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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Contexto, comportamento e consequência


Para que serve a pesquisa básica em psicologia?
                Serve no mínimo para introduzir os alunos à teoria necessária para o exercício da profissão. Serve também para construir, reformar e reconstruir a teoria. Uma teoria nos dá lentes especiais para olhar para o mundo. O psicólogo Jon Bailey relata uma observação que fez enquanto a escada rolante o levava de um andar ao outro em uma estação ferroviária. Ao pé da escada uma criança puxava o casaco da mãe e a chamava, em voz cada vez mais alta, enquanto a mãe falava ao telefone. Sem pensar, o analista do comportamento já diz para seus botões: lá vai em andamento uma modelagem de birra. Técnicas para modelar respostas novas (isto é, para ensinar) foram desenvolvidas com pombos e depois aperfeiçoadas para aplicação geral, tanto na educação quanto na clínica, mas as relações condicionais responsáveis pelo processo existem no ambiente natural desde o início dos tempos.
                Já escrevi que para entender um comportamento é preciso considerar o ambiente físico em que ocorre (o local), o ambiente social (as pessoas em volta), o que está correndo internamente no organismo e a história daquela interação comportamento-ambiente. Um experimento com pombos mudou completamente a teoria como vinha sendo desenvolvida por Skinner ao mostrar que a relação comportamento- consequência é sempre modulada pelo contexto. Sem informações sobre o contexto (que inclui os ambientes interno e externo) não é possível nem prever nem controlar.
                Sobre o efeito da história redescobri recentemente um experimento simples, feito em 1977 no México, no laboratório de Coyoacan da UNAM, e publicado em 1982. O experimento mostra que o que é considerado estado estável de um comportamento depende da história do organismo naquela situação. O experimento mostra que é possível aumentar o tempo dedicado a uma tarefa evitando reforços para aquela tarefa nos primeiros segundos depois de uma pausa.
                Posso pensar em aplicações práticas dessa observação, mas gostaria de receber sugestões de meus leitores, seja pelo blog, seja por mensagem no Facebook. Comentarei cada sugestão.

https://www.academia.edu/37289797/Delay_of_reinforcement_for_responses_which_end_pauses_effects_on_response_rates.pdf



quinta-feira, 3 de maio de 2018

A lei como instrumento do poder, não da justiça.



            No ideal democrático a sociedade é “gerenciada” por três poderes que se equivalem: legislativo, executivo e judiciário. O legislativo aprova as leis, regras que especificam relações condicionais entre comportamentos e consequências visando estabelecer interações satisfatórias entre os cidadãos e em seu benefício. O executivo é encarregado de manter todos informados sobre essas regras e a garantir que as consequências programadas ocorram de acordo com a lei. O judiciário deve manter um olho no peixe, outro no gato: garantir que legislativo e executivo também se comportem dentro da lei. Um sistema de “checks and balances” existe para evitar que qualquer poder invada as competências dos outros dois. O judiciário pode anular decisões do executivo e do legislativo, o executivo pode vetar leis aprovadas pelo legislativo, e o legislativo pode aprovar o impeachment do executivo e do judiciário.

            Na democracia a lei deve servir à justiça, um conceito que se refere a um estado ideal de interação social em que há um equilíbrio razoável e imparcial entre deveres e oportunidades das pessoas. Que essa democracia ideal é um horizonte a ser buscado se comprova com a atual onda mundial de propostas de governo autoritárias que não acionam o sistema de pesos e contrapesos, como o presidente da república (em alguns países) que faz obstrução da justiça e nada acontece. O jornalista   do New York Times de ontem chama isso de a lei a serviço do poder (característica das ditaduras), não da justiça.
            O desequilíbrio entre os poderes pode ser visto em outros sistemas moleculares de interação, como a família ou a escola. Agências de controle podem mostrar abusos de poder por desvios no exercício de seu poder. No caso das famílias, a própria existência de um Estatuto da Criança e do Adolescente que regulamenta os deveres dos pais é comprovação da necessidade, em todos os níveis, de sistemas de pesos e contrapesos, de “checks and balances”, para garantir o desenvolvimento saudável e a adequada formação de cidadãos.




domingo, 18 de fevereiro de 2018

Seleção cultural e seleção de culturas.



                Em uma visão skinneriana do behaviorismo qualquer comportamento humano resulta sempre de três níveis de seleção por consequências: a pessoa existe como resultado de seleção de genes na história de espécie humana (seleção filogenética), é socializada para a vida em grupo segundo um conjunto de regras selecionadas na história da cultura do grupo (seleção cultural), e adquire seu repertório por meio das interações com seu meio ambiente ao longo da vida (seleção ontogenética). Logo, o que é selecionado no nível cultural não é um determinado comportamento: a história daquele grupo selecionou as regras (contingências ou relações condicionais) a serem usadas pelas agências de controle para a modelagem e manutenção de comportamentos.

                Dizemos que certos comportamentos são práticas culturais quando são frequentes e comuns a várias pessoas e/ou perduram por gerações. São práticas culturais, mas pertencem ao segundo nível de seleção, ontogenética ou comportamental. São comportamentos específicos que dependem das consequências contingentes à sua específica emissão. A regra para reforçar ou não é geral, cultural, mas a consequência é particular, depende do comportamento da referida pessoa.


Seleção cultural ou seleção de culturas?

                Seleção cultural envolve comportamento de pessoas; seleção de culturas é a seleção das regras (contingências ou relações condicionais) que orientam a ação das agências de controle. Não deveriam ser usados como sinônimo.

Seleção cultural se refere à seleção de comportamentos de acordo com regras vigentes no grupo. Em nossa cultura a criança pode ser elogiada por lavar as mãos antes de sentar-se à mesa ou pode ser proibida de comer enquanto não for lavar as mãos, por exemplo. Há mil anos não só não havia o hábito de lavar as mãos antes das refeições; comia-se levando os alimentos à boca com as mãos.

