomenologia, e as dezenas de conversas com meus amigos gestaltistas, aí incluída a Joannelise Freitas. Além do mais, o trabalho de Hefferline foi uma da atrações que me levaram a começar o doutorado na Arizona State University, com Arthur J. Bachrach como chefe do departamento. Bachrach havia publicado recentemente o livro “Experimental Foundations of Clinical Psychology”, com um capítulo assinado por Hefferline.

                Aqui vai, então, o endereço para quem quiser entender melhor porque nem sempre a contingência presente prevalece sobre experiências anteriores, e porque regras e modelos nem sempre facilitam a vida.
  
“Perls et al. (1997) afirmam que é só no aqui-e-agora que se pode ter consciência das próprias capacidades sensoriais, motoras e intelectuais. E dessa forma, propõem uma terapia que consiste na análise da estrutura interna da experiência concreta, promovendo mais a concentração no padrão de interrupções da pessoa do que no conteúdo próprio da interrupção. Isso significa que o foco na Gestalt-terapia é redirecionado para como a experiência está sendo vivida, relembrada e retida no presente. O aqui-e-agora abrange uma conscientização que vai além das categorias de conteúdo (porque), das abstrações, verbalizações ou relações causais traçadas, para incluir as formas, a relação e a corporeidade que surgem no aqui-e-agora por meio das realidades sensoriais e motoras disponíveis (Costa, 2004; Mesquita, 2011; Perls, 2012; Perls et al., 1997; Polster & Polster, 2001). Perls et al. (1997) destacam a importância da expressão facial, do tom de voz, da sintaxe, da postura, do afeto, da omissão e da consideração ou falta de consideração. Costa (2004) salienta que os gestos, assim como os pensamentos, revelam o si-mesmo que se interrompeu. Polster e Polster (2001) descrevem as expressões simbolizadas na eloquência verbal, no choro, no grito, no soco e na repreensão. A flexibilização daquilo que havia enrijecido no passado é passível de ser revivido então, por meio dos recursos corporais que a pessoa dispõe no momento”. (Renhart, & Freitas, 2016, p. 40).

Renhart, P. A. & Freitas. J. L. (2016). A temporalidade do aqui-e-agora gestáltico: implicações teóricas e práticas. Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies - XXII(1): 39-48.


·         Perls, Fritz, R. Hefferline, & P. Goodman. [1951] 1977. Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality. Gestalt Journal Press. ISBN 0939266245.





quarta-feira, 8 de junho de 2016

O Facebook e o comportamento de esquiva.


Na análise experimental do comportamento trabalhamos com uma variável independente de cada vez, mesmo sabendo que todo comportamento é multideterminado. É necessário trabalhar assim para identificar quais variáveis das presentes na situação são importantes. Para verificar se a frequência de apresentação de uma determinada consequência é importante, mantemos constantes o nível de privação (motivação), a duração, a qualidade, o odor, a consistência, e tudo o mais. 

No comportamento de esquiva, por exemplo, podemos dispor condições no laboratório de tal forma que um comportamento venha a pospor (evitar) a transição de uma situação desejável para outra menos desejável, tudo o mais permanecendo constante e independente daquele comportamento. Normalmente não nos ocupamos de outra consequência possível (no laboratório).

No ambiente natural isso não (ou raramente) ocorre. Por exemplo, neste momento estou sendo bem sucedido em pospor a saída do Facebook e a obrigação de trabalhar em minhas obrigações de pesquisador e orientador ao continuar a escrever este texto. O Facebook tem a vantagem de oferecer feedback (99% positivo sempre) imediato, enquanto um artigo publicado significa um longuíssimo atraso de reforço!

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O bode a e intolerância.



  
                Assim como a tolerância para com o diferente, nossos valores nos são dados pelas pessoas com as quais convivemos a partir do nascimento. São esses valores que podem nos levar a escolher dirigentes capazes de, entre outras coisas “criar clima de harmonia entre todos”.

O BODE
                Admitamos que não foi de caso pensado. O Cunha foi eleito pelo baixo clero da Câmara por soberba e incompetência política de quem tinha a maioria. Vontade de hegemonia muitas vezes dá nisso. A situação lembra a história do bode na sala, pois a rejeição ao Cunha veio a calhar.

                Há no folclore político a lenda do camarada russo, fiel militante do partido único, que morava com a mulher e os filhos em um apartamento de quarto e sala cedido pelo partido. De tanto insistir para receber autorização para se mudar para um apartamento maior sem receber resposta o camarada finalmente foi chamado para receber nova missão: manter e cuidar de um bode na sala de seu quarto-e-sala.

                O bode na sala mudou completamente vida do camarada. Se antes a mulher e os filhos não paravam de dizer que queriam se mudar para um apartamento maior, agora tinham nova e mais urgente reivindicação: tirar o bode da sala.

O BODE EXPIATÓRIO

            Pois não é que tem muita gente que se esqueceu de pedir o impedimento da presidente depois que foi iniciada a campanha “Fora Cunha”? Estão até pedindo ao STF que atue como o coletivo da história e retire o Cunha, perdão, o bode, da sala. Mesmo os militantes que constrangidos repetiam que pedalada não é crime agora ficaram felizes com a tarefa de ajudar a tirar da presidência da Câmara um político no mínimo cara de pau.

                Sobre pedalada não ser crime: se fosse, a presidente seria julgada pelo STF. Mas pode ser crime de responsabilidade, a ser conferido pelo Congresso, como previsto na Constituição. O único golpe à vista é o publicitário, com novo ataque da novilíngua: se for contra nós, impeachment é golpe. Esse investimento em propaganda para desviar a atenção da militância gera o clima de conflito e intolerância, vermelhos contra amarelos, radicalizado: tudo o que não for vermelho por definição é amarelo. O país não merece esse clima de guerra.

A INTOLERÂNCIA

                Indivíduos pacíficos e tolerantes são formados por ambientes acolhedores a partir da concepção: mulheres grávidas que bebem demais, que fumam demais, que sofrem demais, viciadas em tóxicos, ou que sejam acometidas por certas doenças, não fornecem a seus futuros bebês ambientes necessários para seu pleno desenvolvimento.

                Práticas culturais para a socialização da criança baseadas em coerção não geram indivíduos nem pacíficos nem tolerantes. Muitas escolas começam a agredir a criança a partir de sua arquitetura, em ruínas, sujas, desconfortáveis, e de sua exposição a interações baseadas em fuga e esquiva: o bullying é mais frequente do que se pensa, e tem as mais diversas formas.

