segunda-feira, 28 de abril de 2014

Autocontrole é só controle, e tudo é controlado.

Encontram-se na literatura sobre análise do comportamento referências ao termo autocontrole que associam o conceito a processos os mais diversos: procrastinação, obesidade, impulsividade em crianças, cuidados de saúde, entre vários outros. Em outras abordagens da psicologia o termo tem vários significados: força de vontade, capacidade para manter o equilíbrio emocional, para controlar os impulsos, para decidir sobre a própria vida, etc.
Na linguagem diária usamos o termo com esse sentido de força interior, compatível com as teorias da psicologia cognitiva, mas incompatível com a análise do comportamento, que não usa um agente interior para explicar o comportamento. É importante notar que a análise do comportamento não trabalha só com observáveis. Como já escrevi em outro texto:
O que é comportamento? Tudo o que a pessoa faz que possa ser analisado, inclusive o que ela diz, o que ela pensa, o que ela fala para si mesma, inclusive o que ela fala sobre o que pensa.
O que penso antes de decidir não é explicação, é parte do comportamento a ser explicado. Como qualquer comportamento, pensar é escolha, examinar as alternativas não ocorre no vácuo.
 Autocontrole não é conceito da análise do comportamento. Esse “auto” sempre vai ter conotação mentalista. Muitos dos exemplos citados são processos diferentes, envolvendo diferentes variáveis. Se vamos incluí-los na rubrica “autocontrole”, então todo comportamento operante é exemplo de “autocontrole”.
Não postulamos forças interiores maiores ou menores para explicar essas escolhas. Como bem escreveu Baum recentemente, o organismo é o local onde ocorrem as interações comportamento-ambiente. E é isso que estudamos, experimentalmente ou não. Todos os experimentos que dizem estudar o autocontrole no laboratório usam algum procedimento de escolha entre pelo menos duas variáveis. Não há como fugir da literatura sobre escolhas e preferências dos últimos 60 anos alegando implícita ou  explicitamente que “com gente é diferente”



quinta-feira, 10 de abril de 2014

Chomsky e sua sombra: já nascemos com a estrutura da língua que ainda vamos aprender?


O jornal Correio Braziliense de 09 de abril corrente traz em sua página de ciência artigo de divulgação da jornalista Roberta Machado com o título “Receita linguística” e chamada “Experimento feito na Inglaterra reforça a teoria de que vários idiomas criados pelo homem obedecem a alguns padrões universais”. Este texto poderia começar de outra forma não fosse a afirmação da jornalista:
O conceito de uma gramática universal surgiu há mais de oito séculos, mas só ganhou força a partir da década de 50, com a publicação de trabalhos de Noam Chomsky. Esse filósofo e linguista enfrentou o pensamento behaviorista ao defender a ideia de que toda pessoa nasce com a habilidade inerente de aprender qualquer língua no mundo.”
A reportagem cita declaração de Ana Paula Shcer, professora do Departamento de Linguística da Universidade de São Paulo (USP):
Há fatos ainda mais simples que confirmam a existência de uma linguagem universal. Uma forte evidência é que, aos 3 ou 4 anos, uma criança saudável já adquiriu sua língua materna: trata-se de um sistema muito complexo, adquirido muito rapidamente.”
Sobre o experimento base do artigo da jornalista, pesquisadores ingleses mostraram a predominância de adjetivos sobre numerais e sobre demonstrativos em voluntários ingleses que participaram do trabalho, e afirmam que isso é demonstrado em várias línguas do mundo (mas não em todas). Atribuem isso à genética. Haveria uma gramática universal que herdamos (e os que falam as línguas que são exceções? Herdaram o quê?).
Não é necessário postular a herança de toda uma gramática. O que a Análise do Comportamento tem mostrado é que aprendizagens baseadas em características de estímulos físicos são mais fáceis e são aprendidas antes que aprendizagens baseadas em relações entre estímulos (como “maior que” ou “menor que”) ou entre comparações entre múltiplos aspectos do ambiente (numerais, demonstrativos). A aquisição rápida de repertórios é demonstrada há décadas por pesquisas sobre relações de equivalência, área em que quatro universidades brasileiras se destacam internacionalmente: UnB, USP, e Universidades Federais de São Carlos (UFSCar) e do Pará (UFPa).
Ninguém questiona a ideia de que nascemos com habilidades para aprender, mas não é necessário levantar a hipótese de que nascemos com o cérebro pronto para aprender a língua. Uma regra importante em qualquer ciência é a de que entre duas explicações, ficamos com a mais simples. Não há dúvida que nascemos com habilidades inerentes ao aprendizado da língua. Milhões de anos de evolução da espécie humana nos legaram um sistema nervoso e estruturas anatômicas característicos do homem. Mas ao nascer ainda não temos prontos nem o sistema nervoso nem as estruturas anatômicas. A criança de três anos que domina a gramática da língua materna tem três anos de aprendizagem baseada no que herdou dos antepassados, mas a direção do que vai aprendendo depende muito das interações que tem com seu ambiente, a começar por sua vida no útero.


