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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Skinner, o Governo e a necessidade de ciscar para dentro.


                Recentemente Diego Manzano Fernandes (Perfil no Facebook) instou analistas do comportamento a buscar relações entre avanços na Ciência Política nos últimos 100 anos e o que Skinner publicou sobre o Governo. A preocupação é pertinente. Ao especificar que o comportamento humano é função de variáveis que dependem da filogênese (espécie), ontogênese (indivíduo) e da cultura, Skinner deu muita ênfase ao desenvolvimento do comportamento de indivíduos. Contudo, em “Ciência e Comportamento Humano” boa parte do livro trata de questões que envolvem o terceiro nível de seleção, o nível cultural, mas o que seria uma psicologia social behaviorista nunca realmente se desenvolveu.

É do interesse de todos que a análise do comportamento se desenvolva em direção a todas as ciências com a quais faz fronteira, das biológicas às sociais. Mas é fundamental que esse desenvolvimento ocorra “ciscando para dentro”, com um aumento na abrangência da teoria, e não “ciscando para fora”, com áreas da análise do comportamento sendo “cooptadas” por outras linguagens teóricas.

                A cooptação tende a ocorrer sempre que há a aproximação com teorias já estabelecidas, com mais prestígio e tradição. Na interface da economia com a psicologia os estudos analítico-comportamentais sobre o comportamento do consumidor são absorvidos pelos estudos da “psicologia” do consumidor de tal forma que hoje “economia comportamental” em verdade é “economia cognitiva”, com dois Premio Nobel no bolso em menos de 20 anos.

                Na área de desenvolvimento atípico do comportamento o sucesso ao lidar com o autismo levou a um resultado semelhante. Hoje os melhores grupos da análise do comportamento adaptaram a teoria para falar de comportamento e cognição como processos diferentes, adequando-se à linguagem de outras disciplinas mais tradicionais na área.

                Para alguns autores já estamos na quarta onda das terapias comportamentais. A preocupação de Aaron J. Bronwnstein com a possibilidade de análise comportamental de relações comportamento-comportamento abriu o caminho para o desenvolvimento do contextualismo de Hayes e colaboradores, uma carta branca para o “cognitivismo-comportamental”.


                Estão esboçados acima três exemplos do que acontece com a teoria quando se cisca para fora. Se a tendência continuar veremos a análise do comportamento, que não se restringe ao que Skinner escreveu em meados do século passado (teorias são resultado de comportamentos, e como tal são suscetíveis às consequências), juntar-se a outros avanços da ciência natural sob ataque das vanguardas do atraso, os “criacionistas”. Alegar que os escritos de Skinner não podem virar doutrina não pode ser desculpa para negar na prática a visão da psicologia como ciência natural. Seriam os “cognitivo-comportamentais” os nossos criacionistas?

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O nome "Método ABA" como figura de linguagem.


                Aconteceu de um analista do comportamento em organizações ser procurado por um pai de autista depois de uma palestra e ser surpreendido com a manifestação de surpresa: “Não sabia que o ‘Método ABA’ se aplica também a empresas! ”.

                Isso já acontece em algumas regiões dos Estados Unidos. O sucesso da Análise Comportamental Aplicada (ABA da sigla em inglês) no tratamento de crianças com diagnóstico de Síndrome do Espectro Autista é tal que o grande público, que não conhecia a Análise Comportamental Aplicada, tende a usar, sem o saber, uma figura de linguagem. Dá-se ao que está contido, um procedimento específico, o nome da disciplina que o contém.  Foi um recurso publicitário útil quando os trabalhos pioneiros começaram a ser conhecidos e a ACA (ou ABA, que soa melhor) já era conhecida, “Ciência e Comportamento Humano” já era encontrado em livrarias de shopping, e livros como “O que a baleia Shamu me ensinou sobre o amor e casamento” era vendido até em livrarias de aeroporto.

                Em ciência, ninguém inventa nada. Revelação é área da religião. Inovações em qualquer área dependem do estado do conhecimento na época. O nome de Lovaas é o mais associado às origens do “Metodo ABA” por seu pioneirismo e persistência, mas não inventou os princípios que fundamentaram seu procedimento.

