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quinta-feira, 13 de abril de 2017

O nome "Método ABA" como figura de linguagem.


                Aconteceu de um analista do comportamento em organizações ser procurado por um pai de autista depois de uma palestra e ser surpreendido com a manifestação de surpresa: “Não sabia que o ‘Método ABA’ se aplica também a empresas! ”.

                Isso já acontece em algumas regiões dos Estados Unidos. O sucesso da Análise Comportamental Aplicada (ABA da sigla em inglês) no tratamento de crianças com diagnóstico de Síndrome do Espectro Autista é tal que o grande público, que não conhecia a Análise Comportamental Aplicada, tende a usar, sem o saber, uma figura de linguagem. Dá-se ao que está contido, um procedimento específico, o nome da disciplina que o contém.  Foi um recurso publicitário útil quando os trabalhos pioneiros começaram a ser conhecidos e a ACA (ou ABA, que soa melhor) já era conhecida, “Ciência e Comportamento Humano” já era encontrado em livrarias de shopping, e livros como “O que a baleia Shamu me ensinou sobre o amor e casamento” era vendido até em livrarias de aeroporto.

                Em ciência, ninguém inventa nada. Revelação é área da religião. Inovações em qualquer área dependem do estado do conhecimento na época. O nome de Lovaas é o mais associado às origens do “Metodo ABA” por seu pioneirismo e persistência, mas não inventou os princípios que fundamentaram seu procedimento.

Transcrevo aqui a tradução de Ana Arantes de um texto de James Todd sobre Lovaas e as origens de seu trabalho. Pode ser visto na íntegra no endereço

http://scienceblogs.com.br/ensaios/2010/10/memorial_a_ivar_lovaas_como_na/



“Quanto à Análise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis, ou a conhecida sigla ABA), Lovaas não a inventou. Pode-se argumentar que Skinner a inventou, ao menos conceitualmente, em seu romance de 1948, Walden Two. A contribuição especial de Lovaas foi mostrar que é possível, com a aplicação integral e intensiva de princípios da teoria da aprendizagem, tratar efetivamente, e de forma eficaz, o autismo como um todo, em um número considerável de indivíduos, ou ao menos levar melhorias substanciais para aqueles que não alcançam totalmente os benefícios do tratamento. Por “eficaz” e “substanciais” entende-se que cerca de metade das crianças submetidas às intervenções ABA obtêm desempenho dentro dos limites “normais” em certos testes padrão. Em termos práticos, isso significa que essas crianças são capazes de frequentar a escola sem apoio especial. Antes que Lovaas fizesse isso, já havia provas científicas suficientes que mostravam que a ABA podia ser utilizada efetivamente para aspectos específicos de autismo.

A ABA ainda era bastante jovem quando Lovaas usou o método pela primeira vez para tentar criar um tratamento global para o autismo, na década de 1960. Mas, antes de Lovaas, começando na década de 1950, o trabalho reconhecido como ABA foi aplicado a todos os tipos de problemas de comportamento, tipicamente em pessoas com deficiência de desenvolvimento e esquizofrenia e geralmente em laboratórios e instituições. Grandes programas dedicados à Análise Comportamental Aplicada, como o Departamento de Desenvolvimento Humano e Vida Familiar (Department of Human Development and Family Life, HDFL) da Universidade do Kansas, foram estabelecidos na década de 1960. O HDFL é hoje o Departamento de Ciências do Comportamento Aplicadas. O Journal of Applied Behavior Analysis foi fundado em 1968, quase 20 anos antes de Lovaas publicar seu artigo seminal, em 1987, “Tratamento comportamental e funcionamento educacional e intelectual normal em jovens crianças autistas” (Behavioral Treatment and Normal Educational and Intellectual Functioning in Young Autistic Children), no Journal of Consulting and Clinical Psychology. Assim, ao contrário de praticamente todos os “tratamentos” para o autismo de que temos ouvido falar, ABA não é um novo “método” esperando alguém para fazer um estudo e descobrir se ele funciona em tudo. Intervenções ABA para problemas específicos de comportamento foram baseadas diretamente em princípios descobertos e comprovados em laboratórios comportamentais. Intervenções ABA abrangentes são construídas à partir de tratamentos mais direcionados, que já demonstraram eficácia. ABA não está esperando para entrar em todas as revistas científicas, ela vem de todas as revistas científicas. A pergunta típica não é o quanto a intervenção irá funcionar – esta é a parte fácil – mas se esta pode ser efetivamente aplicada no mundo real, com todas as complicações que o mundo real traz. ”