                Quem faz o indivíduo é o coletivo, formado por indivíduos também formados por outros coletivos anteriores. Práticas culturais que definem um grupo são transmitidas por meio de regras, exemplos e exposição direta a consequências. A criança sendo socializada hoje será o socializador de amanhã.

Paz não é apenas a ausência de guerra entre os países. Paz é garantir que todas as pessoas tenham moradia, alimento, roupa, educação, saúde, amor e compreensão. Paz é cuidar do ambiente em que vivemos, garantir a qualidade da água, o saneamento básico, a despoluição do ar, o bom aproveitamento da terra. Paz é buscar serenidade dentro da gente para viver com alegria. Paz é a capacidade de se criar clima de harmonia entre todos, lembrando-se sempre de que onde existe amor, existe paz”. (Texto entre aspas é de Isaac Roitman, da Academia Brasileira de Ciências).

                Assim como a tolerância para com o diferente, nossos valores nos são dados pelas pessoas com as quais convivemos a partir do nascimento. São esses valores que podem nos levar a escolher dirigentes capazes de, entre outras coisas “criar clima de harmonia entre todos”.


         

sábado, 21 de novembro de 2015

Organismo, comportamento e ambiente..



Comportamento é daquelas palavras que todos usam, mas ninguém sabe bem o que é. Como ninguém pergunta, cada um usa como quer e acha que todos estão usando a palavra com a mesma definição (a sua, que não existe explicitada).  Entretanto, isso não é nenhum demérito para a psicologia, 
comportamental ou não. Acontece o mesmo com termos como reflexo e consciência, usados nos mais variados sentidos na biologia e na psicologia, muitas vezes sem mesmo tentativas de definição.

Dia a lenda que um famoso pesquisador do comportamento animal foi perguntado sobre o que era comportamento e que teria respondido; “Ora, comportamento todo mundo sabe o que é”.

Em 2012 escrevi um artigo despretensioso na revista “Perspectivas em Análise do Comportamento” intitulado “Sobre uma definição de comportamento”. Despretensioso porque não estava oferecendo qualquer definição do termo. Só argumentei que a definição de comportamento como interação organismo-ambiente era diferente da definição implícita no uso que os mesmos autores faziam do termo:

Uma resposta enganosa e tentadoramente simples é dizer que comportamento é a interação entre organismo e ambiente. ...  Organismos não vivem no vácuo. Não é possível ocorrer qualquer ação do organismo sem alguma relação com o ambiente, externo ou interno ao organismo. Isso é elementar. Por isso, dizemos que comportamento não é coisa; é processo. Qualquer instância de comportamento tem início, meio e fim. Para a psicologia, essa é sempre a nossa variável dependente, independentemente da topografia ou do tipo de relação com o ambiente que definem essa variável dependente (e.g., respondentes e afins, operantes, padrões fixos de resposta, etc.). Variáveis independentes são variações no ambiente que afetam a ocorrência desses comportamentos, seja como antecedentes (no respondente e afins) ou consequentes (no operante e afins). ”

A reação a esse artigo foi maior que o esperado. Nos dois números de 2013 da Revista Brasileira de Análise do Comportamento estão vários artigos que discutem esse assunto. No link abaixo está um desses artigos, parceria com Marcelo Borges Henriques.

De qualquer forma, o assunto é muito atual. Depois do número especial de 2013 da revista The Behavior Analyst, o segundo número do volume 38, de 2015, que acaba de ser publicado, traz artigo de Linda Hayes e Mitch Fryling, traz o artigo "A historical perspective on the future of behavior science", com, entre muitos outros assuntos, o seguinte:

"Oddly enough, aftter a hundred years of asking the question "What is behavior?", the answer remains the subject of debate."


http://www.periodicos.ufpa.br/index.php/rebac/article/view/2133/2436

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O que é autocontrole?

Autocontrole não é conceito nem termo técnico da Análise do Comportamento. Skinner escreveu sobre autocontrole, assim como escreveu sobre id, ego, superego, masoquismo, desejo, sublimação, etc., e nenhum deles é termo técnico da Análise do Comportamento. São termos da linguagem comum, ainda que propostos por outras abordagens da psicologia, e encontram-se definidos em qualquer dicionário. Na análise que faz desses termos Skinner os desmistifica.

“The individual often comes to control part of his own behavior when a response has conflicting consequences – when it leads to both positive and negative consequences”.

… “The positive and negative consequences generate two responses which are related to each other in a special way: one response, the controlling response, affects variables in such a way as to change the probability of the other, the controlled response”.
B. F. Skinner, Science and Human Behavior, 1953, p. 230-231.

Episódios explicados pela atuação de uma força interior hipotetizada são reinterpretados como demonstração da possibilidade de um comportamento controlar outro comportamento. Esses episódios costumam acontecer quando um comportamento pode ser ao mesmo tempo reforçado e punido, levando a um equilíbrio na probabilidade desse comportamento ocorrer ou não ocorrer. É possível diminuir a probabilidade de emissão de uma resposta punida manipulando-se algumas variáveis que tornam esse comportamento provável.  Skinner não inventou qualquer conceito novo para explicar isso. Vejamos um exemplo:

                Ao preparar uma lista de compras posso controlar meu comportamento de consumidor no supermercado. A resposta controladora é preparar uma lista, a resposta controlada é comprar. Note-se que preparar a lista não impede que eu compre algo que não devia, só diminui essa probabilidade.  Assim como eu controlo agora meu comportamento posterior no supermercado. a lista poderia ser preparada por outra pessoa, com o mesmo resultado. O controle é o mesmo, nos dois casos. Mas no primeiro o leigo diria que é uma demonstração de autocontrole. Mas nos casos o fator importante é a manipulação da variável independente, não importando o agente.

                Mais citado como exemplo de autocontrole na Análise do Comportamento, o procedimento desenvolvido por Rachlin foge à definição de Skinner, mas está de acordo com o entendimento do leigo. Trata-se de escolher entre um reforço mais imediato, mas de menor magnitude, e um reforço menos imediato (ou mais atrasado) mas de maior magnitude. A escolha “racional” seria esperar mais e ganhar mais, a escolha “impulsiva” seria preferir o reforço de menor magnitude. Mas não há resposta controladora, nem resposta controlada: não há “autocontrole” nem no sentido usado por Skinner. A escolha de uma ou de outra depende apenas dos valores relativos dos atrasos e das magnitudes, e pode ser prevista por uma equação que caracteriza a Lei da Igualação de Herrnstein, generalizada por Baum para mais de uma variável independente.
               

http://www.scielo.br/pdf/ptp/v18n3/a14v18n3.pdf

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Um longo diálogo sobre o estudo do desenvolvimento no behaviorismo.