Nenhum behaviorista, nem Watson, postulou que o organismo é uma folha em branco para um texto escrito pelo ambiente. Esse é um boneco de palha levantado por aqueles que são felizes por não saberem que não sabem. Não é daí que vem uma rejeição de uma gramática universal pronta e acabada que a genética nos daria.

Ao nascer o bebê humano é em grande parte uma incógnita. Só não é um desconhecido total porque são notórias as principais características da espécie. Sabemos que são pequenas as probabilidades de vir a ter mais de 2,20 ou menos de 1,50 metros de altura, que seu peso manterá alguma relação positiva com sua altura, é bípede, mas levará algum tempo para ficar em pé, aprenderá a falar, mas para isso vai depender de ajuda e incentivo. Para sobreviver vai depender da mãe para alimentá-lo e garantir proteção, sua mera presença um sinal de segurança.
Em maior ou menor grau todo bebê humano nasce preparado para uma ligação especial com quem o protege e alimenta, a mãe, ou cuidador (a). A voz da mãe já ouvia antes de nascer, um som que vai fortalecer o apego. O traçado do rosto humano é outra característica do ambiente que nasce “familiar” - o bebê não reage a faces como estímulos novos. O leite materno tem tudo o que precisa, e a sucção do seio nem tem que ser deliberada – o reflexo já vem pronto.
Várias dessas características nem são privativas dos humanos. Mamíferos, especialmente primatas, têm muitas das características que gostamos de acreditar que sejam exclusivamente humanas. No caso dos cangurus os filhotes são até mais indefesos que os nossos bebês – entre nascer e estar no mundo passam meses dentro da bolsa de sua mãe, com acesso às mamas e à vista do que se passa lá fora. Os macaquinhos agarram-se reflexamente aos pelos da mãe, um reflexo que seus “primos” humanos perderam, sobrou apenas um resquício que costumamos observar em visita ao pediatra.
Ainda há muito a ser estudado na interação herança-ambiente. Postular que estruturas cognitivas já vêm prontas não é postura de uma ciência natural. O que já sabemos é que a quantidade e a qualidade das interações da criança até os três anos são fundamentais para seu desenvolvimento posterior. Ações governamentais para assistir crianças nascidas em famílias de baixo nível socioeconômico são inócuas quando começam apenas quando a criança já tem três anos.

A  teoria da gramática universal biologicamente herdada é tão disseminada que até os leigos a usam. Ao comentar que tanto meus netos brasileiros quanto os americanos passaram pela fase de regularizar verbos (o último exemplo vem do Luca, o caçula, dizendo para mim:”Mommy buyed a ball for me”), ouvi a explicação: olha aí uma prova da gramática universal do Chomsky. Dá vontade de perguntar: Já ouviram falar em generalização?

David C. Palmer publicou recentemente o artigo "The role of atomic repertoin complex behavior" na revista The Behavior Analyst, 2013, 35, 59-43. Recomendo a quem quiser ler mais sobre o assunto.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Os peixes, o curral e a guerra.

