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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Três ilhas e uma nuvem – uma fábula analítico-comportamental.


                Gosto de provocar meus amigos analistas do comportamento escrevendo sobre uma fábula que conta a história do nascimento de três ilhas no Mar da Psicologia, divisão promovida por um terremoto que desmembrou o continente Behaviorismo: Pesquisa básica, Análise Comportamental Aplicada e Comportamento Verbal. A violência da separação inicial provocou a formação de uma nuvem de behaviorismo reduzido a pó, que continua pairando acima das três ilhas: O Behaviorismo Radical.
                Como a variabilidade é a força maior que move o mundo (no princípio era a variabilidade, depois veio a luz), ao longo de algumas gerações a língua comum do Continente Behaviorismo diferenciou-se em quatro, com dialetos próprios de cada ilha e da nuvem. Os habitantes das ilhas e os que pairam sobre a nuvem, contudo, desenvolveram características comuns: não nadam nem voam, não se comunicam nem entre si nem com outros habitantes do Mar da Psicologia.
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Agora falando sério: está na hora de começarmos a construir pontes e passarelas. Há esperança: a ABAI está preocupada com isso. Em seus discursos de posse como presidentes da associação tanto Martha Hubner em 2015 quanto Jack Marr em 2016 abordaram a questão. Publiquei um artigo em 2013 na revista Behavior and Philosophy que relata a história da separação dos diferentes grupos.




quinta-feira, 3 de outubro de 2013

RESPOSTAS A PERGUNTAS SOBRE A ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANÁLISE DO COMPORTAMENTO

Estas respostas às perguntas frequentemente encontradas no Facebook foram escritas e largamente divulgadas semanas antes da reunião anual da ABPMC. A mudança no estatuto da ABPMC ocorreu em assembleia que se reuniu em Fortaleza, incorporando vários aspectos do estatuto da Associação Brasileira de Análise do Comportamento. A seguir a íntegra das respostas que escrevi.

1-     A apresentação da proposta de uma nova Associação pegou todos de surpresa. Qual o cenário que os motivou a propor uma nova Associação?

Pegou de surpresa quem não acompanhou o trajeto da ABPMC ao longo dos últimos 22 anos. A ABPMC cresceu com uma reunião anual, a publicação dos anais em forma de livro na bem sucedida coleção Sobre Comportamento e Cognição, e na publicação da Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. Os títulos dos livros e da revista bastam para mostrar que a ABPMC era e é uma associação mais ampla que uma de analistas do comportamento. Há vinte e dois anos que a maioria de analistas do comportamento colabora para o fortalecimento da terapia cognitiva e outras abordagens não-comportamentalistas.

2-     A proposta apresentada pelos senhores não poderia ser contemplada pela ABPMC? Por que então uma nova associação?

Poderia ser se não fosse o que é. Com a obrigação da reunião anual e as publicações e sem estrutura profissional não sobram tempo nem recursos para a diretoria desenvolver as atividades previstas no estatuto da ACBr, uma associação exclusiva, de e para analistas do comportamento.

3-     Há quanto tempo os senhores têm discutido a proposta da ACBr? Porque só agora, às vésperas do conhecido evento da ABPMC?

Pelo menos desde maio de 2003 quando a ABAI se preparava para fazer no Brasil seu congresso internacional em 2004. De lá para cá a ABPMC recusou-se a se relacionar formalmente com a entidade internacional (que só aconteceu por esforço pessoal de Martha Hubner), recusou a proposta de divisões regionais, e continuou a ser principalmente uma associação de terapeutas, comportamentais ou não.  Enquanto isso o campo de atuação profissional do analista do comportamento é invadido por pessoas sem formação que se dizem especialistas. Três reuniões para tratar do assunto que aconteceram no primeiro semestre deste ano nos convenceram que a ABPMC, por sua composição e sua história, nunca seria uma associação só e para analistas do comportamento, psicólogos ou não.

4-     Nas redes sociais foi aventado que a estruturação da ACBr não teve transparência. O que os senhores têm a dizer aos nossos leitores?

Um anúncio da intenção foi amplamente divulgado. A receptividade ao anúncio levou à elaboração, aprovação e publicação dos estatutos com regras claras para associação de interessados. Eleitos uma diretoria e conselho uma assembleia pode ser convocada para ratificar ou retificar esses estatutos. Quem acha que é mais transparente e democrático convocar primeiro uma assembleia e nela começar a pensar os estatutos pode tentar esse caminho.

5-     Porque foram escolhidos somente cinco “figuras” ou “personalidades” para discutir um estatuto que representará toda uma comunidade?

