segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A metacontingência da cooperação.

Pormenores do desempenho coordenado de dois ratos (dados ainda não publicados). A linha azul, superior, é produzida pelo comportamento cumulativo do rato Azul; a linha do meio pelo rato cinza. O comportamento individual nunca é reforçado. Quando respondem ao mesmo tempo (linha preta), a unidade para o esquema de reforço é um tipo de produto agregado - a ocorrência de duas respostas praticamente simultâneas (contingências comportamentais entrelaçadas) é acusada pelo equipamento (produto agregado).
Neste exemplo cada animal recebeu reforço separadamente depois de uma razão fixa de 50 respostas (FR 50).No canto esquerdo inferior da primeira foto a dupla acabou de ser reforçada e exibe a pausa pós-reforço característica. Algumas poucas respostas de cada rato são independentes, o responder colaborativo ocorre mais ou menos onde se poderia prever o fim da pausa em FR 50 .
Responder em estado estável leva tempo, principalmente com animais sem experiência no laboratório. A foto da direita mostra um exemplo com FR 6. O desempenho em razão fixa da dupla é prejudicado pelo desempenho errático de um dos parceiros. "Enganos" como esse tendem a desaparecer com mais treino.
O gráfico superior mostra que os ratos "desperdiçam" pouco esforço, pois quase todas as suas respostas contam para a razão fixa 50. Quand a coordenação entre os dois ainda não é boa, ambos trabalham mais mdo que o requerido (abaixo, FR 6).

Referência:
Carvalho, L. C., Santos, L., Regaço. A., Barbosa, T. B., Souza, R. F., Souza, D. G., & Sandaker, I. (2018). Cooperative responding in rats maintained by fixed‐ and variable‐ratio schedules. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 110, 105-126.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Análise do comportamento e qualidade de vida nas metrópoles.




            A preocupação com a qualidade de vida nas metrópoles sempre existiu, só aumentou com a tendência mundial de êxodo do campo para as cidades. Nos Estados Unidos, especialmente depois da II Guerra Mundial, Wilson & Kelling (1982) argumentaram que a principal causa da queda na qualidade de vida nas cidades se devia a “desordeiros”, não necessariamente violentos nem necessariamente criminosos, mas sem respeito ou imprevisíveis: mendigos, bêbados, viciados, adolescentes desordeiros, prostitutas, vagabundos e os mentalmente perturbados. Essa “população” cresceu a ponto de incomodar porque a policia nunca tinha lidado adequadamente com a questão. Wilson &  Kelling defenderam a ação da polícia para combater esses casos para evitar que se transformassem em problemas mais sérios como crimes graves, no que veio a ser chamado de Teoria da Janela Quebrada, como no título do artigo: Broken windows: The police and neighborhood safety (Janelas quebradas: a polícia e a segurança da vizinhança).

Tolerância Zero

            Em 1986 o Promotor Federal de San Diego, California ficou nacionalmente conhecido por determinar que fosse apreendido todo navio que estivesse carregando qualquer quantidade de drogas ilegais. O programa estadual, denominado Tolerância Zero, se tornou federal pela ação do Procurador da República dos Estados Unidos, Edwin Meese em 1988, que ordenou que veículos e propriedades de qualquer pessoa cruzando as fronteiras com qualquer quantidade de drogas fossem apreendidos e os responsáveis processados criminalmente (Skiba & Knesting, 2001).

Janela Quebrada

            A teoria de Wilson & Kelling (1982) foi um marco nos Estados Unidos na explicação da chamada crise urbana, colocando em evidência a questão comportamento/consequência quando se atribuia o problema a fatores materiais. Weaver (2016) chama a atenção para as duas correntes ligadas a diferentes visões políticas, mas ideologia de lado, as crises urbanas que foram adequadamente tratadas envolveram tanto recursos materiais quanto culturais (relações condicionais comportamento-consequência). Os trabalhos antigos que falam em Janelas Quebradas estavam mais preocupados com a segurança pública nos espaços urbanos – controlar os espaços para controlar os comportamentos. Favelas inteiras foram demolidas e em seu lugar foram construídos arranha-céus que fizeram a fortuna dos que investem no mercado imobiliário e as prefeituras que passaram a arrecadar muito mais impostos. Principalmente depois de Wilson  Kelling (1982) Janela Quebrada também foi chamada de Tolerância Zero – assim como não se deve deixar passar uma janela quebrada sem consertar, não há crime, infração ou ofensa que seja tão inofensivo que não deva ser punido.

As dificuldades para cumprir a lei.

            Uma prisão pode representar o início de uma cadeia comportamental envolvendo agências e agentes públicos ao longo de meses ou anos. As leis geralmente envolvem comportamento complexo - complexo no sentido de que seus artigos descrevem mais do que respostas únicas, especificam as circunstâncias aplicáveis, as consequências e, às vezes, apontam condições atenuantes. O controle envolve uma rede de leis; um único ato ilegal põe em movimento todo um conjunto de órgãos governamentais. Como uma sociedade pode garantir que uma nova lei, aprovada com a intenção de promover mudanças nas práticas culturais, controle o novo comportamento dos cidadãos e dos agentes governamentais? (Todorov, 2005).