Assinada pelo jornalista João Marcos Coelho a Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2014 publicou entrevista com o  sociólogo italiano Nuccio Ordine autor do livro “A utilidade do inútil”. Um dos trechos ilustra o que seria a cultura de um povo para a maioria de seus integrantes. O autor fala de dois peixes jovens nadando em uma direção quando encontram um peixe mais velho que lhes pergunta: “ Como está a água hoje?”. Os jovens continuam em frente e um pergunta ao outro: “O que é água?”.
Imagem semelhante foi usada pela analista do comportamento norueguesa Inguun Sandaker para se referir à cultura como o conjunto de normas, princípios e valores que regem sutilmente a vida em comum na sociedade. Em regiões que sofrem com o inverno rigoroso os agricultores costumam ter o curral em recinto fechado adjacente à casa. Quem entra no curral sente um cheiro muito forte, mas quem lá trabalha não sente mais o cheiro. Se alguém perguntar “Que cheiro é este?” poderá ouvir como resposta “Que cheiro?”.
As duas imagens ilustram o mesmo fenômeno: para quem é parte de uma cultura, o controle exercido pelo grupo, apesar de regular quase tudo que fazemos, é quase invisível. Quando entramos em contato com outro grupo, sentimos o cheiro daquele controle e vemos as pessoas nadando naquelas ondas sociais.  A psicoterapia tem efeito semelhante a esse mergulho no “aquário” social dos outros; o processo nos ajuda a ver a água que nos faz boiar e as correntes que ajudam ou prejudicam nosso percurso.
Um exemplo dramático de descoberta da “água” que nos  envolve é descrito por Tim O’Brien em seu livro “The things they carried” (www.marinerbooks.com). O autor serviu o exército americano na guerra do Vietnã na década de 70. Foi convocado; hoje o exército recruta voluntários. Era ótimo aluno no ensino médio. Poderia vir a ser admitido em uma das melhores universidades, com bolsa até, talvez. Mas a convocação mudou tudo; a única escapatória para quem não quisesse ir para a guerra era refugiar-se no Canadá. Tim O’Brien tentou esse caminho, chegou até a fronteira, estava em um barco a remo já perto da margem canadense, quando desistiu. A tradução do trecho a seguir é minha:
“Tentei sair do barco.
Agarrei a borda, me inclinei e pensei, Agora.
Chorei. Era simplesmente impossível.
Todos aqueles olhos voltados para mim – minha cidade, todo o universo – e eu não podia me arriscar a passar vergonha. Foi como se minha vida tivesse uma audiência, todas aquelas faces me olhando da margem do rio, e em minha cabeça eu podia ouvir pessoas me gritando. Traidor! me diziam. Vira-casaca! Covarde! Senti meu rosto vermelho de vergonha. Não podia tolerar isso. Não poderia aguentar a zombaria, ou a desgraça, ou o ridículo. Mesmo em  minha imaginação, com a margem a apenas vinte jardas, eu não conseguia agir com coragem. Não tinha nada a ver com moralidade. Era pura vergonha.
E aí eu cedi.
Eu iria para a guerra – iria matar e talvez morrer – porque estava envergonhado.
Isso era triste. E então sentei no barco e chorei.” 
(O’Brien, T. (2009). The things they carried. Pp. 56-57.  New York, NY: Mariner Books).


