quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Quem inventou o "cantinho do castigo"?

Quem inventou o “cantinho do castigo”?
            O uso do timeout na vida diária tem sido atribuído à popularização de procedimentos terapêuticos originados na Análise do Comportamento. Ferster e Skinner (1957) usaram e definiram o termo  em seu enciclopédico livro sobre esquemas de reforço. Ferster também  o usou logo a seguir (Ferster, 1957). Em português os primeiros trabalhos envolvendo o conceito são de 1971; dada a dificuldade de usar um só termo que traduza o sentido, traduziu-se a definição: suspensão discriminada da contingência de reforço (Todorov, 1971). Obviamente a tradução não “pegou”, e ainda menos sua sigla – SDCR. Adotamos de tal maneira o timeout do inglês que já sugeri (brincando) seu aportuguesamento: taimaute.
            Um trabalho recente, exaustivo, sobre as primeiras publicações em Análise Comportamental Aplicada mostra que o timeout não foi inventado pelo Ferster. Morris, Altus e Smith (2013) argumentam que a prática é muito antiga:
            “Como um termo do vernáculo e como prática a origem de timeout ocorreu nos meados de 1800, quando significava um intervalo no trabalho ou nos esportes. Como prática no sentido moderno, é anterior à Análise do Comportamento. Provavelmente os pais já mandavam a criança se recolher a seu quarto como consequência de comportamento indesejado desde que as crianças passaram a ter seus quartos.”  (Morris, Altus e Smith, 2013, p. 87).
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Ferster, C. B. (1957). Withdrawal of positive reinforcement as punishment. Science, 126. 509.
Ferster, C. B., & Skinner, B. F. (1957). Schedules of reinforcement. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall.
Morris, E. K., Altus, D. E., & Smith, N. G. (2013). A study in the founding of Applied Behavior Analysis through its publications. The Behavior Analyst, 36(1), 73-107.

Todorov, J. C. (1971). Análise experimental do comportamento de escolha: algumas considerações sobre método em psicologia. Ciência e Cultura, 23, 585-594.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Qualquer forma de controle incomoda


