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segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A metacontingência da cooperação.

Pormenores do desempenho coordenado de dois ratos (dados ainda não publicados). A linha azul, superior, é produzida pelo comportamento cumulativo do rato Azul; a linha do meio pelo rato cinza. O comportamento individual nunca é reforçado. Quando respondem ao mesmo tempo (linha preta), a unidade para o esquema de reforço é um tipo de produto agregado - a ocorrência de duas respostas praticamente simultâneas (contingências comportamentais entrelaçadas) é acusada pelo equipamento (produto agregado).
Neste exemplo cada animal recebeu reforço separadamente depois de uma razão fixa de 50 respostas (FR 50).No canto esquerdo inferior da primeira foto a dupla acabou de ser reforçada e exibe a pausa pós-reforço característica. Algumas poucas respostas de cada rato são independentes, o responder colaborativo ocorre mais ou menos onde se poderia prever o fim da pausa em FR 50 .
Responder em estado estável leva tempo, principalmente com animais sem experiência no laboratório. A foto da direita mostra um exemplo com FR 6. O desempenho em razão fixa da dupla é prejudicado pelo desempenho errático de um dos parceiros. "Enganos" como esse tendem a desaparecer com mais treino.
O gráfico superior mostra que os ratos "desperdiçam" pouco esforço, pois quase todas as suas respostas contam para a razão fixa 50. Quand a coordenação entre os dois ainda não é boa, ambos trabalham mais mdo que o requerido (abaixo, FR 6).

Referência:
Carvalho, L. C., Santos, L., Regaço. A., Barbosa, T. B., Souza, R. F., Souza, D. G., & Sandaker, I. (2018). Cooperative responding in rats maintained by fixed‐ and variable‐ratio schedules. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 110, 105-126.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

AINDA SOBRE ANIMAIS USADOS EM PESQUISA

Transcrevo texto de especialista a mim enviado pela internet:




https://mail.google.com/mail/ca/u/0/images/cleardot.gif
Texto de Rogério Pietro Mazzantini
Como profissional da área de saúde com experiência em pesquisa, sinto-me na obrigação de esclarecer alguns aspectos dos testes realizados em modelos animais, especialmente porque a falta de informação pode levar a conclusões enganosas.

A legislação brasileira não permite testes de medicamentos e cosméticos em animais, ela os EXIGE. E é assim na maioria dos países desenvolvidos.

O caso da “geração talidomida” no final dos anos 50 é um bom exemplo para entender o motivo da existência de testes em animais. A talidomida é um medicamento lançado na Alemanha com indicação para combater o enjoo em mulheres grávidas. Naquele tempo, os testes em seres vivos eram pouco rigorosos, por isso a talidomida não foi testada em animais durante a gravidez. Como resultado, milhares de mães que usaram o medicamento enquanto esperavam bebês deram à luz crianças sem pernas e/ou braços, daí o nome de focomelia (de foca) para aquele tipo de deformidade. Mais de 10 mil crianças foram afetadas.

Para impedir ou reduzir os riscos de que casos assim se repitam, são usados modelos animais controlados por Comitês de Ética em Pesquisa Animal.

Nenhum medicamento ou cosmético pode ser comercializado sem que antes passe por estudos de diversas fases, sendo as primeiras em animais e, depois de constatada uma relativa segurança, em humanos.

Por isso, essas listas de empresas que “não usam animais para testes” só podem ser lamentadas. TODO cosmético ou medicamento industrializado passou por testes em animais, nem que tenham sido feitos em empresas terceirizadas em outros países apenas na fase inicial de pesquisa. Do contrário, não estariam no mercado.

Assim, por pura coerência, os ativistas de defesa dos animais talvez pudessem repensar o uso que eles fazem de cosméticos, maquiagens, batons, cremes de barbear, xampus, protetores solares, pastas de dente etc. Além disso, se eles realmente querem boicotar empresas que usam animais para testes, poderiam começar deixando de tomar qualquer tipo de remédio registrado, inclusive todas as vacinas, como BCG, tétano, sarampo, meningite, poliomielite etc.

Maus tratos a animais devem ser denunciados e PROVADOS, lembrando que foto em rede social não prova nada. A legislação é muito mais rigorosa com isso do que com maus tratos a crianças...

A informação é esta. O que cada um vai fazer com ela, vai da própria consciência.