terça-feira, 1 de abril de 2014

Como reconhecer um analista do comportamento

Para o behaviorista um assunto muito rico e interessante é o uso de termos e conceitos por outros psicólogos quando oferecem explicações para comportamentos. Reconhecer que não temos resposta para uma questão é tão importante quanto saber a resposta; se não reconhecemos a ignorância fica difícil sair dela. É melhor ficar sem resposta para uma pergunta quando não se tem certeza da resposta. Isso vale tanto para o pesquisador estudando um fenômeno quanto para o profissional atendendo um cliente. A Análise do Comportamento não é uma teoria acabada, é um modo de buscar respostas. Ideias, conceitos e teorias, como resultados de comportamento humano, estão sempre submetidos ao processo de seleção por consequências, inclusive a teoria skinneriana dos três níveis de seleção por consequências.
Com certa frequência faz-se menção à Análise do Comportamento como Análise Experimental do Comportamento, um método, uma área, uma filosofia, uma tecnologia (por exemplo, o “método ABA” para o tratamento do autismo). Essa prevalência da parte sobre o todo se deve provavelmente a uma ênfase na experimentação. Supõe-se que o analista do comportamento manipula alguma variável independente e observa cuidadosamente o efeito em alguma medida do comportamento. A Análise do Comportamento tem alguns pontos muito distintos de outros que prosperam na psicologia, como pesquisas de laboratório animal com análise experimental do comportamento de indivíduos (n = 1) – mas não se resume apenas à análise experimental do comportamento de indivíduos, nem no laboratório, nem no consultório clínico. Sua marca mais distinta é a linguagem teórica, o cimento que une todos os tipos de atividades compreendidas sob essa rubrica, marca, ou o que seja.
            Experimentação com n = 1 é a grande contribuição de Skinner para a psicologia experimental dos anos 30 do século passado. Trouxe de seus estágios nos principais laboratórios de biologia de Harvard. Junto com a taxa de respostas por unidade de tempo e os esquemas de reforço intermitente, forma o trio de ouro de Skinner. Mas nem ele ficou só na análise experimental do comportamento de organismos individuais (n = 1). Logo de início em Ciência e Comportamento Humano Skinner mostrou como se pode avançar analisando exemplos da vida diária à luz da teoria. E é essa teoria, que começa a ser desenvolvida em O Comportamento dos Organismos (1938) e continua sendo desenvolvida até hoje, e continuará a ser desenvolvida pelas futuras gerações, a teoria que faz a conexão entre os diferentes campos de atuação da Análise do Comportamento: pesquisa básica, pesquisa aplicada, atuação profissional, análise funcional, análise conceitual, etc.
            A Análise do Comportamento é mais do que análise experimental. Ao escrever sobre o comportamento humano Skinner (1953) foi muito claro a esse respeito. Parafraseando Skinner, descrevo a Análise do Comportamento como um conjunto de atitudes, uma disposição para estudar comportamentos ao invés de lidar com o que alguém disse sobre o comportamento, uma vontade de aceitar os fatos sobre o comportamento mesmo quando esses fatos se opõem aos nossos desejos, uma disposição para ficar sem uma resposta até que uma satisfatória seja encontrada. É uma busca de ordem, de uniformidades, de regularidades, de relações funcionais entre ambiente e comportamento (Skinner, 1953, pp. 12-13). Uma ciência do comportamento trabalha com informações provenientes de várias origens: observações casuais, observação de campo controlada, observações clínicas, observação em instituições sob condições rigidamente controladas, e estudos de laboratório (Skinner, 1953, p. 37).
            Qualquer que seja a área, o objetivo, o método, o analista do comportamento trabalha com alguns conceitos básicos, suas ferramentas de ofício. O primeiro é o de contingência. Uma contingência é uma relação condicional entre eventos no ambiente afetando comportamentos respondentes, ou entre eventos no ambiente e comportamentos operantes. No laboratório o pesquisador controla e manipula contingências; na prática profissional o analista do comportamento identifica, analisa, modifica, ou ensina seu cliente a identificar, analisar e modificar contingências. O analista do comportamento reconhece que um estímulo pode ter múltiplas funções, como ser eliciador de respostas reflexas, reforçador (quando consequente) ou discriminativo (quando antecedente) de respostas operantes, e reconhece o poder multiplicador e o controle exercido por abstrações derivadas de contingências quádruplas bem como o papel de operações motivadoras e estabelecedoras.

            E o comportamento, o que é? O que é comportamento? Tudo o que a pessoa faz que possa ser analisado, inclusive o que ela diz, o que ela pensa, o que ela fala para si mesma, inclusive o que ela fala sobre o que pensa. 

domingo, 30 de março de 2014

Sobre ditaduras e incertezas após o golpe militar de 1964.