            Um editorial da Folha de São Paulo de 19 de janeiro e um artigo na página de opinião do Correio Braziliense do dia anterior tocam num ponto sensível de todos nós: o desejo de não ser controlado. O editorial da Folha critica o uso do nudge (empurrãozinho) popularizado por dois psicólogos americanos por ser uma forma de controle. Parece partir do pressuposto que vivemos todos senhores de nossos destinos, no paraíso do livre-arbítrio: fi-lo por quer qui-lo, como diria o ex-presidente Jânio Quadros.  Trata-se de uma jóia do pensamento leigo, com pouco abrigo nas ciências sociais e na psicologia. Uma das tarefas da Análise do Comportamento é exatamente o de denunciar as formas de controle coercitivo nas quais se baseiam boa parte das sociedades modernas. Como disse Ortega y Gasset, nós somos nós e nossas circunstâncias; quando essas circunstâncias são controladas pela burocracia do Estado, o controle acontece via coerção, mesmo que essa coerção ocorra pela ameaça de retirada de algo do qual necessitamos. Controlamos e somos controlados em nossas relações pessoais, muitas vezes por ameaças veladas.
            Qualquer forma de coerção é ruim: coerção sempre gera propensão para fuga do assunto, da pessoa, do lugar, etc., e esquiva de oportunidades futuras de situações que possam ser coercitivas. A obrigação do analista do comportamento é socializar o que sabe sobre tipos de controle, e avisar aos navegantes: não há escapatória. A única saída é reconhecer que controlamos e somos controlados, e procurar fazer isso da forma mais amena possível. De preferência sem punição. Nesse ponto, o empurrãozinho da Folha é um achado para o Estado democrático quando precisa mudar comportamentos dos cidadãos para o bem deles e de toda a sociedade. Vejamos dois dos exemplos mais conhecidos de nudge: alimentação das crianças na cantina da escola e plano de previdência para garantir proventos na aposentadoria.
            Obesidade na população é um problema sério de saúde pública nos Estados Unidos e começa a ser também no Brasil. Uma das maneiras de se controlar a obesidade nas crianças seria controlar o que comem enquanto estão aos cuidados do Estado, na escola. Uma das maneiras de fazer isso seria só oferecer alimentos saudáveis na cantina. No país do individualismo  e dos direitos do cidadão esse tipo de controle é visto como intromissão indevida do Estado. A alternativa é continuar a oferecer a junk food tradicional (à base de trigo, carne e batata) e alternativas saudáveis. O conceito de nudge sugere colocar os alimentos saudáveis mais à vista, sem necessariamente esconder a batata frita, aumentando a probabilidade de que a criança se alimente melhor. Esse é o controle sutil condenado pelo editorial da Folha de São Paulo, como se fosse o primeiro passo em direção ao estado totalitário, ignorando-se tudo o que fazem os ministérios da saúde dos países em suas campanhas da saúde coletiva, muitas vezes coercitivas. A bem dizer, o nudge é um passo  em direção a menos controle, não mais.
Aposentadoria é assunto que tem tudo a ver com pesquisa básica em Análise Experimental do Comportamento e em Economia. É um exemplo de escolha intertemporal, ou autocontrole. No Brasil a contribuição para o fundo de aposentadoria é compulsória para empregados de empresas ou funcionários públicos, o governo já retira essa parte dos contracheques. Essa contribuição não é compulsória nos Estados Unidos. Empresas têm seus fundos de aposentadoria e o empregado contribui se quiser. O que se verifica é que  a adesão aos fundos é menor quando o empregado precisa pedir para participar do plano, quando comparada com a situação em que a contribuição é descontada em folha de todos os empregados, menos daqueles que pedem para não participar. Em nenhum dos casos se pode dizer que há coerção, mas o benefício a longo prazo é mais provável quando a pessoa precisa afirmar que não quer esse benefício.
            Nudge é uma forma de controle, é certo. No artigo do Correio Braziliense o jornalista André Gustavo Stumpf escreveu: “A luta do cidadão contra o Estado é constante, diária e impossível de ser conciliada. No pequeno espaço de minha autonomia, que começa nas restrições da gramática e termina no patrulhamento político, há algum espaço para o movimento”. Formar cidadãos é  cultivar esse “pequeno espaço” que nos permitem nossas escolhas passadas. Parafraseando Ortega y Gasset se poderia dizer: eu sou eu e as escolhas que eu fiz, pois eu faço minhas escolhas e minhas escolhas me fazem. Quanto mais soubermos sobre como nos controlam mais chances teremos de fazer melhores escolhas.



quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Autismo, Análise do Comportamento e disputas de mercado


