Mostrando postagens com marcador reflexo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reflexo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de abril de 2015

A Sedução do Mentalismo.

A SEDUÇÃO DO MENTALISMO

ou

 A IRRESISTÍVEL ATRAÇÃO DO COGNITIVISMO

                Técnicas de relaxamento são mais antigas que andar para a frente. Consta que ao receber o veredito de expulsão do Paraíso, Eva teria dito a Adão:

                “Relaxa. Respire fundo. A cada dia os seus males. Nada como um dia depois do outro. Depois da tempestade vem a bonança. Mais vale quem cedo madruga do que quem Deus ajuda1. Casa de ferreiro, espeto de pau2.

                Relaxar quando não há mais nada a fazer, não há perigo na situação, é um santo remédio. Algumas religiões desenvolveram bastante técnicas para isso. Praticamente todas as terapias fazem uso dessas técnicas. Seu aprimoramento regular e sistemático é recente, as primeiras teorias ainda não completaram um século, e todas elas, de alguma maneira, se baseiam nas descobertas relacionadas ao condicionamento pavloviano. Mas aperfeiçoar uma técnica com base em avanço científico não a livra de seu passado. Praticamente tudo nos reflexos foi antecipado pela filosofia séculos antes de Pavlov. Veja-se, por exemplo, o tratamento de Spinoza da associação entre ideias. Não foi por acaso que as modernas teorias cognitivistas se apropriaram de técnicas respondentes para suas psicoterapias.
               



            1 -  Com o passar dos milênios essa frase de Eva passou a ser citada no sentido contrário.

2     2 -   Reclamando do fato de Deus não os ter feito à prova de tentações.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Lorismário Simonassi e a aprendizagem por canibalismo.

De Lorismário Simonassi

                               A planária que comeu a aprendizagem de outra planária.
                                                                                                                 Scrittore Traditore.

                               Existe uma grande quantidade de más informações nas academias.  Parece que na psicologia a frequência  é maior. Este tipo de divulgação é parecido com o que Sergio Porto imortalizou, lá pelos anos 60, com o título de FEBEAPÁ (FEstival de BEsteiras que Assolam o Pais). Eram sátiras que, naqueles anos, mostravam as confusões que pessoas faziam ao misturarem fatos de diversas épocas. Uma das mais famosas foi o samba intitulado por Stanislaw Ponte  Preta- pseudônimo de Sergio Porto (1968)- de Samba do Crioulo Doido. Voltarei ao samba.
                               Comumente, professores de outras áreas se aventuram a falar sobre o que não sabem. Um exemplo comumente citado é um pseudo-experimento feito com planárias por  Mc Connel (1962). Neste pseudo-experimento a uma planária apresenta-se uma luz seguida por um choque elétrico. Posteriormente só a presença da luz é suficiente para que a planária fuja da presença da luz e evite o choque.. Dá-se então a oportunidade  que planárias  canibalizem partes da planária “condicionada”. Afirma-se que a planária foi condicionada por um procedimento tipicamente Pavloviano ou Respondente. Posteriormente à planária “canibalesca” é apresentada a uma luz de mesma intensidade. Esta então passa a fugir da luz e evitar o choque. Diz-se que isto é um experimento que demonstra que a aprendizagem foi “digerida” pela planária “canibal” e que o comportamento de fugir da luz e esquivar ao choque foi transferido para a planária canibal ao ingerir o RNA da planária condicionada.
                                Alguns comentários:
1-      Não se testou previamente se a planária comelona já fugia das luzes. Não é preciso, pois estes vermes são fotofóbicos, isto é, tem respostas de fugir da presença da luz. Elas fogem também da presença de choques elétricos. Portanto se tivesse sido feita uma Linha de Base, o experimentador teria que tomar uma de várias outras possíveis decisões, a saber: 1-trocar a luz por um estímulo neutro relativo à sensitização(sensibilização) ,isto é, um estímulo que não fosse um estímulo incondicionado sensibilizador pois nos procedimentos Pavlovianos NÂO EXISTE emparelhamento de dois estímulos INCONDICIONADOS   no caso, luz/choque uma vez que já são sensibilizadores. 2- Trocar de animal, isto é , usar um animal no qual a luz não fosse um estímulo incondicionado. Por exemplo, um cachorro, pois este também teria um sistema nervoso mais evoluído do que a planária, pois nas planárias o sistema nervoso é rudimentar. Por rudimentar, define-se que possuem  “um anel nervoso ligado a cordões longitudinais ou por um par de gânglios cerebroides”, isto é, tem funções semelhantes às funções mais elementares de cérebros ainda muito pouco desenvolvidos. Exemplo, o cerebroide  das planárias é inferior ao das minhocas pois, as minhocas são anelídeos, organismos superiores aos platelmintos (planárias).
2-      Caso o teste fosse feito em Linha de Base  (cf. Sidman, 1960)  a planária “canibal” já teria apresentado o comportamento de fuga. Portanto o que esta planária comeu não foi a aprendizagem, mas sim proteína.
3-      O delineamento deveria ser feito tipo N=1,  n vezes, ou seja, fazer a sequencia de  Linha de Base → Emparelhamento de Estímulos → Linha de Base.

