terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Discurso na cerimônia de outorga do título de Doutor Honoris Causa do Centro Universitário IESB.



Magnífica Reitora do Centro Universitário IESB, Professora Eda Machado, demais componentes da mesa, autoridades presentes, senhoras e senhores,

É com muita satisfação que recebo o título de Doutor Honoris Causa do IESB. Agradeço a homenagem, e gostaria de reparti-la com os professores que me formaram, com os alunos que me ensinaram, e com todos os colegas com os quais convivi, seja como aluno, como professor, como pesquisador, ou como administrador.

Nós fazemos nossas escolhas e depois nossas escolhas nos fazem. Muitas vezes não escolhemos o que escolher, alguém dispõe as alternativas e as oportunidades. As minhas certamente foram dispostas quando meus pais me matricularam no jardim da infância de Santo Anastácio, Estado de São Paulo e alguém decidiu que eu era bom em matemática, logo seria engenheiro. Esse futuro traçado pela família só se alterou na adolescência, quando o contato com aulas de filosofia me ofereceu a alternativa para a engenharia: psicologia. A partir daí devo agradecer a muitos que abriram perspectivas, novas escolhas e sucessivas novas perspectivas. Dentre esses muitos sobressaem Carolina Bori e Fred Keller.

Cada escolha também envolve perda. No meu caso, trocar a engenharia pela psicologia, e a clínica pela pesquisa, certamente me levaram a perder oportunidades, que permanecerão devidamente desconhecidas. Por outro lado, o contato com pesquisa básica em psicologia experimental me fez descobrir o prazer de descobrir e de ensinar a investigar -  e me levou a decidir pela carreira acadêmica em dedicação exclusiva. Depois de aposentado da Universidade de Brasília o IESB me ofereceu outra oportunidade, a de, começando com um esboço de currículo já preparado, planejar, implantar e coordenar um curso de psicologia moderno e de qualidade.

Foi uma experiência instigante, desafiadora, e altamente satisfatória. Devo esse prazer ao convite feito por duas pessoas que já conhecia de outras circunstâncias, a Reitora Eda Machado na UnB e o Prof. Edson Machado, no MEC.

Mas quero aproveitar esta ocasião especial para agradecer de público um apoio inestimável ao longo de minha carreira: Maria Silvia Ribeiro Todorov, minha mulher. E também aos nossos dois filhos, Julia e Francisco, por terem relevado minhas ausências. 

Sílvia, Júlia e Francisco merecem boa parte deste título.


sábado, 21 de novembro de 2015

Organismo, comportamento e ambiente..



Comportamento é daquelas palavras que todos usam, mas ninguém sabe bem o que é. Como ninguém pergunta, cada um usa como quer e acha que todos estão usando a palavra com a mesma definição (a sua, que não existe explicitada).  Entretanto, isso não é nenhum demérito para a psicologia, 
comportamental ou não. Acontece o mesmo com termos como reflexo e consciência, usados nos mais variados sentidos na biologia e na psicologia, muitas vezes sem mesmo tentativas de definição.

Dia a lenda que um famoso pesquisador do comportamento animal foi perguntado sobre o que era comportamento e que teria respondido; “Ora, comportamento todo mundo sabe o que é”.

Em 2012 escrevi um artigo despretensioso na revista “Perspectivas em Análise do Comportamento” intitulado “Sobre uma definição de comportamento”. Despretensioso porque não estava oferecendo qualquer definição do termo. Só argumentei que a definição de comportamento como interação organismo-ambiente era diferente da definição implícita no uso que os mesmos autores faziam do termo:

Uma resposta enganosa e tentadoramente simples é dizer que comportamento é a interação entre organismo e ambiente. ...  Organismos não vivem no vácuo. Não é possível ocorrer qualquer ação do organismo sem alguma relação com o ambiente, externo ou interno ao organismo. Isso é elementar. Por isso, dizemos que comportamento não é coisa; é processo. Qualquer instância de comportamento tem início, meio e fim. Para a psicologia, essa é sempre a nossa variável dependente, independentemente da topografia ou do tipo de relação com o ambiente que definem essa variável dependente (e.g., respondentes e afins, operantes, padrões fixos de resposta, etc.). Variáveis independentes são variações no ambiente que afetam a ocorrência desses comportamentos, seja como antecedentes (no respondente e afins) ou consequentes (no operante e afins). ”

A reação a esse artigo foi maior que o esperado. Nos dois números de 2013 da Revista Brasileira de Análise do Comportamento estão vários artigos que discutem esse assunto. No link abaixo está um desses artigos, parceria com Marcelo Borges Henriques.