21 de novembro de 2011.
Prezado Todorov,
Como você está? Espero que bem.
As poucas vezes que conversamos sobre desenvolvimento, estrutura e função foram suficientes para me fazerem pensar durante muitos meses. Enquanto eu escrevia a qualificação do meu mestrado, frequentemente falava comigo mesmo “Ah, acho que agora eu entendi o que o Todorov quis dizer”.
Não sei se minhas ideias sobre estrutura estão de acordo com as suas, mas gostaria imensamente de ouvir a sua opinião sobre o texto que eu fiz. Acredito que o tópico 3.1 do Capítulo 2 seja o que mais tenha o tom das nossas conversas nos tempos de primeira JAC. Envio o texto da minha qualificação em anexo. O título é “O estudo do desenvolvimento no Behaviorismo Radical: aspectos estruturais e funcionais”.
Um abraço,
Tauane

22 de novembro de 2011.
Cara Tauane,

Muito obrigado. Ainda vou ler o seu texto e depois comento. Já estava quase desistindo de falar no assunto. Abraços a você, Tatu, Carol & Cia.

JC Todorov

28 de novembro de 2011

Tauane,

Obrigado por me enviar o manuscrito. Excelente trabalho no levantamento das definições dos termos. Há um porém: não há a essência de cada termo. A definição de um termo só têm sentido na linguagem teórica que o usa. Entretanto, é interessante a busca de significados que podem ser úteis à análise do comportamento.

Eu gostei da posição de Harzem & Miles (1978) e continuo a dizer até hoje que a psicologia é o estudo de interações, que são processos. Processos têm início, meio e fim (ou recomeço). Comportamentos operantes interagem com o ambiente, por isso não faz sentido falar em interação organismo-ambiente. Por iiso tudo não entendi a frase abaixo:

“o comportamento como estrutura: ele é formado por elementos chamados de estímulos e de respostas e esses elementos estão em relação.”

Se essa é sua definição de comportamentoi, não estamos falando a mesma lingua.

Espero não ter complicado.

Mais uma vez parabéns. Ainda vamos conversar muito sobre isso.

JC Todorov


28 de novembro de 201.

Todorov,
Muito obrigada pela resposta!
Há muita coisa para pensar. Durante toda a minha formação, aprendi que comportamento é a interação entre organismo e ambiente (com os mais diversos professores). Uso isso quase como uma regra. Vou ler o texto de Harzem e Miles e reler o seu texto sobre a psicologia como estudo de interações.
Nesses meses todos, ouvi a opinião de muitas pessoas sobre estrutura e todas elas me cobravam uma definição precisa do que seja o estudo dos aspectos estruturais. Acabei caindo em uma disciplina de avaliação de projetos dada pelo Figueiredo. Por sugestão dele, busquei todos os estruturalismos possíveis e um denominador comum a eles. Contudo, percebo que caí no equívoco de adaptar o estudo do Behaviorismo Radical a esse denominador comum, excluindo o papel da linguagem teórica. A verdade é que ainda não encontrei um significado claro dentro da análise do comportamento.
Quando eu tiver pensado mais sobre o assunto, escrevo.
Muito obrigada mesmo pela disponibilidade de ler!
Abraço,
Tauane

Caro Todorov,
Acabo de ler o seu texto sobre a psicologia como estudo das interações. Veja se agora estamos falando a mesma coisa: segundo o texto, comportamento não é a interação entre organismo e ambiente, mas sim mudanças que ocorrem no organismo. O comportamento interage com o ambiente, ocorrendo a depender do contexto e, ao mesmo tempo, alterando o contexto quando ocorre. Quando falamos em resposta e em estímulo, estamos nos referindo, respectivamente, a uma parte do comportamento e a uma parte do ambiente. É isso?
Caso concordemos até aqui, resta ainda pensarmos no significado de estrutura para a Análise do Comportamento. Se nós determinamos os princípios comportamentais a partir de relações funcionais entre estímulos e respostas específicas, o papel da análise estrutural pode ser o de definir para quais  respostas e estímulos o princípio ocorre. Contudo, isso deve ser feito sem que nos esqueçamos de que a alteração nos elementos (S ou R) alterará o todo (contexto ou comportamento). Nesse caso, a estrutura analisada seria o comportamento e o contexto. A análise estrutural determinaria com quais respostas e estímulos (pertencentes a essas estruturas) as relações funcionais devem ser planejadas de forma que o princípio comportamental alvo ocorra. O que acha?
Pensemos no desenvolvimento do comportamento de leitura, por exemplo. Deve-se definir antecedentes e consequências para determinadas respostas (aspectos funcionais), mas também podemos definir quais seriam as respostas e estímulos mais eficazes para que a relação seja estabelecida (aspectos estruturais). Ao se reforçar determinada resposta, todo o comportamento que a acompanha será também alterado. Dessa forma, o desenvolvimento da leitura envolveria uma mudança constante na estrutura do comportamento, na escolha da resposta alvo; na estrutura do contexto e na escolha do estímulo alvo. A descrição da sequência de interações entre comportamento e ambiente a partir das mudanças constantes nas estruturas do comportamento e do ambiente e das mudanças na escolha da resposta e do estímulo mais eficazes a cada momento seria uma descrição desenvolvimentista. É a isso que você se refere?
Fiquei pensando que a escolha de quais são os estímulos mais relevantes pode ser realizada com auxílio dos testes psicofísicos ou mesmo testes neuropsicológicos. Eles podem informar para quais estímulos há sensibilidade em determinado momento da vida de um indivíduo, de forma que possamos planejar o contexto manipulando esses estímulos. Por outro lado, estudar a resposta também é importante: um estímulo só será reforçador em uma relação a depender do aspecto comportamental que escolhemos como resposta.
Não posso deixar de pensar que isso tudo depende também de algo que podemos chamar de “estrutura do organismo”, ou seja, de limites ou facilidades que a configuração orgânica impõe sobre a aprendizagem de um comportamento.
Abraços,
Tauane

29 de novembro de 2011.
Tauane,

Com relação ao primeiro parágrafo - É isso mesmo.

Segundo parágrafo - Falar genéricamente em estímulo e resposta pode confundir. Você está falando de operantes, certo? Então acho melhor falar em antecedente ou situação, comportamento e consequência. É difícil pensar em um operante que não seja discriminado. Quando penso em estrutura penso também em repertório. Por vezes não se pode ensinar alguma coisa ou por falta de repertório ou por falta de amadurecimento biológico.

