sexta-feira, 7 de julho de 2017

Definição de ambiente acolhedor a partir das exigências das contingências e metacontingências em vigor na comunidade


Ambiente acolhedor foi uma expressão usada por Anthony Biglan em seu livro “The nurture effect – how the science of human behavior can improve our lives & our world” (Biglan, 2015). As pessoas tornam-se membros bem adequados à Sociedade quando vivem em ambientes que favorecem o desenvolvimento de comportamentos sociais positivos. Um ambiente acolhedor é o ambiente preparado para reforçar comportamentos de interesse da pessoa e do grupo. Um ambiente no qual as interações ocorrem com um mínimo de controle aversivo.

Em situações nas quais são necessárias mudanças em larga escala de práticas culturais, como naquelas que caracterizam os programas de transferência condicionada de renda, como o Programa Bolsa Família, há que se cuidar do ambiente em que vivem e viverão as pessoas que recebem os benefícios condicionais. Pois a verba do povo utilizada no programa não resultará nos objetivos propostos se depois de anos recebendo atenção à saúde e frequentando a escola com sucesso hão houver emprego adequado quando completa 18 anos e o Ensino Médio. Nem a família como um todo deixará o programa se o ambiente que promoveu a miséria não melhorar. Criar repertório sem abrir postos de trabalho é um dos maiores crimes da burocracia no serviço público.

Esses programas, e são vários, não deveriam ser considerados programas de governo – proibido ser associado ao selo do governo Zeca Promessa – mas programas de estado, permanentes, sob constante monitoramento de Agências de Controle específicas, não governamentais.

Governos anteriores deixaram planos de incentivo ao desenvolvimento de cerca de 20 microrregiões econômicas no país. Vale a pena descobrir onde estão e o que podemos dizer sobre eles.

Biglan, A. (2015). The nurture effect – how the science of human behavior can improve our lives & our world. Oakland, CA: New Harbinger Publications, Inc.





Consolidação de sugestões bem-humoradas para o ensino de Análise do Comportamento.

Consolidação de sugestões bem-humoradas para o ensino de Análise do Comportamento.

  Ditados populares são antigos, alguns tão antigos que são de épocas em que a transmissão da cultura era feita apenas oralmente, não havia memória escrita. São frases curtas, mas compactas quanto à descrição de relações comportamento-consequência que ilustram. Geralmente usam uma experiência comum a todos os membros do grupo para prepará-los para perceber relações do mesmo tipo no futuro:

         
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

Ditado bom para mostrar que algumas consequências só ocorrem depois de várias tentativas, como quebrar um coco com uma pedra. No ensino de análise do comportamento pode ser usado para ilustrar os tópicos de variabilidade, momento comportamental e ressurgência. Quando a contingência (relação condicional) que mantém a estabilidade de uma relação operante-consequência é interrompida, o repertório do organismo naquela situação mostra alto nível de variabilidade, mas o operante não cessa de ocorrer. Continuará a ocorrer por mais ou menos tempo dependendo das condições que vigoravam no passado (momento comportamental). Se um novo operante for seguido pela mesma consequência, o primeiro operante cessa de ocorrer (água mole fura a pedra dura), para ressurgir se e quando houver extinção do segundo operante também (um processo conhecido na clínica como recaída).

         
Para bom entendedor, meia palavra basta.

Todo e qualquer operante envolve mais trabalho para modelar do que para manter. Modelagem é um procedimento de reforço diferencial de aproximações sucessivas da forma final desejada do operante, e isso quer dizer o seguinte: de início qualquer resposta existente no repertório que tenha alguma relação com o objetivo é reforçada. A seguir começa um treino de discriminação (reforço
diferencial), a resposta é reforçada em algumas situações mais próximas da situação final e não é reforçada quando emitida em outras situações – um procedimento semelhante àquela brincadeira de crianças do “quente” (reforço), “frio” (extinção).

 
No início, cada ocorrência da resposta exige mais esforço e leva mais tempo para acontecer; depois de completada a aprendizagem sua manutenção exige cada vez menos esforço.

Para bom “esquivador”, meia resposta basta.



         Ditados populares são antigos, alguns tão antigos que são de épocas em que a transmissão da cultura era feita apenas oralmente, não havia memória escrita.

         Longe dos olhos, longe do coração.

