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segunda-feira, 5 de junho de 2017

Um exemplo extremo de comportamento governado por regras.


         A posição do Partido Republicano dos EEUU em relação ao Acordo de Paris sobre o clima é mais um exemplo de comportamento guiado por regras, desconsiderando contingências e suas consequências. Falando em bom behaviorês: o acordo de 99,9% das nações do mundo prevê forte ação dos governos no combate às fontes de poluição atmosférica. Forte atuação do governo é tudo o que a ideologia conservadora do Partido Republicano combate.
         Para conservadores há uma regra básica: quanto menos governo, melhor. A mão invisível do mercado é um santo remédio para todos os males. Pressupõe-se que o povo é formado por cidadãos educados e conscientes de seus direitos. Sem a proteção do governo, a mera exposição às contingências do mercado fará cada um ser membro produtivo e empreendedor. Por consequência, só é pobre quem não quer trabalhar.
         No caso do clima, a intervenção dos governos é extremamente necessária por uma característica do processo de escolhas intertemporais: a poluição produzida por uma empresa representa uma vantagem imediata, ela não tem que gastar para mudar para fontes de energia não poluente, e uma desvantagem a perder de vista, quando eventualmente deixar de existir porque o ambiente em sua região estiver degradado. É um exemplo de comportamento que é ao mesmo tempo reforçado e punido, só que o reforço é imediato e a punição vem com atraso muito longo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O que é autocontrole?

Autocontrole não é conceito nem termo técnico da Análise do Comportamento. Skinner escreveu sobre autocontrole, assim como escreveu sobre id, ego, superego, masoquismo, desejo, sublimação, etc., e nenhum deles é termo técnico da Análise do Comportamento. São termos da linguagem comum, ainda que propostos por outras abordagens da psicologia, e encontram-se definidos em qualquer dicionário. Na análise que faz desses termos Skinner os desmistifica.

“The individual often comes to control part of his own behavior when a response has conflicting consequences – when it leads to both positive and negative consequences”.

… “The positive and negative consequences generate two responses which are related to each other in a special way: one response, the controlling response, affects variables in such a way as to change the probability of the other, the controlled response”.
B. F. Skinner, Science and Human Behavior, 1953, p. 230-231.

Episódios explicados pela atuação de uma força interior hipotetizada são reinterpretados como demonstração da possibilidade de um comportamento controlar outro comportamento. Esses episódios costumam acontecer quando um comportamento pode ser ao mesmo tempo reforçado e punido, levando a um equilíbrio na probabilidade desse comportamento ocorrer ou não ocorrer. É possível diminuir a probabilidade de emissão de uma resposta punida manipulando-se algumas variáveis que tornam esse comportamento provável.  Skinner não inventou qualquer conceito novo para explicar isso. Vejamos um exemplo:

                Ao preparar uma lista de compras posso controlar meu comportamento de consumidor no supermercado. A resposta controladora é preparar uma lista, a resposta controlada é comprar. Note-se que preparar a lista não impede que eu compre algo que não devia, só diminui essa probabilidade.  Assim como eu controlo agora meu comportamento posterior no supermercado. a lista poderia ser preparada por outra pessoa, com o mesmo resultado. O controle é o mesmo, nos dois casos. Mas no primeiro o leigo diria que é uma demonstração de autocontrole. Mas nos casos o fator importante é a manipulação da variável independente, não importando o agente.

                Mais citado como exemplo de autocontrole na Análise do Comportamento, o procedimento desenvolvido por Rachlin foge à definição de Skinner, mas está de acordo com o entendimento do leigo. Trata-se de escolher entre um reforço mais imediato, mas de menor magnitude, e um reforço menos imediato (ou mais atrasado) mas de maior magnitude. A escolha “racional” seria esperar mais e ganhar mais, a escolha “impulsiva” seria preferir o reforço de menor magnitude. Mas não há resposta controladora, nem resposta controlada: não há “autocontrole” nem no sentido usado por Skinner. A escolha de uma ou de outra depende apenas dos valores relativos dos atrasos e das magnitudes, e pode ser prevista por uma equação que caracteriza a Lei da Igualação de Herrnstein, generalizada por Baum para mais de uma variável independente.
               

http://www.scielo.br/pdf/ptp/v18n3/a14v18n3.pdf

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Modelos experimentais de interações comportamento-ambiente: ansiedade, psicopatologia, autocontrole, etc.