A lei é melhor escrita quando trata de comportamento indesejável do acusado e do comportamento dos policiais ao lidar com o problema. Pode-se ver o sistema judiciário de um país como um sistema cultural. Existem no sistema judiciário contingências comportamentais interligadas que definem suas práticas culturais particulares (Todorov, 1987, 2005; Cabral & Todorov, 2015; Carvalho & Todorov, 2016). O sistema judiciário é composto por estruturas físicas e organizacionais, e de seus membros, juízes, advogados, advogados e afins. Mas, como sistema cultural, o judiciário depende inteiramente dos repertórios comportamentais de seus membros. Quando uma nova lei apenas descreve as práticas culturais em curso em uma determinada comunidade, a aplicação da lei não conflita com os repertórios comportamentais dos agentes governamentais encarregados. Isso parece ter acontecido com o procedimento Tolerância Zero. Mudanças nas práticas culturais da comunidade exigem mudanças prévias nos repertórios comportamentais daqueles que devem fazer cumprir a lei. Em um sistema que já é lento, se não arcaico, a tomada de decisão por juízes e advogados, por vezes, segue a linha de menor esforço. (Glenn, 1993; Todorov, 2005).


            Independentemente da redistribuição espacial dos pobres, comportamentos inadequados continuariam a desvalorizar qualquer área urbana (Jackson, Bradford, Hohl & Farrall, 2009). De 1994 a 2001 a maior e mais conhecida experiência de mudança cultural aconteceu em Nova Iorque, comandada pelo prefeito Rudolf Giuliani, usando conceitos e procedimentos já usados por outros governantes em outros estados e cidades: Janela Quebrada, Tolerância Zero, e Qualidade de Vida (Skiba & Knesting, 2001). Dezenas, talvez centenas, de artigos já fora publicados sobre a ação de Giuliani em Nova Iorque, mas praticamente nem um deles aborda dois pontos importantes para o sucesso da grande mudança cultural: um aumento de cerca de 30% no efetivo da polícia (muito mais polícia nas ruas) e um acompanhamento e avaliação contínuos do desempenho de cada policial (Greene, 1999).
            “Tolerância zero’ em si talvez tenha trazido mais problemas que soluções a longo prazo, com queixas de viés racial na ação dos policiais e na total inadequação para controlar a violência nas escolas (Giroux, 2003; Greene, 1999). “Janela Quebrada”, por outro lado foi uma teoria saudada com entusiasmo pelos partidos políticos de direita (predominância do capital sobre o trabalho) e combatida pelos partidos de esquerda (combate à desigualdade de renda).


REFERÊNCIAS

Cabral, M. D. C. & Todorov, J. C. (2015). Contingências e metacontingências no processo legislativo da lei sobre a remição da pena pelo estudo. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 11(2), 195-202.
Carvalho, I. C. V. & Todorov, J. C. (2016). Metacontingências e produtos agregados na lei de diretrizes e bases da educação: primeiro o objetivo, depois como chegar lá. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 12(2), 75-85.
Giroux, H. A. (2003). Racial injustice and disposable youth in the age of zero tolerance. Qualitative Studies in Education,16(4), 553–565.
Glenn, S. (1993). Windows on the 21st Century. The Behavior Analyst, 16, 133-151.
Greene, J. A. (1999). Zero tolerance – A case study of police policies and practices in NYC. Crime and Delinquency,45(2), 171-187.
Jackson, J., Bradford, B., Hohl, K., & Farrall, S. (2009). Does the fear of crime erode public condence in policing? Policing, 3(1), 100–111. doi: 10.1093/police/pan079
Kelling, G., & Wilson, J. (1982). Broken windows: The police and neighborhood safety. Atlantic Monthly, 249(3), 29-38.
Skiba, R. J. & Knesting, K. (2001). Zero tolerance, zero evidence: An analysis of school disciplinary practice. New Directions for Youth Development, 92, 17-43.
Skinner, B. F. (1953). Science and human behavior. New York: MacMillan.
Todorov, J. C. (1987). A Constituição como metacontingência. Psicologia: Ciência e Profissão, 7, 9-13. (Portuguese)
Todorov, J. C. (2005). Laws and the complex control of behavior. Behavior and Social Issues, 14, 86-91.
Weaver, T. (2016). Urban crisis: The genealogy of a concept. Urban Studies, Special, 1–17, DOI: 10.1177/0042098016640487






terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O que é metacontingência e por que é (des)necessária?


"O que é metacontingência e por que é (des)necessária?"
Publicada no blog da ABPMC a convite de Diego Zilio

A palavra metacontingência foi proposta em 1986 por Sigrid Glenn (Glenn, 1986) para se referir a efeitos coletivos a médio ou longo prazos de operantes individuais independentes. Em 1987 foi usada como um conjunto de contingências e metacontingências que programa um determinado Produto Agregado (Todorov, 1987). Durante 20 anos aparece principalmente em artigos teóricos, como o que se dedica a explicar o comportamento dos eleitos no Congresso americano (Lamal & Greenspoon, 1992).
Contingência é uma relação condicional entre dois eventos. No caso da contingência comportamental, se um comportamento ocorrer, então uma consequência ocorrerá em tais e quais circunstâncias. Uma consequência pode ocorrer sempre que o comportamento ocorre, ou depois de repetidas ocorrências do comportamento, ou dependendo do tempo decorrido desde a última ocorrência dessa consequência, ou dependendo de inúmeras combinações de tempo e número de respostas, e de relações fixas ou variáveis. Resumindo: o conceito de contingência comportamental abarca infindáveis exemplos de interações comportamento-ambiente, inúmeras das quais estão documentadas em livros e artigos científicos, como, por exemplo, na Revista Brasileira de Análise do Comportamento.
Metacontigência é uma relação condicional entre a colaboração de pelo menos duas pessoas (contingências comportamentais entrelaçadas) que resulta em determinado produto e alguma consequência programada por um ambiente cultural selecionador. Metacontingências podem ser classificadas de acordo com o tipo de relação de consequência (cerimoniais ou tecnológicas) e da especificação do produto agregado (conservadoras ou transformadoras), e de combinações de relação de consequência e especificação do produto (por exemplo, cerimonial conservadora, tecnológica transformadora, etc., Todorov, 2013).
Uma metacontingência não é apenas um jogo de contingências individuais de pessoas diferentes. Uma metacontingência consiste em contingências individuais entrelaçadas, que produzem um mesmo efeito e levam a uma mesma conseqüência (Lamal & Greenspoon, 1992). No caso das práticas culturais, o agente a ser selecionado é o efeito (Produto Agregado) produzido pela prática (as contingências comportamentais interligadas). A variação é proporcionada por permutações no comportamento dos indivíduos que participam da prática (Glenn, 1991, pp. 62-63). Há uma ênfase no processo seletivo do entrelaçamento de muitos operantes e, consequentemente, na transmissão de padrões comportamentais através do tempo, reforçando também a ideia de que a unidade de análise pode ser a relação entre o entrelaçamento e o produto agregado (Glenn, 1988), a descrição das funções de diferentes efeitos ambientais produzidos pelo entrelaçamento (Glenn & Malott, 2004) e uma diferenciação entre processos de variação e seleção que ocorrem em nível individual (relações de macrocontingência) e processos de variação e seleção que ocorrem em nível cultural (relações de metacontingência, Malott & Glenn, 2006; Martone & Todorov, 2007; Glenn et al., 2016)).
Ao descrever as complexas relações comportamentais que ocorrem no terceiro nível de variação e seleção, o conceito de metacontingência coloca-nos frente a importantes questões conceituais e metodológicas:
(1)   o problema da unidade de análise no nível cultural e,
(2)   em se tratando de análise experimental, a variável crítica a ser manipulada no sentido de produzir, em condições controladas de laboratório, a seleção de um entrelaçamento específico de muitos comportamentos ao longo do tempo, desencadeando a transmissão do que Glenn & Malott (2004) denominam de “linhagem cultural” (Martone & Todorov, 2007).

