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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Contexto, comportamento e consequência


Para que serve a pesquisa básica em psicologia?
                Serve no mínimo para introduzir os alunos à teoria necessária para o exercício da profissão. Serve também para construir, reformar e reconstruir a teoria. Uma teoria nos dá lentes especiais para olhar para o mundo. O psicólogo Jon Bailey relata uma observação que fez enquanto a escada rolante o levava de um andar ao outro em uma estação ferroviária. Ao pé da escada uma criança puxava o casaco da mãe e a chamava, em voz cada vez mais alta, enquanto a mãe falava ao telefone. Sem pensar, o analista do comportamento já diz para seus botões: lá vai em andamento uma modelagem de birra. Técnicas para modelar respostas novas (isto é, para ensinar) foram desenvolvidas com pombos e depois aperfeiçoadas para aplicação geral, tanto na educação quanto na clínica, mas as relações condicionais responsáveis pelo processo existem no ambiente natural desde o início dos tempos.
                Já escrevi que para entender um comportamento é preciso considerar o ambiente físico em que ocorre (o local), o ambiente social (as pessoas em volta), o que está correndo internamente no organismo e a história daquela interação comportamento-ambiente. Um experimento com pombos mudou completamente a teoria como vinha sendo desenvolvida por Skinner ao mostrar que a relação comportamento- consequência é sempre modulada pelo contexto. Sem informações sobre o contexto (que inclui os ambientes interno e externo) não é possível nem prever nem controlar.
                Sobre o efeito da história redescobri recentemente um experimento simples, feito em 1977 no México, no laboratório de Coyoacan da UNAM, e publicado em 1982. O experimento mostra que o que é considerado estado estável de um comportamento depende da história do organismo naquela situação. O experimento mostra que é possível aumentar o tempo dedicado a uma tarefa evitando reforços para aquela tarefa nos primeiros segundos depois de uma pausa.
                Posso pensar em aplicações práticas dessa observação, mas gostaria de receber sugestões de meus leitores, seja pelo blog, seja por mensagem no Facebook. Comentarei cada sugestão.

https://www.academia.edu/37289797/Delay_of_reinforcement_for_responses_which_end_pauses_effects_on_response_rates.pdf



quinta-feira, 13 de abril de 2017

O nome "Método ABA" como figura de linguagem.


                Aconteceu de um analista do comportamento em organizações ser procurado por um pai de autista depois de uma palestra e ser surpreendido com a manifestação de surpresa: “Não sabia que o ‘Método ABA’ se aplica também a empresas! ”.

                Isso já acontece em algumas regiões dos Estados Unidos. O sucesso da Análise Comportamental Aplicada (ABA da sigla em inglês) no tratamento de crianças com diagnóstico de Síndrome do Espectro Autista é tal que o grande público, que não conhecia a Análise Comportamental Aplicada, tende a usar, sem o saber, uma figura de linguagem. Dá-se ao que está contido, um procedimento específico, o nome da disciplina que o contém.  Foi um recurso publicitário útil quando os trabalhos pioneiros começaram a ser conhecidos e a ACA (ou ABA, que soa melhor) já era conhecida, “Ciência e Comportamento Humano” já era encontrado em livrarias de shopping, e livros como “O que a baleia Shamu me ensinou sobre o amor e casamento” era vendido até em livrarias de aeroporto.

                Em ciência, ninguém inventa nada. Revelação é área da religião. Inovações em qualquer área dependem do estado do conhecimento na época. O nome de Lovaas é o mais associado às origens do “Metodo ABA” por seu pioneirismo e persistência, mas não inventou os princípios que fundamentaram seu procedimento.

Transcrevo aqui a tradução de Ana Arantes de um texto de James Todd sobre Lovaas e as origens de seu trabalho. Pode ser visto na íntegra no endereço

http://scienceblogs.com.br/ensaios/2010/10/memorial_a_ivar_lovaas_como_na/



“Quanto à Análise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis, ou a conhecida sigla ABA), Lovaas não a inventou. Pode-se argumentar que Skinner a inventou, ao menos conceitualmente, em seu romance de 1948, Walden Two. A contribuição especial de Lovaas foi mostrar que é possível, com a aplicação integral e intensiva de princípios da teoria da aprendizagem, tratar efetivamente, e de forma eficaz, o autismo como um todo, em um número considerável de indivíduos, ou ao menos levar melhorias substanciais para aqueles que não alcançam totalmente os benefícios do tratamento. Por “eficaz” e “substanciais” entende-se que cerca de metade das crianças submetidas às intervenções ABA obtêm desempenho dentro dos limites “normais” em certos testes padrão. Em termos práticos, isso significa que essas crianças são capazes de frequentar a escola sem apoio especial. Antes que Lovaas fizesse isso, já havia provas científicas suficientes que mostravam que a ABA podia ser utilizada efetivamente para aspectos específicos de autismo.