                Três artigos na seção Tendências/Debates da Folha de São Paulo tratam de abordagens para o tratamento de crianças autistas. Nilde Franch escreveu “Autismo e Psicanálise” em 13 de setembro de 2013, Del Rey, Vilas Boas e Ilo escreveram “Análise do Comportamento e Autismo” em 25 de outubro, e Vera Regina Fonseca escreveu a tréplica, Questão Complexa, Abordagem Ampla”, em 19 de novembro. Os três textos só esclarecem quem não precisa ser esclarecido. Os argumentos parecem mais voltados para uma disputa de mercado, do tipo “Minha abordagem lava mais branco”. Como o texto da Dra. Vera Regina Fonseca pretende resumir, ressaltar ou rechaçar argumentos dos anteriores, comento aqui partes de seu artigo.
                No autista, o resultado é uma dificuldade básica em se relacionar com as pessoas, o que o impede de usar a ligação com os pais para a regulação emocional..”. Isso não é um  fato; trata-se no máximo de hipótese de trabalho, algo a ser comprovado empiricamente. Será mesmo que a “mãe-geladeira”, a mãe que rejeita o bebê e não estabelece laços emocionais com a criança é uma das causas do autismo? Se isso é fato, como detectar a futura mãe-geladeira nas mulheres grávidas? Como prepara-las, por meio de terapia, para a futura tarefa de cuidar do bebê humano?
                Por meio de recursos técnicos próprios, o trabalho psicanalítico objetiva reativar os caminhos do desenvolvimento relacional e compartilhar estratégias com os pais. Aviso aos distraídos: a autora não está falando do método terapêutico psicanalítico associado ao termo Psicanálise. Trata-se de  psicoterapia convencional baseada na teoria psicanalítica da personalidade. Para uma avaliação de resultados há que descrever quais são os métodos técnicos próprios, dizer como constatar empiricamente a reativação dos “caminhos do desenvolvimento relacional” e descrever as estratégias a serem compartilhadas com os pais. Atacar essa abordagem “psicanalítica” do autismo achando que se trata da técnica tradicional desenvolvida por Freud é dar um tiro no pé.
                Um dos argumentos da réplica é que as estereotipias do autismo se devem à falta de repertório e de integração. Existe tal déficit, mas ele é secundário ao prejuízo central na capacidade de se relacionar. Outra hipótese de trabalho; não há constatação empírica. O que vem primeiro, o prejuízo central devido ao desenvolvimento atípico do sistema nervoso  ou a falta de interações adequadas com o ambiente físico e social? Ou os dois fatores são secundários a um desenvolvimento atípico da integração dos órgãos sensoriais? Na falta de respostas baseadas em constatação empírica, há que evitar diagnósticos preconcebidos por qualquer teoria e tratar cada caso como se fosse único; a priori nenhuma aprendizagem é impossível.  Lembrem-se que autismo não é nome para diagnóstico, apenas resume o que se entende por um espectro que abrange uma variedade de “sintomas” ou “comportamentos inadequados”.
                                “... não é possível uma “religião” que determine a exclusão da psicanálise de um campo no qual ela tem 90 anos de experiência, já que Melanie Klein trabalhou com sucesso uma criança autista na década de 20, antes até da descrição feita por Leo Kanner.”  Parece que a “religião” mencionada é a Análise do Comportamento. Reconheço que um ou outro analista do comportamento dentre os que conheço costuma se apresentar como profeta, mas lembro que a exigência de comprovantes empíricos do resultado da terapia não foi inventada por nós. Isso é coisa do povo americano, que costuma cobrar resultados daquilo que é feito com o dinheiro deles.
              Caio Miguel, analista do comportamento  brasileiro radicado nos Estados Unidos, internacionalmente reconhecido como especialista em autismo, recomenda os sites a seguir para obter informações sobre as vantagens da abordagem:

http://www.nationalautismcenter.org/nsp/
além do documentario sobre psicanalise e autismo. http://www.youtube.com/watch?v=8vZk1soZAC0


João Claudio Todorov, analista do comportamento, é Professor Emérito e Pesquisador Associado da Universidade de Brasília.

                

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

AINDA SOBRE ANIMAIS USADOS EM PESQUISA

Transcrevo texto de especialista a mim enviado pela internet:




https://mail.google.com/mail/ca/u/0/images/cleardot.gif
Texto de Rogério Pietro Mazzantini
Como profissional da área de saúde com experiência em pesquisa, sinto-me na obrigação de esclarecer alguns aspectos dos testes realizados em modelos animais, especialmente porque a falta de informação pode levar a conclusões enganosas.

A legislação brasileira não permite testes de medicamentos e cosméticos em animais, ela os EXIGE. E é assim na maioria dos países desenvolvidos.

O caso da “geração talidomida” no final dos anos 50 é um bom exemplo para entender o motivo da existência de testes em animais. A talidomida é um medicamento lançado na Alemanha com indicação para combater o enjoo em mulheres grávidas. Naquele tempo, os testes em seres vivos eram pouco rigorosos, por isso a talidomida não foi testada em animais durante a gravidez. Como resultado, milhares de mães que usaram o medicamento enquanto esperavam bebês deram à luz crianças sem pernas e/ou braços, daí o nome de focomelia (de foca) para aquele tipo de deformidade. Mais de 10 mil crianças foram afetadas.

Para impedir ou reduzir os riscos de que casos assim se repitam, são usados modelos animais controlados por Comitês de Ética em Pesquisa Animal.

Nenhum medicamento ou cosmético pode ser comercializado sem que antes passe por estudos de diversas fases, sendo as primeiras em animais e, depois de constatada uma relativa segurança, em humanos.

Por isso, essas listas de empresas que “não usam animais para testes” só podem ser lamentadas. TODO cosmético ou medicamento industrializado passou por testes em animais, nem que tenham sido feitos em empresas terceirizadas em outros países apenas na fase inicial de pesquisa. Do contrário, não estariam no mercado.