A questão conceitual tem gerado ferrenha reação. Entre os participantes do I Think Tank sobre Cultura e Comportamento em Campinas, 2005, três argumentaram sobre a desnecessidade do conceito de metacontingência (Branch,2006; Marr, 2006; Mattaini, 2006). No Brasil autores que já haviam publicados sobre problemas sociais usando apenas a contingência comportamental também acham desnecessário o novo conceito (Gusso e Kubo, 2007), ou agora afirmam que Skinner preferiu trabalhar só com o conceito de contingência comportamental mesmo quando fala da forço do grupo (Carrara & Zilio, 2016) e que comemoramos 30 anos de metacontingências com um fracasso: o conceito é desnecessário (Zilio, 2018).
            A análise experimental de metacontingências cresceu exponencialmente depois das críticas dos participantes do I Think Tank (Campinas, 2005). Até então só a dissertação de mestrado de Christian Vichi (2004, 2005) na PUC-SP de 2004 mostrava dados experimentais. Em 15 anos foram várias dezenas de teses e dissertações, usando diferentes procedimentos, estudando só metacontingências ou essa relação condicional embutida em procedimento mais complexo. Para citar apenas três dos publicados mais recentemente: Soares et al (2018), Guimarães, Picanço & Tourinho (2019) e da Hora & Sampaio (2019).
Concepts such as operant, culturobehavioral lineage, culturant, and macrobehavior can facilitate an interdisciplinary and multidimensional approach to social issues such as corruption. They cross through disciplines, overcoming the traditionally rigid boundary between psychological, sociological, anthropological, and economic phenomena, clarify aspects that require further investigation and contribute to the unification of the sciences that deal with human behavior in its various dimensions. This is one important way in which the concept of metacontingency and related concepts such as culturant can be useful. This was not mentioned by Zilio (2019), who recently questioned the utility of such concepts. Besides the huge amount of work (experimental, theoretical, and, to a lesser degree, applied) that employed it—as Zilio’s review itself documented—one has to take into account the conceptual coherence of such a transdisciplinary perspective on behavior, society, and culture when evaluating its utility.” (da Hora & Sampaio, 2019).