De qualquer forma, o assunto é muito atual. Depois do número especial de 2013 da revista The Behavior Analyst, o segundo número do volume 38, de 2015, que acaba de ser publicado, traz artigo de Linda Hayes e Mitch Fryling, traz o artigo "A historical perspective on the future of behavior science", com, entre muitos outros assuntos, o seguinte:

"Oddly enough, aftter a hundred years of asking the question "What is behavior?", the answer remains the subject of debate."


http://www.periodicos.ufpa.br/index.php/rebac/article/view/2133/2436

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O que é autocontrole?

Autocontrole não é conceito nem termo técnico da Análise do Comportamento. Skinner escreveu sobre autocontrole, assim como escreveu sobre id, ego, superego, masoquismo, desejo, sublimação, etc., e nenhum deles é termo técnico da Análise do Comportamento. São termos da linguagem comum, ainda que propostos por outras abordagens da psicologia, e encontram-se definidos em qualquer dicionário. Na análise que faz desses termos Skinner os desmistifica.

“The individual often comes to control part of his own behavior when a response has conflicting consequences – when it leads to both positive and negative consequences”.

… “The positive and negative consequences generate two responses which are related to each other in a special way: one response, the controlling response, affects variables in such a way as to change the probability of the other, the controlled response”.
B. F. Skinner, Science and Human Behavior, 1953, p. 230-231.

Episódios explicados pela atuação de uma força interior hipotetizada são reinterpretados como demonstração da possibilidade de um comportamento controlar outro comportamento. Esses episódios costumam acontecer quando um comportamento pode ser ao mesmo tempo reforçado e punido, levando a um equilíbrio na probabilidade desse comportamento ocorrer ou não ocorrer. É possível diminuir a probabilidade de emissão de uma resposta punida manipulando-se algumas variáveis que tornam esse comportamento provável.  Skinner não inventou qualquer conceito novo para explicar isso. Vejamos um exemplo:

                Ao preparar uma lista de compras posso controlar meu comportamento de consumidor no supermercado. A resposta controladora é preparar uma lista, a resposta controlada é comprar. Note-se que preparar a lista não impede que eu compre algo que não devia, só diminui essa probabilidade.  Assim como eu controlo agora meu comportamento posterior no supermercado. a lista poderia ser preparada por outra pessoa, com o mesmo resultado. O controle é o mesmo, nos dois casos. Mas no primeiro o leigo diria que é uma demonstração de autocontrole. Mas nos casos o fator importante é a manipulação da variável independente, não importando o agente.

                Mais citado como exemplo de autocontrole na Análise do Comportamento, o procedimento desenvolvido por Rachlin foge à definição de Skinner, mas está de acordo com o entendimento do leigo. Trata-se de escolher entre um reforço mais imediato, mas de menor magnitude, e um reforço menos imediato (ou mais atrasado) mas de maior magnitude. A escolha “racional” seria esperar mais e ganhar mais, a escolha “impulsiva” seria preferir o reforço de menor magnitude. Mas não há resposta controladora, nem resposta controlada: não há “autocontrole” nem no sentido usado por Skinner. A escolha de uma ou de outra depende apenas dos valores relativos dos atrasos e das magnitudes, e pode ser prevista por uma equação que caracteriza a Lei da Igualação de Herrnstein, generalizada por Baum para mais de uma variável independente.
               

http://www.scielo.br/pdf/ptp/v18n3/a14v18n3.pdf

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Modelos experimentais de interações comportamento-ambiente: ansiedade, psicopatologia, autocontrole, etc.