Mudanças no ambiente costumam ser responsáveis por alterações nas regras que caracterizam uma cultura. Comer com talheres foi um hábito que chegou à Europa por Veneza, vindo da Grécia, mas levou séculos para ser adotado em todos os países. Lavar as mãos levou mais tempo para ser adotado, só muito depois da comprovação científica da transmissão de doenças por contato físico. Atualmente o hábito pode estar se perdendo. Em grandes cidades cada vez mais pessoas comem nas ruas, nos food trucks, ou em praças de alimentação do shopping, sem pia para lavar as mãos a menos de cinquenta metros. Já imaginaram todas as crianças em filas no único banheiro do andar naquele shopping, esperando para lavar as mãos?

                Mudanças na cultura, portanto, podem ser causadas por mudanças em práticas culturais de pessoas. O jogo Tragédia dos Comuns1 ilustra as possibilidades de mudanças nas regras seguidas pela agência de controle causadas pelo comportamento das pessoas que competem por um bem comum. Considere um pasto comunitário, usado por agricultores que aí colocam suas reses para pastar. Quantas cabeças colocar, tanto seu lucro. Se cada agricultor aumentar seu rebanho indefinidamente, o pasto acabará, não haverá condição de renovação permanente que a pecuária exige. Não há “mão invisível do mercado” que resolva isso. É do interesse de todos que alguma agência de controle, aceita por todos, regulamente o uso do pasto comum. Elinor Ostrom2 tem um excelente trabalho com dados sobre a evolução das agências de controle.


Elinor Ostrom, Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action, 32 Nat. Resources J. 415 (1992). Available at: http://digitalrepository.unm.edu/nrj/vol32/iss2/6.





segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O governo como agência de controle (no sentido skinneriano).


                O conjunto de relações condicionais que regulam as interações comportamentais em uma sociedade caracteriza sua cultura. Essas relações condicionais podem abarcar a sociedade como um todo ou partes da sociedade, e são elas mesmas reguladas por agências de controle, especializadas por tipo de interação ou por vários outros critérios de desempenho:

1.       A família é a agência encarregada dos relacionamentos pais/filhos, e atua primariamente na construção de repertórios dos jovens que garantam sua inserção na sociedade quando adultos.

2.       A escola continua o trabalho de socialização iniciada pela família e deve preparar os jovens para o trabalho e para o convívio harmonioso na sociedade.

3.       Os grupos de amigos também funcionam como agências de controle, comunidades verbais selecionadoras de práticas culturais.

4.       A religião contribui para a estabilidade das relações comportamentais principalmente pelo uso do comportamento verbal, palavras que adquirem o poder de reforçar ou punir comportamentos pelo emparelhamento com promessas baseadas em fé.

5.       Os processos psicoterápicos são necessários, e funcionam como agências de controle, sempre que os controles exercidos por outras agências são excessivos ou inconsistentes (Skinner, 1953, cap. XXIV).

6.       Governos são as maiores agências de controle em todas as sociedades, com o papel de regular a ação de todas as outras agências, da maneira como os pais tratam os filhos,  o que deve ser ensinado nas escolas, e até onde pode ir o controle exercido pelas igrejas e como deve atuar o profissional psicoterapeuta.



A origem do poder de reforçar e punir.



Práticas culturais são mantidas por contingências sociais que prevalecem em um determinado grupo, sociedade ou organização. Adquirimos comportamentos que serão mantidos por contingências sociais por meio de interações que envolvem agências controladoras, como a família, por exemplo. É um processo tão longo e tão suave que o controle por consequências não é facilmente percebido.

•       Você não escolheu nascer, mas mesmo assim é premiado pela escolha: a espécie humana te dá um repertório inicial. Sugar o seio materno é o primeiro exemplo de comportamento reflexo que se transforma em operante. É também um primeiro exemplo de interação mantida por benefício mútuo. Se o bebê não suga, a mãe sofre com o acúmulo de leite na mama; se a mãe não tem leite o bebê sofre com a fome.  Nenhuma interação social permanece sem coerção se não for mutuamente satisfatória.

•       Qualquer forma de coerção é ruim. Os subprodutos desse tipo de controle são indesejáveis para o convívio sadio entre pessoas. Coerção sempre gera propensão para fuga do assunto, da pessoa, do lugar, etc., e esquiva de oportunidades futuras de situações coercitivas.

•       Crianças são educadas de acordo com os padrões de uma cultura. Adquirem repertórios mantidos por contingências sociais por meio de interações com a mãe, cuidadores, família, e agências controladoras como a escola e a igreja.  É um processo longo que normalmente respeita o desenvolvimento biológico da criança. O controle pode ser tão sutil a ponto de não ser facilmente percebido. O estresse associado a cada nova aprendizagem modelada por contingências sociais se dilui ao longo de anos ou décadas. O caráter aversivo do controle por consequências se torna parte da vida.

•       Um exemplo extremo da sutileza do controle social de hábitos e costumes é relatado por Elias (1939/1994), a propósito do casamento de um doge de Veneza com uma princesa grega. A princesa usava um pequeno garfo de ouro com dois dentes para comer, para escândalo dos venezianos, que comiam com as mãos. Foi severamente repreendida pelas autoridades, que invocaram a ira divina.



“O grupo exerce um controle ético sobre cada um de seus membros através, principalmente, de seu poder de reforçar ou punir.” ... “Talvez o mais óbvio tipo de agência empenhada no controle do comportamento humano seja o governo. Os estudos tradicionais de ciência política lidam com a história e as propriedades dos governos, com vários tipos de estrutura governamental, e com as teorias e princípios que têm sido oferecidos para justificar as práticas governamentais. ... Temos que examinar o comportamento resultante no governado e o efeito desse comportamento que explica porque a agência continua a controlar.”  (Skinner, 1953/2003, Cap. XXII).





BIBLIOGRAFIA

Elias, N. (1939/1994). O processo civilizador. Volume1, A história dos costumes. Tradução de R. Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e comportamento humano. Tradução de J. C. Todorov e R. Azzi. São Paulo: Martins Fontes. 







quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Agências de controle como estruturas de poder.

  
                Em “Ciência e Comportamento Humano” Skinner definiu agências de controle como grupos dentro de um grupo maior que controlam a programação e a efetivação de consequências para certos comportamentos. Qualquer que seja o grupo, qualquer que seja seu tamanho, esse grupo exerce o controle sobre seus membros principalmente por meio de seu poder de reforçar e de punir, de acordo com regras, relações condicionais entre comportamentos e consequências, que definem o grupo.
                Dito isso, vejamos um bom exercício para os interessados em análise do comportamento.
1.       Quais as relações entre os conceitos de “agência de controle” de Skinner  e de “estruturas de poder erigidas para reprimir e domesticar” de Foucault?.