Muito usado antigamente para explicar porque a família mandava a mocinha estudar em colégio interno na Suíça para esquecer o namorado inadequado.

A frase chama a atenção para o poder do reforço contínuo e imediato e da proximidade geográfica e temporal de variáveis de contexto, como em situações de escolhas e decisões e de autocontrole. Um exemplo de consequência que está longe dos olhos (perder a hora de levantar no dia seguinte) mas que pode ser antecipada para perto do coração por uma resposta controladora: armar o despertador.

No caso da mocinha apaixonada, há outro ditado que explica a vantagem do primeiro: nada como um novo amor para esquecer o mais antigo.

Promessas não pagam dívidas.

Mas funcionam como estímulo reforçador, dependendo de quem promete. Grande parte da rede de interações que organiza nossa vida em comunidade é mantida pura e simplesmente por comportamento verbal, aquele que só produz ondas (sonoras).

Promessas não pagam dívidas mas mantêm a fidelidade do militante até a próxima eleição.


 “Nenhum homem é uma ilha” é uma frase que tem mais de 500 anos, de autoria de John Donne e usada por empréstimo por muitos autores. Ela resume a informação de que vivemos em comunidade e é assim que nos tornamos humanos. O processo de civilização e aculturamento do bebê leva anos e utiliza interações com centenas de outros humanos – a ponto de um antigo ditado africano dizer que é preciso uma aldeia para educar uma criança.


Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem faz parte de sua comunidade verbal selecionadora.


         Por outro lado, parece que ser de casa também traz desvantagens. Estrangeiros tendem a ser melhor tratados pelo grupo quando há interesse em que sejam atraídos. Parece que manter quem já faz arte da comunidade verbal selecionadora custa menos esforço que atrair novos membros, daí a necessidade de lhes dar mais atenção. No churrasco na casa do ferreiro o melhor espeto vai para o forasteiro; os de casa podem usar espeto de pau.



Ninguém é profeta em sua terra.

Casa de ferreiro, espeto de pau.


Quando o gato sai, os ratos fazem a festa.


Punição não funciona quando a situação sinaliza que ela não vai ocorrer. Mais ou menos o que ocorre no carnaval e nas passeatas contra o governo.

         O controle do comportamento por antecedentes e situações leva certo tempo para ocorrer. Aprendemos aos poucos a não gastar energia em situações nas quais um determinado comportamento nunca foi reforçado. Um exemplo? Com pouco mais de um ano minha filha pedia licença à cadeira que atrapalhava seu deslocamento pela sala. Aprendeu rapidamente que cadeiras e cachorros não entendiam português. Da mesma maneira aprendemos que certos comportamentos são punidos em algumas ocasiões, mas não em outras.
         Tendo aprendido depois de milhões de ano de evolução que punição é um processo complicado, desagregador, gerador de contra controle, os grupamentos humanos costumam delegar autoridade para punir a certas pessoas ou grupos. Em algumas famílias a mãe se encarrega das ameaças e o pai da guilhotina, que corta mesada, horas na internet, et.
         Se o encarregado da punição não está presente, a gandaia pode correr solta.
Quando o gato sai, os ratos fazem a festa, 
desde que ninguém seja tentado por delação premiada.



         Dizem que no princípio era o verbo. Os verdadeiros behavioristas acham que no princípio era a variabilidade. Eu pessoalmente acho que no princípio era a variabilidade, logo depois aumentada pela invenção do comportamento verbal.
            O comportamento verbal não veio só para ajudar, veio para confundir. Às vezes ajuda, mas quando você tenta entender, a confusão aumenta. Para começar, você nunca tem garantia de saber com quem está falando, com qual ouvinte ou com qual falante de cada uma das várias duplas de repertórios verbais que habitam naquele organismo. Muitas vezes, cercado de pessoas que deveriam estar prestando atenção, você descobre que só você mesmo está se ouvindo. Você convida sua mulher para jantar achando que fala com a namorada, mas quem pode estar ouvindo é a tesoureira; seu repertório adulto funciona só até as cinco, às seis e meia você está pronto para a nova série do Netflix, mas te pedem uma avaliação da situação econômica da família.
            Sem variabilidade não há evolução. O comportamento verbal está aí para não deixar a vida ficar monótona. 