Referências
Branch, M. N. (2006). Reactions of a laboratory behavioral scientist to a “think tank” on metacontingencies and cultural analysis. Behavior and Social Issues, 15, 6-10. http://dx.doi.org/10.5210/bsi.v15i1.343.
Carrara, K. & Zilio, D. (2016). Análise comportamental da cultura: contingência ou metacontingência como unidade de análise? Revista Brasileira de Análise Do Comportamento / Brazilian Journal of Behavior Analysis, 11(2), 135-146.
da Hora, K.L. & Sampaio, A.A.S. (2019). Perspectives in Behavior Science, 42, 1-21. https://doi.org/10.1007/s40614-019-00225-y
Glenn, S. S. (1986). Metacontingencies in Walden Two. Behavior Analysis and Social Action, 5, 2-8.
Glenn, S. S. (1988). Contingencies and Metacontingencies: Toward a Synthesis of Behavior Analysis and Cultural Materialism. The Behavior Analyst 1988, 11(2), 161-179.
Glenn, S. S. (1991). Contingencies and metacontingencies: Relations among behavioral, cultural, and biological evolution. Em P. A. Lamal (Org.), Behavioral analysis of societies and cultural practices (pp. 39-73). New York: Hemisphere Publishing Corporation.
Glenn, S. S., & Malott, M. E. (2004). Complexity and selection:            Implications for organizational change. Behavior and Social Issues, 13, 89-106.
Glenn, S. S., Malott, M. E., Andery, M. A. P. A., Benvenuti, M., Houmanfar, R. A., Sandaker, I., Todorov, J. C., Tourinho, E. Z., & Vasconcelos, L. A. (2016). Toward consistent terminology in a behaviorist approach to cultural analysis. Behavior & Social Issues, 25, 11–27.  https://doi.org/10.5210/bsi.v25i0.6634
Guimarães, T.M.M., Picanço, C.R.F. & Tourinho, E.Z. (2019) Effects of Negative Punishment on Culturants in a Situation of Concurrence between Operant Contingencies and Metacontingencies. Perspectives in Behavior Science, 42,  1-18. https://doi.org/10.1007/s40614-019-00224-z
Hélder Lima Gusso, H. L. & Olga Mitsue Kubo, O. M.  (2007). O conceito de cultura: afinal, a “jovem” metacontingência é necessária?  Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 9(1), 139-144.  ISSN 1517-5545
Lamal, P. A. & Greenspoon J. (1992). Congressional Metacontingencies. Behavior and Social Issues, 2(1),  71-81.
Malott, M. E., & Glenn. S. S. (2006). Targets of intervention in cultural and behavioral change. Behavior and Social Issues, 15, 31-56.
Marr, M. J. (2006). Behavior analysis and social dynamics: Some questions and concerns. Behavior and Social Issues, 15, 57-67. doi:10.5210/bsi.v15i1.345
Martone, R. C. & Todorov, J. C. (2007). O desenvolvimento do conceito de metacontingência. Revista Brasileira de Análise do Comportamento / Brazilian Journal of Behavior Analysis, 3(2), 181-190.
Mattaini, M. A. (2006). Will cultural analysis become a science? Behavior and Social Issues, 15, 68-80.
Soares, P. F. R., Rocha, A. P. M. C., Guimarães, T. M. M., Leite, F. L., Andery, M. A, P. A., & Tourinho, E. Z. (2018). Effects of verbal and non-verbal cultural consequences on culturants. Behavior and Social Issues, 27, 31-46. doi: 10.5210/BSI.V.27I0.8252
Todorov, J. C. (1987). A Constituição como metacontingência. Psicologia: Ciência e Profissão, 7, 9-13. doi:10.1590/S1414-98931987000100003
Todorov, J. C. (2013). Conservation and transformation of cultural practices through contingencies and metacontingencies. Behavior and Social Issues, 22, 64-73.
Vichi,  C. (2004). Igualdade ou desigualdade em pequeno grupo: um análogo experimental de manipulação de uma prática cultural. Dissertação de Mestrado,   Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.
Vichi, C. (2005). Igualdade ou desigualdade: manipulando um análogo experimental de prática cultural em laboratório. Em J. C. Todorov, R. C. Martone         & M. B.Moreira (Orgs.), Metacontingências: comportamento, cultura e sociedade. Santo André: ESETec.
Zilio, D. (2019). On the function of science: An overview of 30 years of publications on metacontingency. Behavior & Social Issues, 28,1 –31. https://doi.org/10.1007/s42822-019-00006-x.






quarta-feira, 22 de maio de 2019

Não reforce de imediato o desempenho retomado.


Quando um experimento com ratos na caixa de Skinner nos dá ideias para aplicação imediata? Sem a teoria, nunca. Aproveitando a vantagem da teoria e alguma experiência é possível sugerir medidas aos que trabalham com aplicação. O artigo a seguir nunca foi citado (a não ser por mim), mas eu mesmo só agora resolvi escrever sobre um possível significado de seus dados.

O artigo mais citado de todos os tempos no Journal of the Experimental Analysis of Behavior (JEAB) é o de R. J. Herrnstein “On the Law of Effect” de 1970. No experimento básico com dois esquemas de reforço um pequeno atraso na oportunidade de reforço é usado para separar o responder em uma alternativa dos reforços programados pelo outro esquema. Em minha tese de doutorado, publicada em parte em 1971 no JEAB, mostrei que o atraso poderia funcionar como punição para mudar de esquema. Neste trabalho com um aluno de mestrado da Universidad Nacional Autónoma de México mostramos que esse atraso poderia afetar também o responder em esquemas simples – comportamento é escolha, escolha é comportamento. Se a cada vez que uma pausa acontece e o responder que se segue demora um pouco para ser reforçado, as pausas tendem a diminuir.

Moral (provisória) da história: não reforce de imediato o desempenho retomado depois de pausas inconvenientes.


https://www.academia.edu/37289797/Delay_of_reinforcement_for_responses_which_end_pauses_effects_on_response_rates.pdf


terça-feira, 11 de setembro de 2018

De onde vem o “Eu” de Skinner?



De onde vem o “Eu” de Skinner?
Da filosofia e da literatura, como por exemplo de textos como os dois a seguir. Um exemplo de como na psicologia os processos não são´inventados, são descobertos. Várias abordagens podem se dedicar a estudar um mesmo processo usando pressupostos, ferramentas e linguagens diferentes. Uma Análise do Comportamento que define comportamento como a interação Organismo-Ambiente é incompatível com o tratamento dado por Skinner à personalidade como um sistema organizado de respostas, pois isso significaria apenas um sistema por organismo. Estudamos interações comportamento-ambiente e relações condicionais. 

João Carlos Firmino Andrade de Carvalho, “Cultura e Literatura: Intervenções”. Lisboa: CLEPUL, 2018.