2.       Compare as frases:
 “as regras da cultura são descobertas pela observação de relações condicionais entre antecedentes, comportamento e consequências”
 e
“A ordem é ao mesmo tempo aquilo que se oferece nas coisas como sua lei interior, a rede secreta segundo a qual elas se olham de algum modo umas às outras e aquilo que só existe através do crivo de um olhar, de uma atenção, de uma linguagem; e é somente nas casas brancas desse quadriculado que ela se manifesta em profundidade como já presente, esperando em silêncio o momento de ser enunciada. ”

FOUCAULT, M., As palavras e as coisas. Trad. S. T. Muchail, São Paulo: Martins Fontes, 2002. P. XVI


“Naqueles dias, estava terminando de ler um dos amenos e sofísticos ensaios de Michel Foucault em que, com seu brilhantismo habitual, o filósofo francês afirmava que, assim como a sexualidade, a psiquiatria, a religião, a justiça e a linguagem, o ensino sempre fora, no mundo ocidental, uma das “estruturas de poder” erigidas para reprimir e domesticar o corpo social, instalando sutis mas eficazes formas de sujeição e alienação, a fim de garantir a perpetuação dos privilégios e o controle do poder dos grupos sociais dominantes.”





quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Agências de controle como estruturas de poder.

Um bom exercício para os alunos de análise do comportamento: as relações entre os conceitos de “agência de controle” e de “estruturas de poder erigidas para reprimir e domesticar”.

E entre as frases

 “as regras da cultura são descobertas pela observação de relações condicionais entre antecedentes, comportamento e consequências”
 e
“A ordem é ao mesmo tempo aquilo que se oferece nas coisas como sua lei interior, a rede secreta segundo a qual elas se olham de algum modo umas às outras e aquilo que só existe através do crivo de um olhar, de uma atenção, de uma linguagem; e é somente nas casas brancas desse quadriculado que ela se manifesta em profundidade como já presente, esperando em silêncio o momento de ser enunciada. ”
FOUCAULT, M., As palavras e as coisas. Trad. S. T. Muchail, São Paulo: Martins Fontes, 2002. P. XVI


“Naqueles dias, estava terminando de ler um dos amenos e sofísticos ensaios de Michel Foucault em que, com seu brilhantismo habitual, o filósofo francês afirmava que, assim como a sexualidade, a psiquiatria, a religião, a justiça e a linguagem, o ensino sempre fora, no mundo ocidental, uma das “estruturas de poder” erigidas para reprimir e domesticar o corpo social, instalando sutis mas eficazes formas de sujeição e alienação, a fim de garantir a perpetuação dos privilégios e o controle do poder dos grupos sociais dominantes.”



O conceito de rede de relações entre os membros do grupo é mais antigo que qualquer abordagem na psicologia ou nas ciências sociais. Um texto de cerca de 1600 é muito conhecido, de John Donne.



http://jctodorov.blogspot.com.br/2017/04/nao-pergunte-por-quem-os-sinos-dobram.html


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O "comportamento" das Agências de Controle também é selecionado pelas consequências desse controle.

O "comportamento" das Agências de Controle também é selecionado pelas consequências desse controle.

              Donald Trump quer deportar para seus países de origem imigrantes ilegais que chegaram aos Estados Unidos quando eram crianças, trazidos por seus pais e educados nos Estado Unidos. Deportar para onde? Para o país de seus pais? Não é seu país, não foram educados lá, sabem de cor o hino nacional americano, juram a bandeira de treze listras. Mas hipocritamente os adeptos da supremacia branca argumentam que a lei é essa, devem ser deportados porque são imigrantes ilegais. O jornalista David Leonhardt, no New York Times, mostra a falácia desse argumento. Seria simplesmente impossível para o Estado fazer cumprir sempre todas as leis. Há uma relação custo-benefício a ser considerada. No caso dos jovens americanos de origem latino-americana o custo do sofrimento humano seria enorme, incomensurável.

Na visão da Análise do Comportamento as interações na sociedade são reguladas por vários tipos de Agência de Controle, cada uma encarregada de certos tipos de relações condicionais. As interações melhor acompanhadas são aquelas nas quais as transgressões são apontadas de imediato pelos próprios envolvidos, como é o caso das refeições em família – comer de boca aberta é punido no ato pelos demais participantes da mesa. Quando o controle depende de agências formais, como o Poder Judiciário, entra em cena a relação custo-benefício. Segundo pesquisas da Economia a corrupção na sociedade envolve um custo tal para o Estado que não há como se prever sua erradicação; a corrupção pode ser controlada, mas nunca será extinta.

              O que fazer quando o controle direto pela Agência, como a religião, por exemplo, nem sempre, ou quase nunca, é possível? Internar o controle via regras. Não funciona muito bem, mas dá ao Agente a noção de que está fazendo o que deve ser feito. Só quem foi aluno de escola maternal da igreja sabe o que é ter medo do indizível, do perigo dos “maus pensamentos”. A crença no poder regulador dessas regras e valores não existe apenas na educação e na religião (e por consequência na família). Li também no jornal de hoje, o Correio Braziliense, que o Exército Brasileiro está preocupado com os militares temporários, que servem um máximo de oito anos e depois têm dificuldade de serem aproveitados em empregos do mercado. Muitos são tentados pelas gangues criminosas que assolam o país, cobiçados exatamente pelas habilidades que o Exército ensinou.  Eis o que o jornal publicou sobre o que o exército faz para prevenir a adesão às gangues:

              “Valores. De acordo com o Exército Brasileiro, durante o ano de serviço militar obrigatório, e nas escolas militares, são ensinados valores para afastar os integrantes da força do mundo do crime. Com foco em sua formação, são desenvolvidas atividades que incentivam o patriotismo, civismo, amor à pátria, solidariedade, entusiasmo, determinação e confiança. Para a vida civil, após deixar o Exército Brasileiro, são destacadas ações que valorizam a honestidade, apego à verdade, disciplina, respeito aos superiores e às autoridades, dedicação, probidade, lealdade e cumprimento às leis. ”

              Regras, auto regras e valores transmitidos via comportamento verbal, são eficazes enquanto não contrastam com contingencias do ambiente no presente. Seria mais eficaz se o exército primeiro treinasse o soldado para exercer funções com demanda no mercado e só o desligasse depois de passar por fase de experiência no emprego civil. 