segunda-feira, 26 de junho de 2017

Provérbios e ditados no ensino de princípios de análise do comportamento. I


         Ditados populares são antigos, alguns tão antigos que são de épocas em que a transmissão da cultura era feita apenas oralmente, não havia memória escrita. São frases curtas, mas compactas quanto à descrição de relações comportamento-consequência que ilustram. Geralmente usam uma experiência comum a todos os membros do grupo para prepará-los para perceber relações do mesmo tipo no futuro:

         Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

Ditado bom para mostrar que algumas consequências só ocorrem depois de várias tentativas, como quebrar um coco com uma pedra. No ensino de análise do comportamento pode ser usado para ilustrar os tópicos de variabilidade, momento comportamental e ressurgência. Quando a contingência (relação condicional) que mantém a estabilidade de uma relação operante-consequência é interrompida, o repertório do organismo naquela situação mostra alto nível de variabilidade, mas o operante não cessa de ocorrer. Continuará a ocorrer por mais ou menos tempo dependendo das condições que vigoravam no passado (momento comportamental). Se um novo operante for seguido pela mesma consequência, o primeiro operante cessa de ocorrer (água mole fura a pedra dura), para ressurgir se e quando houver extinção do segundo operante também (um processo conhecido na clínica como recaída).

         Para bom entendedor, meia palavra basta.

Todo e qualquer operante envolve mais trabalho para modelar do que para manter. Modelagem é um procedimento de reforço diferencial de aproximações sucessivas da forma final desejada do operante, e isso quer dizer o seguinte: de início qualquer resposta existente no repertório que tenha alguma relação com o objetivo é reforçada. A seguir começa um treino de discriminação (reforço
diferencial), a resposta é reforçada em algumas situações mais próximas da situação final e não é reforçada quando emitida em outras situações – um procedimento semelhante àquela brincadeira de crianças do “quente” (reforço), “frio” (extinção).

 No início, cada ocorrência da resposta exige mais esforço e leva mais tempo para acontecer; depois de completada a aprendizagem sua manutenção exige cada vez menos esforço.

Para bom “esquivador”, meia resposta basta.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Roberta Lemos fala da sua história e atuação como analista do comportamento em Políticas Públicas

PUBLICADA NO BOLETIM CONTEXTO:

1 – Que eventos foram relevantes para o seu interesse e sua opção pela Análise do Comportamento?
Quando ingressei na faculdade de Psicologia, vi, na análise do comportamento, a ciência que poderia me ajudar a trabalhar na área esportiva que era o que me interessava. A concepção de homem e de mundo expressas no sistema explicativo elaborado por Skinner, parecia melhor descrever o modo como eu observava as relações humanas.
2 – Você é Bacharel em Esporte pela USP (2004) e Psicóloga pela PUC-SP (2005). A sua dissertação de mestrado (2008) parece ter sido influenciada por suas duas formações. Àquela época, você planejava um futuro profissional que conciliasse Análise do Comportamento e Esporte? E atualmente?
É verdade. Na minha dissertação, trabalhei com comportamento de observação de jogadores de handebol de alto nível, sob orientação da Prof. Teia, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento da PUC-SP. Naquela época, eu tinha planos de continuar atuando na interface do Esporte com a Psicologia. Trabalhava já em alguns projetos sociais que utilizavam o esporte como linguagem para promover educação não formal. Atualmente, o projeto de trabalhar com esporte está guardado, mas vejo como uma possibilidade o trabalho com Políticas Públicas de Esporte no futuro.
3 – Como e quando surgiu seu interesse por Práticas Culturais e Políticas Públicas?
Foi por meio do esporte que tive contato com um público bastante específico e destinatário de diversas políticas sociais. Na época, trabalhava com adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa  em meio aberto que é público abarcado pelo Sistema Único de Assistência Social. Foi trabalhando com esse público que percebi a prevalência de padrões de comportamento, de algum modo, prejudiciais aos membros do grupo, que eram mantidos por contingências sociais. Naquele momento, entendi o potencial do Estado para promover intervenções em larga escala que pudessem beneficiar um grande número de pessoas e alterar padrões comportamentais. Depois disso, revisitei meus planos profissionais e comecei a investir no trabalho com Políticas Públicas.
4 – Como foi o percurso profissional entre seu mestrado e o cargo que você ocupa atualmente no Ministério?
Em 2008,  defendi a dissertação de mestrado. Naquela época, já trabalhava no Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Interlagos. No mesmo ano, tive a oportunidade de prestar uma consultoria para o Governo do Estado do Acre e, logo depois, fui convidada para colaborar com a elaboração do sistema de monitoramento e avaliação do Sistema Socioeducativo do Estado.  Mudei para Rio Branco, onde vivi em 2010. Foi nessa oportunidade que vivi a experiência de trabalhar com Políticas Públicas por dentro do Poder Público. Antes disso, eu só havia trabalhado em organizações da sociedade civil que atuavam na defesa de direitos e no controle social. Depois disso, decidi que era a partir desse lugar que queria intervir. Em 2011, passei um tempo em São Paulo, onde prestei algumas consultorias relacionadas à construção de Planos Municipais e atuei como Conselheira no Conselho Regional de Psicologia. No final do ano, mudei para Brasília, para trabalhar no Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte e estudar para concurso. Depois de seis meses estudando, passei no concurso para Analista Técnico de Políticas Sociais e fui lotada no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
5 – Quais são as atribuições do seu cargo atual? Como sua formação em Análise do Comportamento auxilia nas suas atividades?
A carreira de Desenvolvimento de Políticas Sociais foi criada pela Lei nº 12.094, de 19 de novembro de 2009. Nossas atribuições estão definidas no artigo 3° dessa lei, das quais eu destacaria, em resumo: executar atividades de assistência técnica, aferir seus resultados, proceder à análise e avaliação dos dados obtidos em projetos e programas e colaborar na definição de estratégias de execução das atividades de controle e avaliação nas áreas de saúde, previdência, emprego e renda, segurança pública, desenvolvimento urbano, segurança alimentar, assistência social, educação, cultura, cidadania, direitos humanos e proteção à infância, à juventude, ao portador de necessidades especiais, ao idoso e ao indígena. Quando falamos em acesso à políticas sociais, falamos sobretudo de comportamento humano. Para que o Estado cumpra o seu dever de ofertar serviços e programas para a população nessas áreas, precisamos entender, primeiramente, quais são as variáveis que controlam os comportamentos de aderir a um tratamento de saúde, de freqüentar a escola ou de proteger os recursos naturais, por exemplo. Esse conhecimento é imprescindível para que se possa planejar ações eficazes e com melhor custo benefício. Atualmente,  trabalho na Secretaria Executiva do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais, instituído pelo Decreto 8750, de 9 de maio de 2016, que é uma instância consultiva de participação composta por governo e sociedade civil. Sua função primordial é promover o desenvolvimento sustentável dos povos e comunidades tradicionais, com especial atenção para a proposição de medidas para a implementação, o acompanhamento e a avaliação de políticas relevantes, respeitando sua autonomia, seus territórios, suas formas de organização, seus modos de vida peculiares e seus saberes e fazeres tradicionais e ancestrais. É nesse contexto que minha formação em Análise do Comportamento direciona a minha atuação.  
6 – O seu projeto de doutorado abarca o Programa Bolsa Família. Quais são os objetivos do projeto? Já tem algum resultado preliminar?
No projeto de doutorado, sob supervisão do Prof. João Cláudio Todorov, pretendo demonstrar como é possível a atuação de um Analista do Comportamento em Políticas Públicas. Para isso, escolhi trabalhar com o Programa Bolsa Família, um programa de transferência de renda condicionada, instituído pela Lei 10.836, de 9 de janeiro de 2004. Assim, o objetivo principal do projeto é demonstrar a possibilidade de formulação, implementação e avaliação de intervenção em larga escala por meio de política pública local, baseada em princípios comportamentais. Inicialmente, tratei de entender como está desenhado o programa e analisar alguns de seus resultados. Observei que o comportamento de jovens de 16 e 17 anos de freqüentar a escola é selecionado pelas conseqüências do programa com menor sucesso. Como experimento, proponho a introdução de relação condicional complementar que envolve o estabelecimento de contrato de aprendizagem, conforme regulamentado na Lei 10.097, de 19 de dezembro de 2000, sobre o comportamento de ir à escola em jovens de 16 e 17 anos contemplados com o Benefício Variável Jovem do Programa Bolsa Família. Vale lembrar que, para estabelecer um contrato de aprendizagem, é necessário que o jovem esteja matriculado e freqüentando a escola. É nesse sentido que entendemos que essa pode ser uma relação condicional complementar àquela já estabelecida pelo Programa Bolsa Família. Estamos implementando uma linha de base múltipla com intervenção em três fases com dois municípios em cada. A idéia é verificar a possibilidade de alteração do efeito social acumulado (taxas de abandono e evasão escolar municipais) por meio da alteração em contingências individuais em larga escala. Para operacionalizar a introdução da relação condicional complementar, é necessário estabelecer uma metacontingência de apoio como padrão de articulação municipal para garantia do direito à profissionalização e à proteção no trabalho e do direito à educação a adolescentes. São parceiros do projeto o Projeto Aprendizagem da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Estado de São Paulo, o SENAC e as respectivas prefeituras. Até agora, o projeto foi implementado em Atibaia e Franca (primeira fase) e Batatais e Lins (segunda fase). Estamos em plena análise de dados da primeira fase, coletando os dados da segunda fase e iniciando a implementação da terceira fase.
7 – Você, seu orientador, Prof. Dr. João Cláudio Todorov, e a mestranda Bruna França estão conduzindo o Projeto PORVIR. Quais os objetivos do projeto? Como ele se relaciona com sua tese e com seu trabalho no Ministério?
O Projeto Porvir é exatamente a proposta que utilizamos para apresentar a pesquisa nos municípios. Para garantir um caráter institucional, construímos um site www.projetoporvir.com.br, por meio do qual é possível promover o encontro entre o empregador que precisa contratar e jovem que quer se candidatar às vagas. Os empregadores podem criar um perfil da empresa, buscar currículos de candidatos no seu município e anunciar suas vagas. Os candidatos, selecionados pela prefeitura, podem cadastrar um perfil, montar seu currículo e se candidatar às vagas. Uma novidade para a segunda fase da pesquisa, é que os candidatos também podem realizar cursos online na Escola Porvir, que possuem conteúdos específicos sobre aprendizagem, processos seletivos e outros relacionados. A idéia é que os jovens possam se capacitar ainda mais antes de participarem dos processos seletivos. Para promover a adesão aos cursos, há toda uma estrutura de pontos e selos utilizados para organizar um ranking dos perfis, que funcionam como conseqüências imediatas. Em todos os municípios, temos trabalhado com os auditores do Ministério do Trabalho que fiscalizam se as empresas estão cumprindo sua obrigação legal de contratação, o SENAC que oferta os cursos de aprendizagem e a Secretaria de Assistência Social ou equivalente que tem por competência acompanhar as famílias em descumprimento das condicionalidades relacionadas ao Programa Bolsa Família. Depois de alguns meses de articulação e definição das ações de todos os envolvidos, promovemos um evento para apresentar o Projeto Porvir e o banco de currículos do município para as empresas.
8 – Qual a relação entre o seu projeto de doutorado e seu cargo de Analista Técnica? O plano de carreira do Ministério prevê esse tipo de qualificação específica?
A proposta de intervenção do Projeto Porvir é uma solução que pode ser implementada pelos municípios como complementar ao Programa Bolsa Família. Não há qualquer custo para os atores envolvidos, uma vez que não propomos novas atribuições, mas a ação articulada dos órgãos daquilo que já executam de forma focalizada em um público específico. Penso que é atribuição do Analista Técnico em Políticas Sociais encontrar e sugerir esse tipo de solução em Políticas Públicas. Embora eu não esteja trabalhando diretamente na área que implementa o Programa Bolsa Família, tenho dialogado bastante sobre sua viabilidade dentro do Ministério.  A carreira ainda é nova e não há qualquer conseqüência direta para quem tem pós-graduação, embora seja uma das pautas da associação. No entanto, há regulamentação específica que permite ao servidor se ausentar ou adequar seu horário para fazer o curso.
9 – Na sua opinião, que métodos de pesquisa devem ser mais explorados por analistas do comportamento que queiram produzir conhecimento para intervenção em práticas culturais de larga escala?
Embora os delineamentos entre grupos sejam hoje largamente utilizados na produção de conhecimento em Políticas Públicas, penso que devemos insistir no potencial dos delineamentos de sujeito único característicos da pesquisa experimental em Análise do Comportamento. A necessidade de realizar medidas repetidas, por si só, já se apresenta como uma vantagem para averiguar a mudança do comportamento de membros de uma comunidade ao longo do tempo. Entre os delineamentos possíveis, gosto, particularmente, da linha de base múltipla entre comunidades ou municípios. Por meio dele é possível ter diferentes comunidades ou municípios em condição controle enquanto outros estão sob efeitos da variável independente, o que nos permite avaliar se as alterações na variável dependente são efeitos da intervenção . Além disso, no caso de políticas públicas que pretendem garantir direitos à população, é uma vantagem não precisar realizar a reversão para demonstrar os efeitos da intervenção. Não parece adequado suspender uma intervenção que pode estar beneficiando uma comunidade, por exemplo. Para o pesquisador, não precisar realizar mais de uma intervenção ao mesmo tempo pode ser uma vantagem, uma vez que a implementação de um projeto em um município, por exemplo, pode demandar um grande investimento de tempo.
10 – Que recomendações você daria ao jovem analista do comportamento que pretende trabalhar com Políticas Públicas? Quais referências bibliográficas você indica?
Minha principal recomendação é “mostrar a cara”, ir nos lugares e conversar com os atores que atuam na formulação, implementação e avaliação das Políticas Públicas, seja no Executivo ou no Legislativo, e com seus beneficiários. Acho imprescindível conhecer os meandros da política, antes de planejar qualquer intervenção. Não há nada de tão complicado ou inacessível. Especialmente no âmbito municipal, vejo muitas vezes os atores bastante receptivos a novas idéias. Se o desejo for assumir um cargo como servidor público, recomendo escolher uma carreira de analista ou gestor que permita uma atuação direcionada às políticas sociais. Para quem está tateando a área, indico a “Coletânea de Políticas Públicas”da Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), que traz capítulos específicos sobre o ciclo de políticas públicas, os espaços de tomada de decisão e os atores envolvidos, o livro “The Nurture Effect”, do Anthony Biglan, que traz recomendações interessantes aos gestores públicos ao final de cada capítulo e o livro “Finding Solutions do Social Problems” do Mark Mattaini e Bruce Thyer com capítulos específicos sobre mudanças em padrões de comportamento em membros de comunidades.
11 – Você acredita que em algum momento o governo do Brasil adotará uma política baseada em evidências, nos moldes das equipes de ciências comportamentais e sociais adotadas em outros países?