Terceiuro parágrafo - De novo o perigo de falar em S-R. Mas a idéia em geral é essa.

Quarto parágrafo - Outra vez  S-R. Parece um viés para respondentes!

Último parágrafo - É isso mesmo. Não há com o fugir das limitações biológicas impostas por idade ou pela espécie sob estudo.

Espero ter comentado todos os aspectos. Bom trabalho!

JC Todorov

Caro Todorov,
Mais uma vez, obrigada por sua resposta! Quando me referi a estímulo e resposta, pensei mesmo em operante. Preciso reformular o que escrevi.
No dia 13 de dezembro será a banca de qualificação. Nesse dia, eu explicarei que, em decorrência da sua leitura do manuscrito e de nossas discussões, alguns ajustes foram feitos na noção de comportamento e na de análise estrutural. A questão do repertório, mencionada no seu e-mail, será incluída.
Ontem passei a noite lendo e pensando sobre a definição de comportamento. Hoje contei a meus colegas/professores da USP sobre as coisas que li e sobre as suas colocações. Isso rendeu ótimos debates e as pessoas começaram a se questionar sobre a definição de comportamento como interação organismo-ambiente.
A Tatu disse que você não poderá participar da banca, pois estará com seus netos em casa. O motivo é perfeitamente compreensível. Após a qualificação, pretendo reescrever o artigo sobre estrutura. Mandarei assim que estiver pronto. No mais, por favor, se cuide e aproveite muito os seus netos!
Abraço,
Tauane

30 de novembro de 2011.
Cara Tauane,

Lembrei-me que artigo de 1989 (reimpresso sem modificação em 2007) eu ainda falava em interação organismo-ambiente. Custou um pouco para perceber que o organismo não interage holisticamente com o ambiente (pelo menos para a anáilise do comportamento). Em artigo mais recente, em parceria com Márcio Borges Moreira, há uma posição mais recente. O artigo vai anexo, junto com outro em que pretendia mostrar a amplitude de atuação da AC. Há um terceiro, sobre a evolução do conceito de operante.

Boa sorte na qualuificação. Mande notícias.

JC Todorov


Todorov,
Li os textos que você me enviou. Obrigada por eles. 
No artigo de 1989, eu havia mesmo entendido que a psicologia é caracterizada pelo estudo das interações entre organismo e ambiente. Contudo, já em 1989, sua definição de comportamento parece diferir daquela que o caracteriza como a interação entre organismo e ambiente.
Lendo os textos enviados no último e-mail, a questão central que define sua posição me pareceu outra: a noção de causalidade. As psicologias que estudam a interação organismo e ambiente buscam explicações dentro do corpo – por exemplo, estudam quais processos fisiológicos “dão origem” ao comportamento, como se os processos fisiológicos não fossem, em si, comportamento. A análise do comportamento, por outro lado, analisa a interação entre comportamento e ambiente, porque (1) os eventos internos também podem ser entendidos por nós como comportamento e/ou ambiente (incluindo aqui os aspectos fisiológicos); e (2) a compreensão do fenômeno é procurada no ambiente. Ou seja, não estudamos nada que não possa ser reduzido a comportamento ou ambiente.
É isso? Eu entendi corretamente sua posição sobre não estudarmos a interação entre organismo e ambiente, mas sim entre comportamento e ambiente?
Se entendi, confesso ter alguns incômodos. Por exemplo, quando estudamos como a maturação orgânica – predominantemente determinada por aspectos filogenéticos – influencia a aprendizagem, estamos falando apenas da interação entre comportamento e ambiente? Fiquei pensando se o motivo de não olharmos para o organismo é porque ele tende a ser uma variável estável, ou suas alterações podem ser encontradas na história de interações entre comportamento e ambiente. Mas quando olhar para essa história não explica tudo, como no caso da maturação biológica, não estudamos também o organismo?
Tauane

Todorov,
Esqueça o e-mail anterior que enviei. Precisei de algumas horas para entender que, embora não estudemos diretamente a interação entre organismo e ambiente, isso não significa que o organismo é jogado fora. Significa apenas que é o comportamento (e não o organismo) que interage com o ambiente.
Precisarei de mais tempo pra pensar sobre isso. Por essa definição de comportamento, não sei mais se as coisas que eu chamava de "aprendizagem intra-uterina" são de fato aprendizagens de comportamento ou se são apenas experiência que alteraram o organismo, alterando o valor de estímulos.
Abraços,
Tauane



02 de dezembro
Tauane,

Que bom que você repensou. Agora você separou aprendizagem de experiência que altera o organismo, alterando o valor de estímulos. E alterar o valor de estímulos não é aprendizagem? Muitos analistas do comportamento operante se esquecem que é.
Qualquer interação organismo (comportamento) vs. ambiente (consequências;estímulos) altera o organismo no sentido que altera seu repertório - mais estímulos controlam a resposta reflexa inata, no respondente, e mais operantes são acrescidos ao repertório operante. Entretanto, o que estudamos são relações entre estímulos e respostas, no respondente, e relações entre antecedentes, comportamento e consequência, no operante.

Se não ficou ainda mais complicado, por favor releia agora o conceito de ambiente no "Psicologia como o estudo de interações" onde apenas o operante é abordado.

JC Todorov


Todorov,
Vou reler seu texto. Acho que minha dúvida foi mal colocada. Pra mim, alterar o valor do estímulo é sim aprendizagem (vide condicionamento respondente). Estive pensando, por exemplo, nos casos em que a mãe consome cocaína durante a gravidez e o indivíduo que nasce tem uma predisposição maior a desenvolver o vício. Nesse caso, não parece haver durante a gestação uma interação entre o comportamento do organismo e o ambiente materno. O ambiente intrauterino, todavia, altera o organismo. Concorda?
Esse exemplo talvez seja claro. Mas fico confusa quando penso no final da gestação, quando o feto já tem seu sistema auditivo desenvolvido. Os dados da psicobiologia mostram que quando mais exposto a vozes ou músicas determinadas, maior a preferidas por elas  logo após o nascimento. E essa preferência está diretamente relaciona ao valo reforçador dos estímulos. Chamam isso de aprendizagem por exposição ou por familiaridade. Minha dúvida, que provavelmente não será respondida agora, é qual o processo comportamental que está ocorrendo no momento.
Talvez reler suas colocações sobre o ambiente me ajude nisso. Vamos ver...
Obrigada por sua resposta,
Tauane