“Reflectir sobre as representações da figura do Estrangeiro conduz-nos, quase necessariamente, a uma abordagem da problemática da identidade e da alteridade, das relações e limites equacionáveis entre o Mesmo e o Outro. O Estrangeiro (ou o Outro) teve várias configurações, em termos espacio-temporais: o Bárbaro, para os gregos da Antiguidade; o Forasteiro, para as sociedades tradicionais (não necessariamente primitivas); o Inimigo ou o Mal / o Demoníaco, para a Cristandade; o Eremita ou o Peregrino, para os mais dados ao convívio humano ou para os menos inclinados para as coisas do espírito; o Diferente / Exótico, para a era moderna inaugurada pelos Descobrimentos; o viajante europeu Cosmopolita, para as sociedades fechadas sobre si mesmas; o Libertino, para a moral conservadora; o Exilado e o Desenraizado (lembremo-nos de O Estrangeiro de Albert Camus, 1942); o Imigrante, para as sociedades europeias modernas e pós-modernas, etc. A problemática do Estrangeiro requer que reconheçamos dois planos: o plano da alteridade exterior (ou seja, o plano do “Nós e os Outros”, título de um célebre livro de Tzvetan Todorov [Todorov, 1989]) e o plano da alteridade interior (ou seja, o plano do “Je est un autre” de Arthur Rimbaud ou o do “Étrangers à nous-mêmes”, título do não menos célebre livro de Julia Kristeva [Kristeva, 1988], ou ainda o do Inconsciente de Freud). Estes dois planos, porém, não são estanques, como bem sabemos. “
Todorov, T. (1993). Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Tradução de S. G. de Paulo. Rio de janeiro: Zahar.

Todorov, T. (1989). A conquista da América.  A Questão do Outro. Tradução de Beatriz Perrone Moi. São Paulo: Martins Fontes 2ª edição.
https://s3.amazonaws.com/academia.edu.documents/33775623/A_conquista_da_America_A_Questao_do_Outro_-_Tzvetan_Todorov.pdf?AWSAccessKeyId=AKIAIWOWYYGZ2Y53UL3A&Expires=1536678573&Si
gnature=wmuLSutmPbusuI%2BTLJg9mIU6R4Y%3D&response-content-disposition=inline%3B%20filename%3DA_conquista_da_America_A_Questao_do_Outr.pdf


“Quero falar da descoberta que o eu faz do outro, o assunto é imenso. Mal acabamos de formulá-lo em linhas gerais já o vemos subdividir-se em categorias e direções múltiplas, infinitas. Podem-se descobrir os outros em si mesmo, e perceber que não se é uma substância homogênea, e radicalmente diferente de tudo o que não é si mesmo; eu é um outro. Mas cada um dos outros é um eu também, sujeito como eu. Somente meu ponto de vista, segundo o qual todos estão lá e eu estou só aqui, pode realmente separá-los e distingui-los de mim. Posso conceber os outros como uma abstração, como uma instância da configuração psíquica de todo indivíduo, como o Outro, outro ou outrem em relação a mim. Ou então como um grupo social concreto ao qual nós não pertencemos. Este grupo, por sua vez, pode estar contido numa sociedade: as mulheres para os homens, os ricos para os pobres, os loucos para os "normais ". Ou pode ser exterior a ela, uma outra sociedade que, dependendo do caso, será próxima ou longínqua: seres que em tudo se aproximam de nós, no plano cultural, moral e histórico, ou desconhecidos, estrangeiros cuja língua e costumes não compreendo, tão estrangeiros que chego a hesitar em reconhecer que pertencemos a uma mesma espécie. “

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Contexto, comportamento e consequência


Para que serve a pesquisa básica em psicologia?
                Serve no mínimo para introduzir os alunos à teoria necessária para o exercício da profissão. Serve também para construir, reformar e reconstruir a teoria. Uma teoria nos dá lentes especiais para olhar para o mundo. O psicólogo Jon Bailey relata uma observação que fez enquanto a escada rolante o levava de um andar ao outro em uma estação ferroviária. Ao pé da escada uma criança puxava o casaco da mãe e a chamava, em voz cada vez mais alta, enquanto a mãe falava ao telefone. Sem pensar, o analista do comportamento já diz para seus botões: lá vai em andamento uma modelagem de birra. Técnicas para modelar respostas novas (isto é, para ensinar) foram desenvolvidas com pombos e depois aperfeiçoadas para aplicação geral, tanto na educação quanto na clínica, mas as relações condicionais responsáveis pelo processo existem no ambiente natural desde o início dos tempos.
                Já escrevi que para entender um comportamento é preciso considerar o ambiente físico em que ocorre (o local), o ambiente social (as pessoas em volta), o que está correndo internamente no organismo e a história daquela interação comportamento-ambiente. Um experimento com pombos mudou completamente a teoria como vinha sendo desenvolvida por Skinner ao mostrar que a relação comportamento- consequência é sempre modulada pelo contexto. Sem informações sobre o contexto (que inclui os ambientes interno e externo) não é possível nem prever nem controlar.
                Sobre o efeito da história redescobri recentemente um experimento simples, feito em 1977 no México, no laboratório de Coyoacan da UNAM, e publicado em 1982. O experimento mostra que o que é considerado estado estável de um comportamento depende da história do organismo naquela situação. O experimento mostra que é possível aumentar o tempo dedicado a uma tarefa evitando reforços para aquela tarefa nos primeiros segundos depois de uma pausa.
                Posso pensar em aplicações práticas dessa observação, mas gostaria de receber sugestões de meus leitores, seja pelo blog, seja por mensagem no Facebook. Comentarei cada sugestão.

https://www.academia.edu/37289797/Delay_of_reinforcement_for_responses_which_end_pauses_effects_on_response_rates.pdf



domingo, 3 de junho de 2018

Polícia é para quem precisa de polícia.



As agências de controle social, no sentido skinneriano do termo, controlam as relações condicionais que regulam a vida em sociedade, em grande parte por controle aversivo, por meio de ameaças (avisos da intenção de punir) e de punições de fato, como multas e/ou restrição de liberdade. Comportamentos perigosos para o equilíbrio das interações entre pessoas e entre instituições são estritamente vigiados. Uso de violência, por exemplo, é privativo do Estado, por meios bem definidos em leis. Quando uma prática cultural precisa ser mudada o aparato policial entra em cena e rapidamente todos estamos usando cinto de segurança, só fumamos em lugares permitidos, não bebemos quando vamos dirigir, etc. O Estado também diz (mas só da boca para fora) que outras práticas culturais também precisam ser mudadas, como os comportamentos que definem o racismo, mas aí a abordagem é bem mais frouxa. Entram em cena os especialistas em mudar “os corações e as mentes” dos racistas.

