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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Memórias da reitoria:  Um analista do comportamento na reforma agrária.

Memórias da reitoria:  Um analista do comportamento na reforma agrária.

http://www.redesrurais.org.br/wp-content/uploads/…/10/19.pdf
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“Para o Coordenador do Setor Nacional de Educação, Edgar Kolling, foi este cenário favorável à acessão da luta pela reforma agrária no país que criou espaço para que se criasse o I Enera (Encontro Nacional), organizado na UNB a partir da iniciativa de seu então reitor João Claudio Todorov, que se tornou o primeiro coordenador do Pronera."

"Segundo o histórico do Pronera, realizado por Molina e de Jesus (2010), o Pronera “foi gestado neste encontro” que também celebrava os 10 anos do Setor de Educação do MST. Kolling conta que neste 1º Enera “eram previstas 400 pessoas e apareceram 700”, para ele, resultado “do calor da Marcha de 1997”. Antes do encontro, membros do Setor de Educação fizeram uma visita a Todorov, para convidá-lo para fazer parte da mesa de abertura e foi quando o então reitor teria sugerido: “Por que a gente não pensa um programa nacional de formação de professores de reforma agrária?” Com essa ideia na mão, os coordenadores do MST “juntaram os professores universitários durante o encontro, encheram uma sala e fizeram uma conversa”. Das 700 pessoas presentes no encontro, 50 eram professores universitários. Foi esse grupo, recorda Kolling, quem “deslanchou o que seria o Pronera”. “

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A universidade brasileira e as verdades do Professor Dianese.

A universidade brasileira e as verdades do Professor Dianese.

            Das alegadas vinte verdades, concordo com quase todas. Há, porém, alguns exageros e pelo menos duas ou três informações erradas.

Antes da grande greve, a UnB, graças à sua renda própria, podia e legalmente pagava salários melhores do que todas as outras federais - passou a depender da tabela nacional ditada pelo Mec.

Errado. A UnB nunca pagou salários com recursos gerados por seu patrimônio. A isonomia entre universidades fundacionais ocorreu porque docentes no Acre ganhavam mais que na UnB, por exemplo. A isonomia entre fundacionais e autárquicas ocorreu porque estas pagavam salários ridículos. A médio prazo tivemos um nivelamento pela média, todas sendo tratadas como autárquicas. Do governo Sarney para cá nenhum presidente quis encarar o próximo passo: o país não tem recursos para ter 60 universidades federais de ponta, internacionalmente respeitadas, nem tem coragem de estabelecer um ranking com base em vocação e competência. As 60 competem por recursos federais amparadas por seus padrinhos políticos, como qualquer prefeitura do interior. Voltar a 1960 e tratar a UnB como fundação, nem pensar. A pressão política contrária das outras 59 seria esmagadora.

            Sobre o patrimônio da UnB, até 1985 praticamente não saiu do papel. Perderam-se nos desvãos da ditadura as ações da Rádio Nacional, por exemplo. As projeções (terrenos) para construção de edifícios residenciais e comerciais foram tratadas ora como patrimônio para renda, ora como recursos para consumo ou investimento no campus – residências para os professores não eram construídas desde 1964. A política iniciada em 1994, de troca de terreno área por construída, rendeu dividendos que propiciaram a administrações seguintes praticamente igualar com recursos próprios o que recebe do tesouro para consumo. Hoje até esses recursos estão engessados, a UnB precisa de autorização do governo para usá-los.

            O corporativismo é filho do diabo, todos sabemos. Menos quando atua em nosso favor. Sou suspeito para falar da eleição para reitor porque fui eleito no primeiro turno no sistema paritário não universal (peso de 1/3 para a votação de cada segmento – e ganhei nos três segmentos). Nossa atuação entre 1993 e 1997 não deve ter sido ruim pois o reitor eleito em 1997 e reeleito em 2001 participou da administração como decano e tinha nosso apoio. Já o sistema norte-americano de carreiras separadas de administração e docência, e escolha do reitor apenas pelo Conselho Diretor (como foi feito na UnB de 1961 a 1964), certamente teria gerado, a partir da eleição do Presidente Lula, reitores do partido do governo ou da base aliada. Que tal um pastor como reitor?