Tauane,

Os exemplos parecem fugir do padrão, pois não há aprendizagem. Em todo o caso no "Psicologia como.." já escrevi que os limites entre psicologia e biologia e psicologia e ciências sociais não são bem definidos. Agora, não há dúvida que qualquer evento que altere características do organismo pode alterar as interações possíveis. Não é a tôa que as neurociências estão em alta.
JC Todorov


14 de dez de 2011
Caro Todorov,
Como você está?
Ontem foi minha qualificação. O Júlio de Rose fez contribuições excelentes, sugerindo leituras do Richelle e do Armando Machado. Contudo, questionou algumas posturas na dissertação. A primeira delas é que eu tinha me prendido muito ao Catania – e, de fato, meu texto é praticamente todo do Catania. A segunda coisa é que ele não concordava com tudo o que foi definido como estrutura. Chegamos juntos à conclusão de que, de fato, tudo tem estrutura, mas nem sempre a análise estrutural acrescenta na compreensão do comportamento. Segundo o Júlio, Skinner tinha feito um ótimo trabalho em selecionar respostas para análise que não demandassem uma análise estrutural (por exemplo, o bicar e a pressão à barra). Sendo assim, nem sempre falar de estrutura é relevante. Contudo, em respostas mais complexas a estrutura do comportamento é sim uma variável a ser considerada. Por exemplo, no comportamento de escrever um poema, as dimensões temporais do comportamento influenciariam na repetição do mesmo. Nesse sentido, a frequência (correspondente a cada vez que o comportamento apareceria) não seria um bom indicativo da força da resposta, demandando que analisássemos os limites impostos pela estrutura do comportamento. No comportamento verbal, foi unanime a conclusão da necessidade de se estudar a estrutura. O mesmo aconteceu quando se falou na decomposição de comportamentos complexos.
Por outro lado, quando sugeri que estudar estrutura era também estudar as dimensões físicas de um estímulo, o Júlio não concordou muito. Para ele, a alteração nessas dimensões alterariam as relações funcionais e, sendo assim, continuaríamos falando de função. Eu não concordei na hora, pois acho que a função se altera em decorrência da alteração na estrutura do ambiente. Não sei o que você acha sobre isso.
Sobre estrutura do organismo, ninguém questionou a importância.
Minhas colocações foram no sentido de que tudo tem uma estrutura. Concordei, entretanto, que é necessário definir melhor as ocasiões em que falar dela é importante. Talvez não seja tão relevante falar da estrutura da pressão à barra, quanto é relevante falar sobre a estrutura de um raciocínio abstrato, por exemplo.
Algumas pessoas têm dito que falar de “estrutura de algo” é como falar do “algo”, então seria irrelevante acrescentar a palavra estrutura. Tenho argumentado que a análise estrutural é um recorte de análise. Não sei se o nome “estrutura” é necessário, o importante é que façamos análises estruturais. E aí não seria redundante estudar a estrutura.
Bom, acho que é isso. Gostaria de ouvir sua opinião.
Um abraço,
Tauane


Tauane,

As discussões estão indo muito além do que eu poderia pensar.. Minha posição é inspirada no Catania, mas não se resume a ele. Se estudamos interações, estamos lidando com processos, com um início, meio e fim, ou recomeço. Quando falo em estrutura me refiro a contexto (incluindo repertório do organismo). O exemplo da pressão à barra é interessante, mas não se esqueça que no início não existia no repertório do rato. foi preciso modelagem (reforço diferencial de classes de respostas em sucessivas aproximações da resposta alvo). A cada aproximação o repertório se estrutura de forma diferente, não é? Mais tarde, a predominância ou não da pressão à barra naquele ambiente vai depender do esquema de reforço. Por outro lado, a resposta alvo na modelagem.não pode estar fora do alcance da estrutura do organismo naquele instante.

Skinner tropeçou na pressão à barra quando estudava o reflexo alimentar (ver "A case history..."). Descobriu um operante com uma amplitude de variação enorme, útil para usar a frequência de ocorrência como variável dependente. Não sei de algum texto que fale da vantagem de não precisar falar em estrutura nesse caso.

Estrutura, função e desenvolvimento, como você viu, são termos com diferentes significados em diferentes teorias. Parece que as críticas que ouviu baseiam-se mais em entender estrutura como é usada pelos cognitivistas, por exemplo. Então que nomes vamos dar a esses bichos.

Gostei das citações de Richelle e Armando Machado. São europeus como Harzem & Miles.

Cansei. Depois talvez continue.

JC Todorov


Todorov,
É, você tem razão... Pressão à barra também é um comportamento que se desenvolve e tem uma estrutura que precisa ser modelada. Acho que é um comportamento tão usado em AC que esquecemos que a aquisição dele não é óbvia.
Se eu tivesse colocado esse argumento, acredito que todos teriam concordado. Tanto é que ninguém duvidou da importância da estrutura do organismo - estrutura essa entendida em suas determinações filogenéticas e ontogenéticas (ou seja, quais comportamentos ele estava apto a apresentar no momento considerado em decorrência de uma história de aprendizagem). Acredito que ninguém questione também a estrutura do repertório.
Abraços,
Tauane

21 de dezembro de 2011
Tauane,

Como disse antes, neste dezembro a casa anda cheia de netos, virou acampamento. Apesar de ser casa de avó, estamos tentando colocar regras para diminuir o barulho.Demorei um pouco para responder por isso. Que bom que começamos a nos entender (e você a explicar aos outros) quanto à questão do conceito de estrutura em análise do comportamento. Alguns de meus ex-alunos sugeriram que esta troca de e-mails poderia ser postada em meu blog, mas tenho minhas dúvidas. Será que lendo alguém vai entender o que estamos discutindo?

Quanto à saúde, tem melhorado, principalmente depois que fui liberado para dirigir.O problema do descolamento da retina ainda não está resolvido, tenho cirurgia marcada para o fim de janeiro

Abraços a todos do laboratório.