                Analisar experimentalmente qualquer interação significa isolar para observação em laboratório essa interação (se possível), mantendo constantes variáveis potencialmente importantes, para identificar quais alterações possíveis naquele ambiente são importantes componentes da interação. Um modelo experimental clássico é o usado por W. K. Estes e B. F. Skinner, publicado em 1941 no Journal of Experimental Psychology:  “Some quantitative properties of anxiety”. Ratos trabalhavam em esquema de reforço positivo intermitente, mas de vez em quando um som era ligado segundos antes de um choque inevitável nas patas. No comportamento humano, ansiedade é um termo usado para descrever o comportamento em situações que sinalizam estímulos aversivos inevitáveis, mas isso não esgota o significado do termo quando aplicado a humanos. Seria mais adequado evitar o rótulo “modelo experimental de ansiedade” para o procedimento de Estes e Skinner. O procedimento estuda efeitos de estímulos associados a estimulação aversiva inevitável sobre o comportamento operante. E só. Daí para a frente entra a teoria e as interpretações que podem ser feitas, a partir de dados experimentais, observações na clínica, no ambiente natural, etc. como fez Ferster com a depressão (Ferster, 1973; veja abaixo link para o artigo).

Um problema nesta relação laboratório-clínica reside na ausência de clareza na comunicação. Muitas vezes usamos o mesmo nome para designar eventos ou processos diferentes. Em trabalho que deve ser publicado ainda este ano um conjunto de autores procura diminuir a confusão reconhecendo as diferenças entre conteúdo, processo e procedimento. Falamos de ansiedade como conteúdo quando descrevemos queixas de uma pessoa, falamos como processo quando interpretamos as observações à luz da teoria, e falamos como procedimento quando preparamos um ambiente experimental para estudar o papel de diversas possíveis variáveis importantes nesse processo.

Uma curiosidade: Ex-aluno de Skinner, Estes veio a ser um dos expoentes da Psicologia Cognitiva. 










Estes, W. K., & Skinner, B. F. (1941). Some quantitative properties of anxiety. Journal of Experimental Psychology, 29(5), 390.
Ferster, C. B. (1973). A functional analysis of depression. American Psychologist, 28(10), 857-870.


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Impulsividade e autocontrole como casos particulares da Lei da Igualação (Matching Law).



            Os gráficos abaixo são da segunda edição do livro “Learning”, 1984, de A. C. Catania, páginas 188-189 (do experimento de Rachlin e Green, 1972). A preferência pelo reforço menos atrasado e de menor magnitude (“impulsividade”) desaparece quando esse tempo do atraso para as duas alternativas é igualmente aumentado. O assunto é tratado como um modelo experimental de impulsividade e autocontrole, sem referência à equação generalizada de igualação (matching), aplicada a situações como essa, de decisões, escolhas e preferências. Mas há um senão, porém.
           
Ocorre que atraso é a recíproca de frequência. Em um esquema de reforço de intervalo variável de 1 minuto (VI 60s) cada resposta é reforçada em média a cada 60 segundos (1 R/60s). Logo, podemos dizer que o intervalo médio entre respostas reforçadas é equivalente a um atraso de 60 segundos (60s/R).
......
                        R1/R2 = k (F1/F2)a (M1/M2)b                (Baum, 1974)

onde R se refere à medida de comportamento, F à frequência do reforço, e M à sua magnitude. Os números identificam as alternativas, e as letras a sensibilidade do comportamento aos parâmetros do reforço.

            Se F for a recíproca do atraso nos experimentos de impulsividade, os dados de Todorov (1973) e de Todorov, Hanna e Bittencourt de Sá (1984, 1986) preveem que a preferência pelo reforço de menor magnitude diminui quando a diferença entre os atrasos diminui. Os expoentes encontrados para frequência (a) estão próximos de 1, e para magnitude (b) próximos de 0.5.
           

Seria mais razoável dizer que o modelo de Rachlin para autocontrole (Hanna & Todorov, 2002) é um caso particular da Lei da Igualação (Matching Law, Herrnstein, 1970).  


Baum, W. M. (1974). On two types of deviation from the matching law: Bias and undermatching. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 22, 231-242.
Catania, A. C. (1984). Learning. 2nd Edition. Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall.        
Hanna, E. S. & Todorov, J. C. (2002). Modelos de Autocontrole na Análise Experimental do Comportamento: Utilidade e Crítica. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 18(3), 337-343.
Herrnstein, R. J. (1970). On the law of effect. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 13, 243-266.
Rachlin, H. C., & Green, L. (1972). Commitment, choice and self-control. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 17, 15-22.