              Voltando à “desamericanização” dos latinos, grande objetivo dos supremacistas da raça branca: o absurdo é tão grande que os netos e bisnetos de imigrantes legais e ilegais provavelmente não vão permitir que aconteça.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Definição de ambiente acolhedor a partir das exigências das contingências e metacontingências em vigor na comunidade


Ambiente acolhedor foi uma expressão usada por Anthony Biglan em seu livro “The nurture effect – how the science of human behavior can improve our lives & our world” (Biglan, 2015). As pessoas tornam-se membros bem adequados à Sociedade quando vivem em ambientes que favorecem o desenvolvimento de comportamentos sociais positivos. Um ambiente acolhedor é o ambiente preparado para reforçar comportamentos de interesse da pessoa e do grupo. Um ambiente no qual as interações ocorrem com um mínimo de controle aversivo.

Em situações nas quais são necessárias mudanças em larga escala de práticas culturais, como naquelas que caracterizam os programas de transferência condicionada de renda, como o Programa Bolsa Família, há que se cuidar do ambiente em que vivem e viverão as pessoas que recebem os benefícios condicionais. Pois a verba do povo utilizada no programa não resultará nos objetivos propostos se depois de anos recebendo atenção à saúde e frequentando a escola com sucesso hão houver emprego adequado quando completa 18 anos e o Ensino Médio. Nem a família como um todo deixará o programa se o ambiente que promoveu a miséria não melhorar. Criar repertório sem abrir postos de trabalho é um dos maiores crimes da burocracia no serviço público.

Esses programas, e são vários, não deveriam ser considerados programas de governo – proibido ser associado ao selo do governo Zeca Promessa – mas programas de estado, permanentes, sob constante monitoramento de Agências de Controle específicas, não governamentais.

Governos anteriores deixaram planos de incentivo ao desenvolvimento de cerca de 20 microrregiões econômicas no país. Vale a pena descobrir onde estão e o que podemos dizer sobre eles.

Biglan, A. (2015). The nurture effect – how the science of human behavior can improve our lives & our world. Oakland, CA: New Harbinger Publications, Inc.





quarta-feira, 26 de abril de 2017

Erro tipo I, Erro tipo II, o aquecimento global e o fim do mundo.


              Dia sim, dia não, algum jornal, ou revista, ou programa de rádio ou TV, dá notícias de excesso de chuvas em algum lugar, falta prolongada em outros, geleiras derretendo mais do que deveriam, temperatura média da Terra aumentando. Os céticos argumentam que ciclos de aumento e diminuição da temperatura foram frequentes nos milhões de anos do passado conhecido de nosso planeta. Não haveria nada a fazer que pudesse impedir o atual aquecimento – argumento ideal para as empresas que mais poluem e os governos bancados por elas. Pode até ser verdade – mesmo com toda a energia necessária sendo gerada por fontes não poluentes, solares ou eólicas, o aquecimento global continuaria aumentando por causas que fogem ao nosso controle. Pode ser. E se não for?  Ficamos em situação delicada, a decisão deve levar em conta dois tipos de erros.

Erro Tipo 1
              Decidimos que o aquecimento global é culpa da poluição produzida por nós.

Se estivermos certos as providencias que tomarmos podem aliviar a situação controlando os níveis de poluição.

Se estivermos errados, o aquecimento continuará, mesmo sem mais poluição. Mas os recursos terão sido bem aplicados, pois haverá menos poluição.

Erro Tipo 2
              Decidimos que o aquecimento global não tem nada a ver com nosso comportamento.

Se estivermos certos predadores do ambiente terão menos oposição, poluindo cada vez mais, tornando insuportável a vida nas grandes cidades.

Se estivermos errados os predadores continuarão apressando o aquecimento global e tornando a Terra um planeta cada vez menos habitável.


              Quando escrevi sobre isso em 2010 a comunidade científica mundial ainda não tinha fechado questão. Informações sobre ciclos de aquecimento-esfriamento da Terra ao longo de muitos séculos, mais informações sobre a reciclagem de carbono nos oceanos, por exemplo, eram usadas pelos que não acreditavam na importância das ações humanas para o aquecimento. Em cinco anos já não se vê controvérsia nos meios científicos, seja pelo acúmulo de informações sobre o efeito deletério do uso de combustíveis fósseis, ou das notícias sobre excesso ou falta de chuva em regiões aonde isso não é comum, seja pelo reconhecimento do risco menor do Erro Tipo 1 em situações de incerteza.



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Todorov, J. C. (2010). On global warming and local indifference: Behavioral analysis of what persons can do about their own near environment. Behavior and Social Issues, 19, 119-123.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Esquemas de seleção cultural: contingências e metacontingências.




Contingências

                Contingência é uma relação condicional entre dois eventos. No caso da contingência comportamental, se um comportamento ocorrer, então uma consequência ocorrerá em tais e quais circunstâncias. Uma consequência pode ocorrer sempre que o comportamento ocorre, ou depois de repetidas ocorrências do comportamento, ou dependendo do tempo decorrido desde a última ocorrência dessa consequência, ou dependendo de inúmeras combinações de tempo e número de respostas, e de relações fixas ou variáveis. Resumindo: o conceito de contingência comportamental abarca infindáveis exemplos de interações comportamento-ambiente, inúmeras das quais estão documentadas em livros e artigos científicos, como, por exemplo, na Revista Brasileira de Análise do Comportamento.

                Variações nos tipos de contingências comportamentais não envolvem apenas variações na apresentação de consequências. Mantidas as condições antecedentes e a consequências, a contingência pode exigir variabilidade no comportamento, como no reforçamento diferencial de outro comportamento (dro).