JC Todorov

22 de dezembro de 2011.
Todorov,
Obrigada pelas notícias. Fico muito feliz que você tenha sido liberado para dirigir! Certamente, a cirurgia correrá bem. Por favor, nos mantenha informados. A Tatu vive perguntando e falando sobre você.
Sobre o blog, receio que as pessoas não entendam mesmo. Aproveite seus netos e tenha um excelente final de ano!!!
Abraços,
Tauane

Tauane,

Esqueça a idéia do blog. Seria interessante um texto baseado nos blogs, mas daria muito trabalho.
Feliz Natal

JC Todorov


05 de jan de 2012
Olá, Todorov!
Escrevo apenas para contar que acabo de ler um texto da Maria Amélia Matos sobre desenvolvimento e, nele, ela destaca a importância do estudo da interação da estrutura do ambiente com a estrutura do comportamento. A visão dela é semelhante à que temos discutido sobre a necessidade de estruturação do ambiente de acordo com a estrutura do repertório da criança. Ela também aponta que estudar apenas reforçamentos e punições não é suficiente para dar conta do desenvolvimento. Assim que li, me lembrei de você...
Continuarei trabalhando nisso e burilando a escrita do capítulo da dissertação sobre estrutura e Análise do Comportamento. Quem sabe não vira um artigo... Quando tiver algo mais formal, mandarei.
Espero que seu Réveillon tenha sido agradável e que seu ano seja excelente!
Um abraço,
Tauane

06 de janeiro de 2012
Tauane,

Acho que a Maria Amélia escreveu sobre a importância (maior?) do controle do comportamento por estímulos discriminativos. Talvez a Tatu ou o Gerson possam ajudar nisso.

JC Todorov


Todorov,
Pois é... Conversei com a Tatu. Parece que o interesse da Maria Amélia em desenvolvimento não era tão divulgado (nem os professores do departamento sabiam). Veja só:
“Quando a relação entre os termos de uma função é mantida constante, ainda assim seus termos podem variar. Uma análise estrutural lida com as propriedades desses termos (...). Existem certas letras do alfabeto mais difíceis de aprender, isto é, de identificar, ler e produzir, que outras. A identificação das características destas letras, bem como das propriedades específicas daqueles estímulos, é tarefa a ser feita. Em estudos de diferenciação e variabilidade, as características das respostas são tão importantes de serem descritas quanto suas contingências. Não estamos propondo uma análise da estrutura do estímulo, ou da estrutura da resposta, e sim, das interações entre ambas”. (Matos, 1983, p. 13)
São quase as mesmas palavras utilizadas por Catania...
Agora achei textos de Willis Overton, que faz uma análise metateórica muitíssimo interessante sobre desenvolvimento, explicando o motivo pelo qual algumas teorias afirmaram-se como funcionais e outras como estruturais.
Vamos ver no que dá...
Tauane


Vale a pena recuperar esses textos da Maria Amélia. Acho que a Deisy pode ter alguns na mesma linha. Seu artigo sobre estrutura está ficando muito bom!

JC Todorov




25 de Abril
Tauane,

O texto do Armando vai te intgeressar.

JC Todorov
---------- Forwarded message ----------
From: Armando Machado <
armandom@psi.uminho.pt>
Date: 2012/4/25
Subject: [Sqab] Big questions
To: 
Sqab@yahoogroups.com


Let me add a few thoughts to Marc Branch’s remark concerning accumulation. Perhaps the problem is not accumulation but integration. We have studied a few forms of behavioral interaction between organisms and their environments, but we have little to offer in terms of how various experiences integrate into more sophisticated forms of behavior, perhaps qualitatively different forms of behavior. Here is a specific instance: Some of us (and many other scientists) study primitive forms of temporal and numerical sensitivity in animals and humans. We have even elaborated quantitative models that can, under limited circumstances, predict behavior reasonably well. But we have a hard time going from these primitive forms of sensitivity to slightly more elaborate forms. How is it that from the primitive sensitivity to number, and through the coordination of actions, a child learns (some would say, d! evelops) something like the concept of number or, one step back, a one-to-one correspondence? It will not escape your attention that this is an issue that intersects the fields of learning and development; along similar lines, others framed this issue at the intersection of  learning and evolution.

In this respect, the analogy with the method used by Darwin to explain the formation of vegetable mould through the action of worms may be apprpriate. When a certain Mr. Fish remarked that the size and weakness of the worms was incompatible with the enormous task assigned to them by Darwin, Darwin replied: “Here we have an instance of that inability to sum up the effects of a continually recurrent cause, which has often retarded the progress of science, as formerly in the case of geology, and more recently ! in that of the principle of evolution.” (Darwin, 1881, p. 6).

Behavioral integration is one of the big questions for me. Another with which I often struggle is the representational versus non-representational view of learning. This is a different sort of issue, more conceptual than empirical, but for me it is another deep issue (perhaps without a solution in the sense that empirical issues have solutions).

As for our students – Alliston’s legitimate concern -- perhaps you will allow me a more personal remark. Just turned into 50, I am from Alliston’s generation, sufficiently old to dare to offer advice to younger students, but still sufficiently young to have some of my intellectual heroes alive ! and productive (and still admired). I am talking (to remain within our area) not only about Skinner, Sidman, Keller, and Schoenfeld, but also about Rachlin and Staddon, Killeen and Gibbon, Catania and Fantino, and a few others. What impressed me about these scientists when I joined the field was their broad training, including in philosophical/conceptual issues. Perhaps the best our area can do to remain alive is to train our students broadly, always in close contact with Biology, Neuroscience, and Mathematics – and a bit of philosophy will not hurt.