A pergunta é ofensiva. Os analistas do comportamento que aceitaram a tarefa foram escolhidos por sua experiência e competência e não merecem ser desmerecidos por termos como “figuras” e “personalidades”. Além de ofensiva é equivocada. Que comunidade?  A ABPMC não representa mais que a comunidade de seus associados (behavioristas ou não). A ACBr só vai falar em nome de seus associados (analistas do comportamento). A pergunta se refere a qual comunidade? Uma potencial que incluiria todos os que anunciam inserindo a palavra ”comportamental” em seus anúncios, como se vê em sites na internet do tipo “Fulano, analista do comportamento, especialista em terapia cognitivo-comportamental”?

6-     No início havia um representante das práticas analítico comportamentais aplicadas à educação especial. Esse representante saiu da comissão e não foi reposto outro representante. No estatuto é possível observar que não há mais essa representação. O contexto inicial dessa representação esteve ligado à discussão sobre certificação de analistas do comportamento? Se sim, porque essa representação foi retirada do estatuto aprovado?

Porque a ACBr é associação de analistas do comportamento, não só dos que trabalham com educação especial. Estava porque foi colocada por alguém que trabalha com autismo e foi retirada porque seria muito extenso colocar todos os outros campos de atividade do analista do comportamento.

7-     Há alguma “rixa” entre os proponentes da ACBr e a diretoria da ABPMC? O que houve nos bastidores para que os senhores propusessem a ACBr?

Não há rixa. Somos todos associados da ABPMC e da SBP. Alguns são Conselheiros. das duas associações. Falamos a mesma língua nos bastidores e no palco. Divergências não têm que levar a inimizades.

8-     Na opinião dos senhores a principal oposição da ABPMC em relação à ACBr seria em relação à certificação de analistas do comportamento?

Não. Essa questão foi colocada pela ABPMC na reunião de Salvador. Não há como saber de que maneira a assembleia da ACBr  eventualmente vai se manifestar sobre isso. É uma questão muito mais delicada que envolve uma disposição latinoamericana de evitar um controle americano do credenciamento no mundo.

9-   Alguns acreditam que uma Associação restritiva iria enfraquecer a representatividade da Análise do Comportamento no cenário nacional. O que os senhores pensam sobre essa crítica? Isso não poderia gerar uma versão brasileira da Análise do Comportamento?

Não. Só vai aumentar a representatividade e a força política. Quantas associações se originaram na ABPMC e se tornaram independentes sem prejudicar seu futuro?  Só de Campinas foram duas. A Associação Brasileira de Terapia Cognitiva é outra. A ACBr vem fortalecer a análise do comportamento e, por tabela, a ABPMC enquanto ela for também de analistas do comportamento.
Uma análise do comportamento versão brasileira é aquela desenvolvida por quem só publica em português, só lê textos em português de quem não acompanha o que acontece no mundo. Não é o caso da ABPMC nem será o caso da ACBr.

11-   No passado houve uma associação de análise do comportamento brasileira, mas a ideia ruiu. Porque os senhores acreditam que nesse momento, a nova associação irá ser replicada?

A ACBr não se responsabiliza pelo que aconteceu há mais de vinte anos. Por que a ABPMC matou a ABAC? Perguntem a quem estava lá.

12-   É de conhecimento geral que há dificuldades no estabelecimento de grupo diretor, as grandes personalidades da análise do comportamento normalmente não se comprometem com o volume de trabalho em tocar uma associação, ABPMC sofre desse mal. Isso também não ocorrerá com a ACBr?

Vejam a diferença na estrutura diretiva determinada pelos estatutos. A ABPMC nasceu como uma reunião anual, informal, de modificadores do comportamento. Sem sede, sem contador, sem livro caixa, sem CNPJ. Os auxílios à FAPESP eram pedidos por pessoa física, um pesquisador que depois prestava conta. O processo de formalização da ABPMC é recente e comprova como práticas culturais estabelecidas são resistentes à mudança.

13-   Houve grande comoção nas redes sociais em relação à proposta, muitos apareceram para se posicionar como se estivessem em defesa da ABPMC. O que os senhores acham que motivaram essas pessoas, porque tanta comoção diante de uma proposta como a da ACBr?

Porque importantes personalidades históricas da ABPMC se sentiram ameaçadas e levaram sua inquietação para a internet. Só o tempo vai acalmar os respondentes eliciados pelo lançamento da ACBr. Foi o que aconteceu na SBP quando a Associação de Modificação do Comportamento (Precursora da ABAC e da ABPMC) foi criada há décadas.

14-   Constantemente é discutido nas redes sociais que a ACBr ou seus proponentes deveriam discutir a nova associação no evento da ABPMC, mas os senhores declinaram dos constantes convites. Porque não discutir a ACBr durante o evento da ABPMC?