Metacontingência

                Metacontigência é uma relação condicional entre a colaboração de pelo menos duas pessoas (contingências comportamentais entrelaçadas) que resulta em determinado produto e alguma consequência programada por um ambiente cultural selecionador. Metacontingências podem ser classificadas de acordo com o tipo de relação de consequência (cerimoniais ou tecnológicas) e da especificação do produto agregado (conservadoras ou transformadoras), e de combinações de relação de consequência e especificação do produto (por exemplo, cerimonial conservadora, tecnológica transformadora, etc.).

Metacontingência cerimonial conservadora

                A consequência interessa mais ao ambiente cultural selecionador (agência de controle) do que às pessoas envolvidas na colaboração que resulta em um produto agregado, e este é fixado, como a saudação às autoridades por soldados desfilando.

Metacontingência cerimonial transformadora

                Diferentemente do exemplo anterior, o produto agregado não pode ser repetido. A relação condicional exige novidade no resultado da colaboração.

Metacontingência tecnológica conservadora

                A consequência cultural interessa diretamente às pessoas envolvidas na colaboração e o produto agregado não varia. Exemplo: pescadores em um barco de pesca. O produto agregado não varia, é a quantidade de peixes para vender.

Metacontingência tecnológica transformadora

                Exemplo: colaboração em agências de publicidade. A consequência cultural interessa diretamente às pessoas envolvidas na colaboração e o produto agregado não pode ser repetido. Neste caso, originalidade é o segredo do sucesso.






sexta-feira, 24 de junho de 2016

Sem agências de controle eficazes as leis não pegam.

                Dirigindo meu Ford Falcon 1958 para ir ao cinema com a Silvia em Phoenix, Arizona, virei á esquerda em uma avenida de seis pistas mesmo estando na pista do meio e sem ligar a seta. Não deu outra. Antes de meio quarteirão havia um carro de polícia com as luzes piscando. O policial foi muito gentil e não me multou, depois de ver os passaportes e o documento de estudante da Arizona State University.  Era 1966 e naquela época havia carros de polícia por todo lado, especialmente em cruzamentos movimentados. Como consequência, todos respeitavam ao pé da letra as regras do trânsito. Uma placa vermelha de PARE controlava muito bem o comportamento de parada total do veículo, mesmo sem outros carros nas ruas.

                Lembrei-me desse episódio hoje cedo, dirigindo para ir ao barbeiro. Em uma rua movimentada um caminhão nem diminuiu a velocidade na esquina, como eu faria no Brasil. Aqui é claro que parei e coloquei a primeira marcha antes de continuar, pensando na falta que faz a presença ostensiva do Estado na fiscalização das leis. Em um mês dirigindo por Setauket, Port Jefferson e Stonybrook só vi carros de polícia uma vez, em estacionamento de supermercado onde havia sido deixado um pacote suspeito. Os  americanos não eram cidadãos mais responsáveis do que nós, apenas desenvolveram ao longo de sua história agências de controle eficazes na manutenção das contingências que mantêm práticas culturais.

                Alguns diriam que nos falta autocontrole ético. Todos deveriam obedecer as leis porque isso é bom para a comunidade. Mas o chamado “autocontrole ético” é comportamento, dependente das consequências como todo comportamento. São as agências de controle, descritas por Skinner em “Ciência e Comportamento Humano”, as encarregadas de punir comportamentos considerados indesejáveis pela cultura. Para ver como essa história de punições e ameaças modela nosso “autocontrole ético” ver, além de Skinner, o “Coerção” de Murray Sidman. E pense nisso na próxima vez que você avançar um sinal vermelho de noite e sentir um frio na barriga.



quarta-feira, 11 de maio de 2016

Controle ou influência? Não adianta pintar a galinha de preto que ela não vira urubu – 2.



                Não adianta Hayes, Biglan e outros companheiros chamarem controle de influência; a contingência em vigor continua funcionando do mesmo jeito. Já o chamado reforço não contingente pode reforçar qualquer coisa, menos, ou até mesmo eventualmente  o comportamento que deveria controlar/influenciar,/regular (aceitamos sugestões de verbos ainda mais politicamente corretos).

                Por definição, se diz que uma possível  consequência é não contingente quando sua ocorrência independe do comportamento que estamos examinando. Diz-se que há contingência quando esse comportamento e essa consequência estão associados por uma relação condicional do tipo “se em tais e quais situações esse comportamento ocorrer, então, dependendo de certas exigências, essa consequência ocorrerá”. Quando há contingência há controle/influência/regulação; quando não há contingência, nada está garantido.

                Um exemplo atualíssimo para quem não entende o behaviorês: o caso do “Minha Casa, Minha Vida”. Esse programa do governo na verdade são dois; um deles é o MCMV “Entidades”.  No MCMV original, o dinheiro é repassado para empresas de construção dependendo do andamento do que é contratado – há contingência. No MCMV “Entidades” o dinheiro é repassado periodicamente sem contingência, independentemente do andamento do que foi contratado. Moral da história: no atual governo as “entidades” representativas dos movimentos sociais atrelados aos partidos só entregaram cerca de 9 por cento do que foi contratado, em contraste com 87% das empresas. Serão as empresas mais honestas que os movimentos sociais? Ou será que consequências contingentes controlam mais que repasses não contingentes?


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O complexo de vira-latas como ele é.

 Frases de Nelson Rodrigues em crônica no jornal O Globo, nos anos 50, antes da seleção embarcar para jogar na Suécia:

“Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol.”

“Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.”

“O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender.”

Reescrevendo Nelson Rodrigues:

O problema do Brasil não é de trabalho, nem de técnica, nem de competência. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.