A elaboração de políticas baseadas em evidências é uma tendência cada vez mais abarcada pelos órgãos do Executivo. Há, inclusive, órgão criados especialmente para isso, como é o caso da Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação no Ministério onde trabalho. No entanto, vejo ainda muito pouco a utilização de pesquisas científicas produzida pelas Ciências do Comportamento, como insumo. Acho bastante possível a instituição de um espaço semelhante àqueles adotados em outros países, no âmbito do Poder Executivo, que tenha como referência as Ciências do Comportamento. É comum a criação de grupos interministeriais de caráter eminentemente técnico para se debater e construir os caminhos de determinado programa, projeto, serviço ou ação. Penso que o que nos falta é investir na comunicação com gestores para demonstrar como isso é possível. Recentemente, o Grupo de Estudos em Cultura e Comportamento do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Comportamento da UnB, supervisionado pelo Prof. João Cláudio Todorov e do qual participo, lançou o primeiro evento, de uma série a ser produzida, que pretende instituir o diálogo entre a Análise do Comportamento e o Gestores de Políticas Públicas. Na ocasião, debatemos programas de transferência de renda condicionada e pagamentos por serviços ambientais com gestores da área. Certamente, não é o único modo, mas já é uma possibilidade para divulgar o potencial da Análise do Comportamento. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Um exemplo extremo de comportamento governado por regras.