Todorov, J. C. (1973). Interaction of frequency and magnitude of reinforcement on concurrent performances. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 19, 451-458.
Todorov, J. C. (1991). Trinta anos de matching law: evolução na quantificação da lei do efeito. Anais da XXI Reunião Anual de Psicologia, 300-314.
Todorov, J. C. (2012). Quantificação da lei do efeito: o pressuposto da relatividade.   Em J. C. Todorov (Org.), A psicologia como estudo de interações. Brasília: Instituto Walden4, 2012.
Todorov, J. C., Hanna, E. S., & Bittencourt de Sá, M. C. N. (1984). Frequency versus magnitude of reinforcement: new data with a different procedure. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 41, 157-167.

Todorov, J. C., Hanna, E. S., & Bittencourt de Sá, M. C. N. (1986). Sensibilidade do comportamento à magnitude de reforços: efeito do número de condições experimentais com sessão longa. Psicologia. Teoria e Pesquisa, 2, 226-232.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Controle e contra controle em contingências sociais.


Em artigo no Sunday Review of the New York Times (17 de agosto de 2014) C. Bradatan escreveu sobre a dificuldade que temos de atentar para as circunstâncias que nos afetam:

“Sócrates tornou-se um estranho em sua própria cidade, mas não se mudou para outra. Tornou-se “átopos”, que siginificava “fora de lugar”, mas também “perturbador” e “intrigante”. Ser átopos é crucial se você quer ser um filósofo sem meias palavras como era Sócrates. Em cada comunidade há algo que deve ficar sem ser dito, sem nome, incomunicável. E você indica que participa dessa comunidade precisamente porque participa do silencio geral. Revelar tudo, ..., é o trabalho do estrangeiro. Seja porque estranhos não conhecem as regras da cultura local, seja porque não se espera que as respeitem, estrangeiros podem se dar ao luxo de falar à vontade”. (Sunday Review, p. 12).

Ser incapaz de descrever as contingências sociais que governam as regras de convivência na cultura é resultado de ter se tornado humano nessa cultura. Quando o grupo nos ensina o que pode der dito e o que não pode, também nos ensina o que pode ser pensado e o que não pode. O “conhece-te a ti mesmo” do mesmo Sócrates poderia ser reescrito como “para conhecer a ti mesmo conheça primeiro a cultura que te formou”. O papel da Análise do Comportamento é o de nos ajudar a  exercer o contra controle, e para isso é necessário conhecer o que nos controla e como esse controle é exercido, na família, na escola, no trabalho, no clube, na igreja, nos tribunais, nas redes sociais, nos governos.

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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Autocontrole é só controle, e tudo é controlado.

Encontram-se na literatura sobre análise do comportamento referências ao termo autocontrole que associam o conceito a processos os mais diversos: procrastinação, obesidade, impulsividade em crianças, cuidados de saúde, entre vários outros. Em outras abordagens da psicologia o termo tem vários significados: força de vontade, capacidade para manter o equilíbrio emocional, para controlar os impulsos, para decidir sobre a própria vida, etc.
Na linguagem diária usamos o termo com esse sentido de força interior, compatível com as teorias da psicologia cognitiva, mas incompatível com a análise do comportamento, que não usa um agente interior para explicar o comportamento. É importante notar que a análise do comportamento não trabalha só com observáveis. Como já escrevi em outro texto:
O que é comportamento? Tudo o que a pessoa faz que possa ser analisado, inclusive o que ela diz, o que ela pensa, o que ela fala para si mesma, inclusive o que ela fala sobre o que pensa.
O que penso antes de decidir não é explicação, é parte do comportamento a ser explicado. Como qualquer comportamento, pensar é escolha, examinar as alternativas não ocorre no vácuo.
 Autocontrole não é conceito da análise do comportamento. Esse “auto” sempre vai ter conotação mentalista. Muitos dos exemplos citados são processos diferentes, envolvendo diferentes variáveis. Se vamos incluí-los na rubrica “autocontrole”, então todo comportamento operante é exemplo de “autocontrole”.
Não postulamos forças interiores maiores ou menores para explicar essas escolhas. Como bem escreveu Baum recentemente, o organismo é o local onde ocorrem as interações comportamento-ambiente. E é isso que estudamos, experimentalmente ou não. Todos os experimentos que dizem estudar o autocontrole no laboratório usam algum procedimento de escolha entre pelo menos duas variáveis. Não há como fugir da literatura sobre escolhas e preferências dos últimos 60 anos alegando implícita ou  explicitamente que “com gente é diferente”