“Complexo de vira-latas” explica muita coisa. Devemos essa descoberta ao Nelson Rodrigues, de “A vida como ela é”, entre outras obras. O complexo de vira-latas teria ido para o espaço com a conquista da Copa do Mundo de 1958, com os 50 anos em cinco, do Presidente Juscelino, a industrialização do país, e por aí vai. Mas o cronista Nelson Rodrigues teria muito assunto  nos dias de hoje (especialmente depois dos 7 a 1 da Alemanha). Sempre que ponho no meu blog ou no Facebook algum exemplo de modificação em larga escala de práticas culturais alguém escreve que no Brasil não daria certo. 
Preservar o meio ambiente? “Não vai dar certo no Brasil”. 
Controlar a venda e o porte de armas? “Não vai dar certo no Brasil”. 
Diminuir a desigualdade econômica? “Não vai dar certo no Brasil”. 
Diminuir gastos com saúde aumentando impostos sobre bebidas e cigarros? “Não vai dar certo no Brasil”. 
Programas governamentais visando mudanças rápidas em práticas culturais para combater o mosquito da dengue? “Não vai dar certo no Brasil”. 
Planejar pensando no longo prazo e construir rodoaneis e anéis ferroviários nas metrópoles como São Paulo? “Não vai dar certo no Brasil”. 
Garantir que as agências que fiscalizam as barragens façam isso? “Não vai dar certo no Brasil”. 
Garantir que as leis sejam obedecidas pelos governos? “Não vai dar certo no Brasil”.

O futuro sempre depende de nossa confiança. Como alguém vai investir no futuro quando ninguém acha que alguma coisa vai dar certo no Brasil? Sem acreditar nas promessas dos políticos de qualquer coloração, o povo, apático, trata apenas de seu dia-a-dia: credibilidade depende da experiência e nossa história recente é deprimente.
Não dá para acreditar no planejamento do governo, muito do orçamento aprovado é wishful thinking. Não se leva a sério precisão e controle, fator básico nas ciências naturais, mas quase nunca presente nas ciências humanas, mais dedicadas a explicar do que prever. Evitar, garantir e prevenir dependem de prever e controlar.

O povo vai começar a se levar a sério quando começar a ser levado a sério por seus governos.


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terça-feira, 11 de agosto de 2015

Cultura e a análise comportamental de práticas culturais.


Conceitos como o de metacontingência tornam possível tratar de assuntos culturais sem precisar recorrer a um diferente nível de linguagem. Podemos nos referir a questões sociais utilizando termos que se relacionam diretamente a contingências comportamentais. O conceito de metacontingência é um novo instrumento, um novo conceito que pode ampliar nossa compreensão de práticas culturais.
Eram de se esperar objeções à análise comportamental de práticas culturais.  Nós, analistas do comportamento, estamos tão entusiasmados com os avanços práticos no campo que tendemos a minimizar as ações deletérias da oposição. O fato é que nossa visão do homem no mundo vai contra séculos de sua glorificação como medida de todas as coisas; estamos em uma posição pós-renascentista. 
Não há como evitar as objeções à análise do comportamento levantadas por aqueles que acreditam que o homem é diferente, em sua essência, do mundo natural. Na maioria dos casos o outro lado advoga uma abordagem holística à pessoa e a palavra comportamento é vista como anátema. Em vez de entrar em uma discussão sem fim, acredito que devemos mostrar novos dados para aqueles preocupados com ações sociais, dados úteis que a análise comportamental pode produzir.
  Nesse sentido, o que deveríamos fazer é aplicar novos conceitos a problemas práticos e mostrar que eles podem ser úteis aos interessados na análise e na modificação de práticas culturais. Precisamos de mais trabalhos como os de Sigrid Glenn, Maria Malott, Joel Greenspoon, Richard Rakos, Mark Mattaini, para mencionar somente algumas contribuições memoráveis. Estaremos entrando na área da Educação, da Ciência Política, da Sociologia, da Antropologia e da Economia. Sabemos que, no passado, analistas do comportamento já cruzaram fronteiras, como Jack Michael,Teodoro Ayllon, e Luiz Otávio de Seixas Queiroz, trabalhando em hospitais psiquiátricos, e Skinner e Fred Keller buscando mudar a educação a partir de métodos analíticos comportamentais. A suposição, não testada, era a de que se poderia mudar o grupo por meio do controle das contingências para o comportamento individual; talvez possamos tirar proveito de um novo olhar para tentativas semelhantes examinando, especialmente, as que falharam.
  Por não nos preocuparmos muito com estar cruzando fronteiras, certamente provocaremos algumas reações negativas de colegas, psicólogos ou não, mas isso não será novidade para a análise do comportamento.

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Tradução feita por Maria Silvia Ribeiro Todorov de partes de um texto publicado originalmente em inglês.

sábado, 8 de agosto de 2015

Contexto e a multideterminação do comportamento.



Toda psicologia, qualquer que seja a abordagem, estuda interações comportamento-ambiente. São áreas especializadas em interações principalmente envolvendo o meio ambiente externo ou com ênfase exclusiva no meio ambiente interno. Quanto ao ambiente externo, há áreas da Psicologia especializadas no estudo de interações comportamento-ambiente externo físico (Ergonomia, por exemplo), outras voltadas para uma interação comportamento-ambiente externo social (Psicologia Organizacional). Já o ambiente interno é visto como biológico em áreas como a Psicofisiologia ou histórico, nas áreas que se ocupam de processos internos conceituais sem referência imediata a um substrato biológico  (abordagens psicodinâmicas da personalidade, por exemplo).

A decomposição do conceito de ambiente em externo, físico ou social, e interno, biológico ou histórico, é apenas um recurso de análise útil para entender-se a fragmentação da Psicologia em diversos campos e para apontar os diversos fatores que, indissociáveis, participam das interações estudadas pelos psicólogos. Sem a decomposição necessária para a análise, o todo é ininteligível; por outro lado, a ênfase exclusiva nas partes pode levar a um conhecimento não-relacionado ao todo. O jogo constante de ir e vir, de atentar para a inter-relação das partes na composição do todo é essencial para o entendimento das interações comportamento-ambiente.

A designação de uma variável como causa e de outras como contexto vai depender de quais são os interesses envolvidos no estudo, pois quando variáveis de contexto são consideradas, uma relação de causa e efeito é apenas um instrumento para a descoberta de princípios de maior generalidade. Princípios são a descrição mais econômica do conjunto de relações causais e variáveis de contexto que dão origem a eles. Um sistema de relações funcionais bem definidas resultará em uma teoria útil se também vier acompanhada de especificações de onde, no ambiente externo, as variáveis independentes e as variáveis de contexto devem ser encontradas, além de instruções sobre como detectá-las e/ou medi-las. Causas, pois, são os ingredientes primários e empíricos com os quais se constroem explicações (teorias) mais compreensivas.
Portanto, o termo “causa” tem sentido apenas dentro de uma teoria ou modelo.