            Defensores da escolha do reitor por conselhos independentes costumam citar Harvard e outras universidades de ponta como exemplo. Mas mesmo nos Estados Unidos há universidades nas quais o técnico de futebol americano ganha mais e tem mais poder que o reitor. Conheço um caso de uma reitora que mandou cortar árvores do campus e plantou flores, para alegrar a universidade; não durou muito, porque os docentes protestaram.

Compromissos eleitorais podem levar ao mau uso do patrimônio.  A UnB deu a seus imóveis no campus, uma aplicação mais social do que acadêmica. O destino deles deveria se limitar ao uso para atrair docentes para uma cidade de alto custo de aluguéis e para abrigar estudantes - inclusive e talvez principalmente, estudantes de pós-graduação.

            Verdade. A tabela de pagamento subsidiado do aluguel de apartamentos para professores e funcionários foi atualizada pela última vez em novembro de 1993. Quando a maioria de votantes mora nos apartamentos que terão o aluguel reajustado dá nisso, como já previa a Tragédia dos Comuns.

Em segundo lugar, o futuro da universidade depende da implantação de um sistema de concurso público para docentes com um regime especial. Há que se legislar! O atual sistema tem de ser modificado.”

            Outra verdade, decorrente de serem autarquias as universidades federais. E qualquer iniciativa para tratamento diferenciado para todas as universidades federais vai encontrar rejeição feroz dos outros sindicatos de servidores públicos.

Finalmente, a indispensável inserção internacional depende de produção de alto nível. Na universidade eficaz, em todo o mundo, isto depende de estudantes de pós-graduação. Para isso, devem ser proibidas as chamadas teses de gaveta- sabe-se de situações em que se orientou uma dúzia de alunos e praticamente nada se publicou ao custo de quase um milhão de reais apenas em bolsas; pior ainda existem ainda entre nós pessoas, até coordenador de pós-graduação, que consideram um absurdo gastar dinheiro com pesquisa e publicar no exterior, como se a ciência fosse compartimentada e não pertencesse à humanidade.


            Outra verdade. Somos reforçados pelas agências de fomento pelo número de teses e dissertações que orientamos, pela participação em bancas examinadoras, mas não há qualquer consequência para não publicar essas teses e dissertações. Será que isso não gera uma baixa nos critérios para aprovação das bancas examinadoras? Que tal exigir que pelo menos um artigo seja publicado em revista de uma lista aprovada pela agência de fomento, com os nomes dos integrantes da banca examinadora em nota de rodapé?

domingo, 30 de março de 2014

Sobre ditaduras e incertezas após o golpe militar de 1964.