                Resolvi escrever depois de ler artigo no New York Times assinado por um professor de direito, P. A. Goff, sobre o dia de treinamento promovido pela rede Starbucks. Para compensar a publicidade negativa que teve quando seus empregados chamaram a polícia porque dois negros estavam sentados em uma das mesas sem ter comprado nada - foi notícia no mundo inteiro – a Starbucks reagiu com um gesto sensacional: fechou todas as suas mais de 8 mil lojas em um mesmo dia para um treinamento sobre como evitar o viés racista. A iniciativa da empresa foi muito elogiada, mas o Professor Goff chama a atenção para o fracasso dessas iniciativas quando tomadas isoladamente. No lugar de sessões de treino a Starbucks poderia ajudar com verbas a iniciativas que ofereçam opções para a solução de conflitos que não sejam a polícia. Nos Estados Unidos as pessoas telefonam para o número 911 e o atendente decide, pelo tipo de situação, se manda os bombeiros ou a polícia. O caso da loja de Philadelphia poderia ter sido resolvido por grupos de assistentes sociais treinados para mediar conflitos, como existem na California. Se você chama a polícia o caso vai ser abordado como policial.

                Gastar um dia treinando 175.000 empregados e acreditar que isso resolve o problema só tem sentido na convicção dos patrões e na crença arraigada em nossa civilização cristã ocidental de que o mal mora no coração e nas mentes dos homens. Maneiras de extrair de lá esse mal variaram de fogueiras a terapias, passando por exorcismos. Continuar por esse caminho é parecido com a situação do bêbado que procurava suas chaves aproveitando a luz do poste – sabia que não era lá que tinha perdido as chaves, mas tinha que aproveitar porque ali era possível ver o chão. Pois nós sempre achamos que educação resolve tudo, então vamos reeducar as pessoas para deixarem de ser racistas.

                Vejamos o que escreveu Philip Goff sobre isso:

“A questão não é como educar as pessoas, é como mudar as situações de maneira que o medo provocado por negros ou o desapreço por eles não provoque uma resposta agressiva. E mudar situações se consegue com políticas. Historicamente isso é que o país tem feito quando a questão da discriminação racial é levada a sério. ”
               
A mobilização política que produziu a integração racial nas escolas levou a decisão à Suprema Corte, no processo Brown vs Board of Education. E a decisão foi de que aquele comportamento era inaceitável. Não foi “Por favor, mudem sua mente”. Da mesma forma, foram mudanças na legislação, forçadas por movimentos populares, que proibiram a discriminação de gênero nas escolas, e levaram à proteção de pessoas com deficiências. A lei levada a sério muda comportamentos, propaganda não muda nem a mente.


quinta-feira, 3 de maio de 2018

A lei como instrumento do poder, não da justiça.



            No ideal democrático a sociedade é “gerenciada” por três poderes que se equivalem: legislativo, executivo e judiciário. O legislativo aprova as leis, regras que especificam relações condicionais entre comportamentos e consequências visando estabelecer interações satisfatórias entre os cidadãos e em seu benefício. O executivo é encarregado de manter todos informados sobre essas regras e a garantir que as consequências programadas ocorram de acordo com a lei. O judiciário deve manter um olho no peixe, outro no gato: garantir que legislativo e executivo também se comportem dentro da lei. Um sistema de “checks and balances” existe para evitar que qualquer poder invada as competências dos outros dois. O judiciário pode anular decisões do executivo e do legislativo, o executivo pode vetar leis aprovadas pelo legislativo, e o legislativo pode aprovar o impeachment do executivo e do judiciário.

            Na democracia a lei deve servir à justiça, um conceito que se refere a um estado ideal de interação social em que há um equilíbrio razoável e imparcial entre deveres e oportunidades das pessoas. Que essa democracia ideal é um horizonte a ser buscado se comprova com a atual onda mundial de propostas de governo autoritárias que não acionam o sistema de pesos e contrapesos, como o presidente da república (em alguns países) que faz obstrução da justiça e nada acontece. O jornalista   do New York Times de ontem chama isso de a lei a serviço do poder (característica das ditaduras), não da justiça.
            O desequilíbrio entre os poderes pode ser visto em outros sistemas moleculares de interação, como a família ou a escola. Agências de controle podem mostrar abusos de poder por desvios no exercício de seu poder. No caso das famílias, a própria existência de um Estatuto da Criança e do Adolescente que regulamenta os deveres dos pais é comprovação da necessidade, em todos os níveis, de sistemas de pesos e contrapesos, de “checks and balances”, para garantir o desenvolvimento saudável e a adequada formação de cidadãos.




segunda-feira, 5 de março de 2018

Trends in Behavior Analysis, volumes 1, 2 e 3.








https://www.academia.edu/35989…/TrendsBehaviourAnalysis3.pdf


https://www.academia.edu/34673190/TRENDS_IN_BEHAVIOR_ANALYSIS_VOLUME_2_Trends2vFinal24set17red.pdf