Cheers,

Armando Machado



Oi, Todorov!
Como você está?
Muito obrigada pelo texto. Tenho me preocupado com questões que tangenciam a fala do Armando. Ler o texto dele me interessou muito.
As questões apontadas pelo Armando se aproximam de uma discussão antiga na Psicologia do Desenvolvimento sobre se as mudanças são contínuas (acumulativas) ou descontínuas (qualitativas). Gewirtz e Peláez-Nogueras (1996) têm sugerido que o debate "contínuo x descontínuo" seja meramente uma questão de métrica. Quanto maiores as unidades de medida, mais provável será a descontinuidade; quanto mais finas e menores, mais provável será a descontinuidade. A partir disso, eles concluem que, no contexto da análise do comportamento, não é importante deter-se nessa questão.
Eu tendo a discordar deles. Se pensarmos nas antigas concepções de "estrutura", temos que a entrada de qualquer novo elemento em um sistema alterará todas as relações funcionais entre esses elementos, alterando a estrutura. Analogamente, acho que quando uma nova resposta é acrescentada a um repertório, em maior ou menor grau, as relações funcionais se alteram de maneira mais ampla. Não pode ser algo meramente cumulativo. Acho que avançamos um pouco ao falar em "Behavioral Cusps", embora eu tenha meus bloqueios com esse conceito.
Mais próximo do que o Armando está falando talvez estejam os estudos de insight (enquanto recombinação de repertórios) que estão sendo realizados pelo laboratório da UFPA. Mais uma vez, não é a simples soma de repertórios, mas a recombinação deles que resulta em uma resposta mais complexa.
Minhas ideias ainda estão bastante imaturas. Contudo, tendo a achar que qualquer nova aprendizagem altera as relações funcionais do conjunto em maior ou menor grau. Algumas vezes, essas alterações do conjunto são imperceptíveis. Talvez, nesses casos, caiba um estudo sobre acúmulo de repertório. Em outros casos, a alteração no repertório global é maior. Nesses casos, é importante olhar para o fato de que, talvez, novas relações funcionais tenham sido criadas entre repertórios menores – possivelmente, cria-se, assim, uma nova forma de integração de repertórios, dando origem a comportamentos mais complexos. Quando fixamos nosso olhar apenas sobre a resposta de pressão à barra, tendemos a nos esquecer do emaranhado comportamental no qual aquela resposta simples está integrada. Não quero dizer, com isso, que não possamos estudar parte dos comportamentos de forma contínua.
A questão da integração se amplia para as questões da filogênese, ontogênese e cultura. Tenho lido os trabalhos do Zing-Yang Kuo e do Gilbert Gottlieb, que apresentam uma visão epigenética do desenvolvimento comportamental. Eles têm lindos exemplos de como pequenos eventos ambientais alteram a expressão gênica, embora não alterem os elementos do gene. Sendo assim, nem caberia mais falar em um desenvolvimento biológico-filogenético de um lado e em um desenvolvimento comportamental-ontogenético de outro, mesmo que de maneira didática como o Bijou e o Baer (1965) fizeram. Qualquer evento novo altera o todo - inclusive a expressão gênica.
Faz algum sentido?
De qualquer forma, seja lá a explicação que dermos à questão da "integração", ainda acho que as confirmações ou refutações para isso estão no laboratório.
Desculpe-me pela demora na resposta. Os últimos dias foram corridos e eu queria poder responder com calma.
Abraço,

Tauane



29 de abril
Tauane,

Tenho a impressão que as palavras estrutura e função, com vários significados em diferentes abordagens, mais atrapalham do que ajudam. Vamos tentar focalizar em processos. Minha colocação tem sido que todo processo de interação ocorre no tempo, logo tem começo, meio e fim, ou recomeço. Estamos falando de operantes discriminados (no comportamento humano não vejo operante que não seja discriminado). Se o operante R já existe no repertório, mas com baixa frequência na situação A e sem relação com a consequência S, a CONFIGURAÇÃO do repertório na situação A de início inclui R com baixa frequência. Para estabelecer R como operante discriminado na contingência tríplice A-R-S pode ser necessária modelagem (reforçamento diferencial de sucessivas aproximações em direção ao objetivo) ou apenas garantir que S é consequência selecionadora e que (a) R só será seguido por S na situação A ; (b) R não será seguido por S em outras situações; (c) qualquer outro operante que não R ou nunca será seguido por S, ou se o for, será de forma intermitente e com baixa frequência.

A rapidez com que R vai predominar sobre outros operantes na situação A vai depender do repertório inicial: da força relativa dos outros operantes.  ETC., ETC, a partir daí entram considerações a respeito de momento, contexto de reforço, equivalência de estímulos, etc.

A pressão à barra na caixa de Skinner foi escolhida para simplificar o início da análise, ao eliminar ou diminuir a importância de outros fatores, e para poder estudá-los um de cada vez
Só não podemos esquecer deles.

Para um domingo de manhã acho que já escrevi demais. Espero que você esclareça a questão em sua tese.

JC Todorov


26 de agosto de 2015.

Todorov,
Reli e sistematizei os e-mails que trocamos em 2011 e 2012, época que eu estava começando a estudar desenvolvimento. Confesso que ainda tenho alguma dúvida se entendi direitinho o que você quis dizer sobre estrutura naquela época. Infelizmente, deixei esse assunto morrer depois da minha qualificação, mas ainda queria entender tua opinião.
Lendo nossas trocas de e-mail, percebi que a importância da estrutura aparecia em três momentos. Os dois primeiros são mais fáceis de explicar:
1. Quando falamos sobre a importância do tipo de estímulo que usamos e das respostas que selecionamos. Acho que isso fica claro no trecho da Maria Amélia Matos, "Quando a relação entre os termos de uma função é mantida constante, ainda assim seus termos podem variar. Uma análise estrutural lida com as propriedades desses termos (...). Existem certas letras do alfabeto mais difíceis de aprender, isto é, de identificar, ler e produzir, que outras. A identificação das características destas letras, bem como das propriedades específicas daqueles estímulos, é tarefa a ser feita. Em estudos de diferenciação e variabilidade, as características das respostas são tão importantes de serem descritas quanto suas contingências. Não estamos propondo uma análise da estrutura do estímulo, ou da estrutura da resposta, e sim, das interações entre ambas”. (1983, p. 13)"
2. Quando falamos da estrutura do organismo impondo limitações e possibilidades às respostas e mesmo às relações que podem ser aprendidas.

O terceiro momento em que o termo estrutura aparece nos e-mails é mais difícil de explicar e eu não sei exatamente se entendi: é quando você fala de estrutura de repertório. A verdade é que não sei exatamente o que você chama de repertório. Ainda assim, tenho uma possível interpretação do que você queria dizer. Veja se é isso:
Temos uma série de relações aprendidas. Em diferentes contextos, diferentes respostas e relações têm probabilidades diferentes de aparecer. Algumas vezes as relações estabelecidas ajudam, outras entram em "conflito" com aquilo que se deve aprender. Por exemplo, se eu preciso ensinar uma criança que 2+2=4 e ela já tiver aprendido anteriormente que 1+1=2, o contexto histórico (i.e., relações já estabelecidas) pode facilitar a aprendizagem. Por outro lado, se na vida de uma criança foi reforçado o gritar e o falar alto diante de outras crianças, pode ser mais difícil ensinar que, ao entrar na escola, ela precisa ficar em silêncio na sala de aula mesmo diante de crianças. No primeiro caso, as relações já aprendidas facilitam a aquisição, no segundo, dificultam.
Pensando nesses exemplos, fiquei com a impressão que o que você chamou de "estrutura de repertórios" é a rede de relações já aprendidas e como elas vão influenciar a aquisição de novas relações.
Outras possíveis interpretações do que você quis dizer  com estrutura do repertório surgem da tua típica frase de que "todo processo tem começo, meio e fim (ou recomeço)". Isso me faz pensar se você não está chamando de estrutura de repertório algo como (1) um processo de modelagem, com suas várias etapas, ou como (2) o processo de interação que é próprio do comportamento - o que acontece no ambiente, como o organismo responde e como o ambiente se altera frente a isso.

