quinta-feira, 8 de maio de 2014

Como saber do que fugimos?


Uma das áreas de estudo mais difíceis é a do controle coercitivo ou aversivo: o que fazemos para evitar ou fugir de situações, de pessoas, ou até (ou principalmente) de nossos próprios pensamentos. Ao contrário de situações que desejamos,  facilmente identificadas quando conseguimos o que buscamos, as que envolvem fuga e/ou esquiva podem ser de difícil entendimento. Na clínica é comum o terapeuta detectar que a pessoa está evitando falar ou mesmo lembrar-se de um assunto, mas leva tempo para que esse assunto venha a aparecer nos diálogos terapêuticos.
         Esse processo é visto de diferentes maneiras por diferentes abordagens da psicologia clínica, das que postulam causas remotas na história de vida da pessoa às que deixam esse assunto de lado e se concentram em como a pessoa vê seu presente. A interpretação dada pela Análise do Comportamento se baseia em informações obtidas em experimentos de laboratório e em observação do que acontece no ambiente natural, inclusive na clínica e na relação terapeuta-cliente.
         Em artigo publicado no Journal of the Experimental Analysis of Behavior de 1984 Deisy das Graças de Souza, da Universidade Federal de São Carlos, Antonio Bento Alves de Moraes, da Unicamp,  e João Claudio Todorov da Universidade de Brasília demonstraram que a manutenção do comportamento de esquiva independe da intensidade do estímulo aversivo sendo evitado. Há um limiar de intensidade, abaixo do qual a situação não gera fuga nem esquiva; acima desse mínimo, aumentos na intensidade são desnecessários. O comportamento é mantido regularmente mesmo com intensidades logo acima do limiar, e a situação indesejável raramente acontece.
         Outros experimentos importantes para entender o comportamento de esquiva foram publicados na década de 50 do século passado na revista Science, pelos analistas do comportamento Murray Sidman e E. Hearst.  Comprovou-se em laboratório o que a sabedoria popular guardou em ditados como “Cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça” e “Gato escaldado tem medo de água fria”: qualquer situação levemente parecida com aquela em que se viveu alguma experiência dolorosa (mesmo que a dor tenha sido sentida só na “alma”) gera fuga e esquiva. Não só fugimos, passamos a evitar.
         Quando a interação comportamento-ambiente de interesse envolve estímulos externos (como a cobra e a linguiça) o trabalho do terapeuta é facilitado. Quando nem a pessoa sabe o que a incomoda a terapia requer muito mais esforço, conhecimento e experiência do terapeuta . Por isso dizemos que a psicoterapia muitas vezes assusta quem a procura. Só é possível perder o medo do indizível falando daquilo que o esconde. O processo pode ser doloroso. Talvez por isso tenhamos a tendência de fugir ou evitar a terapia.
         Há uma piada antiga sobre um louco no hospício que vivia a estalar os dedos. Perguntado por que fazia isso respondia que era para espantar os elefantes. Ao ouvir que não havia elefantes no Brasil, os mais próximos estavam  na África, respondia: “Viu como funciona!”. Por um lado, a piada é um bom exemplo de comportamento de esquiva. O comportamento ocorre sem         que haja consequência imediata, ocorre e nada acontece. Por outro lado é ruim, pois nosso herói sabe por que faz isso. O xis do problema está em descobrir por que alguém estala os dedos ou algo equivalente quando a própria pessoa não sabe por quê.

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Hearst, E. (1960). Stimulus generalization gradients for appetitive and aversive behavior. Science, 132, 1769-1770.
Souza, D. G., Moraes, A. B. A., & Todorov, J. C. (1984). Shock intensity and signaled avoidance responding. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 42, 67-74.



7 comentários:

  1. Bom texto Prof. Torodov! Boa reflexão sobre fuga e esquiva.

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    1. Obrigado André. Espero ver mais textos publicados que abordem assunto tão importante e tão negligenciado na Análise do Comportamento.

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  2. Caro João Claudio. Este texto me fez lembrar de uma música chamada de Ontem ao Luar de autoria de Catulo da Paixão Cearense. Há uma parte da música que diz "... como definir o que só sei sentir...". Aí a complicação fica maior pois sub-produtos dos comportamentos de fuga/esquiva são difíceis de serem tateados pois quem vai ensinar e quem vai aprender a nomeação de sentimentos não tem disponível publicamente o mesmo evento. Abraços. Loris

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    1. Caro Loris. Ninguém melhor do que você para aprofundar seu comentário. Eu diria que o caminho das pedras é a boa literatura de ficção.

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  3. Professor Todorov, estou fazendo a transcrição do livro de instrução programada de Skinner e Holland em um programa para computador. Me deparei com uma afirmação na Série 40 que trata sobre "punição" que é a seguinte: "Na punição contínua de uma resposta mantida por reforço positivo, quanto maior severidade da punição (depois que um mínimo de intensidade for ultrapassado), tanto menor a freqüência de respostas.] [40.39]" (SKINNER; HOLLAND p. 269).
    Esta afirmação está em desarmonia com a seguinte afirmação em seu texto?
    "a manutenção do comportamento de esquiva independe da intensidade do estímulo aversivo sendo evitado. Há um limiar de intensidade, abaixo do qual a situação não gera fuga nem esquiva; acima desse mínimo, aumentos na intensidade são desnecessários. O comportamento é mantido regularmente mesmo com intensidades logo acima do limiar, e a situação indesejável raramente acontece."
    Apenas uma dúvida. Obrigado.

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    1. O trecho citado por você fala de punição. O meu fala de esquiva. Não há desarmonia.

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  4. Muito esclarecedor. Fez-me lembrar de um caso, de uma moça que se esquiva de dirigir sozinha pra não ser roubada, porque uma vez ocorreu tal fato. Ela SABE porque se esquiva, mantendo os "elefantes" longe.
    Que alternativa pra mudar este comportamento, já que o custo de resposta é alto?

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