ANIMAIS USADOS NO ENSINO

Em artigo publicado na revista online Comportese:,


Carlos Augusto de Medeiros escreve contra o uso de animais no ensino e na pesquisa. Sem mencionar a instituição, fala de seu arrependimento por ter no passado ensinado no IESB com o uso de animais. Talvez traído pela memória diz : “Infelizmente, aquela instituição onde trabalhávamos havia investido uma boa soma em caixas de Skinner importadas e voltamos a usá-las para o azar de muitos ratos."
                Surpreso com a afirmação, pois à época eu era Coordenador do Curso de Psicologia do IESB e sei muito bem que não foi isso que aconteceu, pedi a opinião do Prof. Márcio Borges Moreira, parceiro do Prof. Carlos Augusto de Medeiros no livro que usavam para ensinar Análise do Comportamento. Transcrevo a seguir os comentários do Prof. Márcio:



Não resta dúvida de que questões éticas em pesquisa e ensino, não só com animais, mas também com humanos são essenciais para o desenvolvimento dessas áreas. No entanto, tenho deixado a discussão sobre ética (com humanos também) e pesquisa com animais para outras (muitas) pessoas - principalmente em Psicologia, pois acho, como colocado pelo senhor, que há muita hipocrisia, além de não haver uma base clara para a discussão. Outro problema: as pessoas parecem “perder o bom senso” ao ouvir a palavra pesquisa. Não posso fazer uma pesquisa confinando humanos, com a permissão deles, no lab. e pagando por isso, mas posso fazer exatamente o mesmo se chamar de reality-show! O pai pode presentear o filho que foi bem na escola, mas não posso dar brinquedos para uma criança em uma tarefa experimental que não apresenta nenhum risco físico ou psicológico; posso pagar alguém para trabalhar em condições insalubres em uma mina de carvão, mas não posso pagar alguém para participar de uma tarefa experimental com papel e caneta - apenas para citar alguns exemplos.

Quanto ao que foi dito do IESB, o que está errado é dizer "Infelizmente, aquela instituição onde trabalhávamos havia investido uma boa soma em caixas de Skinner importadas e voltamos a usá-las para o azar de muitos ratos."

Para sorte de muitos alunos, voltamos a utilizar as caixas de Skinner. O desenvolvimento dos softwares, desde o início, foi para resolver o problema naquele semestre. Os resultados foram tão bons que decidimos usar os softwares com humanos como atividade extra. Salvo engano, não demos continuidade porque seria muita coisa para um semestre. Preferimos ficar com os ratos. Uma coisa que ninguém está comentando é que com o comportamento humano acontece muito mais coisa do que com o rato (efeito de história e controle por regras, por exemplo). Esse me parece um ponto chave para a discussão.

Contrariando minha regra de não fazer comentários sobre essas questões, abaixo estão  alguns comentários rápidos sobre alguns trechos do texto do Guto:

"Porém, não resta dúvida de que muitas pesquisas com esse perfil utilizam animais de forma desnecessária, produzindo um conhecimento com manipulações tão específicas de variáveis que nunca poderia ser generalizado para humanos."

Qual a base empírica para essa constatação? De alguma forma o senhor já contra-argumenta isso no seu texto.

"A velha desculpa do conhecimento pelo conhecimento não é suficiente para justificar, em absoluto, a exposição de animais não humanos a um sofrimento desnecessário."

Esse é um ponto que não vale a pena discutir: o conceito de "desnecessário" invalida a discussão. Mesmo chegando-se a um acordo de que há sofrimento, pelo menos em algum grau, fica um "eu acho necessário (justificável) e você não, e aí?"

"Mesmo que as pesquisas com não humanos produzam conhecimentos úteis na descrição do comportamento humano, ainda cabe a questão: o que torna a vida de um animal mais dispensável que a de um humano?"

Essa é uma pergunta absolutamente profunda e filosófica! Mas supondo que haja apenas duas respostas possíveis, nada ou "algum coisa", eu diria que se a resposta for "nada", toda a cultura e modo de produção de boa parte do mudo tem que mudar: animais para tração, alimentação - o próprio animal -, sequestrar os filhos da galinha para fazer omelete, jogar inseticida para matar ratos em casa, pegar nas tetas da vaca sem a permissão da mesma para extrair seu leite, arrancar sem dó nem piedade uma pobre tilápia de seu habitat natural para jogá-la na frigideira, etc.. Ah! E os deliciosos camarões? Pobres crustáceos! Deram azar de não serem mamíferos. Aliás os defensores dos animais, ou pelos menos grande parte deles, deveriam ser chamados de defensores dos mamíferos. E os insetos, que compõem o maior e mais largamente distribuído grupo de animais do mundo? O que fazer com seus zunidos e picadas? E o bicho-da-seda? Pobre ser subserviente cuja única função nesse mundo é nos servir para que não andemos pelados!