Mas, antes de Lovaas, não havia sido estabelecida ainda a possibilidade de efetivamente tratar o autismo como um todo através da criação de um programa abrangente de intervenções ABA. Agora, o termo ABA é muitas vezes incompreendido como significando apenas o que Lovaas fez – sua “terapia de tentativa discreta”, por exemplo – mas “ABA” realmente significa muito mais. O que é ABA? Citando livremente algo que eu escrevi para uma outra finalidade, podemos definir como ABA:

“O uso sistemático de princípios de aprendizagem cientificamente estabelecidos, técnicas de condicionamento comportamental e modificações ambientais relacionadas para criar terapias baseadas em evidências, comprovadamente eficazes e humanas, com o objetivo principal de estabelecer e reforçar habilidades de vida independente, socialmente funcionais e importantes. “

Na prática, uma análise comportamental aplicada utiliza técnicas baseadas na teoria da aprendizagem para modelar comportamentos novos e importantes em indivíduos com determinados excessos ou déficits comportamentais. Intervenções realizadas por analistas do comportamento geralmente incluem os seguintes componentes:

• Uma análise baseada em dados funcionais das condições responsáveis pelo comportamento problema.

• Objetivos e metas de tratamento específicos e verificáveis.

• Um plano bem definido usando os princípios da teoria de reforço para atender as metas e objetivos.

• Uma coleta de dados contínua para mostrar que a intervenção foi realmente a responsável pelos ganhos do tratamento.

• Um plano para garantir a generalização e a manutenção dos ganhos do tratamento.

• Medidas para garantir a validade social dos objetivos e metas do tratamento, e para assegurar que todos os envolvidos possam contribuir de forma substancial e construtiva para a melhoria de suas habilidades ao máximo de sua capacidade. ”




quarta-feira, 20 de maio de 2015

Generalizando a Generalização em Análise do Comportamento.



"O conceito de generalização. Avanços na Análise do Comportamento" é um novo livro a ser publicado pela Editora da Universidade de Brasília. Eis o resumo do livro apresentado pelas autoras Yvana Gadelha-Sarmet e Laércia Abreu Vasconcelos, seguido pelo prefácio que escrevi.

RESUMO
“O conceito de generalização é central na teoria da aprendizagem e tem sido amplamente utilizado tanto na pesquisa básica quanto na aplicada.  Sua importância é clara também no contexto de aplicação, entretanto, a amplitude de utilização do conceito dificulta a compreensão do fenômeno e indica a necessidade de maiores investimentos nos campos conceitual e empírico. Este livro apresenta a variação conceitual desde a década de 30, uma revisão dos procedimentos utilizados no estudo da generalização com animais e humanos e uma discussão da noção de similaridade física e funcional, parâmetros utilizados na descrição da generalização. Apresenta-se ainda uma análise de estudos sobre comportamentos sociais, uma área que se beneficia do estudo sobre a generalização”.


Prefácio

Generalizando a Generalização em Análise do Comportamento.

Cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça. O ditado popular ilustra o uso mais tradicional do termo generalização. A picada (estímulo incondicionado) que gerou a dor e o medo (resposta incondicionada) torna a visão da cobra (estímulo condicionado) suficiente para provocar medo (resposta condicionada) e fuga. Não só o estímulo original provoca medo; qualquer coisa parecida com cobra tem o mesmo efeito para o proverbial cachorro. Generalização era um termo originalmente reservado para fenômenos nos quais um respondente era eliciado por estímulos que eram neutros antes do condicionamento. Passou a ser usado para designar o controle exercido sobre a probabilidade de emissão de um operante por estímulos semelhantes ao estímulo discriminativo. A presente revisão da literatura da Análise do Comportamento a respeito do tema mostra como generalização foi generalizada para diversas outras situações normalmente encontradas na prática profissional, especialmente na clínica, e mais especialmente no trabalho com crianças.
Em experimentos de laboratório a situação é preparada de tal forma a garantir constância no ambiente quando se manipula a apresentação de algum estímulo. Quando se acende ou apaga uma luz, por exemplo, nada mais se altera no ambiente; quando a luz acesa varia ao longo de um contínuo de intensidade ou de cor, ou de localização no ambiente, por exemplo, é possível mostrar uma gradação – quanto mais próximo ao

estímulo original, maior a probabilidade do novo estímulo ter algum controle sobre a resposta condicionada e/ou sobre o operante. Na prática profissional o ambiente nunca é tão controlado, respostas raramente são tão simples, processos se sobrepõem, mas o problema colocado para o psicólogo de qualquer orientação teórica é semelhante em uma revisão da literatura muito bem apresentada pelas autoras.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Como reconhecer um analista do comportamento

Para o behaviorista um assunto muito rico e interessante é o uso de termos e conceitos por outros psicólogos quando oferecem explicações para comportamentos. Reconhecer que não temos resposta para uma questão é tão importante quanto saber a resposta; se não reconhecemos a ignorância fica difícil sair dela. É melhor ficar sem resposta para uma pergunta quando não se tem certeza da resposta. Isso vale tanto para o pesquisador estudando um fenômeno quanto para o profissional atendendo um cliente. A Análise do Comportamento não é uma teoria acabada, é um modo de buscar respostas. Ideias, conceitos e teorias, como resultados de comportamento humano, estão sempre submetidos ao processo de seleção por consequências, inclusive a teoria skinneriana dos três níveis de seleção por consequências.
Com certa frequência faz-se menção à Análise do Comportamento como Análise Experimental do Comportamento, um método, uma área, uma filosofia, uma tecnologia (por exemplo, o “método ABA” para o tratamento do autismo). Essa prevalência da parte sobre o todo se deve provavelmente a uma ênfase na experimentação. Supõe-se que o analista do comportamento manipula alguma variável independente e observa cuidadosamente o efeito em alguma medida do comportamento. A Análise do Comportamento tem alguns pontos muito distintos de outros que prosperam na psicologia, como pesquisas de laboratório animal com análise experimental do comportamento de indivíduos (n = 1) – mas não se resume apenas à análise experimental do comportamento de indivíduos, nem no laboratório, nem no consultório clínico. Sua marca mais distinta é a linguagem teórica, o cimento que une todos os tipos de atividades compreendidas sob essa rubrica, marca, ou o que seja.
            Experimentação com n = 1 é a grande contribuição de Skinner para a psicologia experimental dos anos 30 do século passado. Trouxe de seus estágios nos principais laboratórios de biologia de Harvard. Junto com a taxa de respostas por unidade de tempo e os esquemas de reforço intermitente, forma o trio de ouro de Skinner. Mas nem ele ficou só na análise experimental do comportamento de organismos individuais (n = 1). Logo de início em Ciência e Comportamento Humano Skinner mostrou como se pode avançar analisando exemplos da vida diária à luz da teoria. E é essa teoria, que começa a ser desenvolvida em O Comportamento dos Organismos (1938) e continua sendo desenvolvida até hoje, e continuará a ser desenvolvida pelas futuras gerações, a teoria que faz a conexão entre os diferentes campos de atuação da Análise do Comportamento: pesquisa básica, pesquisa aplicada, atuação profissional, análise funcional, análise conceitual, etc.
            A Análise do Comportamento é mais do que análise experimental. Ao escrever sobre o comportamento humano Skinner (1953) foi muito claro a esse respeito. Parafraseando Skinner, descrevo a Análise do Comportamento como um conjunto de atitudes, uma disposição para estudar comportamentos ao invés de lidar com o que alguém disse sobre o comportamento, uma vontade de aceitar os fatos sobre o comportamento mesmo quando esses fatos se opõem aos nossos desejos, uma disposição para ficar sem uma resposta até que uma satisfatória seja encontrada. É uma busca de ordem, de uniformidades, de regularidades, de relações funcionais entre ambiente e comportamento (Skinner, 1953, pp. 12-13). Uma ciência do comportamento trabalha com informações provenientes de várias origens: observações casuais, observação de campo controlada, observações clínicas, observação em instituições sob condições rigidamente controladas, e estudos de laboratório (Skinner, 1953, p. 37).
            Qualquer que seja a área, o objetivo, o método, o analista do comportamento trabalha com alguns conceitos básicos, suas ferramentas de ofício. O primeiro é o de contingência. Uma contingência é uma relação condicional entre eventos no ambiente afetando comportamentos respondentes, ou entre eventos no ambiente e comportamentos operantes. No laboratório o pesquisador controla e manipula contingências; na prática profissional o analista do comportamento identifica, analisa, modifica, ou ensina seu cliente a identificar, analisar e modificar contingências. O analista do comportamento reconhece que um estímulo pode ter múltiplas funções, como ser eliciador de respostas reflexas, reforçador (quando consequente) ou discriminativo (quando antecedente) de respostas operantes, e reconhece o poder multiplicador e o controle exercido por abstrações derivadas de contingências quádruplas bem como o papel de operações motivadoras e estabelecedoras.