                Este relato busca recuperar algo que aconteceu há 50 anos e que aparece na biografia do Prof. Fred S. Keller, agora contado do meu ponto de vista. Estávamos em São Paulo, devidamente enquadrados pela Profa. Carolina Martuscelli Bori, prontos para a viagem para Brasília, quando o golpe militar surpreendeu a todos. Os Keller já tinham chegado, indo para Brasília via São Paulo. Não sei o que aconteceu nos primeiros 15 dias depois do golpe militar de 1o de abril de 1964. Luiz Otávio de Seixas Queiroz, meu colega de apartamento em São Paulo, e eu nos mudamos para uma  casa de amigos. Notícias de colegas presos provocavam esse tipo de comportamento. Como terceiro vice-presidente do Grêmio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (aquele da Rua Maria Antonia) tinha herdado a presidência por desistência em série do presidente e outros vices durante a Greve do Terço da UNE, a greve pela participação dos estudantes nos órgãos colegiados da universidade. Era também membro da Ação Popular (fundada como braço político da Juventude Universitária Católica, a JUC) que se iniciava em São Paulo por influência do Betinho (o irmão do Henfil).  Até terminarem as notícias de prisões ficamos isolados, pois dizem que o seguro morreu de velho – afinal o prédio da UNE no Rio foi incendiado.
                Não me lembro como restabelecemos os contatos. Muito provavelmente procurei os Keller, pois habitualmente eram meus caronas para a Cidade Universitária – moravam no caminho. Não falavam quase nada de português, uma excelente oportunidade para desenvolver meus inglês incipiente. Nessas conversas fiquei sabendo, do lado deles, o que acontecia. As entradas do diário de Keller até 27 de abril mostram que estavam todos desorientados. Muito boatos, poucas notícias (Keller, 2009, p. 275). Não sabiam se os planos continuavam ou não, nem o que deveriam fazer em cada caso. Darcy Ribeiro enquanto reitor da UnB havia convidado Carolina Bori para implantar o Departamento de Psicologia e continuou a apoiar o projeto como Chefe da Casa Civil do Presidente João Goulart.
Em sua biografia Keller (Keller, 2009, p. 276) fala dessas conversas comigo. Esclareci que com o golpe ficamos desorientados, sem saber o que aconteceria com a Universidade de Brasília. A falta de notícias da Profa. Carolina provavelmente significava que ela também não tinha notícias. No dia 19 de abril Keller participou em São Paulo de uma reunião com Zeferino Vaz, na qual estavam lideranças como Crodowaldo Pavan e Antonio Cordeiro. Aí parece começar um período de mal entendidos que quase mata o projeto:
                “It was a period of confusion, of misunderstanding, and poor communications. As a result of that evening with Zeferino (in which Carolina was not present), the Americans were subjected to a gelo (a coolness, a cold shoulder) by the Brazilians and decided to withdraw from the project. We began procedures for our departure from Brazil. Our colleagues, in turn, decided to remain in São Paulo instead of going to Brasilia” (Keller, 2009, p. 275).
                O dia 27 de abril parece ter sido decisivo para a continuação do projeto no qual todos já tinham investido tanto. Keller fez uma palestra na PUCSP falando dos planos para Brasília (dos quais, segundo ele, já tinha desistido). Carolina Bori estava na audiência, com lágrimas nos olhos, segundo Keller.
                “João Claudio drove us home, where I was able to extract from him the source of our misunderstanding” (p.276).
                Por extract acima entenda-se o meu inglês. Naquela mesma noite Gil Sherman telefonou para os Keller exultante para dizer que os planos continuavam e iríamos todos para Brasília. Os Keller chegaram em 6 de maio de 1964.
                Já ouvi histórias sobre o comparecimento dos Keller a uma festa do Consulado Americano no dia 4 de abril, deixando furiosos seus colegas brasileiros. O diário de Keller registra uma festa no dia 4 onde “Everyone was there – alunos, professores, pessoas do Consulado Americano, e os amigos de 1961. Não diz quem organizou a festa, qual o motivo (homenagear os Keller?) nem desde quando estava marcada. Certamente quem foi circulava sem medo de ser preso. Como eu não circulava nesses dias, não tenho mais o que acrescentar.
                Por ocasião dos 50 anos do golpe militar que nos legou uma ditadura que durou 21 anos é importante contar para os mais jovens a falta que faz a democracia. Em sua coluna de 30 de março de 2014 a jornalista Tereza Cruvinel, ex-aluna da UnB, escreveu:
                “... a hora é de recordar para não esquecer, para que não sejam esquecidos os que foram sacrificados e para que não vinguem as narrativas que tentam relativizar os fatos. É preciso dizer que houve aqui uma ditadura que violou o estado de direito, cometeu crimes contra a humanidade, censurou, torturou e matou. “