                Este relato busca recuperar algo que aconteceu há 50 anos e que aparece na biografia do Prof. Fred S. Keller, agora contado do meu ponto de vista. Estávamos em São Paulo, devidamente enquadrados pela Profa. Carolina Martuscelli Bori, prontos para a viagem para Brasília, quando o golpe militar surpreendeu a todos. Os Keller já tinham chegado, indo para Brasília via São Paulo. Não sei o que aconteceu nos primeiros 15 dias depois do golpe militar de 1o de abril de 1964. Luiz Otávio de Seixas Queiroz, meu colega de apartamento em São Paulo, e eu nos mudamos para uma  casa de amigos. Notícias de colegas presos provocavam esse tipo de comportamento. Como terceiro vice-presidente do Grêmio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (aquele da Rua Maria Antonia) tinha herdado a presidência por desistência em série do presidente e outros vices durante a Greve do Terço da UNE, a greve pela participação dos estudantes nos órgãos colegiados da universidade. Era também membro da Ação Popular (fundada como braço político da Juventude Universitária Católica, a JUC) que se iniciava em São Paulo por influência do Betinho (o irmão do Henfil).  Até terminarem as notícias de prisões ficamos isolados, pois dizem que o seguro morreu de velho – afinal o prédio da UNE no Rio foi incendiado.
                Não me lembro como restabelecemos os contatos. Muito provavelmente procurei os Keller, pois habitualmente eram meus caronas para a Cidade Universitária – moravam no caminho. Não falavam quase nada de português, uma excelente oportunidade para desenvolver meus inglês incipiente. Nessas conversas fiquei sabendo, do lado deles, o que acontecia. As entradas do diário de Keller até 27 de abril mostram que estavam todos desorientados. Muito boatos, poucas notícias (Keller, 2009, p. 275). Não sabiam se os planos continuavam ou não, nem o que deveriam fazer em cada caso. Darcy Ribeiro enquanto reitor da UnB havia convidado Carolina Bori para implantar o Departamento de Psicologia e continuou a apoiar o projeto como Chefe da Casa Civil do Presidente João Goulart.
Em sua biografia Keller (Keller, 2009, p. 276) fala dessas conversas comigo. Esclareci que com o golpe ficamos desorientados, sem saber o que aconteceria com a Universidade de Brasília. A falta de notícias da Profa. Carolina provavelmente significava que ela também não tinha notícias. No dia 19 de abril Keller participou em São Paulo de uma reunião com Zeferino Vaz, na qual estavam lideranças como Crodowaldo Pavan e Antonio Cordeiro. Aí parece começar um período de mal entendidos que quase mata o projeto:
                “It was a period of confusion, of misunderstanding, and poor communications. As a result of that evening with Zeferino (in which Carolina was not present), the Americans were subjected to a gelo (a coolness, a cold shoulder) by the Brazilians and decided to withdraw from the project. We began procedures for our departure from Brazil. Our colleagues, in turn, decided to remain in São Paulo instead of going to Brasilia” (Keller, 2009, p. 275).
                O dia 27 de abril parece ter sido decisivo para a continuação do projeto no qual todos já tinham investido tanto. Keller fez uma palestra na PUCSP falando dos planos para Brasília (dos quais, segundo ele, já tinha desistido). Carolina Bori estava na audiência, com lágrimas nos olhos, segundo Keller.
                “João Claudio drove us home, where I was able to extract from him the source of our misunderstanding” (p.276).
                Por extract acima entenda-se o meu inglês. Naquela mesma noite Gil Sherman telefonou para os Keller exultante para dizer que os planos continuavam e iríamos todos para Brasília. Os Keller chegaram em 6 de maio de 1964.
                Já ouvi histórias sobre o comparecimento dos Keller a uma festa do Consulado Americano no dia 4 de abril, deixando furiosos seus colegas brasileiros. O diário de Keller registra uma festa no dia 4 onde “Everyone was there – alunos, professores, pessoas do Consulado Americano, e os amigos de 1961. Não diz quem organizou a festa, qual o motivo (homenagear os Keller?) nem desde quando estava marcada. Certamente quem foi circulava sem medo de ser preso. Como eu não circulava nesses dias, não tenho mais o que acrescentar.
                Por ocasião dos 50 anos do golpe militar que nos legou uma ditadura que durou 21 anos é importante contar para os mais jovens a falta que faz a democracia. Em sua coluna de 30 de março de 2014 a jornalista Tereza Cruvinel, ex-aluna da UnB, escreveu:
                “... a hora é de recordar para não esquecer, para que não sejam esquecidos os que foram sacrificados e para que não vinguem as narrativas que tentam relativizar os fatos. É preciso dizer que houve aqui uma ditadura que violou o estado de direito, cometeu crimes contra a humanidade, censurou, torturou e matou. “

                Segundo a jornalista Tereza Cruvinel, nesses 21 anos ocorreram 5248 cassações de mandatos e de direitos políticos, 5031 denúncias de torturas, 144 pessoas foram dadas como desaparecidas e 203 foram assassinadas por agentes da ditadura militar.

A UnB foi a universidade que mais sofreu durante a ditadura, com demissões de professores e expulsão de alunos. Até hoje não sabemos o que fizeram com o corpo do aluno Honestino Guimarães.


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Keller, F. S.  At my own pace,