Algo daí faz sentido? rs
Logo mando pra você os e-mails para que possa publicá-los caso queira.
Mais uma vez, obrigada por tua participação no DDC! Foi bom te ver tão bem.
Abraços
Tauane


15 de setembro de 2015.
Oi Tauane,

Quanto ao “retorno da estrutura”:

Não me preocupo só com “estrutura”. Reafirmo que só estudamos processos, não coisas, e em todo processo é possível ver aspectos de seu desenvolvimento, a partir de algum início, de estruturas que se modificam em função de determinadas variáveis.
Não falo de estrutura enquanto topografia. Esse é o sentido empregado pela Maria Amélia que você citou. Falo das relações entre componentes do processo. Na modelagem a definição de resposta de início é ampla e sempre envolve algum comportamento já verificado como componente do repertório.
Também não falo só da estrutura do organismo. Isso deve ser levado em conta sempre, não há processo de interação comportamento-ambiente sem que se considere condições do organismo. O desenvolvimento comportamental depende das interações com o ambiente externo, que vão influenciar desenvolvimento do sistema nervoso, do aparelho locomotor, etc., etc.“The response, naturally, must be within the organism’s capacity” (Keller & Schoenfeld, p. 284).
Também não falo de “estrutura de repertório” isolada no vácuo. Comportamentos são mantidos no “repertório” enquanto partes de interações, enquanto selecionados pelas consequências. Ver pesquisas sobre o que Keller & Schoenfeld chamaram de regressão e hoje outros preferem um termo menos psicanalítico como ressurgência (ver também Sidman, Coercion, p. 155).
Um repertório pode ajudar quando não inclui um comportamento incompatível com o que deve ser aprendido. Por outro lado, ver Keller & Schoenfeld, p. 204-205, e 290, do original.
Sobre este “terceiro momento” mencionado por você, acho que o raciocínio com probabilidades complica. A probabilidade é zero de uma criança da periferia de São Paulo que nunca frequentou creches, escola maternal, jardim da infância, entender o que se passa em uma aula de escola regular para crianças de seis anos que já passaram por essas experiências.

Último comentário, por enquanto: esqueça de etapas mandatórias. Nunca falei de etapas, nem de estruturas isoladamente. Isso é coisa de quem não consegue tirar Piaget da cabeça e projeta na gente..., mas cada cultura programa sequências de aprendizagem necessárias para a aculturação a partir do nascimento, sempre levando em conta o que é biologicamente possível em cada etapa. O acúmulo de informações sobre isso na psicologia é enorme. Não é o caso de reinventar a roda.

Um abraço,

João Claudio



18 de setembro de 2015.

Todorov,
Obrigada pela tua resposta.Eu entendi o que não é a estrutura que você está enfatizando.  
O que eu conseguir derivar do que você escreveu é que o termo estrutura talvez seja usado por você no sentido de como o repertório está estruturado e será reestruturado em função das novas interações. E, quando digo isso, entendi que o repertório não é visto como um saco de respostas aprendidas e isoladas dos aspectos funcionais.
Por "como o repertório está estruturado" eu me refiro ao conjunto mais amplo de relações estabelecidas na vida do sujeito, uma relação impactando a outra de alguma forma (se é que é possível separar, que não didaticamente, uma relação das outras). Durante o desenvolvimento/processo de mudança, esse jogo de relações é constantemente balançado e reestruturado. Desse ponto de vista, o desenvolvimento poderia ser visto como as mudanças na estrutura a partir das interações que se estabelecem com o meio. É por aí?
Tauane


Beleza! É por aí mesmo! E é tudo junto agora, a cada momento, herança genética, repertório inicial da espécie, influência do ambiente, etc.
J C Todorov


Aleluia! Acho que entendi! Hahahahaha
Segue em anexo toda a imensa troca de e-mails desses anos.
Tauane


Maio de 2016



            Só escrevo para dizer que atualmente consigo ver toda a questão da estrutura, sobre a qual conversamos. Tenho observado e registrado diariamente o comportamento de ratos, do dia 1 de vida até os 60... Estou no comecinho da vida deles ainda. E é justamente isso: a cada coisa nova aprendida, tudo se reestrutura, mesmo aquilo que não tem relação direta com a nova aprendizagem. Por exemplo, a ninhada mais velha que tenho está hoje com 9 dias de vida. É a primeira vez que conseguem sustentar a cabeça erguida, sem precisar apoia-la em algum lugar. Isso fez revoluções:
- agora os ratos podem virar a cabeça para cima, o que fez também surgir a resposta de encostar as patas dianteiras nas paredes e vai tornar mais provável o "levantar-se";
- as formas possíveis de mamar se ampliaram muito, de modo que eles não precisem mais de um apoio completo para mamar ou mesmo se dependurar na mama da mãe;
- eles começaram a farejar (o que eu achei incrível, porque nunca tinha pensado na relação de uma coisa com a outra!);
- a forma de se locomover se tornou bem mais rápida, provavelmente por eles terem que arrastar uma parte a menos (a cabeça) enquanto se mexem.

            O levantar a cabeça, obviamente, foi precedido de outras coisas. Por exemplo, eles nascem com a mesma espessura de cabeça, pescoço e restante do corpo. Com o passar dos dias, o corpo e a cabeça vão ficando mais robustos - o corpo muito mais do que a cabeça! Aos 9 dias, a cabeça é mais fina que o resto do corpo e o pescoço mais fino que ambos. As patas também crescem e parte da região lombar se torma mais protuberante, de forma a fazer uma ondulação nas costas deles. Por fim, nos primeiros dias de vida ocorre um fortalecimento da musculatura do pescoço e da cabeça, porque os filhotes empurram com a cabeça quase qualquer barreira que encontram na frente - isso tem um grande valor de sobrevivência, porque torna viável que eles consigam entrar embaixo da mãe para mamar. Todos esses aspectos juntos tornam possível a resposta de sustentação dessa região.
            Para mim, é um exemplo claro de reestruturação do repertório. Ou seja, muitas relações se reestruturam a partir de uma nova! Enfim... Queria dividir isso com você e perguntar se você considera um exemplo do que conversamos ao longo dos últimos anos a respeito do papel da estrutura.

Tauane Gehm