domingo, 6 de julho de 2014

Contingências sociais não coercivas.

         O programa Bolsa Família vai eliminar a miséria? Pode ser melhorado? E o que é que a Análise do Comportamento tem a ver com isso?
         Em 50 anos vários trilhões de dólares dos que pagam impostos foram investidos no combate à pobreza nos Estados Unidos. O programa “War on Poverty” do Presidente Lyndon Johnson é de 1964. Neste ano de 2014 o governo americano continua preocupado com o aumento da desigualdade econômica no país, e as iniciativas dirigidas para as áreas mais pobres têm sido infrutíferas. Essas áreas têm em comum, quando comparadas com medianas nacionais americanas, baixas escolaridade, renda e expectativa de vida, e índices mais altos de desemprego, de trabalhadores recebendo auxílio-saúde, e de obesidade. Localizam-se em regiões afastadas das metrópoles, sem estradas e aeroportos que facilitem comércio com outras áreas.
         Em vários países governos de direita procuram desenvolver as regiões mais pobres diminuindo impostos para empresas novas que possam gerar empregos e dinamizar a economia. Governos de esquerda distribuem vale-alimentação, remédios, assistência à saúde. Em países democráticos é comum o uso conjunto dessas duas políticas. Nada disso funcionou em 50 anos para regiões americanas como algumas áreas do estado de Kentucky, onde comunidades rurais pequenas situam-se em meio a montes e colinas, sem estradas nem ferrovias decentes, sem densidade populacional que justifique infraestrutura moderna. A alternativa é a mudança de famílias para regiões que ofereçam empregos.
         O xis do problema está em fazer com que as pessoas aceitem mudar de cidade. A não ser por ocasião de catástrofes como as secas no nordeste brasileiro ou as guerras como no Iraque ou na Síria, ou o uso de coerção por governos como na era stalinista da União Soviética ou programa de realocação de camponeses pela Colômbia para facilitar o combate à guerrilha, as pessoas resistem a mudanças.
         Nesse ponto a Análise do Comportamento pode ajudar no planejamento de contingências não coercivas que integrem políticas públicas como o Bolsa Família, notoriamente baseadas em reforço positivo. Até agora essa participação tem sido pequena

         O governo brasileiro tem um projeto antigo de implantação de centros de desenvolvimento econômico em cerca de 20 microrregiões no país, em áreas de pouca densidade populacional, do Pantanal ao Piauí. Vamos perguntar como anda esse projeto?     

9 comentários:

  1. Pontual e atualíssimo!!! Fiscalização das verbas repassadas...esta deveria ser a prioridade. Fiscalizar a aplicação do dinheiro junto aos municípios, verificar o estado funcional dos aparelhos sociais e CAPs, por exemplo!

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  2. Caro Todorov, de agradáveis conversas desde 89, época de minha graduação, muito agradável hoje ver sei texto sobre s contribuição da AEC no desenvolvimento social, grande abraço.

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  3. Que legal você tocar nesse assunto. Estamos exatamente nesse momento finalizando um artigo em que fizemos uma análise dos prováveis efeitos que um controle por regras pode gerar no comportamento de "ir à escola" daqueles que são beneficiados pelo Programa Bolsa Família. Vamos tentar publicá-lo!

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    1. Puxa, este quero ler! Tem algo disponível?

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  4. João Cláudio, seu artigo aponta para o fato de que podemos pensar e repensar as contribuições da psicologia para as políticas públicas em geral, não só para aquelas voltadas para a redução da pobreza.
    Veronica Haydu, por favor, mande-me a referencia do artigo assim que publicá-lo.

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    1. Oi Mariza, só o que me pega, o que me faz infeliz, é que a psicologia tome como sua a contribuição da análise do comportamento. A possível contribuição científica "para as políticas públicas em geral" pode surgir da análise do comportamento, mas não da psicologia.

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    2. "Unknown" e Mariza Monteiro Borges: O assunto merece um simpósio organizado pelo Conselho Federal de Psicologia e pela Sociedade Brasileira de Psicologia, não acham?

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  5. Infelizmente o que vejo na realidade que lido com essas famílias beneficiadas pelo Bolsa Família são duas consequências reforçadoras, uma positiva para o comportamento de comodismo e negativa para fuga esquiva de trabalhos de carteira assinada. É claro que isso não se aplica a todos, mas essa realidade é notória.

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    1. Paulo Ribeiro, isso é culpa do programa ou da falta de fiscalização?

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