            E o comportamento, o que é? O que é comportamento? Tudo o que a pessoa faz que possa ser analisado, inclusive o que ela diz, o que ela pensa, o que ela fala para si mesma, inclusive o que ela fala sobre o que pensa. 

sábado, 23 de outubro de 2010

Reforçadores arbitrários e reforçadores naturais.

O tema, antigo, foi levantado logo no início dos trabalhos de aplicação da análise do comportamento, nos tempos da Modificação do Comportamento (anos 50 e 60), muitas vezes com extrapolação direta de técnicas de controle do comportamento de animais no laboratório para o comportamento humano. Reforçava-se com chocolate, cigarros, etc. No IBAC em Brasília a questão foi discutida recentemente, há um trabalho interessante de Carlos Augusto de Medeiros sobre o assunto. O trabalho gerou discussão entre Gustavo Martins e alunos do IBAC, e a seguinte manifestação de Márcio Borges Moreira, que transcrevo para quem se interessar a participar:



2010/10/5 Gustavo Tozzi Martins
Digníssimos professores Carlos Augusto e Márcio,

É com grande satisfação que entro em contato com os senhores para lhes pedir uma ajuda na aplicação conceitual do que chamamos de reforçamento natural. Essa discussão foi levantada em sala pelos alunos e parece divergir com textos estudados tanto em nível básico quanto textos especializados na formação clínica e educacional. Gostaria de deixar clara minha posição humilde (do latim húmus, terra, no sentido de ter pés no chão) em buscar ajuda sobre um tema que aprendi em um contexto aplicado bastante limitado.

Reforços naturais foram definidos por Ferster (1967) como consequências inerentes à própria atividade realizada pelo sujeito. O qualificador “natural”, dessa forma, indica que as consequências intrínsecas da resposta funcionam como fortalecedores da mesma (Horcones, 1992). Logo, o reforço natural não estaria relacionado à adequação do contexto em que ocorre (ou não), diferenciando dos reforçadores artificiais (arbitrários) somente quanto à sua mediação e programação.

Skinner (1972) considera que certos reforçadores imediatos automáticos como mantenedores de muitas classes de respostas funcionam como reforçadores naturais. Em seu exemplo no qual sustenta que boa parte do aprendizado escolar envolve importantes reforçadores naturais diz o seguinte: “Que tem a escola à sua disposição para reforçar uma criança? Convém olhar para as matérias a serem aprendidas, pois é possível que forneçam considerável reforço automático. As crianças brincam durante horas com brinquedos mecânicos, tintas, tesoura e papel (...) com quase tudo que as informa das modificações substanciais que elas provocam no ambiente e que sejam razoavelmente isento de propriedades aversivas” (Skinner, 1972).