"Os sujeitos não humanos de pesquisa são gerados para passar a vida toda em uma gaiola que mal comporta as suas dimensões; pouco interagem com outros de sua espécie…"

Assim como a maioria dos bichinhos de estimação… 

"Os experimentos didáticos são replicações de estudos de mais de meio século. Esses experimentos já foram filmados e estão disponíveis em diversas mídias, inclusive no Youtube."

Se for só para ver, tudo bem, mas o importante não é a demonstração, e sim a prática do aluno. Eu mesmo sou responsável por boa das filmagens disponíveis hoje no Youtube. Complementam, mas não substituem a prática.

"Em primeiro lugar, os experimentos costumam ser feitos em grupos, nos quais há divisões de tarefas."

Um problema operacional do professor com grandes turmas não invalida a relevância das práticas com animais e permaneceria com a prática com humanos.

"Se nós somos analistas do comportamento e gostamos de bichos, devemos, pelo menos na nossa alçada, contribuir para o fim de sua exploração."

Particularmente penso que a questão não tem relação nenhuma com gostar de bichos ou com ser analista do comportamento.

Enfim, abusos existem e devem ser combatidos com agilidade e força. No entanto, generalizar todo o uso de animais em pesquisa como abusivo ou desnecessário já é demais. As respostas, de ambas as partes (dos prós e dos contras), talvez não sejam de utilidade porque a pergunta, pelo menos no momento, está errada (devemos fazer pesquisas com animais ou não?). Seria mais producente fazer perguntas como “quais as alternativas?”, “há estudos que possam validar a eficácia da alternativa?”, “é possível se fazer estudos para descobrir alternativas?”, "como desenvolver métodos que nos ajudem a pesar de forma um pouquinho melhor se os benefícios de uma pesquisa justificam seus procedimentos?".

Não havendo no momento alternativas, deveria ser questionado se um determinado uso específico de animais em pesquisa segue ou não padrões internacionais. Se segue, e ainda assim se considera errado, o primeiro passo seria questionar os próprios padrões e os órgãos responsáveis por eles, e não fazer apelos passionais para aqueles que realizam seus estudos seguindo todas as regras de cuidados com os animais. 


USO DE ANIMAIS EM PESQUISA E ENSINO E HIPOCRISIAS

Venho usando animais em pesquisas há quase 50 anos. Meu primeiro rato não tinha nome, a tarefa era obrigatória em disciplina obrigatória e eu já estava estagiando no que me interessava, organizações. Mas o rato sem nome e eu nos demos tão bem que fui convidado para monitor da disciplina, seguido por um convite para ser instrutor na nova Universidade de Brasília.
         Ainda na USP batizei meu segundo rato de Brasilino. Estava preparando um encadeamento de 22 passos para uma demonstração para alunos da UnB. O Brasilino e seu equipamento seriam levados para Brasília no primeiro semestre de 1963, mas como sempre acontece nossa mudança só ocorreu em maio de 1964. Em um mês o novo rato, Brasilino II, foi preparado para uma exibição na reunião de Ribeirão Preto da SBPC. Viajamos juntos de Brasília para Ribeirão, ida e volta, o Brasilino II levando  seu equipamento para exibições públicas. Os Brasilinos I e II ajudaram a introduzir a Análise do Comportamento no Brasil.
         Trabalhei muito com pombos e ratos em pesquisas que são citadas até hoje, em áreas como comportamento e contexto (comportamento é escolha, escolha é comportamento), generalidade das leis da aprendizagem ( a priori nenhuma aprendizagem é impossível) e parâmetros de estimulação aversiva (que até hoje servem para balizar o uso ético em pesquisas). São pesquisas básicas que subsidiam o desenvolvimento de estratégias para os trabalhos aplicados aos problemas humanos. Só negam essa importância aqueles que não aceitam a continuidade de processos comportamentais na escala evolutiva; os criacionistas, por exemplo.
         Por outro lado, há analistas do comportamento que são contrários ao uso de animais no ensino. Provavelmente são os que usam estratégias, métodos e técnicas sem saber como se desenvolve a teoria, e os que trabalham em instituições que não estão dispostas a investir em equipamento e custeio. Esses professores, quando vão a congressos, costumam ser assediados pelos donos e vendedores de softwares que substituem os ratos vivos por ratos virtuais. Para fins de ensino, é o equivalente aos cursos que ensinam estudantes de enfermagem a dar injeção em laranjas.
         A intenção de evitar sofrimento desnecessário aos animais é louvável, por isso temos os comitês de ética na pesquisa para examinar projetos. Só não vale hipocrisia. Nem acusar os colegas de torturadores hipócritas. Comer bife ou frango assado sem se preocupar com as condições de criação e de matadouros e abatedouros e reclamar do uso de animais em pesquisa e ensino é hipocrisia. E comer baby beef e vitela é apoiar o infanticídio...