Assim, por pura coerência, os ativistas de defesa dos animais talvez pudessem repensar o uso que eles fazem de cosméticos, maquiagens, batons, cremes de barbear, xampus, protetores solares, pastas de dente etc. Além disso, se eles realmente querem boicotar empresas que usam animais para testes, poderiam começar deixando de tomar qualquer tipo de remédio registrado, inclusive todas as vacinas, como BCG, tétano, sarampo, meningite, poliomielite etc.

Maus tratos a animais devem ser denunciados e PROVADOS, lembrando que foto em rede social não prova nada. A legislação é muito mais rigorosa com isso do que com maus tratos a crianças...

A informação é esta. O que cada um vai fazer com ela, vai da própria consciência.


ANIMAIS USADOS NO ENSINO

Em artigo publicado na revista online Comportese:,


Carlos Augusto de Medeiros escreve contra o uso de animais no ensino e na pesquisa. Sem mencionar a instituição, fala de seu arrependimento por ter no passado ensinado no IESB com o uso de animais. Talvez traído pela memória diz : “Infelizmente, aquela instituição onde trabalhávamos havia investido uma boa soma em caixas de Skinner importadas e voltamos a usá-las para o azar de muitos ratos."
                Surpreso com a afirmação, pois à época eu era Coordenador do Curso de Psicologia do IESB e sei muito bem que não foi isso que aconteceu, pedi a opinião do Prof. Márcio Borges Moreira, parceiro do Prof. Carlos Augusto de Medeiros no livro que usavam para ensinar Análise do Comportamento. Transcrevo a seguir os comentários do Prof. Márcio:



Não resta dúvida de que questões éticas em pesquisa e ensino, não só com animais, mas também com humanos são essenciais para o desenvolvimento dessas áreas. No entanto, tenho deixado a discussão sobre ética (com humanos também) e pesquisa com animais para outras (muitas) pessoas - principalmente em Psicologia, pois acho, como colocado pelo senhor, que há muita hipocrisia, além de não haver uma base clara para a discussão. Outro problema: as pessoas parecem “perder o bom senso” ao ouvir a palavra pesquisa. Não posso fazer uma pesquisa confinando humanos, com a permissão deles, no lab. e pagando por isso, mas posso fazer exatamente o mesmo se chamar de reality-show! O pai pode presentear o filho que foi bem na escola, mas não posso dar brinquedos para uma criança em uma tarefa experimental que não apresenta nenhum risco físico ou psicológico; posso pagar alguém para trabalhar em condições insalubres em uma mina de carvão, mas não posso pagar alguém para participar de uma tarefa experimental com papel e caneta - apenas para citar alguns exemplos.

Quanto ao que foi dito do IESB, o que está errado é dizer "Infelizmente, aquela instituição onde trabalhávamos havia investido uma boa soma em caixas de Skinner importadas e voltamos a usá-las para o azar de muitos ratos."

Para sorte de muitos alunos, voltamos a utilizar as caixas de Skinner. O desenvolvimento dos softwares, desde o início, foi para resolver o problema naquele semestre. Os resultados foram tão bons que decidimos usar os softwares com humanos como atividade extra. Salvo engano, não demos continuidade porque seria muita coisa para um semestre. Preferimos ficar com os ratos. Uma coisa que ninguém está comentando é que com o comportamento humano acontece muito mais coisa do que com o rato (efeito de história e controle por regras, por exemplo). Esse me parece um ponto chave para a discussão.

Contrariando minha regra de não fazer comentários sobre essas questões, abaixo estão  alguns comentários rápidos sobre alguns trechos do texto do Guto:

"Porém, não resta dúvida de que muitas pesquisas com esse perfil utilizam animais de forma desnecessária, produzindo um conhecimento com manipulações tão específicas de variáveis que nunca poderia ser generalizado para humanos."

Qual a base empírica para essa constatação? De alguma forma o senhor já contra-argumenta isso no seu texto.

"A velha desculpa do conhecimento pelo conhecimento não é suficiente para justificar, em absoluto, a exposição de animais não humanos a um sofrimento desnecessário."

Esse é um ponto que não vale a pena discutir: o conceito de "desnecessário" invalida a discussão. Mesmo chegando-se a um acordo de que há sofrimento, pelo menos em algum grau, fica um "eu acho necessário (justificável) e você não, e aí?"