O reforço natural, conforme visto anteriormente, se aproxima muito do conceito de reforçamento automático. O uso de reforçadores naturais na clínica tem sido diferente quanto à natureza dos reforçadores, uma vez que há mediação para os mesmo. O ambiente social, por exemplo, é uma fonte de análise para a capacidade na manutenção dos repertórios trabalhos em consultórios para ampliação de controle para contextos mais naturais do cliente, conforme previsto pelo modelo da FAP, por exemplo (Kohlenberg & Tsai, 2001). Nesse caso reforçamento natural não se aplicaria, pois dependeria da mediação de terceiros (correto esse raciocínio?). Reforçamento automático (ou natural) no comportamento verbal da pessoa (falante), por exemplo, poderia ser a pessoa ficar sob controle do seu timbre de voz enquanto fala com seu interlocutor (ouvinte) e não pelos reforçadores mediados por este.

Posso deduzir então que o que define os reforçadores naturais é a sua própria natureza intrínseca à resposta, tendo o organismo como ambiente primeiro para fonte de reforçadores? Não há neste caso um esvaziamento conceitual ao que chamamos de reforçamento automático?
Conversei com outros profissionais e professores e dúvidas como essas surgiram. Vejo uma boa oportunidade para discutirmos esse assunto de forma a buscarmos pontos relevantes nas definições conceituais trabalhadas em nossa área e, ao mesmo tempo, instigar os alunos a questionarem sobre assuntos que são discutidos na análise do comportamento. Por fim, gostaria de lhes pedir autorização em socializar as discussões para que os alunos possam ter acesso.

Forte abraço,

Gustavo Martins



Oi Gustavo,

Lendo os conceitos apresentados por você as primeiras idéias que me vieram foram:

1. o qualificador "natural" não parece ser um bom termo. Primeiro porque utilizamos ele em ciência como oposto a sobrenatural; segundo porque pode haver uma confusão entre reforço natural versus reforço em uma situação natural (e natural aqui não em oposição a sobrenatural).
2. o qualificador "automático" também é problemático, como qualquer outro que comece com "auto", pois desvia a atenção de variáveis (explicações) alternativas.
3. Não consigo pensar agora em alguma utilidade para distinguir entre natural e arbitrário quando falamos de uma consequência explicita como nota em uma prova, por exemplo. Também não vejo muita utilidade em mediado por outra pessoal ou não.

Acho que o problema prático se coloca quando não somos capazes de identificar uma consequência reforçadora para um determinado comportamento e lançamos do atividade "autoreforçadora". Numa situação como aquelas descritas pelo princípio de premack (em que uma atividade de alta frequência pode ser reforçadora para outra de baixa frequência), em termos de análise funcional, fica muito claro qual é a consequência reforçadora. No entanto, se o comportamento de alta frequencia for, por exemplo, caminhar em uma roda de atividade, teríamos alguma dificuldade em especificar as consequências reforçadoras.

Talvez a questão principal não seja automático ou não, mas o próprio conceito de consequência. De qualquer forma, antes de pensarmos que uma atividade é per si reforçadora, devemos sempre ter em mente que outros princípios comportamentais ao fazermos a análise funcional:
1. Esquemas de reforçamento (imagine que alguém veja as pressões à barra de 20 a 30 em FR 50! Ela provavelmente suporia autoreforçamento);
2. Condicionamento respondente
3. Generalização e
4. Encadeamento de respostas

Bom, não sei se contribuí de alguma forma, mas é isso aí...
Um abraço,
Márcio
(p.s. fique à vontade para compartilhar esse e-mail com quem desejar)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O QUE É TEORIA E O QUE NÃO É EM ANÁLISE DO COMPORTAMENTO.