         A posição do Partido Republicano dos EEUU em relação ao Acordo de Paris sobre o clima é mais um exemplo de comportamento guiado por regras, desconsiderando contingências e suas consequências. Falando em bom behaviorês: o acordo de 99,9% das nações do mundo prevê forte ação dos governos no combate às fontes de poluição atmosférica. Forte atuação do governo é tudo o que a ideologia conservadora do Partido Republicano combate.
         Para conservadores há uma regra básica: quanto menos governo, melhor. A mão invisível do mercado é um santo remédio para todos os males. Pressupõe-se que o povo é formado por cidadãos educados e conscientes de seus direitos. Sem a proteção do governo, a mera exposição às contingências do mercado fará cada um ser membro produtivo e empreendedor. Por consequência, só é pobre quem não quer trabalhar.
         No caso do clima, a intervenção dos governos é extremamente necessária por uma característica do processo de escolhas intertemporais: a poluição produzida por uma empresa representa uma vantagem imediata, ela não tem que gastar para mudar para fontes de energia não poluente, e uma desvantagem a perder de vista, quando eventualmente deixar de existir porque o ambiente em sua região estiver degradado. É um exemplo de comportamento que é ao mesmo tempo reforçado e punido, só que o reforço é imediato e a punição vem com atraso muito longo.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Relatividade no controle por consequências.