Some old and new trends in Brazilian Behavior Analysis. João Claudio Todorov, Universidade de Brasilia, Brazil
Brazil has the largest number of undergraduate professional courses in Psychology in the world, so far more than 220. Of those, most offer Behavior Analysis courses, some only introductory disciplines, others a full training including practical work in the field. About 30 universities offer graduate courses, both basic and applied, with 15 of them leading to the PhD. This volume of activity, production and spreading of knowledge, has been going on for 55 years, since Professor Fred S. Keller went to the University of Sao Paulo as a Fulbright Scholar in 1961. Everything considered, Brazil is second only to the United States of America in both number of researchers and of publications on Behavior Analysis. All that notwithstanding, Brazilians are underrepresented in citations. That is understandable when we publish in Portuguese. Only people in Portugal (Europe), Angola, Mozambique, Cabo Verde (Africa), Timor East, Goa and Macau (Asia) can read what we publish in our common language (for the Asians, usually their second language). But Brazilians are also underrepresented even when publishing in English in major Behavior Analysis periodicals and books published in the US. Even Brazilian authors publishing there under cite Brazilian researchers. Citing is behavior, under the influence of all variables that influence choice. Having no way of directly control the environment of authors, we can at least enrich that environment. Trends in Behavior Analysis, Volumes 1, 2 and 3 are offered online, for download, as an opportunity to make the Brazilian production available internationally


Os três volumes do livro Trends in Behavior Analysis, download gratuito, incluem temas como
Alienação parental
Análise do Comportamento e Direito,
Comportamento governado por regras
Comportamento verbal de ordem superior
Conservação e transformação de práticas culturais
Controle de estímulos no comportamento verbal
Criatividade e insight
Encadeamento e classes ordinais
Ética e comportamento
Método e teoria em análise do comportamento
Mudanças em práticas culturais
Psicoterapia analítico-comportamental
Recorrência de respostas após extinção
Sustentabilidade
Violência doméstica
E autores como Andery, Banaco, Bentes, Benvenuti, Dittrich, Galvão, Glenn, Gomide, Haydu, Houmanfar, Hubner, Hunziker, Malott, Muchon, Paracampo, Sandaker, Todorov, Tourinho, Vasconcelos, Verdu, Zamignani e outros não menos conhecidos.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Seleção cultural e seleção de culturas.



                Em uma visão skinneriana do behaviorismo qualquer comportamento humano resulta sempre de três níveis de seleção por consequências: a pessoa existe como resultado de seleção de genes na história de espécie humana (seleção filogenética), é socializada para a vida em grupo segundo um conjunto de regras selecionadas na história da cultura do grupo (seleção cultural), e adquire seu repertório por meio das interações com seu meio ambiente ao longo da vida (seleção ontogenética). Logo, o que é selecionado no nível cultural não é um determinado comportamento: a história daquele grupo selecionou as regras (contingências ou relações condicionais) a serem usadas pelas agências de controle para a modelagem e manutenção de comportamentos.

                Dizemos que certos comportamentos são práticas culturais quando são frequentes e comuns a várias pessoas e/ou perduram por gerações. São práticas culturais, mas pertencem ao segundo nível de seleção, ontogenética ou comportamental. São comportamentos específicos que dependem das consequências contingentes à sua específica emissão. A regra para reforçar ou não é geral, cultural, mas a consequência é particular, depende do comportamento da referida pessoa.


Seleção cultural ou seleção de culturas?

                Seleção cultural envolve comportamento de pessoas; seleção de culturas é a seleção das regras (contingências ou relações condicionais) que orientam a ação das agências de controle. Não deveriam ser usados como sinônimo.

Seleção cultural se refere à seleção de comportamentos de acordo com regras vigentes no grupo. Em nossa cultura a criança pode ser elogiada por lavar as mãos antes de sentar-se à mesa ou pode ser proibida de comer enquanto não for lavar as mãos, por exemplo. Há mil anos não só não havia o hábito de lavar as mãos antes das refeições; comia-se levando os alimentos à boca com as mãos.

Mudanças no ambiente costumam ser responsáveis por alterações nas regras que caracterizam uma cultura. Comer com talheres foi um hábito que chegou à Europa por Veneza, vindo da Grécia, mas levou séculos para ser adotado em todos os países. Lavar as mãos levou mais tempo para ser adotado, só muito depois da comprovação científica da transmissão de doenças por contato físico. Atualmente o hábito pode estar se perdendo. Em grandes cidades cada vez mais pessoas comem nas ruas, nos food trucks, ou em praças de alimentação do shopping, sem pia para lavar as mãos a menos de cinquenta metros. Já imaginaram todas as crianças em filas no único banheiro do andar naquele shopping, esperando para lavar as mãos?

                Mudanças na cultura, portanto, podem ser causadas por mudanças em práticas culturais de pessoas. O jogo Tragédia dos Comuns1 ilustra as possibilidades de mudanças nas regras seguidas pela agência de controle causadas pelo comportamento das pessoas que competem por um bem comum. Considere um pasto comunitário, usado por agricultores que aí colocam suas reses para pastar. Quantas cabeças colocar, tanto seu lucro. Se cada agricultor aumentar seu rebanho indefinidamente, o pasto acabará, não haverá condição de renovação permanente que a pecuária exige. Não há “mão invisível do mercado” que resolva isso. É do interesse de todos que alguma agência de controle, aceita por todos, regulamente o uso do pasto comum. Elinor Ostrom2 tem um excelente trabalho com dados sobre a evolução das agências de controle.


Elinor Ostrom, Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action, 32 Nat. Resources J. 415 (1992). Available at: http://digitalrepository.unm.edu/nrj/vol32/iss2/6.





segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O governo como agência de controle (no sentido skinneriano).


                O conjunto de relações condicionais que regulam as interações comportamentais em uma sociedade caracteriza sua cultura. Essas relações condicionais podem abarcar a sociedade como um todo ou partes da sociedade, e são elas mesmas reguladas por agências de controle, especializadas por tipo de interação ou por vários outros critérios de desempenho:

1.       A família é a agência encarregada dos relacionamentos pais/filhos, e atua primariamente na construção de repertórios dos jovens que garantam sua inserção na sociedade quando adultos.

2.       A escola continua o trabalho de socialização iniciada pela família e deve preparar os jovens para o trabalho e para o convívio harmonioso na sociedade.