"Mesmo que as pesquisas com não humanos produzam conhecimentos úteis na descrição do comportamento humano, ainda cabe a questão: o que torna a vida de um animal mais dispensável que a de um humano?"

Essa é uma pergunta absolutamente profunda e filosófica! Mas supondo que haja apenas duas respostas possíveis, nada ou "algum coisa", eu diria que se a resposta for "nada", toda a cultura e modo de produção de boa parte do mudo tem que mudar: animais para tração, alimentação - o próprio animal -, sequestrar os filhos da galinha para fazer omelete, jogar inseticida para matar ratos em casa, pegar nas tetas da vaca sem a permissão da mesma para extrair seu leite, arrancar sem dó nem piedade uma pobre tilápia de seu habitat natural para jogá-la na frigideira, etc.. Ah! E os deliciosos camarões? Pobres crustáceos! Deram azar de não serem mamíferos. Aliás os defensores dos animais, ou pelos menos grande parte deles, deveriam ser chamados de defensores dos mamíferos. E os insetos, que compõem o maior e mais largamente distribuído grupo de animais do mundo? O que fazer com seus zunidos e picadas? E o bicho-da-seda? Pobre ser subserviente cuja única função nesse mundo é nos servir para que não andemos pelados!

"Os sujeitos não humanos de pesquisa são gerados para passar a vida toda em uma gaiola que mal comporta as suas dimensões; pouco interagem com outros de sua espécie…"

Assim como a maioria dos bichinhos de estimação… 

"Os experimentos didáticos são replicações de estudos de mais de meio século. Esses experimentos já foram filmados e estão disponíveis em diversas mídias, inclusive no Youtube."

Se for só para ver, tudo bem, mas o importante não é a demonstração, e sim a prática do aluno. Eu mesmo sou responsável por boa das filmagens disponíveis hoje no Youtube. Complementam, mas não substituem a prática.

"Em primeiro lugar, os experimentos costumam ser feitos em grupos, nos quais há divisões de tarefas."

Um problema operacional do professor com grandes turmas não invalida a relevância das práticas com animais e permaneceria com a prática com humanos.

"Se nós somos analistas do comportamento e gostamos de bichos, devemos, pelo menos na nossa alçada, contribuir para o fim de sua exploração."

Particularmente penso que a questão não tem relação nenhuma com gostar de bichos ou com ser analista do comportamento.

Enfim, abusos existem e devem ser combatidos com agilidade e força. No entanto, generalizar todo o uso de animais em pesquisa como abusivo ou desnecessário já é demais. As respostas, de ambas as partes (dos prós e dos contras), talvez não sejam de utilidade porque a pergunta, pelo menos no momento, está errada (devemos fazer pesquisas com animais ou não?). Seria mais producente fazer perguntas como “quais as alternativas?”, “há estudos que possam validar a eficácia da alternativa?”, “é possível se fazer estudos para descobrir alternativas?”, "como desenvolver métodos que nos ajudem a pesar de forma um pouquinho melhor se os benefícios de uma pesquisa justificam seus procedimentos?".

Não havendo no momento alternativas, deveria ser questionado se um determinado uso específico de animais em pesquisa segue ou não padrões internacionais. Se segue, e ainda assim se considera errado, o primeiro passo seria questionar os próprios padrões e os órgãos responsáveis por eles, e não fazer apelos passionais para aqueles que realizam seus estudos seguindo todas as regras de cuidados com os animais. 