Se uma possibilidade de escolher se repete ao longo do tempo, a decisão de escolher uma dentre duas alternativas depende dos resultados dessas escolhas no passado. essa relação pode e tem sido estudada no laboratório para verificar se o valor absoluto das consequências tem ou não tem importância na distgribuição dessas escolhas.

Quando se diz que a razão entre dois valores de uma variável dependente iguala a razão entre dois valores associados da variável independente está implícito que essa igualdade é válida para quaisquer valores absolutos. A igualdade é prevista para qualquer razão de valores absolutos, pois 1/3 = 2/6 = 3/9, etc. Esse é o pressuposto da relatividade na lei generalizada da igualação (Herrnstein, 1961, 1970; Baum, 1974):

C1/C2 = k (r1/r2)a 

Em condições ideais, k = a =1.

            Se houver viés em favor de uma alternativa, k > ou < 1. Se houver alguma dificuldade na distinção das consequências ou na facilidade de mudar de uma alternativa para a outra,
a < ou > 1. É possível manipular condições experimentais e prever mudanças nos valores de k e de a (Todorov, 1971; Hanna, Todorov & Blackman, 1992).

            Três artigos publicados por volta de 1988 questionaram esse pressuposto mostrando dados que mostrariam como a igualdade é afetada por valores absolutos. Questionei esses resultados em artigo submetido a publicação que foi recusado com o conselho de primeiro replicar os experimentos. Não gostei da resposta mas acabei fazendo replicação sistemática (Sidman, 1960) e publiquei no Brasil, em 1993 e 1998. O de 1998 está online há tempos (Todorov, Coelho e Beckert, 1998), o de 1993 está sendo colocado nas redes de pesquisadores agora:


Referências
Baum, W. M. (1974). On two types of deviation from the matching law: Bias and undermatching. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 22, 231-242.
Hanna, E. S., Blackman, D. E. & Todorov, J. C. (1992). Stimulus effects on concurrent performance in transition. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 58, 335-347.
Herrnstein, R. J. (1961). Relative and absolute strength of response as a function of frequency of reinforcement. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 4, 267-272.
Herrnstein, R. J. (1970). On the law of effect. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 13, 243-266.
Sidman, M. (1960). Tactics of scientific research: Evaluating experimental data in psychology (Vol. 5). New York: Basic Books.
Todorov, J. C. (1971). Concurrent performances: Effect of punishment contingent on the switching response. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 16, 51-62.

Todorov, J. C., Coelho, C., & Beckert, M. E. (1998). Desempenho em esquemas concorrentes independentes e cumulativos de intervalo variável. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 14, 9-13.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Mudanças rápidas em práticas culturais e o DNA da descrença


                Estava eu viajando de avião da maneira complicada, característica de quem precisa levar a bordo concentrador portátil de oxigênio e baterias suficientes para a duração do voo e mais 50% desse tempo, por segurança: cateter nas narinas, tubo ligado ao aparelho embaixo da cadeira. Quando precisei me levantar para que as outras cadeiras fossem ocupadas, algumas pessoas se ofereceram para ajudar. Posso fazer tudo sozinho, mas os tubos e o aparelho parecem transmitir outra imagem às pessoas.