A ABA ainda era bastante jovem quando Lovaas usou o método pela primeira vez para tentar criar um tratamento global para o autismo, na década de 1960. Mas, antes de Lovaas, começando na década de 1950, o trabalho reconhecido como ABA foi aplicado a todos os tipos de problemas de comportamento, tipicamente em pessoas com deficiência de desenvolvimento e esquizofrenia e geralmente em laboratórios e instituições. Grandes programas dedicados à Análise Comportamental Aplicada, como o Departamento de Desenvolvimento Humano e Vida Familiar (Department of Human Development and Family Life, HDFL) da Universidade do Kansas, foram estabelecidos na década de 1960. O HDFL é hoje o Departamento de Ciências do Comportamento Aplicadas. O Journal of Applied Behavior Analysis foi fundado em 1968, quase 20 anos antes de Lovaas publicar seu artigo seminal, em 1987, “Tratamento comportamental e funcionamento educacional e intelectual normal em jovens crianças autistas” (Behavioral Treatment and Normal Educational and Intellectual Functioning in Young Autistic Children), no Journal of Consulting and Clinical Psychology. Assim, ao contrário de praticamente todos os “tratamentos” para o autismo de que temos ouvido falar, ABA não é um novo “método” esperando alguém para fazer um estudo e descobrir se ele funciona em tudo. Intervenções ABA para problemas específicos de comportamento foram baseadas diretamente em princípios descobertos e comprovados em laboratórios comportamentais. Intervenções ABA abrangentes são construídas à partir de tratamentos mais direcionados, que já demonstraram eficácia. ABA não está esperando para entrar em todas as revistas científicas, ela vem de todas as revistas científicas. A pergunta típica não é o quanto a intervenção irá funcionar – esta é a parte fácil – mas se esta pode ser efetivamente aplicada no mundo real, com todas as complicações que o mundo real traz. ”

Mas, antes de Lovaas, não havia sido estabelecida ainda a possibilidade de efetivamente tratar o autismo como um todo através da criação de um programa abrangente de intervenções ABA. Agora, o termo ABA é muitas vezes incompreendido como significando apenas o que Lovaas fez – sua “terapia de tentativa discreta”, por exemplo – mas “ABA” realmente significa muito mais. O que é ABA? Citando livremente algo que eu escrevi para uma outra finalidade, podemos definir como ABA:

“O uso sistemático de princípios de aprendizagem cientificamente estabelecidos, técnicas de condicionamento comportamental e modificações ambientais relacionadas para criar terapias baseadas em evidências, comprovadamente eficazes e humanas, com o objetivo principal de estabelecer e reforçar habilidades de vida independente, socialmente funcionais e importantes. “

Na prática, uma análise comportamental aplicada utiliza técnicas baseadas na teoria da aprendizagem para modelar comportamentos novos e importantes em indivíduos com determinados excessos ou déficits comportamentais. Intervenções realizadas por analistas do comportamento geralmente incluem os seguintes componentes:

• Uma análise baseada em dados funcionais das condições responsáveis pelo comportamento problema.

• Objetivos e metas de tratamento específicos e verificáveis.

• Um plano bem definido usando os princípios da teoria de reforço para atender as metas e objetivos.

• Uma coleta de dados contínua para mostrar que a intervenção foi realmente a responsável pelos ganhos do tratamento.

• Um plano para garantir a generalização e a manutenção dos ganhos do tratamento.

• Medidas para garantir a validade social dos objetivos e metas do tratamento, e para assegurar que todos os envolvidos possam contribuir de forma substancial e construtiva para a melhoria de suas habilidades ao máximo de sua capacidade. ”




terça-feira, 11 de agosto de 2015

Cultura e a análise comportamental de práticas culturais.