                Analisar experimentalmente qualquer interação significa isolar para observação em laboratório essa interação (se possível), mantendo constantes variáveis potencialmente importantes, para identificar quais alterações possíveis naquele ambiente são importantes componentes da interação. Um modelo experimental clássico é o usado por W. K. Estes e B. F. Skinner, publicado em 1941 no Journal of Experimental Psychology:  “Some quantitative properties of anxiety”. Ratos trabalhavam em esquema de reforço positivo intermitente, mas de vez em quando um som era ligado segundos antes de um choque inevitável nas patas. No comportamento humano, ansiedade é um termo usado para descrever o comportamento em situações que sinalizam estímulos aversivos inevitáveis, mas isso não esgota o significado do termo quando aplicado a humanos. Seria mais adequado evitar o rótulo “modelo experimental de ansiedade” para o procedimento de Estes e Skinner. O procedimento estuda efeitos de estímulos associados a estimulação aversiva inevitável sobre o comportamento operante. E só. Daí para a frente entra a teoria e as interpretações que podem ser feitas, a partir de dados experimentais, observações na clínica, no ambiente natural, etc. como fez Ferster com a depressão (Ferster, 1973; veja abaixo link para o artigo).

Um problema nesta relação laboratório-clínica reside na ausência de clareza na comunicação. Muitas vezes usamos o mesmo nome para designar eventos ou processos diferentes. Em trabalho que deve ser publicado ainda este ano um conjunto de autores procura diminuir a confusão reconhecendo as diferenças entre conteúdo, processo e procedimento. Falamos de ansiedade como conteúdo quando descrevemos queixas de uma pessoa, falamos como processo quando interpretamos as observações à luz da teoria, e falamos como procedimento quando preparamos um ambiente experimental para estudar o papel de diversas possíveis variáveis importantes nesse processo.

Uma curiosidade: Ex-aluno de Skinner, Estes veio a ser um dos expoentes da Psicologia Cognitiva. 










Estes, W. K., & Skinner, B. F. (1941). Some quantitative properties of anxiety. Journal of Experimental Psychology, 29(5), 390.
Ferster, C. B. (1973). A functional analysis of depression. American Psychologist, 28(10), 857-870.


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Impulsividade e autocontrole como casos particulares da Lei da Igualação (Matching Law).



            Os gráficos abaixo são da segunda edição do livro “Learning”, 1984, de A. C. Catania, páginas 188-189 (do experimento de Rachlin e Green, 1972). A preferência pelo reforço menos atrasado e de menor magnitude (“impulsividade”) desaparece quando esse tempo do atraso para as duas alternativas é igualmente aumentado. O assunto é tratado como um modelo experimental de impulsividade e autocontrole, sem referência à equação generalizada de igualação (matching), aplicada a situações como essa, de decisões, escolhas e preferências. Mas há um senão, porém.
           
Ocorre que atraso é a recíproca de frequência. Em um esquema de reforço de intervalo variável de 1 minuto (VI 60s) cada resposta é reforçada em média a cada 60 segundos (1 R/60s). Logo, podemos dizer que o intervalo médio entre respostas reforçadas é equivalente a um atraso de 60 segundos (60s/R).
......
                        R1/R2 = k (F1/F2)a (M1/M2)b                (Baum, 1974)

onde R se refere à medida de comportamento, F à frequência do reforço, e M à sua magnitude. Os números identificam as alternativas, e as letras a sensibilidade do comportamento aos parâmetros do reforço.

            Se F for a recíproca do atraso nos experimentos de impulsividade, os dados de Todorov (1973) e de Todorov, Hanna e Bittencourt de Sá (1984, 1986) preveem que a preferência pelo reforço de menor magnitude diminui quando a diferença entre os atrasos diminui. Os expoentes encontrados para frequência (a) estão próximos de 1, e para magnitude (b) próximos de 0.5.
           

Seria mais razoável dizer que o modelo de Rachlin para autocontrole (Hanna & Todorov, 2002) é um caso particular da Lei da Igualação (Matching Law, Herrnstein, 1970).  


Baum, W. M. (1974). On two types of deviation from the matching law: Bias and undermatching. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 22, 231-242.
Catania, A. C. (1984). Learning. 2nd Edition. Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall.        
Hanna, E. S. & Todorov, J. C. (2002). Modelos de Autocontrole na Análise Experimental do Comportamento: Utilidade e Crítica. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 18(3), 337-343.
Herrnstein, R. J. (1970). On the law of effect. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 13, 243-266.
Rachlin, H. C., & Green, L. (1972). Commitment, choice and self-control. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 17, 15-22.