3.       Os grupos de amigos também funcionam como agências de controle, comunidades verbais selecionadoras de práticas culturais.

4.       A religião contribui para a estabilidade das relações comportamentais principalmente pelo uso do comportamento verbal, palavras que adquirem o poder de reforçar ou punir comportamentos pelo emparelhamento com promessas baseadas em fé.

5.       Os processos psicoterápicos são necessários, e funcionam como agências de controle, sempre que os controles exercidos por outras agências são excessivos ou inconsistentes (Skinner, 1953, cap. XXIV).

6.       Governos são as maiores agências de controle em todas as sociedades, com o papel de regular a ação de todas as outras agências, da maneira como os pais tratam os filhos,  o que deve ser ensinado nas escolas, e até onde pode ir o controle exercido pelas igrejas e como deve atuar o profissional psicoterapeuta.



A origem do poder de reforçar e punir.



Práticas culturais são mantidas por contingências sociais que prevalecem em um determinado grupo, sociedade ou organização. Adquirimos comportamentos que serão mantidos por contingências sociais por meio de interações que envolvem agências controladoras, como a família, por exemplo. É um processo tão longo e tão suave que o controle por consequências não é facilmente percebido.

       Você não escolheu nascer, mas mesmo assim é premiado pela escolha: a espécie humana te dá um repertório inicial. Sugar o seio materno é o primeiro exemplo de comportamento reflexo que se transforma em operante. É também um primeiro exemplo de interação mantida por benefício mútuo. Se o bebê não suga, a mãe sofre com o acúmulo de leite na mama; se a mãe não tem leite o bebê sofre com a fome.  Nenhuma interação social permanece sem coerção se não for mutuamente satisfatória.

       Qualquer forma de coerção é ruim. Os subprodutos desse tipo de controle são indesejáveis para o convívio sadio entre pessoas. Coerção sempre gera propensão para fuga do assunto, da pessoa, do lugar, etc., e esquiva de oportunidades futuras de situações coercitivas.

       Crianças são educadas de acordo com os padrões de uma cultura. Adquirem repertórios mantidos por contingências sociais por meio de interações com a mãe, cuidadores, família, e agências controladoras como a escola e a igreja.  É um processo longo que normalmente respeita o desenvolvimento biológico da criança. O controle pode ser tão sutil a ponto de não ser facilmente percebido. O estresse associado a cada nova aprendizagem modelada por contingências sociais se dilui ao longo de anos ou décadas. O caráter aversivo do controle por consequências se torna parte da vida.

       Um exemplo extremo da sutileza do controle social de hábitos e costumes é relatado por Elias (1939/1994), a propósito do casamento de um doge de Veneza com uma princesa grega. A princesa usava um pequeno garfo de ouro com dois dentes para comer, para escândalo dos venezianos, que comiam com as mãos. Foi severamente repreendida pelas autoridades, que invocaram a ira divina.



O grupo exerce um controle ético sobre cada um de seus membros através, principalmente, de seu poder de reforçar ou punir.” ... “Talvez o mais óbvio tipo de agência empenhada no controle do comportamento humano seja o governo. Os estudos tradicionais de ciência política lidam com a história e as propriedades dos governos, com vários tipos de estrutura governamental, e com as teorias e princípios que têm sido oferecidos para justificar as práticas governamentais. ... Temos que examinar o comportamento resultante no governado e o efeito desse comportamento que explica porque a agência continua a controlar.”  (Skinner, 1953/2003, Cap. XXII).





BIBLIOGRAFIA

Elias, N. (1939/1994). O processo civilizador. Volume1, A história dos costumes. Tradução de R. Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e comportamento humano. Tradução de J. C. Todorov e R. Azzi. São Paulo: Martins Fontes. 







quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Análise comportamental das agências de controle do comportamento


                Agências de controle são pessoas ou organizações encarregadas de incentivar, acompanhar e selecionar, pela apresentação de consequências, determinados tipos de interação entre pessoas e/ou organizações. Skinner definiu agências de controle como grupos dentro de um grupo maior que controlam a programação e a efetivação de consequências para certos comportamentos. Mesmo quando uma pessoa controla a apresentação de consequências, como faz o terapeuta na psicoterapia ou a mãe na família, esse controle é exercido segundo regras próprias das instituições legitimadas “psicoterapia” e “família”.

Qualquer que seja o grupo, qualquer que seja seu tamanho, esse grupo exerce o controle sobre seus membros principalmente por meio de seu poder de reforçar e de punir, de acordo com regras (relações condicionais entre comportamentos e consequências) que definem o grupo. O conjunto dessas relações condicionais caracteriza uma cultura.

Em qualquer grupo, organização, etnia ou sociedade, o conjunto de relações condicionais (contingências comportamentais e metacontingências) é resultado da evolução ao longo do tempo das interações entre pessoas. Na espécie humana a maior complexidade dessas agências parece ter surgido há 12.000 anos, com a agricultura e o sedentarismo que se seguiu aos tempos movimentação de coletores e caçadores.

Governo é uma das agências de controle mais antigas, sempre presente em qualquer grupo, quer como um chefe, quer como um conjunto de instituições governadas elas mesmas por uma constituição. Nas Ciências Humanas, certas agências são alvo de estudos de mais de uma ciência, como a família (psicologia, antropologia, sociologia, etc.) ou o governo (sociologia, ciência política, etc.). Ao longo do tempo cada ciência desenvolve suas teorias independentemente, ainda que cada uma delas assuma aberta ou dissimuladamente alguma teoria sobre o comportamento humano. A única abordagem a tratar de maneira uniforme todas as ciências humanas é a Análise do Comportamento via análise das agências de controle do comportamento regido por relações condicionais entre comportamentos e consequências.