Não há uma causa real de um dado evento. Há apenas modelos do mundo mais ou menos adequados, e sempre passíveis de modificação, de acordo com critérios como predição, simplicidade e generalidade, entre outros (Staddon, 1973).


O efeito de variáveis de contexto no presente se sobrepujando a disposições inerentes detectadas em outras situações é bem ilustrado pelo experimento famoso do psicólogo Phillip Zimbardo, transformado em filme comercial, “A Experiência”. Em outro experimento Darley & Batson (1973) submeteram seminaristas a um experimento inspirado na parábola do Bom Samaritano, o viajante assaltado e agredido na estrada entre Jerusalém, e Jericó, segundo a Bíblia. Os alunos do Princeton Theological Seminary primeiro foram avaliados quanto ao principal dentre os motivos que os levaram a ser seminaristas – ajudar pessoas necessitadas ou busca de realização pessoal e espiritual. A seguir se pediu que preparassem uma pequena exposição sobre um tema bíblico, a ser apresentado para uma comissão julgadora em outro prédio do campus.

Para alguns o tema foi a relevância da carreira de clérigo para a vocação sacerdotal, para outros o tema foi a parábola do bom samaritano. Antes de ir fazer a apresentação do tema cada aluno teve uma pequena reunião com os experimentadores. Para alguns a reunião foi terminada com o aviso de que já estavam atrasados para a apresentação do tema, e que deviam se apressar. Para outros se disse que a reunião estava terminada, mas eles ainda tinham algum tempo antes de fazer a apresentação no outro prédio. No caminho entre os dois prédios, deserto, havia um ator que colaborou com a pesquisa, fingindo estar passando mal, deitado no chão em um canto.


Quem parou para ver o que havia com o “doente”? Só dez por cento dos que estavam com pressa pararam para ajudar, contra 63% dos que estavam despreocupados. Para atuar como bom samaritano não foi importante nem o principal motivo pelo qual estava no seminário, nem o tema do sermão que tinha preparado.


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Darley, J., & Batson, D. (1973). From Jerusalem to Jericho: A study of situational and dispositional variables in helping behavior. Journal of Personality and Social Psychology, 27, 100‐119.

Skinner, B. F. (1953/2000). Science and human behavior. New York, NY: MacMillan.

Staddon, J. E. R. (1973). On the notion of cause, with applications to behaviorism. Behaviorism, 1, 25-63.

Todorov, J. C. (1989/2007). A psicologia como estudo de interações. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 5, 325-347.

Weatherly, J. N., Miller, K. & Mcdonald, T. W. (1999). Social influence as stimulus control. Behavior and Social Issues, 9, 25‐45.

Williams, B. A., Myerson, J., & Hale, S. (2008). Individual differences, intelligence, and behavior analysis. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 90, 219‐231.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Análise do comportamento e o dogma da preguiça.


                Com esse título o economista Paul Krugman escreveu recentemente coluna em jornal chamando a atenção dos leitores para a existência de certos dogmas por trás do que políticos falam em público. São parte de um conjunto de crenças básicas que não são postas em discussão. Informações, fatos, comprovações, tudo o que contradizer o dogma não é contabilizado. Como na velha piada, se o dado contrariar minha teoria, jogue o dado fora.
                Um desses dogmas é o da preguiça. Os pobres são pobres porque são preguiçosos, e os programas do governo que transferem renda sem contrapartida transformam os desempregados em parasitas que vivem à custa do povo. Essa é uma crença bastante difundida na sociedade, em todas as classes de renda. Por isso políticos do Partido Republicano nos Estados Unidos querem acabar com programas como o de auxilio alimentação e o de auxílio a desempregados. No Brasil o equivalente é a rejeição ao Bolsa Família. Atacam o programa como se fosse feito para dar o dinheiro do povo trabalhador a vagabundos e preguiçosos. Há, porém, uma diferença fundamental nos dois tipos de programa de transferência de renda. Na Análise do Comportamento identificamos como não contingentes os que não exigem contrapartida, e contingentes os que especificam algum comportamento ao qual o auxílio é condicionado, sempre um comportamento socialmente desejável, como aprender um ofício, frequentar a escola, vacinar as crianças, manter-se saudável, etc.
                Os programas de renda não condicionada, como os esquemas de reforço não contingentes, têm a desvantagem de não orientar o cidadão. Recebem o auxílio alimentação os que ganham muito pouco, e nada é feito para que consigam melhor salário. Ou o programa tem uma data limite para terminar ou o trabalhador vai continuar recebendo o benefício anos a fio. Já o auxílio desemprego brasileiro tem um limite, mas é não contingente (não há relação condicional) por x meses apenas. Depois os beneficiários devem comprovar que estão procurando emprego – nesses casos os que criticam o auxílio preveem que o desempregado só vai procurar emprego no último mês da vida mansa. A crença de que esses programas geram dependência e produzem preguiçosos é mantida por um arranjo perverso de relações condicionais: uma crença muito arraigada precisa de pouquíssimas comprovações para se manter ante um mar de contradições. Uma conversa com o motorista de táxi que tem um cunhado que vive do salário desemprego e detesta procurar trabalho passa a ser repetida como argumento para acabar com o programa que sustenta vagabundos.
                Já os programas de renda condicionada têm um objetivo, e devem terminar quando o objetivo é alcançado. O programa pode ser permanente, mas o beneficiado não.

                Não podemos esquecer, entretanto, que qualquer programa, condicionado ou não, exige fiscalização. Sem isso a lei não passa de um conjunto de boas intenções.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Transferência condicionada de renda, contingências e outras relações condicionais.
               
Alguns amigos do Facebook reclamaram de meu apoio a um projeto que estabelece uma contingência no programa Bolsa Família (ex-Bolsa Escola) entre trabalhar e receber o benefício (dinheiro). Acho que está na hora de avisar aos que não gostam do behaviorismo:

1 – O Bolsa Família é um programa de transferência condicionada de renda. Quem não acreditar deve ler o texto da lei.

2 – Transferência condicionada de renda quer dizer: o benefício é contingente ao comportamento prescrito na lei.

3 – Contingência é uma relação condicional: se comportamento, então benefício (consequência).