                Segundo a jornalista Tereza Cruvinel, nesses 21 anos ocorreram 5248 cassações de mandatos e de direitos políticos, 5031 denúncias de torturas, 144 pessoas foram dadas como desaparecidas e 203 foram assassinadas por agentes da ditadura militar.

A UnB foi a universidade que mais sofreu durante a ditadura, com demissões de professores e expulsão de alunos. Até hoje não sabemos o que fizeram com o corpo do aluno Honestino Guimarães.


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Keller, F. S.  At my own pace, 

quarta-feira, 19 de março de 2014

Sobre economia comportamental, internet, redes e movimentos sociais.

Sobre economia comportamental, internet, redes e movimentos sociais.

Entrevista para CARLOS MULLER da ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JORNAIS motivada pelas manifestações de rua do ano passado, publicada no jornal da ANJ de agosto de 2013.

1.     1 -   A surpresa geral nos diz muito do estado das ciências humanas, especialistas em analisar o que se vê pelo espelho retrovisor. Os governos não previram porque seus especialistas em planejamento não foram treinados para prever, só para explicar. E muito do planejamento é wishful thinking. Parece faltar treinamento em previsão e controle, fator básico nas ciências naturais e quase nunca presente nas ciências humanas, muitas vezes por questões ideológicas. Na economia, por exemplo, modelos matemáticos sempre foram malvistos, tanto por marxistas quanto pelos fervorosos adeptos do mercado como solução para tudo, a mão invisível do John Adams.  Não foi a toa que durante o governo Clinton nos EEUU seus assessores econômicos, entre eles Janet Yellen,  se recusaram a regulamentar o mercado dos derivativos, um dos vilões da crise econômica mundial de 2008. Yellen agora diz que os mercados precisam de regulamentação para evitar abusos, garantir competição e prevenir interferências no crescimento econômico. Evitar, garantir e prevenir dependem da possibilidade de prever e controlar. Isso se aplica também à garantia de educação a partir dos primeiros anos de vida, ao acesso a um sistema de saúde voltado à prevenção de doenças, etc.

2.      2 - Em todos os casos a juventude ocupou as ruas para protestar. Que os motivos do protesto são muito variados não vem ao caso. O exemplo funciona como operação estabelecedora da motivação. O primeiro protesto era previsível e foi programado. O Movimento Passe livre não é propriamente clandestino. O momento foi perfeito para aproveitar a motivação indignada da população que depende dos ônibus para trabalhar. Não tenho os dados, mas acredito que outras motivações que levaram pessoas às ruas já estavam movimentando boa parte do tráfego na internet à época. Do Facebook à rua é um pulo.  Vi no “Globo Ciência” reportagem sobre pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro que estavam acompanhando essa movimentação na internet. Ainda não tenho o resultado da pesquisa. Sobre outros movimentos no mundo, eles são vistos de maneira diferente de acordo com seu ponto de partida. Se você quer entender o que cada movimento tem de diferente e característico, é só listar as diferenças. Se você quer saber por que e quando as pessoas ocupam as ruas para protestar, você vai buscar as semelhanças. As ciências naturais buscam semelhanças entre eventos que se repetem. Como exemplares da espécie humana compartilhamos da necessidade de atenção e da proximidade de nossos semelhantes. Fazer parte do grupo e obter atenção são dois dos reforçadores mais fortes para todos nós. A emoção que sentimos quando nos juntamos ao grupo na rua é muito forte.   

