quarta-feira, 3 de junho de 2015

Contingências Comportamentais Entrelaçadas São Partes Subentendidas da Relação Condicional na Metacontingência.


            Contingências são enunciados do tipo “se..., então...”. Descrevem relações entre eventos e são muito usadas como variável independente na Análise Experimental do Comportamento Operante e em estudos sobre o condicionamento pavloviano. Relações entre eventos como variáveis independentes também podem ser usadas no estudo experimental do comportamento de pessoas em grupo e do produto da colaboração de grupos de pessoas. A consequência é contingente ao produto da colaboração entre indivíduos, mas não ao comportamento de indivíduos isoladamente.
            O produto da colaboração, ora chamado de produto agregado, é parte do ambiente que identifica a ocorrência de contingências comportamentais entrelaçadas. Dizer que na metacontingência a consequência depende da ocorrência do produto agregado não é diferente de dizer que no operante a consequência é contingente à identificação do comportamento por seu efeito no ambiente. “Abrir a porta” é identificado pelo estímulo físico “porta aberta”, independentemente de quais comportamentos resultaram no efeito “porta aberta”, que pode ser seguido por “acesso à outra sala”, e/ou “melhora da temperatura na primeira sala”, e/ou reforço por obedecer ao mando, etc. Qualquer que seja a relação condicional, é óbvio que sem comportamento não haverá efeito; por outro lado, sem o efeito (porta aberta) não haverá consequência para os vários comportamentos que poderiam ter esse mesmo efeito. Se giro a maçaneta mas a porta não abre a temperatura da sala não muda.
            Assim entendemos a frase fundamental de Skinner ao propor o conceito de comportamento operante: os homens agem sobre o mundo (comportamento), modificam-no (efeito do comportamento, que é imediato), e são modificados (i.e., seu repertório de comportamentos é alterado) pelas consequências dessa ação (outras mudanças no ambiente, que não precisam ser imediatas nem regulares). Parafraseando Skinner, contingências comportamentais entrelaçadas (i.e., CCEs, ou colaboração entre pessoas) que resultam em um produto agregado específico (i.e., resultado da colaboração) podem levar a consequências selecionadoras. No caso mais simples, a consequência é contingente à ocorrência do produto agregado, sempre um resultado de CCEs mas independente de qual conjunto (dos vários possíveis) de fato resulta no produto agregado.
            No caso do jogo de vôlei, o produto agregado pode ser definido como passar a bola para o outro lado da rede em direção ao quadrilátero marcado no piso e evitando a defesa do time adversário. Cada time tem três toques na bola para conseguir o produto agregado; a colaboração é assegurada pela regra que proíbe um mesmo jogador de tocar na bola duas vezes em seguida. Qualquer combinação dos seis jogadores, dois a dois, ou três a três, pode levar ao produto agregado. A consequência, ponto para um ou outro time, depende do produto agregado, não de cada CCE que pode ter resultado nesse PA.
            A definição de metacontingência como relação condicional entre produto agregado (sempre produzido por CCEs) e consequência é um instrumento conceitual. Serve tanto para orientar procedimentos experimentais quanto para interpretar comportamentos de pessoas em grupos. Sua incorporação à linguagem teórica da Análise do Comportamento tem sido lenta, gradual e insegura, mas isso não é novidade, dadas as resistências no passado a conceitos novos como o de igualação (matching), contraste comportamental, contexto, momento, operação estabelecedora, autoclíticos, etc.
Vários autores muito conhecidos argumentam que o que não puder ser explicado por contingências operantes deve ser remetido ao outro nível de explicação, como a Teoria dos Jogos ou a Teoria dos Sistemas das Ciências Sociais. Minha posição é empírica e pragmática. Temos o que fazer onde houver comportamento (na Economia, por exemplo) ou o resultado de comportamentos (na Arqueologia, por exemplo).


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