Todorov, J. C. (1973). Interaction of frequency and magnitude of reinforcement on concurrent performances. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 19, 451-458.
Todorov, J. C. (1991). Trinta anos de matching law: evolução na quantificação da lei do efeito. Anais da XXI Reunião Anual de Psicologia, 300-314.
Todorov, J. C. (2012). Quantificação da lei do efeito: o pressuposto da relatividade.   Em J. C. Todorov (Org.), A psicologia como estudo de interações. Brasília: Instituto Walden4, 2012.
Todorov, J. C., Hanna, E. S., & Bittencourt de Sá, M. C. N. (1984). Frequency versus magnitude of reinforcement: new data with a different procedure. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 41, 157-167.

Todorov, J. C., Hanna, E. S., & Bittencourt de Sá, M. C. N. (1986). Sensibilidade do comportamento à magnitude de reforços: efeito do número de condições experimentais com sessão longa. Psicologia. Teoria e Pesquisa, 2, 226-232.

domingo, 11 de outubro de 2015

Prefácio de Elenice Hanna para "A Psicologia como o Estudo de Interações".


Os textos compilados neste livro ilustram parte da grande contribuição que João Claudio Todorov tem dado à psicologia, e por suas publicações em português, à psicologia no Brasil. A sua primeira grande contribuição, ainda como aluno, foi traduzir em 1964/1965, junto com Rodolpho Azzi, o livro Ciência e Comportamento Humano de B. F. Skinner (publicação original datada de 1953, tradução publicada em 1967 pela Editora Universidade de Brasília). Como grande divulgador da análise do comportamento no Brasil, professor e pesquisador de renome internacional, João Claudio Todorov é um dos autores brasileiros mais citados e lidos nos cursos de psicologia.

A maior parte do livro Psicologia Como Estudo de Interações foi escrita no final da década de 80 como material didático que comporia um livro didático. O material acabou sendo publicado como artigos em diferentes periódicos, mas a ideia do livro foi retomada quando uma aluna de destaque de Todorov da Universidade de Brasília (Maísa Moreira) se prontificou a digitar vários dos capítulos. Em 2008 a ideia do livro foi retomada, agora com a ajuda de Márcio Borges Moreira, ex-aluno e então colega de trabalho de Todorov no Instituto de Educação Superior de Brasília - IESB, que revisou e organizou o material já digitado com auxílio da aluna Ana Claudia Peixoto Leal. O convite do Márcio à Todorov para publicar o livro pelo Instituto Walden4, atualmente uma fonte importante de material didático em análise do comportamento, foi aceito prontamente.

O título do livro Psicologia Como Estudo de Interações não poderia ser mais abrangente e, além de fazer jus à abrangência das publicações do autor que vai “da Aplysia à Constituição”, marca um dos mais impactantes artigos escritos pelo autor. Ainda me lembro da primeira vez que li este artigo (Capítulo 1), ainda como aluna de graduação da Universidade de Brasília, realizando pesquisas com o professor Todorov no Laboratório de Análise Experimental do Comportamento. O artigo, ainda em forma de manuscrito datilografado, deixou a mim e aos meus colegas impressionados com a forma como o texto consegue, não apenas mostrar a proposta da análise do comportamento de ter como objeto de estudo as interações, mas de integrar a psicologia em torno dessa visão. Apesar de sua primeira publicação datar de 1989, o texto continua atual e é parte das referências de programas de disciplinas de bons cursos de psicologia. O vídeo do eBook (www.walden4.com.br/pww4) com a entrevista do autor, além de complementar as informações sobre os assuntos tratados no texto, relata a metodologia de ensino baseada na análise do comportamento, que foi implantada no IESB na época em que Todorov era coordenador do curso de graduação. O papel do professor no Sistema Personalizado de Instrução (PSI), como salienta o autor, é de gerenciar o sistema de aprendizagem e não de apresentar oralmente a matéria, o que garante o papel ativo do aluno no processo de aprendizagem. Nessa proposta, o cuidado com a preparação do material didático é muito importante, pois é a partir dele que a motivação, compreensão, curiosidade e questões de interesse devem surgir. Quem teve o privilégio de ser aluno do Prof. Todorov sabe que ele realmente cria contingências para o aluno ser ativo no processo de aprendizagem.