4 – O Bolsa Família define uma contingência complexa, que varia de acordo com o número e a composição de cada família. Trabalha com um Produto Agregado, que para uma determinada família pode ser a conjunção, durante o mês, de criança na escola, bebê sendo vacinado, grávida comparecendo para consulta no posto de saúde. O total dos benefícios para a família é entregue à mãe (dona de casa) mensalmente, sempre que o Produto Agregado for atendido em seu total, e é suspenso de acordo com um processo que tenta ser mais educativo que punitivo.

5 – Skinner não inventou a contingência, só deu nome a ela e mostrou como podemos ser mais eficientes e eficazes, com menos coerção, quando a sociedade decide que alguma prática cultural tem que ser mudada.

6 – Transferências condicionadas de renda são usadas hoje em muitas e diferentes situações, desde programas de recuperação de dependentes de drogas à prevenção do comportamento criminoso em adolescentes.




Análise custo-benefício de práticas culturais

Práticas culturais não mudam facilmente, por várias razões. Quando os comportamentos que caracterizam a prática são mantidos por coerção, uma análise custo-benefício de uma rebelião pode resultar em manutenção das práticas a longo prazo. No 4 de julho deste ano o jornal NY Times publicou em página inteira uma foto da Declaração de Independência dos Estados Unidos, que é encabeçada pelo título “ The unanimous Declaration of Independence of the united States of America” (atentar para o United em letra minúscula). Uma das razões para separar-se da Inglaterra mostra que as relações condicionais da análise do Comportamento já eram de certa forma implicitamente conhecidas da assembleia de representantes das treze Colônias: argumentam que quando o sofrimento não é intenso as pessoas se acomodam e aceitam a coerção, só se rebelam quando quem maneja as contingências exagera. A maior parte da Declaração é uma listagem dos exageros da Coroa Britânica, aqui vista como Agência de Controle no sentido skinneriano do termo.

Outro exemplo vem também de matéria no NY times de 5 de julho. No mundo inteiro todos reclamam do frio intenso dos ambientes com ar condicionado durante o verão. A reclamação é unânime, mas ninguém faz nada. Ou não fazia, até que alguém resolveu fazer pesquisa em uma empresa e descobriu que diminuindo o frio do sistema diminui-se também o número de empregados que adoecem, ao mesmo tempo em que a empresa economiza na conta de luz. Neste caso, quem reage ao exagero é a Agência de Controle (a empresa), os empregados estão tão acostumados ao controle aversivo que não ousam reclamar.






segunda-feira, 2 de março de 2015

O sectarismo mata a lucidez.



Cristóvam Buarque no Correio Braziliense de hoje (24 de fevereiro de 2015, p. 13):
            
“O esgotamento do crescimento da economia, os catastróficos déficits fiscal e cambial das contas públicas, a gigantesca corrupção explícita na Petrobrás, com suspeita de que exista também em outros órgãos, a ineficiência generalizada de gestão, a escassez de energia e água com risco de racionamento, a inflação corroendo especialmente o poder de compra dos salários e da bolsa-família, a falta de qualidade no ensi no superior, a persistência dos baixos indicadores na educação básica, o descumprimento das promessas de campanha, a violência urbana generalizada e o retrocesso da presença no exterior foram criando clima oposto ao Brasil emergente, como se o país estivesse reimergindo ao estado de subdesenvolvimento.”

            Diante dessa realidade os apoiadores do governo reagem como marqueteiros. Intelectuais reagem à destruição da Petrobrás. Esse é um título de matéria que pode ser encontrada no site cartamaior.com.br. Imagina-se logo que as pessoas que assinam apoiando o conteúdo estejam interessadas em acabar com a roubalheira na empresa. Longe disso. Certamente os que assinam são contra a corrupção, mas o texto todo é voltado para acusar os “verdadeiros” responsáveis por tudo de errado que aí está: os imperialistas ianques.

            O conteúdo é típico da propaganda do governo, dizem que orientada pelo marqueteiro João Santana. A argumentação tem certo fundamento. Na forte concorrência mundial pelo mercado dos derivados de petróleo, todas as concorrentes gostariam de ver o desaparecimento da Petrobrás: empresas americanas, francesas, italianas, holandesas, etc. Mas daí a fazerem campanha para destruir a Petrobrás como forma de desestabilizar o governo da coalizão petista vai uma distância estratosférica. Acreditar nisso só delirando.

            Menciona-se o clima político de 1964. Falar agora do golpe militar só pode ser entendido como um reforço à tese petista que afirma estar em andamento uma proposta de impeachment da Presidente Dilma. Mais parece defesa prévia. O partido ainda não foi acusado formalmente de agir criminosamente na captação de recursos via conluio com empreiteiras. Se cortinas de fumaça como essa levantada pelo manifesto derem certo, estará provado mais uma vez que na política como no futebol, a melhor defesa é o ataque.

            A expressão “ou o Brasil acaba com a Operação Lava Jato ou a Operação Lava Jato acaba com o Brasil”, que parece ser o mote da campanha do marqueteiro, é obviamente um exemplo das flâmulas e gonzos recomendados em “A Arte da Guerra” como recurso para manter a concentração dos soldados (militantes) nas palavras de ordem do partido, para isolá-los do medo gerado pelo alarido da oposição. Mas a eleição acabou. Enganaram pouco mais da metade dos eleitores por pouco tempo, mas todos sabemos que não é possível enganar todo o povo por muito tempo.
          
  No artigo para o Correio Braziliense Cristóvam Buarque sugere:


“Com tantos problemas, não será possível saltar a crise e reorientar o futuro sem debate amplo e sério, no qual o governo reconheça os erros, as oposições ofereçam propostas e as forças políticas combinem agenda de ajustes econômicos com a garantia de direitos aos trabalhadores e massas pobres, com preocupação que vá além das próximas eleições. Mas esse não parece ser o quadro da política atual. Antes de voltar a emergir para nova sociedade, vamos precisar emergir para nova forma de fazer política, percebendo as nuances dos problemas, os limites ao crescimento, as necessidades de longo prazo. Quando a realidade é vista em apenas duas cores e o tempo sentido apenas no presente, o sectarismo mata a lucidez e destrói a esperança.”