USO DE ANIMAIS EM PESQUISA E ENSINO E HIPOCRISIAS

Venho usando animais em pesquisas há quase 50 anos. Meu primeiro rato não tinha nome, a tarefa era obrigatória em disciplina obrigatória e eu já estava estagiando no que me interessava, organizações. Mas o rato sem nome e eu nos demos tão bem que fui convidado para monitor da disciplina, seguido por um convite para ser instrutor na nova Universidade de Brasília.
         Ainda na USP batizei meu segundo rato de Brasilino. Estava preparando um encadeamento de 22 passos para uma demonstração para alunos da UnB. O Brasilino e seu equipamento seriam levados para Brasília no primeiro semestre de 1963, mas como sempre acontece nossa mudança só ocorreu em maio de 1964. Em um mês o novo rato, Brasilino II, foi preparado para uma exibição na reunião de Ribeirão Preto da SBPC. Viajamos juntos de Brasília para Ribeirão, ida e volta, o Brasilino II levando  seu equipamento para exibições públicas. Os Brasilinos I e II ajudaram a introduzir a Análise do Comportamento no Brasil.
         Trabalhei muito com pombos e ratos em pesquisas que são citadas até hoje, em áreas como comportamento e contexto (comportamento é escolha, escolha é comportamento), generalidade das leis da aprendizagem ( a priori nenhuma aprendizagem é impossível) e parâmetros de estimulação aversiva (que até hoje servem para balizar o uso ético em pesquisas). São pesquisas básicas que subsidiam o desenvolvimento de estratégias para os trabalhos aplicados aos problemas humanos. Só negam essa importância aqueles que não aceitam a continuidade de processos comportamentais na escala evolutiva; os criacionistas, por exemplo.
         Por outro lado, há analistas do comportamento que são contrários ao uso de animais no ensino. Provavelmente são os que usam estratégias, métodos e técnicas sem saber como se desenvolve a teoria, e os que trabalham em instituições que não estão dispostas a investir em equipamento e custeio. Esses professores, quando vão a congressos, costumam ser assediados pelos donos e vendedores de softwares que substituem os ratos vivos por ratos virtuais. Para fins de ensino, é o equivalente aos cursos que ensinam estudantes de enfermagem a dar injeção em laranjas.
         A intenção de evitar sofrimento desnecessário aos animais é louvável, por isso temos os comitês de ética na pesquisa para examinar projetos. Só não vale hipocrisia. Nem acusar os colegas de torturadores hipócritas. Comer bife ou frango assado sem se preocupar com as condições de criação e de matadouros e abatedouros e reclamar do uso de animais em pesquisa e ensino é hipocrisia. E comer baby beef e vitela é apoiar o infanticídio...

 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

COMO DEFINIR COMPORTAMENTO?

            Os homens agem sobre o ambiente modificando-o (comportamento) e são modificados pelas consequências dessa ação sobre o ambiente (consequência).  Essa frase de B. F. Skinner é simples, direta e poderosa. Claramente identifica uma interação comportamento-consequência. Como é possível, então, definir comportamento como a interação organismo-ambiente? Autores que usam “comportamento” como sinônimo de “comportamento operante” sem avisar o leitor escrevem que comportamento é a interação organismo-ambiente, consubstanciada na contingência tríplice situação-resposta-consequência. Substituindo “comportamento” por essa definição temos: (A interação organismo-ambiente) é a (A interação organismo-ambiente)- consequência; um absurdo do tipo A é igual a A+B.
            Comportamento é muito mais que o operante (operante é uma das formas de comportamento). Sua definição como a interação da qual faz parte parece vir de uma confusão entre efeito e consequência. Um mero movimento de mão tem como efeito o deslocamento do ar, alguém acenando de volta é a consequência. Falar “bom dia” tem como efeito a produção de ondas sonoras, alguém responder “bom dia” é a consequência. Na linguagem leiga identificamos comportamentos por seus efeitos no ambiente e explicamos esses comportamentos por suas consequências. Entretanto, a definição usada por muitos analistas do comportamento toma efeito por consequência. A confusão parece vir da definição de reflexo por Skinner e por Keller & Schoenfeld. No comportamento reflexo a resposta não pode ser definida sem o estímulo eliciador, nem o estímulo sem a resposta eliciada. O equivalente no comportamento operante é a relação comportamento-efeito, não a relação comportamento-consequência.
Sobre efeito e consequência: correr é comportamento, certo? É definido pelo deslocamento rápido no espaço. Não preciso saber a causa para dizer que correr é comportamento. Já fuga, exercício, alcançar o ônibus são operantes definidos pela função da corrida.


            Dizemos que a criança está gritando pela intensidade do som produzido (efeito); dizemos que é birra pela consequência – o grito cessa quando a mãe dá atenção à criança. A consequência qualifica (birra) uma definição mais ampla (gritar). O grito é o comportamento, o qual é qualificado pela interação comportamento-consequência. Exemplos semelhantes são milhares: girar a maçaneta (comportamento), abrir a porta (operante);  correr (comportamento), pegar o ônibus (operante); correr (comportamento), fugir da chuva (operante), falar (comportamento), mentira (operante).