Conceitos como o de metacontingência tornam possível tratar de assuntos culturais sem precisar recorrer a um diferente nível de linguagem. Podemos nos referir a questões sociais utilizando termos que se relacionam diretamente a contingências comportamentais. O conceito de metacontingência é um novo instrumento, um novo conceito que pode ampliar nossa compreensão de práticas culturais.
Eram de se esperar objeções à análise comportamental de práticas culturais.  Nós, analistas do comportamento, estamos tão entusiasmados com os avanços práticos no campo que tendemos a minimizar as ações deletérias da oposição. O fato é que nossa visão do homem no mundo vai contra séculos de sua glorificação como medida de todas as coisas; estamos em uma posição pós-renascentista. 
Não há como evitar as objeções à análise do comportamento levantadas por aqueles que acreditam que o homem é diferente, em sua essência, do mundo natural. Na maioria dos casos o outro lado advoga uma abordagem holística à pessoa e a palavra comportamento é vista como anátema. Em vez de entrar em uma discussão sem fim, acredito que devemos mostrar novos dados para aqueles preocupados com ações sociais, dados úteis que a análise comportamental pode produzir.
  Nesse sentido, o que deveríamos fazer é aplicar novos conceitos a problemas práticos e mostrar que eles podem ser úteis aos interessados na análise e na modificação de práticas culturais. Precisamos de mais trabalhos como os de Sigrid Glenn, Maria Malott, Joel Greenspoon, Richard Rakos, Mark Mattaini, para mencionar somente algumas contribuições memoráveis. Estaremos entrando na área da Educação, da Ciência Política, da Sociologia, da Antropologia e da Economia. Sabemos que, no passado, analistas do comportamento já cruzaram fronteiras, como Jack Michael,Teodoro Ayllon, e Luiz Otávio de Seixas Queiroz, trabalhando em hospitais psiquiátricos, e Skinner e Fred Keller buscando mudar a educação a partir de métodos analíticos comportamentais. A suposição, não testada, era a de que se poderia mudar o grupo por meio do controle das contingências para o comportamento individual; talvez possamos tirar proveito de um novo olhar para tentativas semelhantes examinando, especialmente, as que falharam.
  Por não nos preocuparmos muito com estar cruzando fronteiras, certamente provocaremos algumas reações negativas de colegas, psicólogos ou não, mas isso não será novidade para a análise do comportamento.

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Tradução feita por Maria Silvia Ribeiro Todorov de partes de um texto publicado originalmente em inglês.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

AINDA SOBRE ANIMAIS USADOS EM PESQUISA

Transcrevo texto de especialista a mim enviado pela internet:




https://mail.google.com/mail/ca/u/0/images/cleardot.gif
Texto de Rogério Pietro Mazzantini
Como profissional da área de saúde com experiência em pesquisa, sinto-me na obrigação de esclarecer alguns aspectos dos testes realizados em modelos animais, especialmente porque a falta de informação pode levar a conclusões enganosas.

A legislação brasileira não permite testes de medicamentos e cosméticos em animais, ela os EXIGE. E é assim na maioria dos países desenvolvidos.

O caso da “geração talidomida” no final dos anos 50 é um bom exemplo para entender o motivo da existência de testes em animais. A talidomida é um medicamento lançado na Alemanha com indicação para combater o enjoo em mulheres grávidas. Naquele tempo, os testes em seres vivos eram pouco rigorosos, por isso a talidomida não foi testada em animais durante a gravidez. Como resultado, milhares de mães que usaram o medicamento enquanto esperavam bebês deram à luz crianças sem pernas e/ou braços, daí o nome de focomelia (de foca) para aquele tipo de deformidade. Mais de 10 mil crianças foram afetadas.

Para impedir ou reduzir os riscos de que casos assim se repitam, são usados modelos animais controlados por Comitês de Ética em Pesquisa Animal.

Nenhum medicamento ou cosmético pode ser comercializado sem que antes passe por estudos de diversas fases, sendo as primeiras em animais e, depois de constatada uma relativa segurança, em humanos.

Por isso, essas listas de empresas que “não usam animais para testes” só podem ser lamentadas. TODO cosmético ou medicamento industrializado passou por testes em animais, nem que tenham sido feitos em empresas terceirizadas em outros países apenas na fase inicial de pesquisa. Do contrário, não estariam no mercado.

Assim, por pura coerência, os ativistas de defesa dos animais talvez pudessem repensar o uso que eles fazem de cosméticos, maquiagens, batons, cremes de barbear, xampus, protetores solares, pastas de dente etc. Além disso, se eles realmente querem boicotar empresas que usam animais para testes, poderiam começar deixando de tomar qualquer tipo de remédio registrado, inclusive todas as vacinas, como BCG, tétano, sarampo, meningite, poliomielite etc.

Maus tratos a animais devem ser denunciados e PROVADOS, lembrando que foto em rede social não prova nada. A legislação é muito mais rigorosa com isso do que com maus tratos a crianças...

A informação é esta. O que cada um vai fazer com ela, vai da própria consciência.