A despeito da vasta literatura sobre sensibilidade de estímulos (cf. Jenkins, 1977) a divulgação de achados no mínimo controversos continua a ocorrer. Até mesmo expectativas de “pílulas da aprendizagem ou memória” são ditas nas salas de aula. Não é novidade, pois foi o próprio Mc Connell que difundiu a ideia em suas apresentações lá pelos anos de 1964. Até hoje são esperadas as tais pílulas embora, estudos refutativos por falta de CONTROLE EXPERIMENTAL sejam vastos na literatura especializada.  Por exemplo, Hartry, Keith-Lee e Morton (1964) replicaram o experimento de MC Connel (1962) e concluíram que:
                                              “os resultados não provam que memória não possa ser transferidas via canibalismo, porem teorias alternativas que enfatizam ativação e sensibilização  podem ter sido as variáveis responsáveis das respostas de fuga e esquiva nas planárias canibais”.
                                              Desde 1962 até os dias de hoje as tais “pílulas de memória” não surgiram. Eu faço uma sugestão.  Se uma criança aprendeu a ler é suficiente que gotículas de sangue dessa criança sejam misturadas com água e açúcar para ser mais apetitosa e distribuída para crianças analfabetas beberem. Como existem moléculas de DNA e RNA no sangue dos organismos, o problema da leitura estará resolvido. Enquanto isto os Analistas do Comportamento irão ensinar seus filhos a ler através das técnicas convencionais ou quando muito, usar um procedimento de Aprendizagem sem Erro (cf. Terrace, 1963) ou de Equivalência de Estímulos (cf. Sidman,1982) para que seus filhos continuem aprendendo a ler caso tenham dificuldade em aprender.
                                              Voltando ao Samba do Crioulo Doido de Stanislaw Ponte Preta desejo colocar uma pequena parte:
                                  “Foi em Diamantina onde nasceu JK que,  a princesa Leopoldina arresorveu se casá. Mas Chica da Silva, tinha outros  pretendentes e convenceu a princesa a se casá com Tiradentes.”

            Enquanto a pílula não vem, aprendam o restante do samba  pode ser aprendido ou canibalizado. É muito interessante. Para terminar vou transcrever o que meu amigo João Claudio Todorov (2014) escreveu em seu Blog: “ Há pessoas que escrevem com a tranquilidade dos que são felizes porque não sabem que não conhecem o assunto”.

                Referencias

Hartry, A. L; Keith-Lee, P. and Morton, W. (1964). Planaria Memory transfer through cannibalism reexamined. Science, New Series, Vol. 146, N° 3641. (Oct. 9,) pp. 274-275.

Jenkins, H.M. (1977). Sensitivity of Different Response System to Stimulus-Reinforcer and Response-Reinforcer Relations.In Hank Davis & Harry M. B. Hurwitz. Cap. 3. New York ; John Wiley & Sons.

Mc Connel, J. V. (1962). Journal Neuropsychiatry, 3 (Suppl. 1) S 42.

Pavlov. I.P. (1927) Conditioned Reflexes . tr. G.V. Anrep.London: Oxford University Press.

Porto, S. (1968). Na Terra do Crioulo Doido: a máquina de fazer doido. Editora Sabia: Rio de Janeiro.

Sidman, M. (1960). Tactics of Scientific Research. Cap. 11. New York: Basic Books, Inc.,Publishers.

Sidman, M. & Tailby, W. (1982). Copnditioned discrimination VS matching to sample: an expansion of the testing paradigm. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 37 (1), 5-22.

Terrace, H.S. (1963).Discrimination learning with and without “errors”. Journal Experimental Analysis of Behavior, 1963, 6, 1-27.