A linguagem teórica da analise do comportamento é o cimento que une todos os tipos de atividades compreendidas sob essa rubrica, marca, ou o que seja. A análise do comportamento tem alguns pontos muito distintos de outros que prosperam na psicologia, como pesquisas de laboratório animal com análise experimental do comportamento de indivíduos (n = 1) – mas não é apenas análise experimental do comportamento de indivíduos, nem no laboratório, nem no consultório clínico. Sua marca mais distinta é sua linguagem teórica.

Experimentação com n = 1 é a grande contribuição de Skinner para a psicologia experimental dos anos 30 do século passado. Trouxe de seus estágios nos principais laboratórios de biologia de Harvard. Junto com a taxa de respostas por unidade de tempo e os esquemas de reforço intermitente, forma o trio de ouro de Skinner.

Mas nem ele ficou só na análise experimental do comportamento de organismos individuais (n = 1). Principalmente Skinner logo de início em Ciência e Comportamento Humano mostrou como se pode avançar analisando exemplos da vida diária à luz da teoria. E é essa teoria, que começa a ser desenvolvida em O Comportamento dos Organismos (1938) e continua sendo desenvolvida até hoje, e continuará a ser desenvolvida pela futuras gerações, que faz a conexão entre os diferentes campos de atuação da análise do comportamento: pesquisa básica, pesquisa aplicada, atuação profissional, análise funcional, análise conceitual, etc.

Não concordo com classificações da análise do comportamento que parecem existir para justificar erros do passado. Um triângulo com teoria em uma ponta, pesquisa básica no outro, e pesquisa aplicada no terceiro, com comunicação de mão dupla em tudo, é um desses erros que parece existir para justificar decisões tomadas no passado longínquo e que nos atrapalham até hoje. Atrapalham mas parece ser tabu falar disso. Vejo um V invertido, com a teoria acima, no vértice, que se comunica em mão dupla com os dois lados, o da pesquisa e o da atuação profissional. Não há comunicação entre pesquisa e atuação profissional a não ser via vértice, a teoria. Da mesma forma a atuação profissional alimenta a pesquisa via teoria.

Vamos aos erros do meu ponto de vista.

# 1 – Ficar só no periódico Journal of the Experimental Analysis of Behavior de início (1958). Ele era necessário para fugir da ditadura estatística do Journal of Experimental Psychology – o periódico experimental de maior prestígio da época - mas se fosse mais geral seria melhor, pois seria lido por todos e provavelmente teria promovido um desenvolvimento mais harmônico da análise do comportamento. O título e as normas para publicação ajudaram a montar uma barreira para os de fora em lugar de apenas proteger os de dentro.

# 2 – Criar o Journal of Applied Behavior Analysis (1968) como uma extensão do Journal of the Experimental Analysis of Behavior, para não ter que continuar publicando provas de que o reforçador reforça. As normas para publicação continuaram praticamente as mesmas, com adendos sobre importância prática e relevância social. Mas continuamos só com análise experimental do comportamento de indivíduos (n=1).

# 3 – Achar que com isso a análise do comportamento estava logicamente dividida em dois – pesquisa básica e análise aplicada, sempre com n = 1. Essa foi uma divisão de poder entre o JEAB o JABA, os modificadores do comportamento dos anos 60. Donald Baer ditou um conjunto de regras que tornou distintos os trabalhos do JABA. Os dois grupos quase não se misturam até hoje.. Por isso não gosto das classificações da análise do comportamento existentes. Não é por ai.

# 4 – A maior parte dos escritos de Skinner a partir dos anos 60 é muito política. Só um pequeno grupo que se identifica como Behaviorists for Social Responsibility continua esse trabalho, e para publicar foi necessário criar outra revista, atualmente intitulada Behavior and Social Issues. Essas divisões do grupo nos deixam muito frágeis aos ataques que sofremos vindo de esquerda, centro, direita, etc.

# 5 - Ignorar o resto da psicologia ou fazer de conta que análise do comportamento é outra ciência. Ao fazer isso perdemos uma oportunidade única. Ninguém mais tem como campo de ação tudo o que é coberto pelas chamadas ciências do comportamento, incluindo toda a psicologia, pois para nós onde houver comportamento, estaremos lá.