            3 A internet facilitou tudo: acesso à informação, troca de análises da informação recebida, proposta de ação, planejamento e divulgação de o que, quando, onde e por que. Não importa quem deu o ponta pé inicial, o importante é a quantidade de amigos virtuais que adere. Não há nada de espontaneismo. A falta de um líder tradicional que aponta o caminho e faz o chamado não importa, a liderança é difusa e coletiva.

4.      4 -  A internet modificou nosso comportamento em quase todas as esferas. Posso fazer o supermercado sem sair de casa. Continuo a me reunir com meus alunos de pós-graduação mesmo estando em outro país usando o Hangout do Google+. Se alguém está sozinho em casa e lê uma notícia que o deixa indignado rapidamente posta sua indignação no Facebook e imediatamente recebe o apoio de seus amigos virtuais. A facilitação de protestos na rua não é aspecto isolado. A internet facilita tudo. Para checar os primórdios do uso da internet para mobilização veja carrotmob.org.

5.       5 - A internet juntou as vantagens da TV, do rádio e do jornal, sem as desvantagens. A informação sobre eventos vem quase sem atraso, ilustrada, com vídeos, e por escrito, e de múltiplas fontes. E você ainda pode fazer assinatura do jornal para ler online, mesmo quando viaja para outro país. Não é à toa que os jornais estão em dificuldade. Há cinco anos o New York Times comprou o Boston Globe por uma fortuna, e acaba de vende-lo por uma pequena fração do preço que pagou. O NY Times faz mais propaganda da assinatura online do que a tradicional para entrega a domicilio.

6.       6 - Alguém ainda ignora o fato de que o que está na internet está na boca do povo? Quem escreve na internet está tão vulnerável quanto quem escreve no jornal ou dá entrevista para o rádio ou a televisão. A diferença é que na internet quem lê dá feedback imediato. O escritor fica muito mais sob o controle do leitor. Quem me censura não é mais o editor do jornal ou da revista, é diretamente o leitor.

7.       7 - Seria ingênuo esperar que quem tem acesso aos bilhões de informações disponíveis na internet não usasse isso para ganhar dinheiro ou aumentar seu poder. Como controlar isso é um problema global, a ser eventualmente resolvido em algum foro internacional. Recentemente o Secretário de Estado americano disse ao nosso Ministro das Relações Exteriores que os EEUU sim, fazem espionagem na internet e continuarão a fazer como maneira de nos proteger, ao mundo todo, dos males do terrorismo. Por enquanto não temos defesa contra essa intromissão. Se você não deixar de usar a internet, cuidado com o que escreve para não ser mal entendido.

8.       8 - Comprar é comportamento como outro qualquer, suscetível às consequências. Comprar um livro pela internet usando meu cartão de crédito e receber a compra em casa é muito mais fácil e barato do que pegar meu carro, dirigir até uma livraria e pagar mais caro. É verdade que depois do décimo livro a empresa sabe o tipo de livro que quero e me avisa que tem outros semelhantes para vender, aumentando a probabilidade de que eu compre mais livros do mesmo tipo. Mas é assim que a publicidade em geral funciona, não é? A diferença é que a internet dá à empresa informações mais precisas sobre mim, tornando a publicidade mais eficaz e eficiente.

9.       9 - Não vejo alterações nos processos mentais. Vejo melhor manipulação do ambiente para tornar meu comportamento de comprar mais provável. Vejo também feedback imediato para minhas mensagens. Feedback imediato é talvez a arma mais eficaz para influenciar comportamentos.