terça-feira, 1 de abril de 2014

Como reconhecer um analista do comportamento

Para o behaviorista um assunto muito rico e interessante é o uso de termos e conceitos por outros psicólogos quando oferecem explicações para comportamentos. Reconhecer que não temos resposta para uma questão é tão importante quanto saber a resposta; se não reconhecemos a ignorância fica difícil sair dela. É melhor ficar sem resposta para uma pergunta quando não se tem certeza da resposta. Isso vale tanto para o pesquisador estudando um fenômeno quanto para o profissional atendendo um cliente. A Análise do Comportamento não é uma teoria acabada, é um modo de buscar respostas. Ideias, conceitos e teorias, como resultados de comportamento humano, estão sempre submetidos ao processo de seleção por consequências, inclusive a teoria skinneriana dos três níveis de seleção por consequências.
Com certa frequência faz-se menção à Análise do Comportamento como Análise Experimental do Comportamento, um método, uma área, uma filosofia, uma tecnologia (por exemplo, o “método ABA” para o tratamento do autismo). Essa prevalência da parte sobre o todo se deve provavelmente a uma ênfase na experimentação. Supõe-se que o analista do comportamento manipula alguma variável independente e observa cuidadosamente o efeito em alguma medida do comportamento. A Análise do Comportamento tem alguns pontos muito distintos de outros que prosperam na psicologia, como pesquisas de laboratório animal com análise experimental do comportamento de indivíduos (n = 1) – mas não se resume apenas à análise experimental do comportamento de indivíduos, nem no laboratório, nem no consultório clínico. Sua marca mais distinta é a linguagem teórica, o cimento que une todos os tipos de atividades compreendidas sob essa rubrica, marca, ou o que seja.
            Experimentação com n = 1 é a grande contribuição de Skinner para a psicologia experimental dos anos 30 do século passado. Trouxe de seus estágios nos principais laboratórios de biologia de Harvard. Junto com a taxa de respostas por unidade de tempo e os esquemas de reforço intermitente, forma o trio de ouro de Skinner. Mas nem ele ficou só na análise experimental do comportamento de organismos individuais (n = 1). Logo de início em Ciência e Comportamento Humano Skinner mostrou como se pode avançar analisando exemplos da vida diária à luz da teoria. E é essa teoria, que começa a ser desenvolvida em O Comportamento dos Organismos (1938) e continua sendo desenvolvida até hoje, e continuará a ser desenvolvida pelas futuras gerações, a teoria que faz a conexão entre os diferentes campos de atuação da Análise do Comportamento: pesquisa básica, pesquisa aplicada, atuação profissional, análise funcional, análise conceitual, etc.
            A Análise do Comportamento é mais do que análise experimental. Ao escrever sobre o comportamento humano Skinner (1953) foi muito claro a esse respeito. Parafraseando Skinner, descrevo a Análise do Comportamento como um conjunto de atitudes, uma disposição para estudar comportamentos ao invés de lidar com o que alguém disse sobre o comportamento, uma vontade de aceitar os fatos sobre o comportamento mesmo quando esses fatos se opõem aos nossos desejos, uma disposição para ficar sem uma resposta até que uma satisfatória seja encontrada. É uma busca de ordem, de uniformidades, de regularidades, de relações funcionais entre ambiente e comportamento (Skinner, 1953, pp. 12-13). Uma ciência do comportamento trabalha com informações provenientes de várias origens: observações casuais, observação de campo controlada, observações clínicas, observação em instituições sob condições rigidamente controladas, e estudos de laboratório (Skinner, 1953, p. 37).
            Qualquer que seja a área, o objetivo, o método, o analista do comportamento trabalha com alguns conceitos básicos, suas ferramentas de ofício. O primeiro é o de contingência. Uma contingência é uma relação condicional entre eventos no ambiente afetando comportamentos respondentes, ou entre eventos no ambiente e comportamentos operantes. No laboratório o pesquisador controla e manipula contingências; na prática profissional o analista do comportamento identifica, analisa, modifica, ou ensina seu cliente a identificar, analisar e modificar contingências. O analista do comportamento reconhece que um estímulo pode ter múltiplas funções, como ser eliciador de respostas reflexas, reforçador (quando consequente) ou discriminativo (quando antecedente) de respostas operantes, e reconhece o poder multiplicador e o controle exercido por abstrações derivadas de contingências quádruplas bem como o papel de operações motivadoras e estabelecedoras.

            E o comportamento, o que é? O que é comportamento? Tudo o que a pessoa faz que possa ser analisado, inclusive o que ela diz, o que ela pensa, o que ela fala para si mesma, inclusive o que ela fala sobre o que pensa. 

terça-feira, 29 de junho de 2010

Receita para ser feliz: não saber que não sabe.

No dia 18 de junho, em um evento realizado pela organização “Movimento Orgulho Autista Brasil” no IESB, um conferencista apresentava os pormenores de sua abordagem com crianças diagnosticadas como autistas quando explicitou a vantagem do que fazia sobre a análise do comportamento (que ele chamou de “método ABA”):
“Não usamos condicionamento nem adestramento”.
Ao saber disso lembrei-me de uma seqüência de artigos no jornal New York Times sobre o que não sabemos que não sabemos.
htpp://opinionator.blogs.nytimes.com/2010/06/20/the-agnosognosics-dilemma-1/
Um médico que ignora que não sabe tudo sobre uma doença tende a dar o diagnóstico mais simples e errado com muita convicção. O advogado mal preparado tende a não usar um argumento chave para ganhar a causa por não saber que o argumento existe. O psicólogo que afirmou com tanta certeza que não usa condicionamento nem adestramento em frente de analistas do comportamento é um exemplo de alguém que não sabe que não sabe.
Ele não sabia que não sabia o que é análise do comportamento.
Ele não sabia que o método que usa aproveita técnicas desenvolvidas pela análise do comportamento, como a escolha conforme o modelo (matching to sample).
Parte da culpa por erros como esse é nossa. Já falei sobre isso em “Controle aversivo e interações entre operantes e respondentes” abaixo, dia 19 de abril de 2010. Está na hora de parar de usar termos pavlovianos quando falamos em comportamento operante. Eu uso comportamento quando falo de operantes e reflexo quando falo de respondentes. Vamos restringir o termo condicionamento ao seu sentido original, como os leigos o usam. Trabalhamos com condicionamento reflexo e aprendizagem operante.