A clareza conceitual do grande mestre e sua vasta experiência como pesquisador permeia toda a sua produção, inclusive a selecionada para este livro. Cinco capítulos são contribuições do autor sobre a linguagem e os conceitos da análise do comportamento. O segundo capítulo Behaviorismo e Análise Experimental do Comportamento é leitura essencial para compreender e diferenciar termos básicos e conceitos da análise do comportamento e psicologia comportamental, bem como seus pressupostos. Publicado em 1982, o artigo complementa o anterior ao esclarecer a filosofia behaviorista e a proposta da análise do comportamento.


O conceito de contingência, detalhado no terceiro capítulo, é básico, mas difícil de ser compreendido para iniciantes do curso de psicologia. A explicação do conceito, citando os vários tipos e pesquisas que utilizam diferentes contingências, mostra a sua abrangência e aumenta a possibilidade do leitor compreender a importância e utilidade do conceito tanto como instrumento de análise quanto como variável independente. Todorov amplia o uso do termo, que é utilizado por Skinner no contexto de condicionamento operante apenas. Este é um texto que deve ser relido em momentos diferentes do curso por aqueles que se interessam pela análise do comportamento e por pesquisa. O autor discorre, no capítulo quatro, sobre a evolução do conceito de operante desde a década de 30, como uma definição negativa a partir do que não é reflexo, até o uso mais aceito ainda hoje baseado nos três termos da contingência tríplice. A contingência tríplice, por ser considerada a unidade principal de análise na Analise do Comportamento, mereceu um texto específico. Esse capítulo é um dos que mais aprecio pela clareza como coloca os conceitos, pela forma como coloca a noção de multideterminação do comportamento, por tratar da relatividade da função dos eventos ambientais e do conceito de contexto. O Capítulo 6 (Da Aplysia à constituição: evolução de conceitos da análise do comportamento) reapresenta a evolução dos conceitos de respondente e operante, mas esse texto é apresentado de maneira diferenciada dos acima e o torna especialmente interessante: Todorov menciona fatos da história de vida e formação de Skinner para se compreender as propostas de mudanças conceituais e claramente estrutura o texto para que a visão do comportamento como produto de três níveis de seleção seja compreendida. Nesse texto, pela primeira vez, o autor passa a mudar seu olhar com maior direção para a seleção cultural. Importante mencionar, entretanto, que a visão global sobre as influências do comportamento está presente em muitas apresentações e atuações de Todorov em diferentes contextos sociais (Sociedades Científicas, Conselho de Psicologia, para citar alguns), mas a ênfase da seleção cultural na sua produção escrita é mais recente. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Contingências de reforço não geram robôs: múltiplas influências garantem variabilidade.


                A cultura na qual a pessoa nasce se compõe de todas as variáveis que a afetam e que são controladas por outras pessoas, escreveu Skinner em “Ciência e Comportamento Humano”. A cultura, nesse sentido, é enormemente complexa e extraordinariamente poderosa. Mas não gera robôs. Além de cada pessoa ser geneticamente única, a variabilidade é garantida por múltiplas contingências em diversas situações, muitas vezes em conflito. Skinner cita o exemplo da criança que é filha de imigrantes e que convive com regras diferentes em casa e no grupo de amigos. As várias agências de controle, como família, escola, governo, por exemplo, cada uma delas controlada por diferentes variáveis, podem estar em conflito – e frequentemente estão. As relações condicionais ensinadas pelo grupo religioso que frequenta podem estar em conflito com as contingências em vigor na escola. E estas podem ser menos exigentes que as que vigoram no trabalho.
                Mas então o que significa dizer que a natureza humana é a mesma no mundo todo? A posição behaviorista explicitada por Skinner afirma que os processos comportamentais são os mesmos, ainda que as práticas culturais variem. As variáveis independentes são as mesmas, o que varia são as contingências sociais que prevalecem nas várias culturas. O capítulo 27 de “Ciência e Comportamento Humano” é dedicado ao tema Cultura e Controle, mostrando como diferentes ambientes, diferentes heranças genéticas, diferentes conjuntos de relações condicionais, levam ao desenvolvimento de cada pessoa como um indivíduo único.


http://jctodorov.blogspot.com.br/2015/08/contexto-e-multideterminacao-do.html