                Comentei essa boa vontade com um senhor que ocupava a poltrona do meio. Desde que tenha nível adequado de oxigênio para respirar sou liberado pelos médicos para viajar sem acompanhante. Como não posso andar muito e nem carregar peso, nos aeroportos as empresas sempre fornecem cadeiras de rodas. Comentei com meu vizinho de viagem que com essa combinação, oxigênio + cadeira de rodas, fiz viagem de 40 horas de Brasília a Kyoto sem andar mais que dez metros, pois no Japão trens e hotéis também dão essa atenção a cadeirantes. Funcionários do trem bala me levaram na cadeira até o hotel e lá me esperavam com outra cadeira, da qual só me levantei dentro do apartamento. Meu vizinho ficou admirado e comentou alguma coisa como “Isso nunca vai acontecer aqui”. A educação japonesa seria obra de milênios, com práticas culturais que “nunca veremos por aqui”, porque isso (falta de educação) está no DNA do povo brasileiro. Aí tive que rir e dizer que estava indo a Londrina falar sobre mudanças rápidas e em larga escala de práticas culturais; se pensasse como ele eu deveria mudar de profissão.

                Não só não mudo como continuo a bater na mesma tecla. Questões como as que suscitam em pessoas afirmações como essas, frequentes em artigos de opinião assinados como os que foram publicados nos jornais “Folha de São Paulo” e “Correio Braziliense” na última semana, são questões que se referem a práticas culturais. São comportamentos aprendidos e passados de pais para filhos, de geração para geração.  Quanto mais antigos em determinada cultura, mais trabalhosa a mudança.

                Mas o que nos dá a confiança em que essa mudança pode ser rápida e realmente em larga escala é a teoria que nos define uma cultura como o conjunto de relações condicionais entre comportamento e consequência, relações mantidas por agências de controle. Em cada grupo, organização, etnia, etc., a aculturação de novos membros segue regras formais ou informais aceitas pelos membros daquele grupo. Mudanças nas regras, e nos comportamentos regulados por elas, podem ser rápidas quando a decisão de mudar for coletiva. Por isso tentativas de mudança por iniciativa dos dirigentes só podem ser bem-sucedidas depois de ampla divulgação da informação e das razões para mudar. Quanto maior e mais complexo o grupo mais trabalhosa será a intervenção, levantando a questão da relação custo-benefício. Qualquer que seja a prática cultural, que é sempre algum tipo de comportamento mantido por consequências, os membros do grupo encarregados da decisão podem decidir não intervir por conta do custo da mudança. Os economistas têm estudos sobre a relação custo-benefício da eliminação da corrupção na sociedade. O custo da manutenção de agências de controle para garantir a erradicação dessa prática cultural torna inviável esse esforço, levando a propostas de diminuir a corrupção a níveis mais favoráveis à manutenção das transações econômicas a um custo compatível com o benefício.

                Talvez por essas razões é comum ver autores colocando toda a esperança na educação das novas gerações. Não esperam nada dos adultos. “O povo brasileiro é primário e sem percepção de um projeto nacional. A semana modernista, nos primórdios do século 20, elegera Macunaíma, como o mestiço esperto – no meio das mazelas nacionais -, como o herói brasileiro sem nenhum caráter, ou seja, sem caráter em todos os sentidos. ”  (Sacha Calmon, Correio Braziliense de 7 de maio de 2017, página 13).  No mesmo dia, mesmo jornal, mesma página, o Professor Titular da Unicamp Jaime Pinsky escreveu: “ O chamado grito do Ipiranga não significou nada para a maioria esmagadora da população do território. Nem para os escravos, nem para os índios, nem para a população do campo, talvez apenas para uma parte pequena e letrada (e proprietária) de moradores de cidades, uma parte ínfima de Brasil.  .... Para sobreviver o povão aprendeu a ser dissimulado, traço também tristemente evidente. A população não se sente representada por seus representantes, o poder político tem sido o melhor caminho para a corrupção, ninguém abre mão de seus privilégios e os sonegadores apresentam tudo isso como álibi para não contribuir para o bem comum. “



                Lembrando Roberto Campos, citado por Ives Gandra da Silva Martins na Folha de São Paulo de 7 de maio de 2017, página A3 (“O planeta dos malandros”), “com esta mentalidade, o Brasil não corre nenhum risco de melhorar. “ Entretanto, mudar para melhorar é possível e é preciso. Cabe a quem sabe como mostrar o que pode fazer. “Mentalidade” é apenas o nome popular de um conjunto de relações condicionais que isentam de punição e recompensam “quem leva vantagem em tudo”. São regras de convivência que ficam mais fortes toda vez que alguém impunemente fura a fila do cinema, por exemplo.