Porque não se trata de criar divisão ou departamento da ABPMC. Discute-se a criação de nova associação com quem quer associar-se. Como queremos continuar trabalhando em conjunto, anunciamos a criação da ACBr em correspondência formal aos Presidentes da SBP e da ABPMC.

      

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O QUE É TEORIA E O QUE NÃO É EM ANÁLISE DO COMPORTAMENTO.

A linguagem teórica da analise do comportamento é o cimento que une todos os tipos de atividades compreendidas sob essa rubrica, marca, ou o que seja. A análise do comportamento tem alguns pontos muito distintos de outros que prosperam na psicologia, como pesquisas de laboratório animal com análise experimental do comportamento de indivíduos (n = 1) – mas não é apenas análise experimental do comportamento de indivíduos, nem no laboratório, nem no consultório clínico. Sua marca mais distinta é sua linguagem teórica.

Experimentação com n = 1 é a grande contribuição de Skinner para a psicologia experimental dos anos 30 do século passado. Trouxe de seus estágios nos principais laboratórios de biologia de Harvard. Junto com a taxa de respostas por unidade de tempo e os esquemas de reforço intermitente, forma o trio de ouro de Skinner.

Mas nem ele ficou só na análise experimental do comportamento de organismos individuais (n = 1). Principalmente Skinner logo de início em Ciência e Comportamento Humano mostrou como se pode avançar analisando exemplos da vida diária à luz da teoria. E é essa teoria, que começa a ser desenvolvida em O Comportamento dos Organismos (1938) e continua sendo desenvolvida até hoje, e continuará a ser desenvolvida pela futuras gerações, que faz a conexão entre os diferentes campos de atuação da análise do comportamento: pesquisa básica, pesquisa aplicada, atuação profissional, análise funcional, análise conceitual, etc.

Não concordo com classificações da análise do comportamento que parecem existir para justificar erros do passado. Um triângulo com teoria em uma ponta, pesquisa básica no outro, e pesquisa aplicada no terceiro, com comunicação de mão dupla em tudo, é um desses erros que parece existir para justificar decisões tomadas no passado longínquo e que nos atrapalham até hoje. Atrapalham mas parece ser tabu falar disso. Vejo um V invertido, com a teoria acima, no vértice, que se comunica em mão dupla com os dois lados, o da pesquisa e o da atuação profissional. Não há comunicação entre pesquisa e atuação profissional a não ser via vértice, a teoria. Da mesma forma a atuação profissional alimenta a pesquisa via teoria.

Vamos aos erros do meu ponto de vista.

# 1 – Ficar só no periódico Journal of the Experimental Analysis of Behavior de início (1958). Ele era necessário para fugir da ditadura estatística do Journal of Experimental Psychology – o periódico experimental de maior prestígio da época - mas se fosse mais geral seria melhor, pois seria lido por todos e provavelmente teria promovido um desenvolvimento mais harmônico da análise do comportamento. O título e as normas para publicação ajudaram a montar uma barreira para os de fora em lugar de apenas proteger os de dentro.

# 2 – Criar o Journal of Applied Behavior Analysis (1968) como uma extensão do Journal of the Experimental Analysis of Behavior, para não ter que continuar publicando provas de que o reforçador reforça. As normas para publicação continuaram praticamente as mesmas, com adendos sobre importância prática e relevância social. Mas continuamos só com análise experimental do comportamento de indivíduos (n=1).

# 3 – Achar que com isso a análise do comportamento estava logicamente dividida em dois – pesquisa básica e análise aplicada, sempre com n = 1. Essa foi uma divisão de poder entre o JEAB o JABA, os modificadores do comportamento dos anos 60. Donald Baer ditou um conjunto de regras que tornou distintos os trabalhos do JABA. Os dois grupos quase não se misturam até hoje.. Por isso não gosto das classificações da análise do comportamento existentes. Não é por ai.

# 4 – A maior parte dos escritos de Skinner a partir dos anos 60 é muito política. Só um pequeno grupo que se identifica como Behaviorists for Social Responsibility continua esse trabalho, e para publicar foi necessário criar outra revista, atualmente intitulada Behavior and Social Issues. Essas divisões do grupo nos deixam muito frágeis aos ataques que sofremos vindo de esquerda, centro, direita, etc.

# 5 - Ignorar o resto da psicologia ou fazer de conta que análise do comportamento é outra ciência. Ao fazer isso perdemos uma oportunidade única. Ninguém mais tem como campo de ação tudo o que é coberto pelas chamadas ciências do comportamento, incluindo toda a psicologia, pois para nós onde houver comportamento, estaremos lá.