1     10-  Credibilidade é resultado de experiência bem sucedida. Preferência sobre uma fonte de notícias sobre outra é resultado, entre outros fatores, de credibilidade da fonte.

1    11 - Não vejo perigo para a democracia sempre que o cidadão for livre para buscar informações. Mas receber informações sobre o que já conhece diminui a chance de buscar outras fontes; o que não é muito diferente de comprar o jornal que pensa como ele e apoia seus candidatos. Não é diferente, mas é muito mais eficaz e eficiente do ponto de vista de quem controla a informação. Por isso não há democracia se os meios de comunicação são controlados pela censura prévia de governos. Toda proposta de regulamentação estatal da mídia deve ser vista com desconfiança.

1    12 -  Nunca houve tanto acesso a diferentes fontes de informação quanto este que a internet hoje possibilita. Quanto maior o acesso do cidadão à informação menos estará exposto à propaganda.

1    13 - Notícias boas têm efeito localizado; notícias ruins tendem a gerar disposição negativa. Talvez por isso os noticiários na TV tendem a colocar por último notícias boas que geram bom humor. Em termos técnicos eu diria que o gradiente de generalização para eventos aversivos é mais achatado.


1    14 -  Esse é maior perigo da internet, a banalização de tudo. Como todos podem falar de qualquer coisa é frequente ver opiniões estapafúrdias. Talvez seja o preço a pagar pelo maior e mais rápido acesso à informação. Agora, não há salvação para quem só recebe notícias via amigos do Facebook. Essa rede social é perfeita para quem estuda boatos, como se originam e como se propagam. Há um modelo matemático usado na física que descreve o que acontece na água quando aquecida até ferver. É um processo que começa lento, acelera devagar até o ponto de ebulição, quando muito rapidamente a água vira vapor. Algo parecido na estrutura parece acontecer com os boatos na internet quando a hashtag rapidamente vira trend. O boato vira notícia.

Comportamento, má fé e ignorância.


         Há alguns anos fui procurado para dar parecer sobre um texto escrito pela Sra Maria Leila Alves sobre Skinner. O trabalho saiu publicado com a tradução do livro de Louis M. Smith sobre B. F. Skinner como educador, na Coleção Educadores do MEC em parceria com a  Fundação Joaquim Nabuco e a Editora Massangana. Meu parecer contrário ao  adendo da Sra, Maria Leila Alves não foi considerado. Venho esclarecer que não apoio o que escreveu sobre Skinner, apesar de meu nome ser citado como Revisor Técnico. Se o MEC e a Unesco não desconsideraram minha opinião não deveriam ter usado meu nome. Acho abominável o dinheiro público ser usado para publicar baboseiras, slogans, aleivosias, e inverdades em geral. Vejamos alguns exemplos:

“(os estudos de Skinner) não levam em conta os aspectos simbólicos da natureza humana e da cultura.”  

Só quem não conhece Skinner pode dizer isso. Boa parte de seu livro “Ciência e Comportamento Humano” fala dos “aspectos simbólicos da natureza humana e da cultura”. 

 “(O behaviorismo) alastrou-se disseminando a ideia de que a aprendizagem dependia exclusivamente da fixação e extinção de comportamentos, recorrendo-se para isso a repetições acompanhadas de reforços positivos e negativos.”

Nem os behavioristas metodológicos dos anos 30 foram tão radicalmente simplistas.

“..a forma radical como Skinner aplicou os princípios de condicionamento operante na instrução programada e nas máquinas de ensinar contribuiu para que as concepções da aprendizagem significativa não tenham espaços nos procedimentos didático-pedagógicos até os dias atuais”.

         De que país a autora está falando?

“não basta transformar os meios para o ensino, se a concepção em que nos apoiarmos não considerar que o ser humano constrói o seu conhecimento e não apenas o reproduz, após um processo de condicionamento operante, princípio ligado à concepção behaviorista de aprendizagem”

      
   Mais uma demonstração cabal de completa ignorância, temperada com má fé. A autora escreve com a tranquilidade dos que são felizes porque não sabem que não conhecem o assunto.