Transcrevo aqui a tradução de Ana Arantes de um texto de James Todd sobre Lovaas e as origens de seu trabalho. Pode ser visto na íntegra no endereço

http://scienceblogs.com.br/ensaios/2010/10/memorial_a_ivar_lovaas_como_na/



“Quanto à Análise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis, ou a conhecida sigla ABA), Lovaas não a inventou. Pode-se argumentar que Skinner a inventou, ao menos conceitualmente, em seu romance de 1948, Walden Two. A contribuição especial de Lovaas foi mostrar que é possível, com a aplicação integral e intensiva de princípios da teoria da aprendizagem, tratar efetivamente, e de forma eficaz, o autismo como um todo, em um número considerável de indivíduos, ou ao menos levar melhorias substanciais para aqueles que não alcançam totalmente os benefícios do tratamento. Por “eficaz” e “substanciais” entende-se que cerca de metade das crianças submetidas às intervenções ABA obtêm desempenho dentro dos limites “normais” em certos testes padrão. Em termos práticos, isso significa que essas crianças são capazes de frequentar a escola sem apoio especial. Antes que Lovaas fizesse isso, já havia provas científicas suficientes que mostravam que a ABA podia ser utilizada efetivamente para aspectos específicos de autismo.

A ABA ainda era bastante jovem quando Lovaas usou o método pela primeira vez para tentar criar um tratamento global para o autismo, na década de 1960. Mas, antes de Lovaas, começando na década de 1950, o trabalho reconhecido como ABA foi aplicado a todos os tipos de problemas de comportamento, tipicamente em pessoas com deficiência de desenvolvimento e esquizofrenia e geralmente em laboratórios e instituições. Grandes programas dedicados à Análise Comportamental Aplicada, como o Departamento de Desenvolvimento Humano e Vida Familiar (Department of Human Development and Family Life, HDFL) da Universidade do Kansas, foram estabelecidos na década de 1960. O HDFL é hoje o Departamento de Ciências do Comportamento Aplicadas. O Journal of Applied Behavior Analysis foi fundado em 1968, quase 20 anos antes de Lovaas publicar seu artigo seminal, em 1987, “Tratamento comportamental e funcionamento educacional e intelectual normal em jovens crianças autistas” (Behavioral Treatment and Normal Educational and Intellectual Functioning in Young Autistic Children), no Journal of Consulting and Clinical Psychology. Assim, ao contrário de praticamente todos os “tratamentos” para o autismo de que temos ouvido falar, ABA não é um novo “método” esperando alguém para fazer um estudo e descobrir se ele funciona em tudo. Intervenções ABA para problemas específicos de comportamento foram baseadas diretamente em princípios descobertos e comprovados em laboratórios comportamentais. Intervenções ABA abrangentes são construídas à partir de tratamentos mais direcionados, que já demonstraram eficácia. ABA não está esperando para entrar em todas as revistas científicas, ela vem de todas as revistas científicas. A pergunta típica não é o quanto a intervenção irá funcionar – esta é a parte fácil – mas se esta pode ser efetivamente aplicada no mundo real, com todas as complicações que o mundo real traz. ”

Mas, antes de Lovaas, não havia sido estabelecida ainda a possibilidade de efetivamente tratar o autismo como um todo através da criação de um programa abrangente de intervenções ABA. Agora, o termo ABA é muitas vezes incompreendido como significando apenas o que Lovaas fez – sua “terapia de tentativa discreta”, por exemplo – mas “ABA” realmente significa muito mais. O que é ABA? Citando livremente algo que eu escrevi para uma outra finalidade, podemos definir como ABA:

“O uso sistemático de princípios de aprendizagem cientificamente estabelecidos, técnicas de condicionamento comportamental e modificações ambientais relacionadas para criar terapias baseadas em evidências, comprovadamente eficazes e humanas, com o objetivo principal de estabelecer e reforçar habilidades de vida independente, socialmente funcionais e importantes. “

Na prática, uma análise comportamental aplicada utiliza técnicas baseadas na teoria da aprendizagem para modelar comportamentos novos e importantes em indivíduos com determinados excessos ou déficits comportamentais. Intervenções realizadas por analistas do comportamento geralmente incluem os seguintes componentes:

• Uma análise baseada em dados funcionais das condições responsáveis pelo comportamento problema.

• Objetivos e metas de tratamento específicos e verificáveis.

• Um plano bem definido usando os princípios da teoria de reforço para atender as metas e objetivos.

• Uma coleta de dados contínua para mostrar que a intervenção foi realmente a responsável pelos ganhos do tratamento.

• Um plano para garantir a generalização e a manutenção dos ganhos do tratamento.

• Medidas para garantir a validade social dos objetivos e metas do tratamento, e para assegurar que todos os envolvidos possam contribuir de forma substancial e construtiva para a melhoria de suas habilidades ao máximo de sua capacidade. ”